Hermann Hesse – O lobo da estepe


EDITORA RECORD

RIO DE JANEIRO • SÃO PAULO


Título original: Der Steppenwolf
Tradução: Ivo Barroso

1955 by Hermann Hesse

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Impressão e encadernação: Printer Industria Gráfica, S. A.

Sumário

Prefácio do Editor 7
ANOTAÇÕES DE HARRY HALLER / Só para loucos 28
TRATADO DO LOBO DA ESTEPE / Só para loucos 45
Nota do Autor 223


do Editor

ESTE LIVRO contém as anotações que nos ficaram daquele a quem chamávamos, para usar
uma expressão de que ele próprio usualmente se valia, o Lobo da Estepe. Seria ocioso indagar
se este manuscrito necessita ou não de um prefácio; seja como for, de minha parte julgo
imperioso acrescentar, às do Lobo da Estepe, algumas páginas em que procurarei plasmar as
recordações que me ficaram de sua pessoa. Bem pouco é o que sei a seu respeito, sendo-me
particularmente desconhecidos o seu passado e a sua origem: conservo, entretanto, de sua
personalidade uma forte impressão e — cumpre-me declará-lo — bastante simpática, apesar de tudo.
O Lobo da Estepe era um homem de cerca de 50 anos que, certa vez, faz alguns anos,
apareceu em casa de minha tia à procura de um quarto mobiliado para alugar. Interessou-se por um compartimento no andar superior, bem como


por um dormitório contíguo ao mesmo. Voltou dias depois, trazendo consigo duas malas e
uma grande caixa com livros, e morou conosco durante cerca de nove ou dez meses. Vivia
muito sossegado e para si. Não fora a proximidade de nossos dormitórios nos proporcionar ocasionais encontros na escada e no corredor, e não nos teríamos conhecido, pois o homem
era de fato insociável. E insociável a tal ponto que assim, estou para dizer, eu jamais
observara em quem quer que fosse. Era realmente um Lobo da Estepe, conforme ele próprio,
às vezes, costumava chamar-se: um ser estranho, selvagem e, ao mesmo tempo, tímido, muito tímido mesmo, pertencente a um mundo bem diverso do meu.
Se bem que antes, graças aos nossos freqüentes encontros, já eu lobrigasse algum
conhecimento sobre sua maneira de ser, foi só após inferi-lo dos escritos aqui deixados que vim a saber do profundo isolamento em que ele mergulhara, seguindo uma tendência natural e fatalística, que o levava a considerar conscientemente tal isolamento como uma imposição de
seu Destino. Creio mesmo que o retrato que dele formei em função de seus escritos seja, na
essência, bem semelhante àqueloutro (embora mais difuso e sem precisão de detalhes) que me ficou de nosso trato pessoal.
Por casualidade eu me encontrava presente no momento em que o Lobo da Estepe entrou pela
primeira vez em casa de minha tia e com esta contratou o aluguel do apartamento. Chegou
exatamente à hora do almoço; os pratos ainda estavam sobre a mesa e eu dispunha de algum
tempo livre antes de ter de regressar ao escritório. Não posso esquecer a estranha impressão
que me causou nesse primeiro encontro. Fez soar a campainha e avançou pela porta de vidro do vestíbulo, em cuja semi-escurídão minha tia foi perguntar-lhe o que desejava. Mas, antes
de dar uma resposta ou dizer o nome, ele, o Lobo da Estepe, ergueu a cabeça afilada e de
cabelos curtos, olfateou avidamente o ar, exclamando: “Hum! Que cheiro bom aqui!” Riu em seguida, e minha boa tia riu-se também.


mas eu achei cômica aquela forma de apresentação, sentindo-me algo indisposto contra ele.
— Vim ver o quarto que a senhora tem para alugar —
Foi só quando subimos os três pela escada ao andar superior, que pude observá-lo com
atenção: não era muito alto, mas tinha o andar e a postura de cabeça das pessoas espigadas; vestia um sobretudo de inverno, de talhe moderno e cômodo, e no demais estava decentemente vestido, embora com certo desalinho; o rosto bem barbeado e os cabelos curtos,
onde se viam aqui e ali manchas grisalhas. A princípio, não me agradou nada o seu modo de andar; tinha algo de pesado e inseguro que não se harmonizava com o perfil agudo e enérgico
nem com o tom e a índole de sua conversação. Somente mais tarde é que eu soube estar
enfermo e que o caminhar lhe resultava incômodo. Com um sorriso muito pessoal, que
naquela ocasião também me pareceu desagradável, examinou a escada, as paredes, as janelas
e os altos e velhos armários dos vãos: tudo ali parecia agradar-lhe e, ao mesmo tempo, dava a
impressão de achar tudo ridículo. De um modo geral, deu-nos a idéia de alguém assim que
tivesse chegado de um mundo estranho, talvez de países de além-mar, e encontrasse aqui tudo perfeitamente agradável, mas ao mesmo tempo um tanto cômico. Era, não se pode negar,
cortês e até mesmo amável; aceitou logo e sem objeções a casa, o quarto, o preço do aluguel e do café da manhã, mas mesmo assim havia, pelo menos me pareceu, em torno daquele
homem, uma atmosfera estranha de hostilidade e desagrado. Alugou a saleta e também o
dormitório, procurou ficar a par de tudo que dizia respeito ao aquecimento, água, serviços e os
hábitos da casa; ouviu tudo atentamente e com muita amabilidade, mostrando-se de acordo com tudo. Em seguida, ofereceu também um pagamento antecipado sobre o aluguel, embora
me parecesse não estar de acordo com absolutamente nada daquilo. Parecia estar achando-se
ridículo em suas atitudes e querer tudo levar na brincadeira, como se fosse algo de ex


traordinário e novo o alugar um quarto e conversar normalmente em alemão, estando, no
íntimo, ocupado com outras coisas bem diversas daquelas. De certo modo esta foi minha
impressão, que teria sido ainda pior se não a corrigissem e delineassem as expressões de seu
rosto, pois foi sobretudo a face daquele homem o que nele me agradou desde o princípio.
Apesar daquela impressão de estranheza, sua fisionomia me agradou. A expressão
fisionômica era, de certa forma, peculiar e triste, mas ao mesmo tempo esperta, inteligente, fatiga-da e espiritual. Ocorre que, para dispor-me mais facilmente à reconciliação, havia em
sua cortesia e amabilidade — embora parecessem obtidas mediante algum esforço — uma
total ausência de orgulho; ao contrário mesmo, havia nelas algo de comovente, de quase
suplicante, para o que só mais tarde encontrei explicação, mas que desde logo me predispôs a
seu favor.
Antes que terminasse a inspeção de ambos os comparti-mentos e de levar a cabo o trato, já o meu tempo de almoço se havia esgotado e eu devia regressar ao trabalho. Despedi-me e
deixei-o com minha tia. Quando voltei de tarde a casa, disse-me ela que o senhor havia
finalmente alugado o quarto e que para lá se mudaria dentro em breve, tendo-lhe pedido,
contudo, para não comunicar a sua entrada à polícia, pois a um homem doente como ele
seriam incômodas essas formalidades e andanças pelas delegacias e tudo o mais.
Lembro-me perfeitamente da admiração que tal fato me causou e de como recriminei à minha
tia por ter concordado com tal exigência. Esse temor à polícia era compatível demais com seu ar esquisitão e pouco amistoso, para não me despertar suspeitas. Fiz ver à minha tia que
concordar com aquele pedido pessoal poderia, em tais circunstâncias, acarretar-lhe sérios
aborrecimentos, e que, portanto, não devia em hipótese alguma aquiescer. Mas fiquei logo
sabendo que ela prometera satisfazer-lhe o desejo e que havia, além disso, deixado fascinar-se
pelo singular personagem. Na verdade, para com todos os hóspedes, acabava por demonstrar
sentimentos hu10


manos, amistosos, de tia, e muitas vezes maternais, do que alguns souberam aproveitar-se
bem. E logo nas primeiras semanas ficou patente que, enquanto eu tinha muito a reprovar no
novo inquilino, minha tia cada vez mais o colocava sob sua calorosa proteção.
Como não me agradasse o fato de não se ter feito comunicação alguma à polícia, quis inteirar-me pelo menos do quanto minha tia indagara acerca do estranho, de sua origem e de suas
pretensões. Já era algo que sabia, embora o homem pouco demorasse após minha saída.
Disse-lhe que pretendia ficar na cidade alguns meses, freqüentar a biblioteca e visitar os
monumentos notáveis.
Minha tia não se mostrou satisfeita ao saber que a locação se faria por tão curto prazo, mas
evidentemente ele já a havia conquistado, a despeito de sua singular apresentação. Em suma,
os quartos já estavam alugados e minhas advertências haviam chegado tarde.

— Por que achou bom o cheiro daqui? — perguntei. Ao que minha tia, que às vezes tinha
bons pressentimentos, respondeu:
— Sei perfeitamente por quê. Nossa casa cheira a limpeza, a ordem, a uma vida amistosa e
decente, e isso lhe agradou muito. Parece que há muito tempo não sentia isso e já estava lhe
fazendo falta.
— Mas — perguntei — se ele não está acostumado a uma vida ordenada e decente, que
poderá acontecer? Que fará a senhora se ele não for asseado e emporcalhar tudo, ou se voltar
para casa todas as noites bêbado?
— Isso veremos — retrucou ela, e eu deixei o caso morrer por aí.
Meus receios, na verdade, não tinham fundamento. O inquilino, embora não levasse de modo
algum vida ordenada e racional, nunca nos molestou nem prejudicou em nada, e até hoje nos
lembramos dele com prazer. Mas intimamente, na alma, esse homem nos perturbou e
prejudicou, tanto à minha tia quanto a mim, e, a bem dizer, até hoje ainda não
consegui me libertar dele. Às vezes, ainda sonho com ele, e sinto-me profundamente
perturbado e inquieto por sua causa e pela simples existência de um ser assim, embora tenha
vindo a sentir por ele um verdadeiro afeto.
Dois dias depois, um carregador chegou trazendo as bagagens do estranho, que se chamava
Harry Haller. Uma bela maleta de couro causou-me ótima impressão, e a outra mala grande,
de cabina, deixava entrever longas viagens, pois estava tapada de etiquetas coloridas de hotéis
e agências de viagens de vários países, inclusive de ultramar.
Logo depois apareceu o próprio, e então principiou o tempo em que fui conhecendo aos
poucos esse homem extraordinário. Inicialmente, de minha parte, nada fiz para isso. Embora
tivesse me interessado por Haller desde o primeiro instante em que o vi, não tomei nas
primeiras semanas qualquer iniciativa de me aproximar dele ou com ele travar conversação.
Em vez disso, devo confessá-lo, a verdade é que desde o princípio passei a observar um pouco o indivíduo, e até mesmo, durante sua ausência, penetrei em seu quarto e, por natural
curiosidade, me dediquei a espionar.
Sobre o aspecto exterior do Lobo da Estepe já disse alguma coisa. Desde o primeiro momento
dava a impressão de ser um homem importante e bem dotado; sua fisionomia era toda
espiritual e o jogo extraordinariamente delicado de suas expressões faciais denotava uma vida anímica interessante, bastante intensa, delicada e sensível.
Quando se falava com ele e, o que era habitual, ele se deixava ir além dos limites do
convencional e dizia coisas pessoais e singulares, então a palestra passava imediatamente a
subordinar-se a ele, de vez que havia pensado mais do que os outros homens e tinha nas
questões espirituais aquela quase fria objetividade, aquela segurança de pensar e de saber que
só possuem os homens verdadeiramente espirituais, que carecem de toda ambição, que nunca desejam brilhar nem persuadir aos demais nem arvorar-se
em donos da verdade.
Lembro-me, já nos últimos tempos de sua estada conosco, de um conceito dessa natureza, que
nem chegou a ser mesmo um conceito, mas antes unicamente um olhar. Foi quando um
célebre historiador e crítico de arte, de renome europeu, anunciou uma conferência na
Universidade local e logrei persuadir o Lobo da Estepe a que fosse assisti-la, embora não me
demonstrasse nenhum prazer em ir. Fomos juntos e nos sentamos um ao lado do outro no
salão do auditório. Quando o orador subiu à tribuna e começou a elocução, decepcionou, pela
maneira presumida e frívola de seu aspecto, a muitos de seus ouvintes, que o haviam
imaginado algo assim como um profeta. E quando então começou a falar e, à guisa de
introdução, endereçou aos ouvintes palavras lisonjei-ras, agradecendo-lhes por haverem
comparecido em tão grande número, nesse exato momento o Lobo da Estepe me lançou um
olhar instantâneo, um olhar de crítica àquelas palavras e a toda a pessoa do conferencista, oh!
um olhar inesquecível e tremendo, sobre cuja significação poder-se-ia escrever um livro
inteiro! O olhar não apenas criticava o orador e destruía a celebridade daquele homem com
sua ironia esmagadora embora delicada; não, isso era o de menos. Havia nesse olhar um tanto
mais de tristeza que de ironia; era na verdade, um olhar profundo e desesperadamente triste,
com o qual traduzia um desespero calado, de certo modo irremediável e definitivo, que já se
transformara em hábito e forma. Não só transverberava com sua desesperada claridade a
pessoa do vaidoso orador, ironizava e punha em evidência a situação do momento, a
expectativa e a disposição do público e o título um tanto pretensioso da anunciada conferência

