O MÉTODO NARRATIVO DE HERMANN HESSE E O TRATAMENTO DAS IDEIAS DE NIETZSCHE


Raylane Marques Sousa1

1 Doutoranda em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília
(PPGHIS-UnB). Bolsista Capes. Endereço eletrônico: marques.raylane@gmail.com.

2 Doutor em Filosofia pela Universidade de Kassel, Alemanha. Professor Associado IV da Graduação e
Pós-Graduação do Curso de Filosofia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Colaborador do Programa
de Pós-Graduação em Educação Brasileira da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará
(FACED-UFC). Bolsista do CNPq. Endereço eletrônico: ef.chagas@uol.com.br.

Eduardo Ferreira Chagas2

Resumo:

O ensaio expõe o método utilizado por Hermann Hesse para composição de sua narrativa, mostrando os
vários momentos em que ele o empregou em obras determinantes de sua fase tardia e o tratamento que deu,
particularmente, às ideias de Nietzsche. Para alcançar esse objetivo, examinamos cinco escritos de Hesse,
de modo a provar que, por meio da sintetização de elementos opostos, oponentes e complementares, por
ele feita, podemos conhecer sua forma de orientar a narrativa que revela seu modo de interpretar a realidade.

Palavras-chave: Método narrativo em Hesse; Hermann Hesse; Hesse e Nietzsche.

THE NARRATIVE METHOD OF HERMANN HESSE AND THE
TREATMENT OF NIETZSCHE IDEAS

Abstract:

The essay exposes the method used by Hermann Hesse to compose his narrative, showing the several
instances in which he resorted to it in his major works that marked the late phase of his artistic life and the
treatment he gave particularly to Nietzsche’s ideas. To reach this goal, five Hessian writings were examined
in order to propose that through his synthesis of conflicting elements, that oppose and complement each
other, it is possible to discover how he shapes and directs his narrative which in turn reveals his way of
interpreting reality.

Keywords: Narrative method in Hesse; Hermann Hesse; Hesse and Nietzsche.

Por que lemos Hesse?

Lemos, recentemente, cinco obras do escritor alemão Hermann Hesse (1877-
1962). Começamos com “O jogo das contas de vidro” (1943), continuamos com “Com a
maturidade fica-se mais jovem” (1990), estendemos com “Demian” (1919), passamos por
“O lobo da estepe” (1927) e encerramos com “Sidarta” (1922). Tínhamos acabado de ler
a primeira obra e estávamos no início da segunda, mas resolvemos retornar à primeira e


extrair, aqui e acolá, palavras, formulações ou passagens, que nos permitissem questionar
e compreender a composição dessa obra. As razões que nos fizeram voltar à primeira obra
são evidentes. Hesse não é um escritor óbvio! Sua narrativa não é tão fácil de
compreender, as referências à arte, à musica, à história, à literatura, às ideias de Nietzsche
são abundantes e, por vezes, obscuras, além de seu discurso alegórico. Esses motivos nos
atraíram e nos envolveram de tal forma que procuramos entender os mecanismos internos
não apenas de uma obra, mas dos principais escritos que perfazem o pensamento tardio
de Hermann Hesse.

I

“O jogo das contas de vidro” é “a sua sublime obra de maturidade, que bebeu em
todas as fontes da cultura humana, ocidentais e orientais”3, segundo Thomas Mann, e essa
apreciação é suficiente para despertar a curiosidade do leitor e da leitora para esse livro
que, apesar do cenário infeliz e pouco auspicioso em que foi escrito, particularmente o da
Europa entre as duas grandes guerras, rendeu a Hesse o Prêmio Nobel de Literatura, em

  1. 3 MANN, Thomas. Hermann Hesse – homenagem ao seu 70° aniversário. In: O escritor e sua missão.
    Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 138.

Ao lermos a sua longa introdução, é possível observar e sentir que se trata de um
romance erudito, filosófico e altamente espiritualizado, o que faz com que ele ultrapasse
os tempos e ganhe ares de universalidade. Espiritualizado, isso mesmo, o livro tem, sem
dúvida, um forte componente espiritual, alegórico e não corporificado, pertencente
apenas ao domínio da consciência, do psicológico.

