Castello BrancoO erro de dizer que “tudo é político”

O que a esquerda nunca entendeu, até mesmo a que se dizia democrática, é que Castelo Branco e Lênin tinham a mesma opinião sobre o Congresso. Os congressistas não podiam ser políticos, eles tinham de ser burocratas. Deveriam ser funcionários (públicos) que trabalhassem como trabalham os do Correio. Essa forma é ditatorial, embora possa ser confundida com algo democrático. Afinal, nessa doutrina de apologia da burocracia, o Congresso continua seu funcionamento. Ela foi levada adiante, ao menos como ideal, na URSS, em Cuba, e de certo modo nos tempos da Ditadura Militar no Brasil.

Contra isso se insurgiu o lema “tudo é político”.

Falávamos – nós da esquerda – que tudo é político para desnudarmos o caráter aparentemente neutro desse ideal de trabalho técnico de Castelo e Lênin. Não insistíamos nisso porque queríamos negar Lênin, uma vez que não entrávamos no mérito do que ele havia proclamado no contexto de “1917”, só no mérito do que Castelo havia dito (e feito!). Batíamos nessa tecla porque tudo no Brasil estava se proclamando apolítico, ou para sobreviver diante do poder ditatorial ou para se legitimar por meios de uma assepsia que tinha raízes em um tipo específico de positivismo. Na educação, nas comunicações, na engenharia social etc., começava a valer o que se autoproclamava como “solução técnica” em detrimento de soluções políticas. Estas, para seguir o ideário de Castelo, de Lênin e, de certo modo, do positivismo então tomado como aliado da tecno-burocracia, eram vistas como soluções “burras”, “arcaicas” e “corruptas”. O Brasil moderno seria um Brasil “técnico”.

Paulo Freire foi alguém responsável por essas divisas: “tudo é político”, a educação é sempre “um ato político”, “a negação da política é um ato político” etc. Muitos o acompanharam. Só bem mais tarde a direita começou a retomar a ideia – e admitir – de que ela também fazia política. Mas, nesse caso, já estávamos em tempos de “abertura”.

Estamos hoje longe da Ditadura Militar. Estamos hoje longe de qualquer perigo de golpe militar ou golpe de qualquer espécie. Só pessoas completamente desligadas de tudo ou sem um pingo de cérebro falam em golpe. Aliás, a expressão “imprensa golpista” é tão ridícula quanto as expressões que estão do lado oposto, como “petralhas”, “apedeuta” e outras bobagens. O Brasil desse tipo de conversa nada tem a ver com a realidade da população e muito menos com a conversa dos jovens que estiveram nos protestos de rua recentes. Por isso mesmo, vale a pena nos desfazermos, também, de vocabulários caducos de outras paragens. O caso de “tudo é político” é essencial. Nem tudo é político.

Nem tudo é político porque a “política”, hoje, pode voltar a ser o que tem de ser em um regime em que muitas palavras estão dispostas a reencontrar o dicionário. É necessário promovermos reencontros semânticos, para não educarmos nossas crianças em uma linguagem imbecilizante.

Como criar jovens imbecis? Simples: basta ensinar a eles o lado “crítico” de tudo, sem que eles consigam aprender o lado correto e “ingênuo” de tudo. Ou em um jargão que não é o meu: basta ensinar a eles a crítica e não o conceito. Quem aprende que tudo é político não aprende o que tem de aprender, ou seja, que tudo é político na polis grega, onde a cidade dá os horizontes de tudo, inclusive domina o que se pode chamar, anacronicamente, de subjetividade. Mas na sociedade moderna, a vida política restringe-se ao mundo das relações entre o homem enquanto cidadão e o poder. O homem para além e para aquém da cidadania, que também existe, não vive a política como vive em meio ao ar, vive em esferas outras, inclusive algumas com direito de negação legítima da política. Um exemplo: um grego da elite ao dizer que ama um parceiro o faz pela política, por isso ama homens e não mulheres. Pois a cidade é erótica, não as mulheres, que são seres da natureza (estão ligadas ao que é animal, isto é, à procriação), não da cidade, ou seja, da cultura. No nosso caso atual, o erotismo se desloca para nossa intimidade, sai da esfera de hegemonia da cidade, torna-se menos um deus (Eros) que um sentimento (ligado ao amor), vira tesão e até mesmo sexo enquanto preferência, perde sua distinção para com o que é a natureza. Desse modo, podemos ser amantes de homens ou mulheres, tanto faz.

Todos os deuses das cidades viram sentimentos no homem moderno, de modo que os sentimentos vão para um lado, a cidadania para outro. Os sentimentos são da ordem da moral e do privado, os deveres e direitos são da ordem da ética e do que é relativamente público. Ou seja, o que é político, o que é da polis, não necessariamente nos abrange. Não somos cidadãos. Somos pessoas que podem exercer a cidadania.

Quando professores de filosofia mostram a polis grega como o lugar que queriam viver, ou não sabem o que estão falando ou estão tentando convencer os jovens de que eles vivem de modo errado, e nesse caso, também não sabem o que estão falando.

“Tudo é político” é um jargão datado. Duro ensinar isso para quem fixou sua semântica nos anos setenta, e lá ficou.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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