— não, o olhar do Lobo da Estepe penetrava todo o nosso tempo, toda a afetação, toda a
ambição, toda a vaidade, todo o jogo superficial de uma espiritualidade fabricada e frívola.
Ah! lamentavelmente o olhar ia mais fundo ainda, ia além das simples imperfeições e
desesperanças de nosso tempo, de nossa
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espiritualidade, de nossa cultura. Chegava ao coração de toda a Humanidade;
expressava, num único segundo, toda a dúvida de um pensador, talvez a de um
conhecedor da dignidade e sobretudo do sentido da vida humana. Esse olhar dizia: ‘
‘Veja os macacos que somos! Veja o que é o homem!” E toda a celebridade, toda a
inteligência, toda a conquista do espírito, todo o afã para alcançar a sublimidade, a
grandeza e o duradouro do humano se esboroava de repente e não passava de frívolas
momices!
Com isto acabei me antecipando demasiadamente e, contra meu propósito e desejo,
vim a dizer o essencial que pretendia sobre Haller, quando, na verdade era minha
intenção revelar aos poucos sua imagem, à medida que fosse relatando o paulatino
conhecimento que tive a seu respeito.
Mas já que me adiantei tanto, poupo-me agora de falar mais extensamente sobre a
enigmática “estranheza” de Haller e de relatar como pressenti e fui gradativamente
conhecendo os fundamentos e a significação daquela “estranheza”, daquele
descomunal e terrível isolamento. Assim é melhor, pois quero deixar à parte, tanto
quanto possível, minha própria personalidade. Não desejo expor meus conhecimentos,
nem escrever uma novela, nem desenvolver uma tese psicológica, mas simplesmente,
como testemunha, contribuir com algo para a imagem do homem singular que estes
manuscritos do Lobo da Estepe nos deixou configurada.
Já desde o primeiro olhar, ao entrar pela porta envidraçada da casa de minha tia,
quando ergueu a cabeça à semelhança de um pássaro e aspirou o agradável odor da
casa, de certo modo pressenti a singularidade daquele homem, e a minha primeira
reação a tudo aquilo foi de repugnância. Tive a impressão (e minha tia, que ao
contrário de mim não é de modo algum uma intelectual, teve quase que a mesma
impressão) de que o homem estava enfermo, de que sofria de uma espécie qualquer de
enfermidade, da alma, do espírito ou do caráter, e me defendi contra tudo isso com
meu instinto de pessoa sã. Essa resistência, com o correr do tempo, foi-se
transformando em simpatia, em compaixão para com aquele profundo e permanente
sofredor, cujo isolamento e cuja morte íntima eu contemplava. Nesse decurso, cada
vez mais me convencia de que a enfermidade daquele paciente não provinha de
qualquer deficiência de sua natureza, mas, ao contrário, tão-somente da não lograda
harmonia entre a riqueza de seus dons e sua força. Convenci-me de que Haller era um
gênio do sofrimento; que ele, no sentido de várias acepções de Nietzsche, havia
forjado dentro de si uma capacidade de sofrimento genial, ilimitada e terrível.
Também me apercebi de que a base de seu pessimismo não era “o desprezo do
mundo”, mas antes o desprezo de si mesmo, pois podendo falar sem indulgência e
impiedosamente das instituições e das pessoas, nunca se excluía a si próprio; era
sempre o primeiro a quem dirigia suas setas, o primeiro a quem odiava e desprezava.
Devo acrescentar aqui uma observação psicológica: embora saiba muito pouco sobre
a vida do Lobo da Estepe, tenho bons motivos para acreditar que foi educado por pais
e professores bondosos, porém severos e muito devotos, desses que fundamentam
toda a educação no ‘ ‘quebrantamento da vontade”.

Tal destruição da personalidade e
quebra do desejo não foram conseguidas com aquele aluno, de cuja prova saiu mais
insensível e duro, orgulhoso e espiritual. Em vez de destruir sua personalidade,
conseguiu aprender somente a odiar a si mesmo.

Contra si próprio, contra esse objeto
nobre e inocente, dirigiu a vida inteira toda a genialidade de sua fantasia, toda a força
de seu poderoso pensamento.

Foi precisamente através do Cristo e dos mártires que
aprendeu a lançar contra si próprio, antes de mais nada, cada severidade, ca da
censura, cada maldade, cada ódio de que era capaz. No que respeitava aos outros, ao
mundo em redor, sempre estava fazendo os esforços mais heróicos e sérios para amá-
los, para ser justo com eles, para não fazê-los sofrer, pois o “Amarás teu próximo!”
estava tão entranhado em sua alma como o odiar-se a si mesmo”; assim, toda a sua
vida era um exemplo do impossível que é amar o próximo sem amor a si mesmo, de que o desprezo a si mesmo
é em tudo semelhante ao acirrado egoísmo e produz afinal o mesmo desespero e horrível
isolamento.
Mas já é tempo de deixar à parte os pensamentos e falar de fatos reais. O que primeiro
descobri a respeito de Haller — parte através de minha espionagem, parte através das
observações de minha tia — dizia respeito ao seu sistema de vida. Era fácil perceber-se que se tratava de um pensador e de um homem chegado aos livros, que não exercia qualquer
emprego ou ocupação. Permanecia muito tempo deitado; não raro só se levantava por volta do meio-dia e passava em trajo de dormir de seu quarto à sala de estar. Esse compartimento, uma
espaçosa e agradável mansarda com duas janelas, tinha agora, com poucos dias, uma
aparência bem diversa daquela do tempo de outros hóspedes. Com o passar dos dias, tornava-se cada vez mais cheio de objetos. Das paredes pendiam estampas, desenhos, fotografias
recortadas de revistas, que eram freqüentemente substituídas por outras. Uma paisagem do
Sul, fotografias de uma cidade alemã do interior, seguramente a terra de Haller, lá estavam
pregadas à parede; aquarelas coloridas e luminosas, que, viemos a saber mais tarde, ele
próprio havia pintado. Em seguida, a fotografia de uma bela e jovem mulher ou, antes, de uma moça. Por algum tempo esteve um buda siamês pregado à parede; depois foi substituído por uma reprodução da Noite, de Miguel Ângelo, e mais tarde por um retrato do Mahatma
Gandhi. Os livros não só enchiam as estantes como também se amontoavam em toda parte, sobre a mesa, a linda e antiga escrivaninha, sobre o divã, as cadeiras, em volta do chão; livros
tendo entre as páginas marcas de papel, que constantemente mudavam de lugar; livros que
aumentavam sempre, pois o homem não só os trazia em quantidade das bibliotecas, como
também os recebia em grandes pacotes pelo correio. O ocupante daquele quarto devia ser um
erudito; com isso concertava bem o cheiro de cigarro que impregnava todo o ambiente e as pontas caídas no chão e cinzeiros espalhados por toda parte. Entretanto, a maior parte dos
livros não era de conteúdo científico, mas obras de poetas de todos os tempos e países.
Permaneceram demoradamente sobre o divã, em que Haller passava o dia deitado, todos os
seis grossos volumes de uma obra intitulada Viagem de Sofia, de Memel à Saxônia, aparecida
nos fins do século XVIII. Uma edição das obras completas de Goethe e outra das de Jean-Paul pareciam bastante manuseadas, bem como as de Novalis, Lessing, Jacobi e Lichtenberg.
Alguns volumes de Dostoievski achavam-se cheios de papele-tas anotadas. Sobre a grande
mesa, entre os muitos livros e revistas, havia freqüentemente um vaso de flores; e sempre
andava também por ali uma caixa de aquarelas coberta de pó, ao lado do cinzeiro e — para
não deixar sem menção — por toda parte garrafas de bebida. Uma delas, recoberta de palha,
estava freqüentemente cheia com vinho tinto italiano, que ele adquiria numa taberna das
vizinhanças; às vezes, achava-se ali também uma garrafa de borgonha ou de mála-ga, e vi
desaparecer em tempo bastante reduzido quase todo o conteúdo de um grande frasco de kirsh,
que depois foi afastado para um canto da sala, onde se cobriu de poeira, sem que o restante
chegasse ao fim.
Não quero justificar-me da espionagem exercida, e devo confessar que, nos primeiros tempos,
todos esses sinais de uma vida cheia certamente de interesses espirituais, porém dissipada e
desordenada ao mesmo tempo, me causavam horror e desconfiança. Não sou apenas um
burguês que vive mo-rigeradamente acostumado ao seu trabalho e com seu tempo bem
dividido, mas ainda um abstêmio e uma pessoa que não fuma, donde aquelas garrafas no
quarto de Haller me agradarem ainda menos do que o resto de sua desordem espiritual.
Tão irregular quanto ao sono e ao trabalho, era o estranho em relação às suas comidas e
bebidas. Havia muitos dias em que não saía absolutamente e não tomava outra coisa senão o
café da manhã; com freqüência minha tia encontrava como único resto de suas refeições uma
casca de banana; outras
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vezes, entretanto, ia comer em restaurantes, algumas em lugares elegantes e caros,
outras em tabernas dos subúrbios. Sua saúde não parecia muito boa; além do
entorpecimento das pernas, que não raro lhe impedia subir as escadas com facilidade,
parecia estar atacado de outros males, e certa vez disse casualmente que há anos não
digeria nem dormia bem. Atribuí isso, antes de mais nada, à bebida. Mais tarde,
quando o acompanhei em algumas ocasiões aos seus pontos de bebida, presenciei a
maneira como bebia rapidamente e com prazer, embora nem eu nem outrem o
tivéssemos visto alguma vez inteiramente bêbado.
Nunca me esquecerei de nosso primeiro encontro pessoal. Conhecíamo-nos apenas
como vizinhos de quarto da mesma casa de hóspedes. Uma tarde, ao regressar do
trabalho, encontrei, para minha surpresa, o Sr. Haller sentado no patamar da escada,
entre o primeiro e o segundo andar; como estivesse sentado no último degrau da
escada, afastou-se um pouco para o lado a fim de deixar-me passar. Perguntei-lhe se
não se sentia bem e ofereci-me a acompanhá-lo até lá em cima.
Haller fitou-me e compreendi que o havia despertado de uma espécie de transe.
Começou a sorrir lentamente, com aquele seu riso belo e triste que tantas vezes me
enchera de amargura o coração, convidando-me em seguida a sentar-me ao seu lado.
Agradeci e disse-lhe que não costumava sentar me na escada por onde deviam passar
os outros moradores