A palavra “espiritual” tem um sentido completamente diferente do que a maioria
das pessoas imagina! Quando Hesse discorre sobre o “despertar espiritual” de seu
personagem José Servo nos seis primeiros capítulos da obra, o termo “espiritual” não se
relaciona somente ao âmbito religioso, eclesiástico, místico. Faz referência também à
faceta artística (fantasia, musicalidade, compasso, colorido, plasticidade) do Jogo de
Avelórios, a altas habilidades cognitivas (lógica cristalina, percepção objetiva e
penetrante, precisão e exatidão) características dos jogadores das contas de vidro, à
profundidade da mente (forte energia psíquica, domínio dos impulsos e aspirações,
meditação) do povo destinado à Cela Silvestre, ao humor irregular (tendência a se subtrair


socialmente, necessidade imperiosa de solidão, aversão à incoerência da vida gregária)
dos vocacionados à Escola da Elite, etc. Portanto, dos muitos sentidos que o termo
expressa, entendemos que o espiritual não tem conotação negativa. A nosso ver, o termo
“espiritual”, nessa obra madura de Hesse, ora aponta para a esfera religiosa, ora para a
pessoa dotada de inteligência muito capaz, ora para os “tesouros” da mente humana.
Assim, a palavra em questão articula, pelo menos, três sentidos ao longo do livro:
espiritualização, inteligência e linguagem/gramática.

Passemos, agora, para a palavra “despertar”. Com esta palavra, Hesse queria
descrever não uma única experiência, a experiência de seu personagem José Servo ao se
tornar Magister Ludi. Se assim fosse, que sentido teria repisá-la nos seis últimos capítulos
da obra, depois de ter José Servo finalmente assumido o cargo de mestre do Jogo de
Avelórios? Nenhum. Seria só mais uma palavra dando sequência à sua narrativa. O fato
é que, nessa obra, Hesse emprega um método oculto de utilização das palavras, o da
associação com estágios variáveis de amadurecimento do homem. Do capítulo seis ao
doze, ele utiliza a expressão “despertar” e a substitui por “degraus”, e então o apelo ao
conhecimento de si próprio, que nos faz lembrar os ensinamentos de Sócrates, e do posto
que José Servo ocupa dentro da organização castálica e na sociedade continua até o fim
do romance. Hesse deixa transparecer que o sentido da palavra vai se transformando no
desenrolar da narrativa, conforme José Servo adquire conhecimento de sua posição e de
sua vocação especial e única, ao passo que seus estágios de amadurecimento como
homem se tornam cada vez mais relativos.

Despertar não é uma simples expressão na narrativa de Hesse, são fases, e o que
há por trás dessas fases não é uma abstração, e sim um homem. Mas qual é exatamente a
relação entre o conceito de despertar da consciência, enquanto consciência de si mesmo
ou autoconsciência no sentido socrático, as fases de desenvolvimento e o homem? Isso
não é tão fácil de responder. Conhecer a si mesmo, como antigamente Sócrates solicitava
aos seus discípulos, é a primeira exigência feita pelos mestres e professores da ordem de
Castália a José Servo para que este se torne Magister Ludi. A meditação é uma qualidade
dos jogadores de avelórios. Quanto a essa qualidade de José Servo, não precisamos dizer
muito. Seus constantes exercícios de autoconhecimento logo lhe revelaram a verdade de
sua realidade na ordem castálica e na sociedade, uma realidade totalmente apartada do
mundo tangível. É por isso que ele não quer mais ali continuar. José Servo abdica de seu
título de Mestre Ludi, mas não desiste jamais de seu plano de estudos do Jogo de


Avelórios. Ele medita que os degraus do “despertar” intelectual por ele galgados são, na
verdade, experimentos variáveis para fazê-lo conhecer seu destino como homem
modesto. E, como demonstra Hesse ao final do romance, o personagem de José Servo
aceita seu destino, sem reservas.

II

Hesse esconde um método de associação de palavras antônimas e sinônimas
também nas breves histórias, nas recordações íntimas, nos poemas em prosa e em verso,
nos aforismos e nos curtos tratados filosóficos por ele escritos em diferentes etapas de
sua vida e reunidos por Volker Michels na coletânea “Com a maturidade fica-se mais
jovem”, publicada em 1990. “Essa coletânea sobre a velhice começa com observações
feitas por Hesse aos 43 anos. São impressões sobre a primavera e a renovação da natureza,
registradas por um homem no estágio intermediário da vida, consciente da transitoriedade
e da inconstância do mundo visível no qual se insere sem oferecer resistência”4, conforme
diz Michels, e essa descrição basta para que o leitor e a leitora se lancem sobre esse livro.

4 MICHELS, Volker. Epílogo. In: HESSE, Hermann. Com a maturidade fica-se mais jovem. Rio de
Janeiro, São Paulo: Record, 2018, p. 150.

Um exemplo do emprego de tal método, nesse conjunto de textos, parece-nos ser o que o
escritor faz no poema intitulado “Envelhecer”, que citamos abaixo:

A futilidade que o jovem aprecia

Foi também por mim venerada,

Penteado, gravata, elmo e espada,

E muito mais a mulher esguia.

Só agora vejo com clareza,

Posto que, velho rapaz,

De nada disso sou mais capaz.

Só agora vejo com clareza,

De tais desejos a suma esperteza.

Lá se vão as gravatas e permanentes,

Levando consigo toda a magia;


Mas o que além disso consegui,

Sabedoria, virtude e meias quentes,

Ah, logo depois também perdi,

E minha terra ficou fria.

Para os velhos é bom e são

Borgonha tinto ao pé da lareira,

E depois uma morte ligeira –

Porém só mais tarde, hoje não!

Por sua disposição, o poema parece representar o homem como uma escala de
amadurecimento (cronológico e psicológico) inevitavelmente apontada para o fim (a
morte). Porém, tal escala pode levá-lo ao aperfeiçoamento ou à decadência, depende de
como ele conduz a própria vida até a linha de chegada. De acordo com este poema, quando
jovem, o homem aprecia coisas fúteis e deslumbrantes (penteado, gravata, mulheres), pois
tem força de sobra para isso (elmo e espada). Dispõe de muito tempo e vigor para viver
todas essas coisas, mas é tolo e ignorante e não sabe ainda como aproveitá-las bem.
Quando rapaz maduro, busca algo mais útil e confortável (sabedoria, virtude e meias
quentes), pois já não tem a disposição do jovem (de nada disso sou mais capaz). Vê as
coisas com mais clareza e é menos afeito à combatividade e mais inclinado à reflexão,
aos ensinamentos e à sabedoria. Só que o tempo é esperto, tudo isso se esvai rápido (logo
depois também perdi) e o que resta é frio e solidão. Quando velho, preocupa-se com o
corpo e a saúde (é bom e são Borgonha tinto ao pé da lareira), pois sabe que já não tem
tanta força e disposição para aproveitar os prazeres da vida. Experimenta o tempo com
urgência, como se estivesse com os dias contados (e depois uma morte ligeira), mas quer
prolongá-lo (porém, só mais tarde, hoje não!), pois a vida tem sentido e vale a pena ser
completado.

É claro que nesse poema contém um esboço de uma percepção da realidade
paradoxal, atrás do qual se imagina um fim apocalíptico para o homem. Mas essa não é a
proposta de Hesse. Ele dá a entender que a maior aquisição do homem seria a sabedoria
e que aproveitar bem e de maneira saudável os dias dependeria dessa virtude. No entanto,
essa virtude só é possível quando se chega à fase do rapaz maduro, quando se vê tudo
com agudeza, quando se entende que a sabedoria é melhor que a força, quando o


passatempo e o consolo são as meias quentes. A seu ver, se o homem não enxerga no
envelhecimento uma evolução, mas sim a aproximação de um fim apocalíptico, é sinal de
que ele não alcançou a virtude da sabedoria, então só lhe resta mesmo a abreviação dos
dias e a morte, a decadência cronológica e psicológica.

O exame desse poema indica, portanto, que Hesse vê o envelhecimento como um
benefício. E esse benefício é duplo, a saber: a aquisição da sabedoria com o avançar dos
anos e a construção de um sentido não apocalíptico para o fim da vida. Numa primeira
leitura, o poema parece não dar margem a uma concepção do envelhecer como benefício.
Mas quando se leva em consideração que a vida tem um bom sentido, e envelhecer com
sabedoria é construir esse sentido, ou ao menos reconhecê-lo, então essa visão
apocalíptica do envelhecimento não é a interpretação autorizada para esse poema.

Outro, semelhante, é o poema intitulado “Escutar”. Ao lê-lo, percebemos o quanto
Hesse utiliza um método oculto de sintetização de palavras opostas, oponentes e
complementares para tornar a sua obra esférica, de forma e conteúdo harmônicos, um
paradoxo intelectual muito interessante. O poema é o que exibimos abaixo:

Um sopro tão novo, um ruído tão suave,

Perpassa pelo céu nebuloso,

Delicado, como o adejar de uma ave,

Como odor de primavera, tão medroso.

Vindas do amanhecer da vida,

Sopram lembranças de outrora,

Como a borrasca no mar caída,

Que o agita e vai-se embora.

Do hoje o ontem se distancia,

Do há muito esquecido chega perto,

Do mundo remoto, da fantasia,

Onde existe um jardim aberto.

Meu bisavô talvez esteja entre nós,

De um sono milenar se erguendo,

Falando com a minha voz,


No meu sangue se aquecendo.

Talvez haja uma mensagem lá fora

Que para mim acaba de chegar;

Talvez antes de uma nova aurora,

Em minha casa eu possa estar.

Analisemos o que o escritor quis transmitir com os versos em tela. O que
realmente significa “escutar” para ele? Se ele quisesse apenas dizer que escutar é ouvir a
vibração delicada dos ventos, o som do agitar-se de leve de uma ave, o ruído colérico das
lembranças de outrora, melhor seria então deixarmos para lá, porque tudo isso parece
muito claro no poema. Mas se o significado não é tão simples assim, será que podemos
realmente apreendê-lo? Hesse é muito mais profundo do que a maioria dos leitores e
leitoras costuma pensar, porém, sim, é possível compreendê-lo!