— Ah! sim! — disse e sorriu mais acentuadamente. — O senhor está com a razão.
Mas espere um momento, pois quero dizer-lhe por que motivo tive de ficar aqui
sentado um pouco.
E assim dizendo, apontou o vestíbulo do prédio, no primeiro andar, onde morava uma
viúva. No pequeno espaço taqueado entre a escada, a janela e a porta de vidro, havia,
junto à parede, um grande armário de mogno, com ornatos de cobre, e diante dele, em
suportes baixos, duas plantas em grandes vasos: uma azálea e um pinheirinho. As
plantas eram
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muito bonitas e estavam sempre muito bem cuidadas e irrepreensivelmente limpas, o
que também a mim já havia chamado a atenção.
__Veja o senhor — continuou Haller. — Esse pequeno
vestíbulo, com o pinheirinho, exala um odor tão prodigioso que não consigo passar
por aqui sem me deter um pouco. A casa da senhora sua tia recende ao asseio e à
limpeza mais extremados, porém o vestíbulo do pinheirinho embaixo vive tão
brilhantemente limpo, tão encerado, tão isento de pó que chega a resplandecer
perturbadoramente. Sou levado a respirar a plenos pulmões. O senhor não sente esse
odor? O odor da cera do assoalho, em que há reminiscências de terebintina juntamente
com o cheiro do mogno, as folhas das plantas irrigadas e tudo o mais, recorda um
aroma de superlativo asseio burguês, de cuidado e precisão, de cumprimento das
obrigações e fidelidade às mínimas coisas. Não sei quem mora naquele andar, mas por
trás daquela porta de vidro deve existir um paraíso de limpeza e imaculada civilidade,
de ordem e firme apego a pequenos hábitos e deveres.
Como eu me calasse, prosseguiu:

— Por favor, não creia que eu fale com ironia! Meu caro senhor, nada mais longe de
minha intenção que zombar dessa ordem e desses pequenos hábitos. É bem verdade
que vivo num mundo bem diverso desse, e talvez não esteja em condições de viver
um dia que seja num quarto com tal pinheirinho. Mas, ainda que não passe de um
velho e arredio Lobo da Estepe, também nasci de uma mulher, e minha mãe era uma
senhora burguesa, que cultivava flores, cuidava dos quartos, escadas, móveis e
cortinas, e se esforçava para dar, à sua casa e à sua vida, toda a ordem e asseio
possíveis. A essência da terebintina e o pinheirinho me fazem lembrar tudo isso, daí
por que me sento de vez em quando a contemplar esse pequeno jardim da ordem e me
alegro de que ainda existam coisas assim.
Quis levantar-se, mas como lhe custasse algum trabalho, não objetou quando me
dispus a ajudá-lo um pouco. Permaneci silencioso, mas deixando-me levar, como antes acontecera à minha tia, por um certo
poder de sedução que o estranho homem às vezes costumava exercer. Lentamente, subimos, a
escada juntos, e ao chegarmos à porta de seu quarto, já com a chave na mão, olhou-me de
novo nos olhos, muito amavelmente, dizendo:

— O senhor está vindo do trabalho? É verdade que disso nada entendo; vivo um tanto à
margem, o senhor compreende… Mas creio que também lhe interessem os livros e coisas
assim; sua tia me disse que o senhor completou seus estudos e que era um bom estudante de
grego. Esta manhã encontrei uma frase em Novalis.. Permite-me que lha mostre? O senhor
também há de gostar de vê-la.
Fez-me entrar no quarto, que recendia a forte cheiro de fumo, tirou um livro de uma pilha
deles, folheou-o, à procura.
— Esta aqui também é boa, muito boa — disse. — Veja só esta frase: “O homem devia
orgulhar-se da dor; toda dor é uma manifestação de nossa elevada estirpe.” Magnífico!
Oitenta anos antes de Nietzsche! Mas não é esta a passagem que eu pensava mostrar-lhe…
Espere, aqui está. Ouça: “A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer.” Não
é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a
água. E, naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto
mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito
longe com isso, mas, sem dúvida estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá
afogado.
Eu estava fascinado e cheio de interesse, e fiquei mais um pouco em sua companhia; desde
então passamos a falar-nos com frequência sempre que nos encontrávamos na escada ou na
rua. Em tais ocasiões, a princípio sempre tinha a impressão de que ele me ironizava. Mas tal
não era. Tinha por mim um verdadeiro respeito, da mesma forma como tinha pelo
pinheirinho. Estava tão convicto e consciente de seu iso20


lamento, de seu andar sobre a água, do seu desarraigamento, que era capaz de
entusiasmar-se realmente e sem o menor sarcasmo ao contemplar qualquer ato
habitual da vida burguesa, como por exemplo a pontualidade com que eu ia para o
escritório ou uma expressão que ouvira por acaso de algum mensageiro ou de um
condutor de bonde. A princípio, isso me pareceu ridículo e exagerado, a afetação de
um senhor ocioso, um sentimentalismo teatral. Mas, cada vez mais pude ver que, na
realidade, nosso pequeno mundo burguês era querido e admirado lá da distância de
seu espaço vazio, da sua estranheza e da sua condição de lobo, como algo distante e
inatingível para ele. como o lar e a paz, aos quais nenhum caminho o poderia levar.
Tirava o chapéu com todo o respeito diante de nossa empregada, uma excelente
mulher, e quando minha tia alguma vez mantinha conversação com ele ou chamava
sua atenção para a necessidade de qualquer reparo em sua roupa, algum botão que lhe
caíra do casaco, ele a ouvia com atenciosa consideração e interesse, como se fizesse
um esforço inaudito e desesperado para penetrar por uma fresta qualquer neste nosso
pequeno mundo pacífico e ter ali sua morada, ainda que fosse por um momento
apenas.
Já naquela primeira conversa sobre o pinheirinho, chamou-se a si próprio de Lobo da
Estepe, e isso também me causou estranheza e perturbou um pouco. Que expressão
aquela! Mas acabei por admiti-la não só por hábito, como porque, em meu
pensamento, só chamava o homem por aquele apelido de o Lobo da Estepe, e até hoje
não saberia dar-lhe nenhum outro nome mais apropriado do que este. Um lobo da
estepe, perdido em meio à gente, na cidade e na vida do rebanho — nenhum outro
epíteto poderia definir com roais exatidão aquele ser, seu tímido isolamento, sua
natureza selvagem, sua inquietude, seu doloroso anseio por um lar, sua falta absoluta
de um lar.
Certa vez pude observá-lo durante toda uma noite, num concerto sinfónico, onde, para
minha surpresa, vi-o sentar num lugar próximo ao meu, sem que desse pela minha
pre-
21


sença. Em primeiro lugar, executaram uma magnífica e bela composição de Händel,
mas o Lobo da Estepe estava sentado, mergulhado em si mesmo, sem ligação alguma
com a música nem com as coisas que o cercavam. Distanciado, solitário e estranho,
com um olhar frio porém cheio de preocupação, permanecia de olhos baixos. Logo
veio outra peça, uma pequena sinfonia de Friedemann Bach, e me surpreendi ao ver
como logo aos primeiros compassos o meu estranho companheiro começou a sorrir e
a entregar-se no fundo de si mesmo, parecendo, durante mais de dez minutos, tão
felizmente extasiado e perdido em um sonho agradável, que passei a prestar mais
atenção a ele do que à música. Quando a peça estava terminando, despertou do êxtase,
sentou-se mais correta-mente, fez menção de levantar-se e parecia querer ir-se
embora; mas permaneceu ainda sentado e ouviu a última peça, que eram as Variações
de Reger, música que muitos consideraram um tanto longa e fastidiosa. E também o
Lobo da Estepe, que a princípio ouvia atentamente e de bom grado, logo distraiu-se,
meteu as mãos nos bolsos e mergulhou de novo em si mesmo, mas desta vez não
parecia feliz e sonhador, mas triste e insatisfeito; o semblante voltou a ser distante,
pálido e apagado. Parecia velho, enfermo e descontente.
Depois do concerto, voltei a encontrá-lo na rua e caminhei atrás dele; escondido em
seu casacão, caminhava como cansado e sem vontade em direção a nossa casa, mas
deteve-se antes numa pequena e velha hospedaria, consultou indeciso o relógio e
acabou por entrar. Cedi a um capricho momentâneo e entrei também. Sentara-se a
uma mesa modestíssima, e a hospedeira e as moças que serviam cumprimentaram-no
como a um dos clientes habituais, no que eu o cumprimentei também e me sentei a
seu lado. Lá ficamos uma hora, enquanto bebi alguns copos de água mineral e ele
emborcou meio litro de vinho tinto e logo mais outro quarto de litro. Disse-lhe que
havia estado no concerto, mas ele não fez caso. Leu o rótulo da garrafa de minha água
mineral e perguntou-me se não queria beber vinho, insistindo no convite. Quando

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soube que eu não bebia qualquer espécie de vinho, voltou a olhar-me com aquela sua
expressão de abandono e disse:
__Sim, o senhor tem razão Eu também fui abstêmio
durante muitos anos e também jejuei por muito tempo, mas agora estou de novo sob o
signo do Aquário, um signo escuro e
úmido

E quando eu, pilheriando, tomei a alusão ao pé da letra e fiz-lhe notar como me
parecia inverosímil que precisamente ele acreditasse em astrologia, aí então voltou a
empregar seu tom cortês que tanto me desagradava, dizendo:

— O senhor está certo; lamentavelmente, também nessa ciência eu não creio.
Levantei-me e despedi-me; ele voltou para casa tarde da
noite, mas seu passo era o de hábito, e, como sempre, não se deitou logo em seguida
(como seu vizinho de quarto era-me fácil ouvi-lo), ficando seguramente por uma hora
com a luz acesa.
Também nunca me esqueci de uma outra noite. Eu estava sozinho em casa, minha tia
havia saído, e chamaram à porta. Quando abri, apareceu no umbral uma senhora
jovem e bonita, e ao perguntar-me pelo Sr. Haller, logo a reconheci: era a da
fotografia que estava em seu quarto. Indiquei-lhe a porta e retirei-me. Ela permaneceu
lá em cima um pouco, mas logo depois ouvi os dois descerem as escadas e saírem,
animados e alegres, entretendo uma conversação jocosa. Eu estava muito admirado de
que o taciturno tivesse uma amante tão jovem, tão elegante e bela, e todas as minhas
suposições sobre ele e sua vida voltaram a cobrir-se de dúvidas. Entretanto, cerca de
uma hora mais tarde, voltou de novo para casa, sozinho, com seu caminhar pesado e
triste, subiu dolorosamente a escada e ficou andando horas e horas em seu quarto,
com passo leve e furtivo, exatamente como um lobo em sua jaula. Durante toda a
noite até quase de manhã havia luz em seu quarto.
Nada sei sobre essas relações e desejo acrescentar apenas que voltei a vê-lo ainda uma
vez mais com aquela mulher, numa rua da cidade. Iam de braço, e ele parecia feliz; e
sur-
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preendi-me de ver o quanto de graça e até mesmo de infanti lidade podia ocasionalmente
expressar seu semblante, de hábito preocupado e solitário; compreendi a mulher e compreendi
também o interesse que minha tia demonstrava por esse homem. Mas também naquele dia,
regressou à noite, triste e de maneira lastimosa. Encontrei-o à porta da casa, trazendo embaixo
do sobretudo uma garrafa de vinho e com ela passou até além da meia-noite sentado em seu
tugúrio. Causou-me pena. Que vida desconsolada, perdida e inútil a que levava!
Bem, já falamos bastante. Não são necessários mais informes nem descrições para demonstrar
que o Lobo da Estepe levava uma vida de suicida. Contudo, não creio que ele tenha dado fim
à vida, mesmo depois que, inesperadamente e sem se despedir, mas após pagar o que devia,
abandonou nossa cidade e desapareceu. Nunca mais tivemos notícias dele e conservamos
ainda algumas cartas que lhe chegaram após sua partida. Nada mais deixou senão o
manuscrito que escreveu durante sua permanência, o qual me dedicou em poucas linhas com a
observação de que eu poderia dele dispor da maneira que melhor entendesse.
Não me foi possível comprovar o quanto de veracidade existe nos fatos de que trata o
manuscrito de Haller. Não duvido de que sejam fictícios em sua maior parte, não no sentido
de uma espontânea invenção, mas no sentido de uma procura de exprimir-se, de expressar
uma anterior atividade anímica, profundamente vivida, com a roupagem de acontecimentos
verossímeis. Os acontecimentos, em parte fantásticos, da ficção de Haller situam-se
provavelmente nos últimos tempos de sua permanência conosco, e não duvido de que haja
neles uma boa dose de fatos reais exteriores. Naquele tempo, nosso hóspede tinha, de fato,
uma conduta e um aspecto diferentes, permanecia por muito tempo fora de casa, as vezes
durante toda a noite, e não tocava nos livros. As poucas vezes em que o encontrei, pareceu-me
surpreendentemente vivo e rejuvenescido, e às vezes até mesmo feliz.

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É verdade que logo se lhe seguia uma nova depressão, que o prostava o dia todo na cama, sem
querer comer; naquele tempo teve também uma altercação, extraordinariamente violenta e até
mesmo brutal, com a amante, que voltara a aparecer — altercação que repercutiu por toda a
casa, e de que Haller, no dia seguinte, pediu desculpas a minha tia.
Não, estou seguro de que não terá posto fim à vida. Continua vivendo; em algum lugar estará
subindo e descendo escadas de casas estranhas com suas pernas cansadas, estará olhando
fixamente em qualquer parte um assoalho encerado e um pinheirinho bem cuidado, estará
sentado durante o dia nas bibliotecas e, de noite, nas tabernas ou jazerá estendido sobre um
sofá alugado, ouvindo viver por trás das janelas o mundo e os homens, dos quais se sente
excluído, mas não se mata porque um resquício de fé lhe diz que esse sofrimento, essa triste
dor terá de ser sorvida até o fim em seu coração e que desse sofrimento é que lhe virá a morte.
Penso muito nele. Não me tornou a vida mais suave, não teve o dom de criar e aumentar em
mim a fortaleza e a alegria, oh! não!, muito ao contrário! Contudo, não sou ele, nem levo sua
espécie de vida, mas a minha, uma vida medíocre e burguesa, porém segura e cheia de
obrigações. E assim podemos pensar nele, minha tia e eu, como calma e amizade, ela que
saberia falar mais a seu respeito do que eu, porém tudo o que sabe permanece oculto em seu
bondoso coração.
No que diz respeito às anotações de Haller, estas fantasias maravilhosas, às vezes doentias às
vezes cheias de profundidade, devo dizer que se essas páginas tivessem caído às minhas mãos
por acaso e eu não lhes conhecesse o autor, certamente que as teria posto fora, decepcionado.
Mas, devido ao meu conhecimento com Haller, tornou-se-me possível compreende-las em
parte e até mesmo aprová-las. Hesitaria em transmiti-las a outrem se nelas visse apenas as
fantasias mórbidas de um pobre e solitário doente do espírito. Mas nelas vejo algo
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mais: um documento da época, pois a enfermidade anímica de Haller é, hoje o percebo, não o
capricho de um solitário mas a enfermidade do próprio tempo, a neurose daquela ge-ração a
que pertencia Haller, neurose que não atacava em absoluto os débeis e insignificantes, mas
precisamente os fortes, os mais espirituais, os mais fortes.
Estas anotações — e é indiferente saber se nelas existe uma grande ou pequena dose de
realidade — são uma procura, não de vencer a enfermidade da época com rodeios ou
paliativos, mas um intento de converter a própria doença em objeto de interpretação.
Significam literalmente uma jornada pelo inferno, uma caminhada algumas vezes angustiosa,
outras cheia de entusiasmo através do caos de um mundo anímico tenebroso, caminho
percorrido com a vontade de atravessar o inferno, de oferecer a face ao caos, de padecer o mal
até o fim.
Uma palavra de Haller deu-me a chave dessa compreensão. Disse-me ele, certa vez, quando
falávamos a propósito das chamadas crueldades da Idade Média:

— Tais horrores na verdade não existiram. Um homem da Idade Média condenaria totalmente
o nosso estilo de vida atual como algo muito mais cruel, terrível e bárbaro. Cada época, cada cultura, cada costume e tradição têm o seu próprio estilo, têm sua delicadeza e sua severidade,
suas belezas e crueldades, aceitam certos sofrimentos como naturais, sofrem pacientemente certas desgraças. O verdadeiro sofrimento, o verdadeiro inferno da vida humana reside ali
onde se chocam duas culturas ou duas religiões. Um homem da antiguidade, que tivesse de
viver na Idade Média, haveria de sentir-se tão afogado quanto um selvagem se sentiria em
nossa civilização. Há momentos em que toda uma geração cai entre dois estilos de vida, e
toda a evidência, toda a moral, toda salvação e inocência ficam perdidos para ela.
Naturalmente isso não atinge a todos da mesma maneira. Uma natureza como a de Nietzsche
teve de sofrer a miséria da época atual há mais de uma geração antes da nossa; tudo quanto teve de suportar sozinho e incompreendido, é o mesmo de que hoje padecem milhares de seres
humanos.
Lendo as notas de Haller, meditei muitas vezes nestas palavras. Haller pertence àqueles que se
comprimem entre duas épocas, que vivem à margem de toda segurança e inocência, àqueles
cujo destino é sofrer toda a incerteza do destino humano agravada como um tormento e um
inferno pessoais.
Nisto, segundo me parece, consiste o sentido que possam ter para nós suas anotações, e por isso me decidi a publicá-las. Quanto ao mais, não quero nem defendê-las, nem tampouco condená-las. Que o leitor o faça segundo sua própria consciência!


ANOTAÇÕES
DE HARRY HALLER

Só para loucos

dia passara como normalmente passam os dias: eu o havia desperdiçado, dissipado
suavemente, com minha primitiva e arredia maneira de ser; trabalhara algumas horas a
compulsar velhos livros e sentira dores durante duas horas seguidas, como os velhos
costumam sentir; engolira uns pós e me alegrara porque as dores se haviam deixado enganar;
metera-me num banho quente e absorvera o agradável calor; recebera três vezes o correio e correra a vista pelas cartas e os impressos sem importância; fizera meus exercícios
respiratórios, mas achara conveniente transferir para outro dia os exercícios mentais; dera um passeio de uma hora e vira, recortados contra o céu, delicadas e belas amostras de cirros
preciosos. Agradável, assim como ler os livros antigos ou demorar-me no banho quente, mas,
afinal de contas, não fora a bem dizer um dia encantador, nem brilhante, nem feliz, nem
plácido, mas

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tão somente um desses dias como desde algum tempo costumam ser os normais de minha
vida: moderadamente agradáveis, totalmente suportáveis, toleráveis, tépidos dias de um velho
e descontente senhor, dias sem dores particulares, sem singuiares preocupações, sem aflições
especiais, sem desesperos, dias em que até mesmo a pergunta, de que se não seria o momento
de seguir o exemplo de Adalbert Stifter e degolar-se com a navalha de barbear, era meditada
tranquilamente sem emoção, sem qualquer sentimento de angústia.
Quem havia passado pelos outros dias, aqueles terríveis de ataque de gota, das dores malignas
por detrás dos globos oculares, transformando a alegria de ver e de ouvir num tormento
alucinante sob os efeitos da enlouquecedora enxaqueca, ou aqueles dias de morte da alma,
perversos de vazio interior e desespero, nos quais em meio à terra destroçada e ressequida
pelas sociedades anónimas, o mundo dos homens e a chamada cultura ri-se de nós a cada
passo com seu enganoso e vulgar esplendor de feira e nos atormenta com uma persistência
emética, e quando tudo está concentrado e levado ao clímax do insuportável dentro de nosso
próprio ser enfermo, — quem já havia passado por aqueles dias infernais mostrava-se bem
contente com estes de agora, normais e vulgares, em que se sentava agradecido junto à estufa
a ler os jornais, verificando satisfeito que não estalara nenhuma nova guerra, que não surgira
nenhuma nova ditadura, que não se descobrira nenhum nauseante escândalo no mundo da
política e das finanças, e podia planger agradecido as cordas de sua empoeirada lira para
entoar um salmo de graças em tom moderado, suportavelmente alegre, quase regozijante, com

o qual aborrecerá seu calado e tranquilo semideus, um tanto anestesiado pelo brometo, e no
morno ar desse contente aborrecimento, dessa ausência de dor tão digna de nota, o semideus
solitário e o semideus um tanto encanecido que cantava o saí-mo incolor pareciam gémeos.
Muito se teria de dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias
suportáveis e submissos, nos
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quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece
andar nas pontas dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não
posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado,
tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não, a caminho da dor.
Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna mediocridade dos dias chamados
bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do
agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira
dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um
selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril,
bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim
mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos,
de entregar a um casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para
Hamburgo, de violar uma jovem ou de torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei.
Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais, era aquela satisfação, aquela
saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e
saudável do medíocre, do normal, do acomodado.
Nesse estado de espírito, portanto, havia atravessado mais um dia vulgar e tolerável, quando
chegou a noite. Não o iria encerrar, entretanto, da maneira normal e conveniente a um homem
um tanto enfermo que devia ir para a cama tentado por uma botija de água quente. Em vez
disso, calcei os sapatos um tanto mal-humorado, descontente e insatisfeito como parco
trabalho que fizera, e saí para as ruas escuras e nevoentas para beber no Elmo de Aço, o que
de acordo com antiga convenção os homens chamavam de “um copinho de vinho”
Assim desci eu os degraus de minha mansarda, essa escura escada dos estranhos à casa, essa
escada inteiramente bur