Hesse frequentemente emprega um método oculto de junção de palavras opostas,
oponentes e complementares em suas realizações. Tanto nesse poema como no anterior,
ele descortina a riqueza de seu método, da fusão dos opostos, oponentes e
complementares em uma unidade, da sua combinação de elementos distintos e similares
no calor da realidade observada. Esse poema significa tudo e tudo contém. Significa o
mistério da existência, da natureza, da memória, dos tempos, da dádiva da percepção dos
sons, como é o adejar das asas de uma ave para os ouvidos, o lufar dos ventos, o ruído
das lembranças e a voz inconfundível do bisavô que se levanta de um sono milenar. A
experiência de escutar o voejar das aves, o lufar dos ventos, o ruído violento das
lembranças, a voz do bisavô que carrega a existência, tudo isso só ocorre, porém, quando
o hoje se distancia do ontem. A experiência, em si, só se torna um fenômeno inteligível,
o mistério revelado, quando o presente e o passado não se confundem mais e não são mais
a mesma coisa.

Essa experiência é, para Hesse, como um sopro do passado em direção ao
presente, a lembrança do passado que agita tudo no presente e depois vai embora, a quebra
entre o tempo passado e o tempo presente, o salto do passado para o presente, é o grande
mistério existencial que se descortina em uma não menos simbólica experiência sonora.
O céu fechado, mas que ainda permite um sopro de novidade, um ruído delicado perpassá-
lo, as lembranças do passado que ainda incomodam o presente, o hoje que se afasta do
que passou, mesmo que se aproxime cada vez mais da fantasia, são indícios de tempos


quebrados e desarmoniosos. O sopro vital e as lembranças de outrora produzem uma
atmosfera de alta tensão. No centro dessa atmosfera, a experiência sonora é determinante.
Tal qual o bisavô, que se levanta de um sono milenar, falando com voz familiar e se
aquecendo com o sangue dos vivos, a boa nova chega antes do amanhecer, na pausa para
um novo dia, ou antes do despertar de um novo amanhã. A cada dia, o sopro vital e suas
lembranças são entrelaçados em uma nova experiência sonora. Esse jogo, que Hesse
sutilmente descreve nesse poema, encerra palavras opostas, oponentes e complementares,
a compreensão sonora do mistério da existência nas grandes e pequenas manifestações da
natureza, a unidade e a quebra dos tempos, as lembranças agitadas, as vivências passadas,
a síntese de sensações, certa proximidade do esquecimento e da morte, certa acomodação
do sentimento de esperança e dos impulsos vitais.

III

Igualmente Hesse emprega seu método oculto de fusão de opostos, oponentes e
complementares em “Demian”, obra publicada sob o pseudônimo de Emil Sinclair, em

  1. “Demian é o título de um livro estranhamente obscuro e profundo, que fala da
    juventude de uma maneira peculiarmente ramificada que penetra até as trevas da alma”5,
    de acordo com Stefan Zweig, e essa descrição possui o necessário para que o leitor e a
    leitora busquem conhecê-lo em toda a sua complexidade e riqueza.

5 ZWEIG, Stefan. Jogos de espelhos: Hermann Hesse. In: O Mundo Insone e outros ensaios. Tradução:
Kristina Michahelles. Organização e textos adicionais: Alberto Dines. Rio de Janeiro: Zahar, 2013, p. 8.

O conteúdo do romance consiste em uma narrativa sobre a fusão de dois mundos,
o mundo “iluminado” e “paradisíaco” de Emil Sinclair e o mundo “sombrio” e “perverso”
de Franz Kromer. A síntese desses dois primeiros mundos resulta em um terceiro, o
mundo particular de Max Demian. Este terceiro mundo é o caminho que conduz o homem
a si mesmo. O que significa esse caminho em direção a si próprio? É simplesmente a
história de um homem que aspira a ser ele mesmo, à maneira nietzschiana.

Hesse utiliza o método de sintetização de opostos, oponentes (Caim e Abel; Deus
e Diabo; permitido e proibido; vida e espírito; bem e mal; feio e belo), como nos belos
aforismos de Heráclito, e complementares (Demian corresponde a Sinclair, e vice-versa)
para narrar a história de como dois mundos antagônicos se confundem originando um
terceiro mundo, ao passo que Sinclair torna-se o que realmente é. As características desse


outro mundo são luz e escuridão, fantasias e perigos, bem-estar e insegurança, valentia e
covardia, culpa e redenção. Esse mundo diferente significa ainda algo mais, não é um
simples mundo criado pelo Sinclair da juventude, é o próprio Sinclair já homem feito e
maduro, e o que há dentro dele não são sentimentos aprendidos, e sim experimentados.
Mas como Sinclair pode ser homem e mundo ao mesmo tempo? Esse problema não é tão
fácil de dirimir. Sinclair é homem à medida que segue pelo caminho que o conduz a si
mesmo, pelo caminho que lhe desenraiza do caminho juvenil e lhe impulsiona para a
maturidade. É mundo à medida que sua consciência deixa de se restringir ao mundo irreal
e fictício da infância e se abre para o mundo adulto em derredor, o mundo duro dos
instintos vitais em que é mais dificultoso dar o passo que leva à frente.

No que concerne a esse terceiro mundo da consciência, há algo que ainda precisa
ser esclarecido. Ao se tornar o que realmente é, Sinclair, no entanto, não abandona o
“mundo luminoso” nem o “mundo sombrio”, mas logo esses mundos se acham em
conflito dentro dele e, dessa forma, exercem poder sobre ele. Só que nesse combate
interno de Sinclair não há um mundo vencedor e um mundo perdedor, os dois mundos
protestam e se aniquilam, e, no exterior, ele equaciona às vezes a questão nos seguintes
termos: se não é possível viver recluso no mundo irreal para sempre e se não há facilidade
no mundo real para dar o passo adiante, então não resta outro caminho senão deixar que
os mundos se digladiem e se aniquilem.

O caminho de Sinclair em direção a si mesmo exige essa disputa e destruição de
mundos, à maneira nietzschiana. “Quem quiser nascer tem que destruir um mundo”. Para
destruir um mundo, é necessária, antes de tudo, a vontade, pois, apesar de a vontade não
ser plenamente livre, se ela busca o que tem realmente sentido e valor para ela, então
consegue o mais difícil: fazer com que o homem conheça a si mesmo. Ocorre o seguinte:
pouco a pouco, a vontade de Sinclair o encoraja com muitos de seus interesses, os quais
não só ampliam o seu campo de ação e de experiência, mas também a sua reflexão, com
isso demonstrando, em síntese, que ele não cabe mais em seu pequeno mundo. Sinclair
agora não reverencia mais às crenças ligadas ao mundo luminoso, nem teme as práticas
relacionadas ao mundo sombrio, mas delas se utiliza para liquidar esses mundos, ou seja,
para conhecer a si mesmo.

De um modo geral, o Sinclair que consegue interpretar a si mesmo não é, como
demonstra Hesse na introdução do livro, o homem que sabe, mas o homem que busca
sempre. Se o jovem Sinclair não buscasse conhecer a si mesmo, ele nunca teria chegado


a ser um homem completo, total, então só lhe restaria ser considerado metade homem,
em tudo e por todos.

IV

Assim como nas obras já listadas, Hesse utiliza seu método oculto de junção de
opostos, oponentes e complementares no romance ousado e terrivelmente belo “O lobo
da estepe”, publicado em 1927. O autor escreveu essa obra quando tinha 50 anos, não
para falar dos dramas da profundeza da alma e da vontade de suicídio de pessoas que
chegam a essa faixa etária, mas de problemas particulares a essa fase tardia da vida.
“Contudo, parece-me que de todas as minhas obras”, diz ele, “O lobo da estepe é a que
vem sendo mais frequente e violentamente incompreendida.”6. Daí que é possível
observar a preocupação do escritor com a forma com a qual seus leitores e leitoras
compreenderam a sua história do Lobo da Estepe, uma vez que muitos deles, ao tentar
interpretá-la, confundiram suas palavras simpáticas acerca do perfil psicológico de Harry
Haller com um tratado em favor do suicídio.

6 HESSE, Hermann. Posfácio. In: O lobo da estepe. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: BestBolso,
2018, p. 249.

Mesmo que Hesse tivesse escrito um tratado sobre o suicídio, ele não merece ser
mal interpretado e ter seu pensamento distorcido. As suas palavras não representam nem
a metade daquilo que ele queria expressar, e o seu posfácio nos assegura que ele não tinha
a intenção de com essa criação conduzir às pessoas ao autoextermínio. Ele próprio
afirmou que o romance caiu em mãos de leitores jovens demais para compreender a sua
real pretensão com “O lobo da estepe”. Essa obra não é uma expressão da negação da
vida, embora relate episódios de dor, enfermidades e desilusões. É, ao contrário, uma
história de afirmação e de redenção da vida, à maneira nietzschiana.