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guesa, encerada e limpa, de uma casa de respeito, de três famílias decentíssimas, em cujo
sótão eu vivia. Não sei por que
motivo, eu, o Lobo da Estepe, o sem pátria e solitário odiador mundo burguês, sempre morei
em verdadeiras casas burguesas, talvez por um velho sentimentalismo de minha parte. Não
vivia nem em palácios nem em casas proletárias, mas precisamente naqueles ninhos da
pequena-burguesia, decen-tíssimos, cheios de tédio e cuidadosamente conservados, onde há
sempre um cheiro de terebentina e sabão e onde todos se sobressaltam quando alguém deixa a
porta bater com força ou entra com sapatos sujos de lama. O amor por essa atmosfera vinda,
sem dúvida, de minha infância, e meu secreto anseio por algo assim como um lar sempre me
leva desesperadamen-te por esses velhos e estúpidos caminhos. Além disso, agrada-me o
contraste que apresenta a minha vida, esta minha vida solitária, sem amor, gasta e
inteiramente desordenada, em relação ao ambiente familiar e burguês. Agrada-me respirar na
escada este cheiro de calma, de ordem, de limpeza, de decência e de domesticidade, o que,
apesar de meu desprezo pela burguesia, tem sempre algo de comovente para mim, e me apraz
também atravessar o umbral do meu quarto, em cujo interior tudo isso se acaba, onde entre os
montões de livros aparecem pontas de cigarro e garrafas de vinho vazias, onde tudo está
desordenado e negligente, e onde tudo, livros, manuscritos, pensamentos, está marcado e
embebido pela miséria do solitário, pela problemática do ser humano, pelo anseio de dar um
novo sentido a uma vida humana que já perde seu rumo.
E então passei pelo pinheirinho. No segundo andar deste prédio, a escada conduz à entrada de
um apartamento que te, sem dúvida, ainda mais limpo e mais asseado que os de-mais, pois
esse pequeno vestíbulo resplandece de um cuidado sobre-humano e ergue-se como se fora um
brilhante templo da ordem. Sobre o assoalho encerado, onde se teme pisar de tão brilhante,
estão colocados dois elegantes tamboretes e sobre
cada um deles um vaso de plantas; num, cresce uma azá


lea e no outro um pinheirinho, uma árvore anã, magnífica, sadia e vigorosa, da maior
perfeição, cujas últimas agulhas no extremo dos ramos brilham de frescor e limpeza. Às
vezes, quando não estou sendo observado, uso esse lugar como um templo. Sento-me num
degrau da escada acima do pinheirinho e, descansando um pouco, os dedos cruzados,
contemplo esse pequeno jardim da ordem e deixo que sua aparência en-ternecedora e sua
solidão um tanto ridícula me comovam até às profundezas da alma. Fico imaginando que
além daquele vestíbulo, sob a sagrada sombra, por assim dizer, do pinheirinho, existe um lar
cheio de móveis de mogno lustrosos e uma vida saudável e plena de respeitabilidade, com
obrigações de levantar cedo, de respeito aos deveres, de comedidas, mas alegres festas
familiares, de ir à igreja aos domingos e de ir cedo para a cama.
Com pretensa alegria, percorri as ruas cujo asfalto estava molhado pela chuva; as luzes dos
postes, chorosas e veladas, através da úmida e fria obscuridade, projetavam no chão molhado
luminosos reflexos de luz como num espelho. Nesse momento desfilaram em minha memória
os anos de minha juventude: como admirava, então, aquelas enevoadas tardes de outono ou de
inverno! como respirava, ansioso e embevecido, a sensação de isolamento e de melancolia,
quando, noite adentro, enrolado em meu capote, atravessava as chuvas e tempestades de uma
natureza hostil e revoltada, e caminhava errante, pois naquele tempo já era só, mas ia repleto
de profunda satisfação e de versos, que mais tarde escrevia, em meu quarto, à luz de uma
vela, sentado à beira da cama! Agora tudo aquilo havia passado, sorvido fora aquele cálice
que já não voltaria a encher-se para mim. Havia razão para lamentar? Nada há que lamentar.
O passado não me causava lástima. Lastimáveis eram o agora e o presente, todas essas horas e
dias incontáveis que eu perdia, que eu vivia em sofrimento, que não me traziam nenhuma
dádiva nem a menor comoção.
Mas, graças a Deus, havia também exceções, havia também, às vezes, pelo menos horas que
me traziam grandes co

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moções, grandes dádivas, que me transportavam a mim, o extraviado, de volta ao vivo
coração do mundo. Triste, embora excitado intimamente, procurei lembrar-me do último
acontecimento dessa natureza. Fora um concerto; executavam música antiga e excelente, e
então, entre dois compassos do piano, abriu-se para mim a porta do além, atravessei o céu e vi
Deus em seu trabalho, sofri dores bem-aventuradas, deixei tombar minhas defesas e passei a
não temer mais nada no mundo, a assentir a tudo e a tudo entreguei meu coração. Não durou
muito, talvez um quarto de hora; mas, de novo, me voltou aquela sensação em sonhos, e desde
então, através dos dias tristes, consigo captar um reflexo dela de quando em vez, ora
claramente, por um instante, como dourada mancha divina caminhando através de minha
vida, quase sempre impregnada de pó e de lodo, ora voltando a brilhar de súbito com raios de
ouro, dando-me a impressão de que jamais a perderia, para logo ocultar-se de repente. Uma
noite aconteceu que, estando insone, comecei a declamar versos, versos muito mais belos e
estranhos do que jamais teria sonhado escrever, versos que de manhã já havia esquecido, mas
que permaneciam ocultos dentro de mim como um duro cerne sob a casca quebradiça. Outra
vez, ocorreu-me isto com a leitura de um poeta, ou meditando um pensamento de Descartes,
de Pascal; e numa outra, vi brilhar de novo a trilha dourada, que conduzia ao céu, quando me
encontrava na presença de minha amada. Ah, é difícil achar esse trilho de Deus em meio à
vida que levamos, na embrutecida monotonia de uma era de cegueira espiritual, com sua
arquitetura, seus negócios, sua política e seus homens! Como não haveria de ser eu um Lobo
da Estepe e um mísero eremita em meio de um mundo de cujos objetivos não compartilho,
cuja alegria não me diz respeito! Não consigo permanecer por muito tempo num teatro ou
num cinema. Mal posso ler um jornal, raramente leio um livro moderno. Não sei que prazeres
e alegrias levam as pessoas a trens e hotéis superlotados, aos cafés abarrotados, com sua
música sufocante e vulgar, aos bares e espetáculos de varieda

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des, às Feiras Mundiais, aos Corsos. Não entendo nem compartilho essas alegrias, embora
estejam ao meu alcance, pelas quais milhares de outros tanto anseiam. Por outro lado, o que
se passa comigo nos meus raros momentos de júbilo, aquilo que para mim é felicidade e vida
e êxtase e exaltação, procura-o o mundo em geral nas obras de ficção; na vida parece-lhe
absurdo. E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos cafés, essas diversões em
massa e esses tipos americanizados que se satisfazem com tão pouco têm razão, então estou
errado, estou louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes — aquele
animal extraviado que não encontra abrigo nem alegria nem alimento num mundo que lhe é
estranho e incompreensível.
Com esses pensamentos costumeiros fui andando pela rua molhada de um dos mais tranquilos
e antigos recantos da cidade. Do lado oposto destacava-se na escuridão um velho muro de
pedra que sempre tive prazer em olhar. Velho e sereno, situava-se entre uma igrejinha e um
antigo hospital. Frequentemente, durante o dia, era em sua áspera superfície que meus olhos
descansavam. Havia poucos locais assim tão quietos e aprazíveis no centro da cidade, onde o
usual era que em cada canto houvesse algum comerciante, ou advogado, ou charlatão, ou
médico, ou barbeiro, ou calista apregoando o seu nome. Desta vez, também, o muro era
pacífico e sereno; entretanto, alguma coisa nele havia mudado. Fiquei surpreso ao ver uma
pequena e delicada porta ogival aberta em meio ao muro, pois não conseguia lembrar-me se
aquela entrada já existia ali ou se tinha sido recentemente feita. Pareceu-me antiga,
antiquíssima sem dúvida; possivelmente aquela porta fechada, com suas folhas de madeira
escura, desse, desde há alguns séculos, para o interior de um pátio de convento. E possível
que já tivesse visto aquela porta centenas de vezes e nunca reparasse nela; talvez a tivessem
pintado recentemente e isto me atraísse agora a atenção para ela. Fiquei parado algum tempo,
olhando para o outro lado da rua, mas sem atravessar, pois a rua estava cheia de lama;
permaneci na calçada,

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olhando simplesmente para o outro lado. Escurecera bastan-te me pareceu que em torno da
porta se desenhava uma auréola ou guirlanda multicor. E quando me esforcei por examiná-la,
distingui sobre o portal um escudo luminoso, em que me pareceu haver alguma coisa escrita.
Como não conseguisse ler do outro lado, atravessei a rua, apesar das poças d’água. Então vi
sobre o portal, desenhado sobre o esverdeado sujo da parede, um retângulo esbranquiçado,
sobre o qual corriam letras maiúsculas, que apareciam e desapareciam com grande rapidez.
“Também já aproveitaram este velho muro, pensei, para anúncios luminosos!” Enquanto isto,
consegui decifrar algumas das fugitivas palavras; eram difíceis de ler e davam lugar a muitas
confusões por virem as letras separadas por espaços desiguais, e se acenderem muito débeis
para logo se apagar. A pessoa que quisesse fazer propaganda com aquele anúncio não devia
ser muito inteligente; seria algum Lobo da Estepe, algum pobre-diabo. Por que deixar aquelas
letras correrem, naquele muro, situado numa ruela escura da parte velha da cidade, àquela
hora, com um tempo tão chuvoso, quando ninguém passava por ali, e por que eram letras tão
extravagantes, tão fugazes, trémulas e ilegíveis? Mas, espere! por fim eu conseguia ler, uma
após outra, várias palavras que diziam:

TEATRO MAGICO
ENTRADA SÓ PARA OS RAROS SÓ PARA OS RAROS

Tentei abrir a porta, mas a velha e pesada aldrava não cedia. O letreiro luminoso se apagara
de repente, triste ao comprovar sua inutilidade. Dei alguns passos atrás, acabei pisando na
lama e não consegui ver mais as letras; o anúncio desaparecera por completo, e por muito
tempo permaneci de pé, em meio à poça d’água, mas esperei em vão.
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Quando então desisti e regressei ao passeio, vi, refletidas sobre o asfalto brilhante, umas
poucas palavras luminosas Li:
SÕ… PA… RA… LOU… COS!
Tinha os pés molhados e estava tiritando; não obstante, detive-me algum tempo a esperar.
Nada mais. E enquanto esperava, pensando em como as letras haviam dançado tão belas no muro úmido e no negro asfalto luzidio, veio-me à memória um trecho dos meus últimos
pensamentos: a similaridade que havia entre o letreiro e a trilha dourada que, de repente, se tornava distante e inencontrável.
Sentia frio e continuei a andar, sonhando com a trilha dourada, ansiando pela porta daquele
teatro mágico só permitido aos loucos. Havia chegado, entretanto, à praça principal, onde não
faltavam distrações noturnas; a cada passo havia cartazes e pendiam letreiros anunciando as
atrações: “Orquestra feminina”, “Variedades”, “Cinema”, “Dan-cing” — mas nada daquilo era
para mim, tudo aquilo era para os normais, as pessoas comuns, todos aqueles que eu via
entrarem pelas portas em tropel. Todavia, minha tristeza se desvanecera um pouco, pois fora
saudada com um aceno do outro mundo: algumas letras saltitantes haviam tocado minha alma
e plangido suas cordas secretas; um resplendor da trilha dourada se fizera novamente visível.
Busquei a pequena e antiga taverna onde nada havia mudado desde minha primeira visita a esta cidade há cerca de vinte e cinco anos; a dona da casa ainda era a mesma e muitos dos
fregueses de agora deviam ser aqueles que ali se sentavam naquela época, diante dos mesmos
copos. Eu entrara na modesta taverna como num refúgio. Mas era só um refúgio; como no
patamar do pinheirinho, encontrava também ali não a pátria ou a comunidade, mas apenas um
tranquilo posto de observação diante de um cenário, em que pessoas estranhas representavam
estranhas comédias. Mas aquele tran36


qüilo observatório encerrava outra vantagem; não havia ali multidão, nem gritos, nem música,
mas somente alguns cidadãos sentados diante de toscas mesas de madeira (sem már more,
sem aplicações de metal, sem coberturas de feltro!), e, diante de cada um, uma jarra de bom
vinho. Talvez aqueles poucos fregueses, aos quais conhecia de vista, não passassem de
verdadeiros filisteus e tivessem em casa altares domésticos erigidos aos tímidos ídolos da
resignação, ou talvez fossem uns pobres-diabos sem rumo como eu, pacíficos bebedores,
cheios de pensamentos sobre a falência dos ideais, uns Lobos da Estepe iguais a mim; não sei.
A cada um levava-o até ali uma nostalgia, uma decepção, a necessidade de um substitutivo: o
casado buscava a atmosfera de seu tempo de solteiro, o velho funcionário ia lembrar-se de seu
tempo de estudante. Todos estavam silenciosos e eram pessoas que, como eu, estavam melhor sentadas diante de um vinho da Alsácia do que diante de uma orquestra feminina. Ali permaneceria ancorado, ali haveria de ficar por uma hora ou duas. Mal bebi o primeiro gole
de vinho, lembrei-me de que não havia comido nada o dia inteiro, após o café da manhã.
É incrível o que um homem pode tragar! Estive lendo um jornal durante uns dez minutos;
permiti que através dos olhos, entrasse em mim o espírito de um homem irresponsável, que
mastiga e rumina palavras dos outros e as devolve depois sem digerir. Desse vómito absorvi
uma coluna inteira. Depois devorei um bom pedaço de fígado cortado ao corpo de um novilho
morto. Não é mesmo incrível?! O melhor foi o vinho. Não me agrada o vinho forte e travoso,
para o uso diário, mesmo desses afamados, que têm um sabor especial. Prefiro os vinhos
simples, puros, mais leves e modestos, sem nome conhecido; desses pode-se tomar boa
quantidade e têm um grato sabor a campo, a terra, a céu e a bosque. Um copo de vinho da
Alsácia e um pedaço de pão é o melhor de todos os alimentos. Mas àquela altura já havia
engolido minha porção de fígado (um prazer pouco comum para mim, que raramen-te como
carne) e o segundo copo fora posto à minha frente.


37


Também me pareceu extraordinário que em alguma parte dos verdes vales homens fortes e
trabalhadores houvessem plantado videiras e depois pisado as uvas, para, mais tarde, aqui e ali, em lugares distantes, alguns quietos e desiludidos cidadãos e um desesperado Lobo da Estepe pudessem extrair de seus copos um pouco de confiança e de alegria.
A mim, pelo menos, parecia extraordinário! Era bom, ajudava a despertar o humor. As
palavras pastosas do jornal arrancaram-me uma gargalhada intempestiva e, de súbito, lembrei-
me da esquecida melodia do órgão, que ascendia em mim como uma pequena bolha de sabão,
refulgente, refle-tindo policrômica e diminuta o mundo inteiro, para logo rebentar-se
suavemente. Se fosse possível àquela melodia celestial arraigar-se secretamente em minha
alma e um dia florescer com todos os seus alegres matizes, é que nem tudo estava perdido! E
embora eu fosse um animal sem rumo, incapaz de compreender o mundo circundante, não
faltava um sentido à minha vida insensata; algo ecoava em mim, em meu cérebro estavam
amontoadas mil imagens: um tropel de anjos de Giotto na abóbada azul de uma igreja em
Pádua, e junto deles Hamlet e a coroada Ofélia, bela parábola de todas as tristezas e
incompreensões do mundo; lá estava num balão ardente o aeronauta Gianozzo que soprava
uma corneta; Attila Schmelzle com seu chapéu novo na mão, o Borobudur arrojando aos ares
sua montanha de esculturas. E embora todas aquelas figuras formosas vivessem igualmente
em mil outros corações, havia umas dez mil outras imagens e harmonias desconhecidas, cuja
vivência só estava em mim, que outros olhos não veriam, nem as escutariam outros ouvidos
senão os meus. O velho muro do hospital, com sua cor verde-escura, suas imperfeições e
rachaduras, no qual milhares de afrescos podiam ser adivinhados, quem lhe dava atenção,
quem contemplava sua alma, quem o amava, quem sentia o encanto de suas cores delicadas e
moribundas? Os velhos manuscritos dos monges, iluminados por delicadas miniaturas, e os
livros dos poetas alemães de há duzentos ou cem anos, esquecidos pelo

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eu próprio povo, livros manchados e carcomidos pela umida-de, os impressos e manuscritos
dos velhos compositores, as partituras vigorosas e amarelecidas, com seus imobilizados tons
de sonho — quem escutava suas vozes espirituais, irônicas e nostálgicas? Quem tinha o
coração repleto de seu encanto num mundo a elas estranho? Quem pensava até hoje naquele
cipreste pequenino e tenaz que se erguia no alto da montanha de Gubbio que, embora partido
e arrancado por uma avalancha de pedras, continuava entretanto a viver e havia levantado
com suas últimas forças uma nova copa bisonha? Quem fizera justiça à diligente dona-de-casa
do primeiro andar e ao seu luzido pinheirinho? Quem lia à noite, sobre o Reno, a inscrição
que as nuvens formavam na névoa? O Lobo da Estepe. E quem buscava entre os escombros
da vida o seu significado esvoaçante, quem sofria com a aparente insensatez, quem vivia com

o que parecia louco, quem esperava em segredo no último e confuso abismo a revelação de
Deus e sua vinda?
Afastei o copo de vinho quando a dona da casa veio enchê-lo de novo, e levantei-me. Não
necessitava mais vinho. A trilha dourada voltara a refulgir, eu havia recordado o eterno:
Mozart, as estrelas. Podia voltar a respirar por uma hora, podia existir, não necessitava sofrer
tormentos, nem temores, nem vergonhas.
Quando saí à rua, que se tornara silenciosa, as gotas da chuva, açoitadas pelo vento frio,
davam de encontro às lâmpadas em cintilações cristalinas. Aonde ir? Se naquele momento eu
pudesse concretizar por encantamento um só desejo, gostaria de ver-me num gracioso salão
estilo Luís XVI, onde um par de bons músicos estaria tocando para mim duas ou três peças de
Hàndel e de Mozart. Tal era a minha disposição naquele instante e teria degustado a música
como os deuses saboreiam o néctar. Oh! se tivesse agora um amigo, um amigo que vivesse
nalguma água-furtada, sonhando à luz de uma vela, com o violino ao alcance da mão! Como o
iria surpreender em sua paz noturna, após subir silencioso pela esca39

da em espiral, e lá haveríamos de passar algumas horas espiri. tuais a conversar sobre música!
Em dias que já se foram, saboreei com frequência esse tipo de felicidade, mas também ela se
distanciara de mim com o passar do tempo; entre o então e o agora muitos anos emurchecidos
se interpunham.
Iniciando lentamente o regresso a casa, ergui a gola do casaco e batia com a bengala contra o
úmido pavimento. Por mais que me demorasse na rua, acabava sempre por regressar ao meu
refugio, ao meu falso lar, que eu não amava e do qual, no entanto, não podia prescindir, pois
já se fora para mim o tempo em que podia passar na rua toda uma noite chuvosa de inverno.
Agora tudo o que eu desejava era não deixar desvanecer em mim a animação do instante, nem
pela ação da chuva, da gota que me afligia ou do sentimento que me causasse o pinheirinho.
Embora não tivesse a música de câmara nem encontrasse o solitário amigo violinista, ressoava
em meu interior aquela graciosa melodia e eu próprio podia executá-la para mim, trauteando-a
ao rítmico compasso de minha respiração. Continuei meu c?minho a meditar. Sim, eu podia
arranjar-me mesmo sem música de câmara e sem amigo, e era ridículo consumir-me no
impotente desejo de calor humano. Solidão é independência, com ela eu sempre sonhara e a
obtivera afinal após tantos anos. Era fria, oh! sim!, mas também era silenciosa e grande como

o frio espaço silente em que giram as estrelas.
De um salão de dança, diante do qual passei, me veio o ritmo de uma vívida música de jazz,
como o odor bravio e quente da carne crua. Detive-me um momento; aquela espécie de
música sempre tivera para mim um secreto encanto, apesar do muito que a detestava. O jazz
me repugnava, mas me era cem vezes mais agradável do que toda a música acadêmica de
hoje, me submergia profundamente no mundo dos impulsos com seu alegre e rude barbarismo
e respirava uma ingênua e honrada honestidade.
Permaneci um momento no faro, a sentir o cheiro da música sangrenta e aguda, a olfatar
malignamente cobiçoso a
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atmosfera daquela sala. Parte da música, a lírica, era pegajosa melíflua e cheia de
sentimentalismo; a outra, selvagem, extravagante, cheia de força; no entanto, ambas as partes
caminhavam juntas, ingênua e amistosamente, e formavam um todo. Era música decadente.
Devia haver música assim na Roma dos últimos césares. Naturalmente era uma baboseira,
comparada com Bach e Mozart e a música dos grandes mestres; mas assim também era toda
nossa arte, todo nosso pensamento, toda nossa aparência de cultura, quando comparada com a
verdadeira cultura. E esta música tinha a vantagem de possuir uma grande sinceridade, de ser
sinceramente ne-gróide, cheia de um humor alegre e infantil. Tinha algo dos negros e algo dos
americanos, que a nós, europeus, parecem tão fortes e cheios de infantilidade. Chegaria a
Europa a ser assim? Já estava a caminho disto? Éramos nós, velhos conhecedores e
reverenciadores da verdadeira poesia de outros tempos, apenas uma minoria estúpida de
complicados neuróticos, que amanhã seriam esquecidos e ridicularizados? O que chamamos
cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria
simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia
dúzia de loucos como nós? Quem sabe se realmente, nem era verdadeiro, nem sequer teria
existido? Não teria sido mais que uma quimera tudo aquilo que nós, os loucos, tanto
defendíamos?
O velho bairro me acolheu. A pequena igreja estava na penumbra, apagada e irreal. De
repente, veio-me à memória o acontecimento daquela noite, a misteriosa ogiva com sua
enigmática inscrição de letras luminosas a dançarem furtivas. Que dizia o letreiro? “Entrada
só para os raros” e “Só para loucos”. Olhei inquisitivamente para os velhos muros, desejando
secretamente que o prodígio se repetisse, que a inscrição me convidasse como louco, que a
porta me deixasse entrar. Ali, provavelmente, estaria o que eu desejava, ali, tal-vez,
interpretassem minha música.