A respeito do que aqui estamos tentando esboçar, “O lobo da estepe” é outra
realização em que se encontra o método oculto de Hesse. Ao contrário do que a maioria
dos leitores e leitoras pode supor, é a obra que mais oferece subsídios para se pensar tal
método. Observamos nela uma sofisticação no modo de criar do escritor, uma
preocupação em integrar opostos, oponentes e complementares numa história difícil e
altamente sensível. Nesse manuscrito, Hesse conta a história de Harry Haller, um homem
de cerca de 50 anos que era insociável, frio, objetivo, selvagem e muito tímido, era o que


ele chamou de Lobo da Estepe. Porém, essa figura, apesar de toda a sua esquisitice, era
além do convencional, inteligente e de fisionomia espiritual. Entre essas duas naturezas,
Hesse situa Haller, sem necessariamente escolher uma ou outra. Como lobo da estepe,
Haller era um “gênio do sofrimento”, de capacidades ilimitadas, pois, apesar de suas
dores, sofrimentos e “quebrantamento da vontade”, esforçava-se heroicamente para
continuar neste mundo. Já como pensador e homem amante dos livros, ele era agradável,
respeitoso e vivia uma vida de interesses espirituais.

Hesse utiliza seu método para fazer o esboço de uma natureza e outra e mostrar
que a junção delas produz um homem mais forte e mais afirmativo do mundo espiritual,
um homem que vive a oscilar entre dois mundos e dois tempos e que sua redenção é
aprender a conviver normalmente com a natureza do lobo da estepe e a natureza espiritual,
assim como espremido entre o tempo passado e o tempo presente. No entanto, e ao
contrário do que muitos leitores e leitoras desatentos pensam, Hesse não criou um
personagem suicida, niilista, completamente incapaz de viver neste tempo e sempre em
busca do além-mundo, mas decidiu por juntar as duas formas de natureza e as duas
designações de tempo em Herry Heller, demonstrando que a doença anímica desse
personagem era uma neurose de sua própria época e que não escolhia os débeis e de
natureza frágil, mas, ao contrário, os mais fortes, os de natureza mais tenaz, ambiciosa e
ousada, os mais seletivos e capazes de suportar pacientemente certos dessabores da vida,
um pensamento completamente influenciado por Nietzsche.

Essas duas naturezas que Hesse descreve compõem, portanto, Harry Heller. Nesse
sentido, com intenção de evidenciar a profundidade da natureza de seu personagem
principal, o autor junta as características do lobo da estepe e do homem amante dos livros,
demonstrando que o verdadeiro sofrimento de Heller se esconde ali onde se chocam as
duas naturezas ou os dois mundos. Um homem eremita, que tivesse de viver em festas
superlotadas, certamente se sentiria tão deslocado quanto um homem erudito que tivesse
de viver sem seus livros. Para Hesse, há momentos em que o homem oscila entre duas
naturezas, ou estilos de vida, e este homem deixa de crer na vida, perde a noção de
salvação, de redenção. Essa falta de crença na vida, de escape para os sofrimentos, não
atinge a todos os homens da mesma forma e no mesmo grau. Na visão de Hesse, a classe
artística é a que mais sofre com essa contínua e mortal inimizade entre uma “natureza
divina” e uma “natureza satânica”.


No caso de Heller, a sua natureza teve de sofrer as desgraças de sua época, ela teve de
suportar as suas crises existenciais e pessoais. O personagem principal de Hesse pertence
ao grupo que se comprime entre duas naturezas, dois mundos, duas épocas, que não
compartilha dos objetivos do mundo moderno em que vive, que não entende as
representações artísticas e culturais de seu ambiente, que acha as atuais músicas vulgares
e americanizadas. Esse é precisamente o motivo que leva Heller a não se considerar
participante de seu tempo, à maneira nietzschiana. Mas isso não significa que para ele a
vida não tenha nenhum sentido. Não significa que ele leve uma vida suicida.

Numa leitura superficial, parece que Hesse constrói um personagem que procura
o tempo todo atentar contra a própria vida. Todavia, prosseguindo no exame da obra,
percebemos que o autor se previne em relação a esse tipo de interpretação. Hesse deixa
claro que o seu personagem tem uma porta aberta, uma maneira de fugir do problema que
o incomoda. Para encontrar essa saída de emergência, Heller não poderia pertencer a
determinado grupo de suicidas, aos tipos de homem que são considerados suicidas pela
própria essência de seu eu, os quais vivem em relação perigosa com a morte. Heller
pertencia a um grupo diferente de suicidas, os quais não mantinham necessariamente
relação intensa com a morte. Ele não exibe, mas tem um eu forte, ambicioso e ousado. A
sua redenção acontece na vida. Ele não está disposto a eliminar-se, a extinguir-se, a voltar
ao princípio de tudo. Pelo contrário, ele faz de sua debilidade uma força, de seu caminho
de morte um caminho de vida, um pensamento tomado de Nietzsche.