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Resignado, olhava o escuro muro de pedra, cercado de trevas, imerso profundamente em seu
sono. E não havia nenhuma porta nem arco ogival, só o escuro e silencioso muro sem
aberturas. Passei adiante sorrindo, saudei amistosamente o muro. ‘ ‘Durma bem. Não vou
acordá-lo. Qualquer dia será derrubado ou o cobrirão de anúncios de firmas cobiçosas de
dinheiro: mas agora, ainda está aí, belo e quieto como sempre, e eu o amo por isso.”
Saindo de um escuro beco, surgiu à minha frente, assustando-me, um indivíduo, um solitário
caminhante que tarde se recolhia ao lar; de passo fatigado, com gorro na cabeça, uma blusa
azul, levava ao ombro um pau donde pendia um cartaz e, diante do ventre, preso por correias,
um pequeno caixote, como os vendedores ambulantes de feira. Lento, caminhava à frente; ao
passar por mim não se voltou para olhar-me, pois se o tivesse feito, até que o teria
cumprimentado e possivelmente lhe daria um cigarro. Ã luz do poste seguinte, tentei ler seu
estandarte, o anúncio vermelho cravado na extremidade da haste; mas esta oscilava tanto que
não consegui decifrar nada. Chamei o homem e lhe pedi que me mostrasse o placar. Deteve-
se e segurou a haste um pouco mais erguida, de modo que pude soletrar em caracteres
maiúsculos e inseguros:
NOITADA ANARQUISTA!
TEATRO MÁGICO! ENTRADA SÓ PARA RA…

— Estava à sua procura — exclamei alegre. — Que noitada é essa? Onde é? Quando vai ser?
O homem continuou a caminhar.
— Não é para qualquer um — disse indiferente, com voz sonolenta, e continuou seu
caminho.
— Espere — gritei, correndo atrás dele. — Que leva nessa caixa? Gostaria de comprar-lhe
alguma coisa.
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Sem se deter, apanhou um folheto na caixa, mecanicamente, entregou-o a mim. Apanhei e
guardei-o. Enquanto desabotoava o casaco para tirar dinheiro, o homem desaparc ceu por um
portão, que se cerrou às suas costas. No pátio, ouvi soarem ainda seus passos pesados:
primeiro, nas lajes do pavimento; depois, a subir uma escada de madeira; e não ouvi mais
nada. Foi quando, de repente, me senti também muito cansado e tive a sensação de que era
muito tarde e que seria conveniente regressar a casa. Corri apressado, e logo me encontrei em
meu quarteirão, após atravessar as adormecidas ruelas do arrabalde, onde moravam, em
pequenas casas muito limpas, atrás de um pouco de grama e hera, funcionários públicos e
pequenos pensionistas.
Passando diante da hera, diante da grama, diante do pequeno abeto, cheguei à porta de casa,
procurei o buraco da fechadura, achei o interruptor da luz, deslizei pela porta envidraçada,
passei diante dos armários envernizados e do vasos de planta e me enfurnei em meu quarto,
em minha pequena aparência de lar, onde me esperava a poltrona e a estufa, o tinteiro e a
caixa de tintas, Novalis e Dostoievski, assim como aos outros homens, os homens
verdadeiros, os esperam quando voltam a casa a mãe ou a mulher, os filhos, os criados, os
cães e os gatos.
Quando tirei o casaco úmido, voltou a cair-me entre as mãos o pequeno folheto. Era um
livrinho delgado, impresso em papel muito ruim; um livreto de feira, como aqueles fascículos
intitulados O Homem que Nasceu em Janeiro ou Como Tornar-se Vinte Anos Mais Jovem em
Oito Dias

Mas, quando me achava acomodado na poltrona e pusera os óculos para ler, com grande
admiração e com a sensação repentina de que ali estava encerrado o meu Destino, dei com o
título que figurava na capa do opúsculo: Tratado do Lobo da Estepe. Somente para os raros.
E seguia o conteúdo do livreto, que li de um só fôlego, em contínuo e crescente interesse:

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TRATADO
DO LOBO
DA ESTEPE

Só para loucos


Era uma vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, _
usava roupas e era um homem, mas não
obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as
pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia
aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida. Era
incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto, do fato de que, no
fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e
sim um lobo das estepes. As pessoas argutas poderão discutir a propósito de ser ele realmente
um lobo, de ter sido transformado, talvez antes
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seu nascimento, de lobo em ser humano, ou de ter nascido homem, porém dotado de alma de
lobo ou por ela dominado ou, finalmente, indagar se essa crença de que ele era um lobo não
passava de um produto de sua imaginação ou de um estado patológico. É admissível, por
exemplo, que, em sua infância, fosse rebelde, desobediente e anárquico, o que teria levado
seus educadores a tentar combater a fera que havia nele, dando ensejo assim a que se
formasse em sua imaginação a ideia e & crença de que era, realmente, um animal selvagem,
coberto apenas com um ténue verniz de civilização. A esse propósito poder-se-iam tecer
longas considerações e até mesmo escrever, livros; mas isso de nada valeria ao Lobo da
Estepe, pois para ele era indiferente saber se o lobo se havia introduzido nele por
encantamento, à força de pancada ou se era apenas uma fantasia de seu espírito. O que os
outros pudessem pensar a este respeito ou até mesmo o que ele próprio pudesse pensar, em
nada o afetaria, nem conseguiria afetar o lobo que morava em seu interior.
O Lobo da Estepe tinha, portanto, duas naturezas, uma de homem e outra de lobo; tal era o
seu destino, e nem por isso tão singular e raro. Deve haver muitos homens que tenham em si
muito de cão ou de raposa, de peixe ou de serpente sem que com isso experimentem maiores
dificuldades. Em tais casos, o homem e o peixe ou o homem e a raposa convivem
normalmente e nenhum causa ao outro qualquer dano; ao contrário, um ajuda o outro, e muito
homem há que levou essa condição a tais extremos a ponto de dever sua felicidade mais à
raposa ou ao macaco que nele havia, do que ao próprio homem. Tais fatos são bastante
conhecidos. No caso de Harry, entretanto, o caso diferia: nele o homem e o lobo não
caminhavam juntos, nem sequer se ajudavam mutuamente, mas permaneciam em contínua e
mortal inimizade e um vivia apenas para causar dano ao outro, e quando há dois inimigos
mortais num mesmo sangue e na mesma alma, então a vida é uma desgraça. Bem, cada qual
tem seu fado, e nenhum deles é leve

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Com nosso Lobo da Estepe sucedia que, em sua cons-ciência, vivia ora como lobo, ora como
homem, como acontece aliás com todos os seres mistos. Ocorre, entretanto, que quando vivia
como lobo, o homem nele permanecia como espectador, sempre à espera de interferir e
condenar, e quando vivia como homem, o lobo procedia de maneira semelhante. Por exemplo,
se Harry, como homem, tivesse um pensamento belo, experimentasse uma sensação nobre e
delicada, ou praticasse uma das chamadas boas ações, então o lobo, em seu interior,
arreganhava os dentes e ria e mostrava-lhe com amarga ironia o quão ridícula era aquela
nobre encenação aos seus olhos de fera, aos olhos de ura lobo que sabia muito bem em seu
coração o que lhe convinha, ou seja, caminhar sozinho nas estepes, beber sangue vez por
outra ou perseguir alguma loba. Toda ação humana parecia, pois, aos olhos do lobo
horrivelmente absurda e despropositada, estúpida e vã. Mas sucedia exatamente o mesmo
quando Harry sentia e se comportava como lobo, quando arreganhava os dentes aos outros,
quando sentia ódio e inimizade a todos os seres humanos e a seus mentirosos e degenerados
hábitos e costumes. Precisamente aí era que a parte humana existente nele se punha a espreitar

o lobo, chamava-o de besta e de fera e o lançava a perder, amargurando-lhe toda a satisfação
de sua saudável e simples natureza lupina.
Era isso o que ocorria ao Lobo da Estepe, e pode-se perfeitamente imaginar que Harry não
levasse de todo uma vida agradável e feliz. Isto não quer dizer, entretanto, que sua
infelicidade fosse por demais singular (embora assim lhe pudesse parecer, da mesma forma
como qualquer pessoa toma o sofrimento que se abate sobre ela como sendo o maior do
mundo). Isso não pode ser dito a propósito de ninguém. Mesmo aquele que não tem em seu
interior um lobo, nem por isso pode ser considerado mais feliz. E mesmo a mais infeliz das
existências tem os seus momentos luminosos e suas pequenas flores de ventura a brotar entre
a areia e as pedras. Assim acontecia também com o Lobo da Estepe. Não se pode negar
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fosse, em geral, muito infeliz, e podia também fazer os outros infelizes, especialmente quando
os queria ou era por eles estimado. Pois todos os que com ele se deram viram apenas uma das
partes de seu ser. Muitos o estimaram por ser uma pessoa inteligente, refinada e arguta, e
mostraram-se horrorizados e desapontados quando descobriam o lobo que morava nele. E
assim tinha de ser pois Harry, como toda pessoa sensível, queria ser amado como um todo e,
portanto, era exatamente com aqueles cujo amor lhe era mais precioso que ele não podia de
maneira alguma encobrir ou perjurar o lobo. Havia outros, todavia, que amavam nele
exatamente o lobo, o livre, o selvagem, o indómito, o perigoso e o forte, e estes achavam
profundamente decepcionante e deplorável quando o selvagem e perverso se transformava em
homem, e mostrava anseios de bondade e refinamento, gostava de ouvir Mo-zart, de ler
poesia e acalentar ideais humanos. Em geral, estes se mostravam mais desapontados e
irritados do que os outros, e dessa forma o Lobo da Estepe levava sua própria natureza dual e
discordante aos destinos alheios toda vez que entrava em contato com as pessoas.
Quem, entretanto, imaginar que conhece o Lobo da Estepe e pode analisar sua existência
lamentavelmente dividida, incorrerá, sem dúvida, em erro, pois ainda não sabe tudo. Não sabe
que (como não há regra sem exceção e como um simples pecador em certas circunstâncias
pode ser mais querido a Deus do que noventa e nove justos) Harry também conhecia de
quando em vez exceções e momentos ditosos em que, tanto o lobo quanto o homem podiam
respirar, pensar e sentir em harmonia, e mesmo em raras ocasiões estabelecer a paz e viver um
para o outro de tal forma que não apenas um vigiava enquanto o outro dormia, mas também se
fortaleciam ambos e cada um duplicava a energia do outro. Também na vida desse homem
parecia, como em todas as panes do mundo, que o costumeiro, o consuetudinário, o conhecido
e o normal tinham simplesmente por objeto permitir de quando em quando a pausa de um
segundo de duração para dar lugar
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ao extraordinário, ao milagroso, à graça. Se tais curtas e raras horas de ventura compensavam
e dulcifícavam a triste sina do Lobo da Estepe, de forma que a felicidade e a desventura
viessem a equilibrar-se finalmente na balança, ou se, talvez, este breve mas intenso usufruir
daquelas poucas horas compensava todo o sofrimento e deixava um saldo favorável de
alegria, é uma questão sobre a qual podem meditar as pessoas ociosas a seu talante. Também