Heller fez de seu sofrimento uma filosofia que era, na verdade, uma afirmação da
vida, à maneira nietzschiana. Mas como era essa filosofia que supervalorizava a vida?
Essa filosofia é uma espécie de aceitação orgulhosa das duas naturezas que disputam entre
si. E quem a prática é um homem que pensa e que vive o sofrimento. O fato de pensar e
de viver o sofrimento provém das duas naturezas, tanto da do lobo da estepe quanto da
do homem amante dos livros. Portanto, a junção das duas naturezas é que gera a filosofia
como afirmação da vida de Herry Heller. O método de junção de oposto, oponentes e
complementares de Hesse se encontra, pois, nesse livro, embora de forma oculta, e é
responsável pela sua composição.

V


Já com o romance indiano “Sidarta”, Hesse foge completamente daquele método
que até então vinha esboçando em seus livros. Nas outras obras, ele sempre associava
palavras, ideias, conceitos opostos, oponentes e complementares, mas, em “Sidarta”, ele
inaugura um método circular de pensamento, também à maneira nietzschiana. Sua ideia
de um método circular não é sem sentido, ela se baseia numa teoria do eterno retorno: é
o distanciar-se do seu eu por intermédio da meditação e o reencontrar-se com o seu eu,
ao fim e ao cabo de tudo.

Depois de histórias polêmicas como a do jovem Sinclair, que oscila entre o mundo
de luz e o mundo de trevas, e a do velho Haller, que oscila entre a natureza de lobo e a
natureza de homem erudito, aqui ele narra a história de um homem obstinado em busca
de si mesmo, da perfeição espiritual. Se nos livros anteriores “Hesse sempre lançava
perguntas ao mundo ansiosamente; em Sidarta, pela primeira vez, busca responder”7,
assevera Stefan Zweig. Ele empreende um movimento semelhante ao do ciclo vital,
quando jovem assume uma postura inquiridora, quando adulto escreve respostas para as
perguntas outrora levantadas, quando maduro entende o sentido de tais perguntas e o
caminho para tais respostas. Seu livro “Sidarta” expressa todo esse giro, simplesmente
completa o seu ciclo vital.

7 ZWEIG, Stefan. Jogos de espelhos: Hermann Hesse. In: O Mundo Insone e outros ensaios. Tradução:
Kristina Michahelles. Organização e textos adicionais: Alberto Dines. Rio de Janeiro: Zahar, 2013, p. 11.

Interpretar esse giro não é tão simples. A obra procura responder a questões como
esta: “é possível alcançar a perfeição?”, a que o autor responde afirmativamente, mas com
ressalvas, ao final da história. O que a diferencia das outras obras do autor é tão somente
a necessidade implacável do personagem principal de encontrar uma resposta satisfatória
para essa pergunta. Na primeira parte do volume, Hesse apresenta que apenas os homens
de espírito sábio, resistente e puro são capazes de peregrinar dias, meses, anos, a vida
inteira, se preciso for, em busca de tal estado de perfeição e alcançá-lo. Sidarta é um
desses homens de espírito sábio, forte e vazio de tudo, de fome, de sede, de desejos, de
sonhos, de alegrias e de pesar, que vive distanciado de si mesmo, isto é, com o
pensamento desindividualizado, cujo único propósito da vida é somente alcançar no seu
ser a quinta-essência, o mistério dos mistérios, a perfeição. Na medida que se exercita na
sua desindividualização e se esvazia de seu eu, ele sente o apelo à sua perfeição, à sua
eternidade, e acaba mortificando os seus sentidos, as suas recordações, desprendendo-se
da própria vida. Mas Sidarta não palmilha todo o caminho da desindividualização para


morrer vazio; ao contrário, embora seu trajeto lhe afaste de seu eu, ao fim da vida o
reconduz até ele.

Hesse amadurece a sua ideia do eterno retorno através da vida de seu personagem
principal e então direciona o seu questionamento sobre a perfeição da natureza humana à
metáfora da sede de conhecimento, às vezes tentando explicar seriamente que é sim
possível ao homem chegar a esse estado de espírito através da meditação e de um grande
número de perguntas, às vezes rindo da insensatez de quem foge de si mesmo e tortura
todo o seu ciclo de vida para alcançar tal estado de “não eu”, mas nunca pondo de lado a
vontade de saber, de aprendizagem, que está presente em qualquer criatura, e que é
inimiga mortal dessa noção de eterno retorno do mesmo.

Se a sede de conhecimento de Sidarta o mantém no trajeto certo, se o conduz a
um estado de espírito perfeito, se o faz movimentar-se por um caminho com numerosos
degraus e que sobe sempre, não lhe é possível movimentar-se em círculos; é a força do
conhecimento que o faz escapar ao ciclo, é sua realidade que rompe as ligaduras da
repetição, é sua possibilidade de questionar a si próprio que o afasta da doutrina do eterno
retorno do mesmo. Não é possível ser inteiriço, sem lacunas, límpido, perfeito por meio
da repetição, por meio da exclusão do eu e da liquidação das lembranças, e sim por meio
da aceitação da realidade e da vida.

A sede de conhecimento de Sidarta é sim algo semelhante a um ciclo, ele se
autoquestiona, de um questionamento nasce outro, diferente, e no instante seguinte, pelo
fato de perceber que não sabe nada a seu respeito, conhece a si mesmo. Mas esse ciclo
não é totalmente fechado, há uma pequena lacuna, uma brecha minúscula, que destrói as
rédeas da repetição e permite a entrada do elemento estranho, do novo, do ainda não
pensado e não experimentado. A ideia do ciclo de Hesse é mais uma ilustração de que
Sidarta pode aprender por si mesmo, ser seu próprio aluno, conhecer seus segredos, e
assim chegar ao autoconhecimento. Não significa a eterna repetição para a perfeição, é
simplesmente a continuação para o conhecimento de si.

Hesse também emprega o seu método de pensamento baseado na tese nietzschiana
do eterno retorno através da metáfora do rio, exposta da segunda parte do volume. Sidarta,
tomado ainda pela vontade de conhecer a si mesmo e já separado de Govinda e de Buda
e sua doutrina, continua a alimentar dúvidas acerca da perfeição, não quer mais sacrificar
seu eu e seus sentidos; ele quer viver, mesmo passando por momentos de insensatez, por


erros e vícios, por desgostos, tristezas e desilusões, e fazer tudo de mais estúpido possível,
ou seja, até praticar o suicídio, para enfim retornar ao seu eu, a razão de toda a sua aflição.

O rio é a metáfora de uma vida nova, a qual, por sua vez, ficou velha e morreu, uma vez
que a água corre sempre e, no entanto, ainda está lá, é sempre a mesma, a cada instante,
e, contudo, se renova sem parar. Sidarta quer aprender a ouvir as vozes do rio, mas isso
parece tão ingênuo quanto os desejos de uma criancinha. No entanto, a sua vontade de
aprender com o rio não é sem sentido, não significa que ele está delirando ou fora de si,
mas está pensando exclusivamente na sua própria experiência de vida. Ele não quer ouvir
do rio qualquer tipo de ensinamento ou conselho de como viver melhor a vida; não é isso,
o que ele quer é dizer que o rio está em toda a parte, na fonte e na foz, no mar e na serra,
simultaneamente, ou que no rio tudo passa, tudo se flui, como Heráclito diz, mas o rio
permanece, e para ele só existe o eterno presente, nada de antes ou depois; o que ele quer
é ser visto como um rio, ou seja, ele não quer repartir a realidade, mas superá-la.

Ao comparar Sidarta ao rio, portanto, Hesse almeja dizer que todas as aflições
pelas quais passou o seu personagem principal em busca do autoconhecimento
pertenciam a um tempo circular não vicioso e que passariam como a correnteza do rio,
quando ele conseguisse distinguir as suas inúmeras vozes, que em determinado momento
esclareceriam todas as imagens de sua vida, da meninice à velhice, do nascimento à morte,
fazendo dela uma verdadeira sabedoria do eu, uma realidade enfim una, harmônica e
perfeita.

Referências:

HESSE, Hermann. O jogo das contas de vidro. Tradução de Lavinas Abranches Viotti
e Flávio Vieira de Souza. Rio de Janeiro: BestBolso, 2017.

HESSE, Hermann. Demian. Tradução e posfácio de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Record,

HESSE, Hermann. Com a maturidade fica-se mais jovem. Rio de Janeiro, São Paulo:
Record, 2018.

HESSE, Hermann. O lobo da estepe. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro:
BestBolso, 2018.


HESSE, Hermann. Posfácio. In: O lobo da estepe. Tradução de Ivo Barroso. Rio de
Janeiro: BestBolso, 2018, p. 249-250.

HESSE, Hermann. Sidarta. Tradução de Herbert Caro. Rio de Janeiro: BestBolso, 2018.

MANN, Thomas. Hermann Hesse – homenagem ao seu 70° aniversário. In: O escritor e
sua missão. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 134-141.

MICHELS, Volker. Epílogo. In: HESSE, Hermann. Com a maturidade fica-se mais
jovem. Rio de Janeiro, São Paulo: Editora Record, 2018, p. 149-152.

ZWEIG, Stefan. Jogos de espelhos: Hermann Hesse. In: O Mundo Insone e outros
ensaios. Tradução: Kristina Michahelles. Organização e textos adicionais: Alberto Dines.
Rio de Janeiro: Zahar, 2013, p. 1-13.

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