o Lobo meditava muito sobre isso, em seus dias mais ociosos e inúteis.
A esse propósito há que acrescentar algo. Muita gente existe que se assemelha a Harry;
especialmente muitos artistas pertencem a essa classe de homens. Todas essas pessoas têm
duas almas, dois seres em seu interior; há neles uma parte divina e uma satânica, há sangue
materno e paterno, há capacidade para a ventura e para a desgraça, tão contrapostas e hostis
como eram o lobo e o homem dentro de Harry. E esses homens, para os quais a vida não
oferece repouso, experimentam às vezes, em seus raros momentos de felicidade, tanta força e
tão indizível beleza, a espuma do instante de ventura emerge às vezes tão alta e
deslumbradora sobre o mar da dor, que sua luz, espargindo radiância, vai atingir a outros com
o seu encantamento. A isto se devem, a essa preciosa e momentânea espuma sobre o mar do
sofrimento, todas aquelas obras artísticas em que o homem solitário e sofredor se eleva por
uma hora tão alto sobre o seu próprio destino, que sua felicidade brilha como uma estrela, e
parecem a todos os que a vêem como algo eterno e como se fosse seu próprio sonho de
ventura. Todas essas pessoas, sejam quais forem seus atos e obras, não têm propriamente uma
vida, ou seja, sua vida carece de essência e de forma, não são heróis, nem artistas, nem
pensadores da maneira como os demais homens são juizes, doutores, sapateiros ou mestres;
sua existência é um movimento de fluxo e refluxo, está infeliz e dolorosamente partida e é
sinistra e insensata, se não estivermos propensos a ver um sentido precisamente naqueles
raros acontecimentos, ações, pensamentos e obras que brilham às vezes sobre o caos
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de semelhante vida. Entre os homens dessa espécie surgiu o perigoso e terrível pensamento de
que, talvez, toda a vida do homem não passa de um espantoso erro, de um aborto brutal da
mãe primeva, um cruel e selvagem intento frustrado da Natureza. Mas entre eles surgiu
também a ideia de que o homem talvez não seja apenas um animal dotado de razão, mas o
filho de Deus destinado à imortalidade.
Cada espécie de homens tem suas características, seus aspectos, seus vícios e virtudes e seus
pecados mortais. Um dos signos do Lobo da Estepe era o de ser um noctívago. A manhã era
para ele a pior parte do dia, causava-lhe temor e nunca lhe trouxera nada de bom. Nunca fora
alegre em qualquer manhã de sua vida, nunca fizera nada de bom na primeira metade do dia,
não tivera boas ideias, nem divisara nenhuma alegria para ele ou para os demais. Ao começar
a tarde, ia reagindo lentamente, principiava a se animar e, ao cair da noite, em seus melhores
dias, tornava-se frutífero, ativo e, às vezes, até brilhante e alegre. Disso decorria sua
necessidade de isolamento e de independência. Nunca existira um homem com tão profunda e
apaixonada necessidade de independência como ele. Em sua juventude, quando ainda era
pobre e tinha dificuldades em ganhar a vida, preferia passar fome e andar mal vestido a
sacrificar uma parcela de sua independência. Nunca se vendera por dinheiro ou vida fácil às
mulheres ou aos poderosos, e mil vezes desprezara o que aos olhos do mundo representa
vantagens e regalias, a fim de salvaguardar a sua liberdade. Nenhuma ideia lhe era mais
odiosa e terrível do que a de exercer um cargo, submeter-se a horários, obedecer a ordens. Um
escritório, uma repartição, uma sala de audiência eram-lhe tão odiosos quanto a morte, e o que
de mais espantoso podia imaginar em sonhos seria o confinamento num quartel. Sabia
subtrair-se a todas essas coisas, a custo de grandes sacrifícios e nisso residia sua força e
virtude, nisso era inflexível e incorruptível, nisso seu caráter era firme e retilí-neo. Só que a
essa virtude estavam intimamente ligados seu sofrimento e seu destino. Ocorria a ele o que se
dá com todos
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o que buscava e desejava com um impulso íntimo de seu ser acabava por ser-lhe concedido,
mas em grau demasiadamente superior ao que convém a um homem. A princípio, o que
obtinha parecia-lhe um sonho e uma satisfação, mas logo se revelava como sendo o seu
amargo destino. Assim, o poderoso era arruinado pelo poder, o rico pelo dinheiro, o
subserviente pela submissão, o luxuoso pela luxúria. O Lobo da Estepe perecia por sua
própria independência. Havia alcançado sua meta, seria sempre independente, ninguém
haveria de mandar nele, jamais faria algo para ser agradável aos outros. Só e livre, decidia
sobre seus atos e omissões. Pois todo homem forte alcança indefectivelmente o que um
verdadeiro impulso lhe ordena buscar. Mas em meio à liberdade alcançada, Harry
compreendia de súbito que essa liberdade era a morte, que estava só, que o mundo o deixara
em paz de uma inquietante maneira, que ninguém mais se importava com ele, nem ele
próprio, e que se afogava aos poucos numa atmosfera cada vez mais ténue de falta de relações
e de isolamento. Havia chegado ao momento em que a solidão e a independência já não eram
seu objetivo e seu anseio, mas antes sua condenação e sua sentença. O maravilhoso desejo
fora realizado e já não era possível voltar atrás e de nada valia agora abrir os braços cheio de
boa vontade e nostalgia, disposto à fraternidade e à vida social. Tinham-no agora deixado só.
Não que fosse motivo de ódio e de repugnância. Pelo contrário, tinha muitos amigos. Um
grande número de pessoas o apreciava. Mas tudo não passava de simpatia e cordialidade;
recebia convites, presentes, cartas gentis, mas ninguém vinha até ele, ninguém estava disposto
nem era capaz de compartilhar de sua vida. Agora rodeava-o a atmosfera do solitário, uma
atmosfera serena da qual fugia o mundo em seu redor, deixando-o incapaz de relacionar-se,
uma atmosfera contra a qual não podia prevalecer nem a vontade nem o ardente desejo. Esta
era uma das características mais significativas de sua vida.
Outra era a de que pertencia ao grupo dos suicidas. E aqui é necessário esclarecer que não se
devem considerar sui52

das somente aqueles que se matam. Entre estes há suicidas que só o chegaram a ser por mero
acaso, e de cuja essência do suicídio não fazem realmente parte. Entre os homens sem
personalidade, sem caeacterísticas definidas, sem destino traçado, entre os homens incapazes
e amorfos, há muitos que perecem pelo suicídio, sem por isso pertencerem ao tipo dos
suicidas, ao passo que há muitos que devem ser considerados suicidas pela própria natureza
de seu ser, os quais, talvez a maioria, nunca atentaram efetivamente contra a própria vida. O
“suicida” — e Harry era um deles — não precisa necessariamente viver em relações
particularmente intensas com a morte; isto se pode fazer sem que se seja um suicida. É
próprio do suicida sentir seu eu, certo ou errado, como um germe da Natureza,
particularmente perigoso, problemático e daninho, que se encontrava sempre
extraordinariamente exposto ao perigo, como se estivesse sobre o pico agudíssimo de um
penedo onde um pequeno toque exterior ou a mais leve vacilação interna seriam suficientes
para arrojá-lo no abismo. Esta classe de homens se caracteriza na trajetória de seu destino
porque para eles o suicídio é a forma de morte mais veros-símil, pelo menos segundo sua
própria opinião. A existência dessa opinião, que quase sempre é perceptível já na primeira
mocidade e acompanha esses homens durante toda sua vida, não representa, talvez, uma
particular e débil força vital, mas, ao contrário, encontram-se entre os suicidas naturezas
extraordinariamente tenazes, ambiciosas e até ousadas. Mas assim como há naturezas que
caem em febre diante da mais ligeira indisposição, assim propendem essas naturezas a que
chamamos “suicidas” e que sempre são muito delicadas e sensíveis à menor comoção, a
entregar-se intensamente à idéia do suicídio. Se tivéssemos uma ciência que possuísse
coragem e autoridade suficientes para ocupar-se do ho-memcm vez de fizê-lo simplesmente
no mecanismo dos fenômenos vitais, se tivéssemos uma verdadeira Antropóloga, uma
verdadeira Psicologia, tais fatos seriam conhecidos de todos.
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O que foi dito acima a propósito dos suicidas só diz res-peito obviamente à superfície; é
psicologia, portanto uma parte da física. Do ponto de vista metafísico, o assunto aparece de
outra forma e muito mais claro, pois, vistos assim, os “suicidas” se nos apresentam como
perturbados pelo senti-mento de culpa inerente aos indivíduos, essas almas que encontram o
sentido de sua vida não no aperfeiçoamento e mol-dagem do ser, mas na dissolução, na volta
à mãe, a Deus, ao Todo. Muitas dessas naturezas são inteiramente incapazes de cometer o
suicídio real, porque têm uma profunda consciência do pecado que isso representa. Para nós,
entretanto, são, apesar disso, suicidas, pois vêem a redenção na morte e não na vida; estão
dispostos a eliminar-se e a entregar-se, a extinguir-se e a voltar ao princípio.
Assim como toda força pode converter-se em fraqueza (e em certas circunstâncias deve fazê-
lo, necessariamente), assim, ao contrário, o suicida típico pode fazer de sua aparente
debilidade uma força e um escudo, o que acontece aliás com certa freqüência. A estes
pertencia também Harry, o Lobo da Estepe. Como milhares de seus semelhantes, fazia da
idéia de que o caminho da morte estava pronto para ele a qualquer momento, não uma
quimera juvenil e melancólica, mas antes encontrava nesse pensamento um apoio e um
consolo. É verdade que nele, como em todos os homens de sua espécie, cada comoção, cada
dor, cada desesperada situação da vida, despertava imediatamente o desejo de livrar-se de
tudo por meio da morte. Mas, pouco a pouco, foi transformando em seu interior essa
tendência numa filosofia que era, na verdade, propensa à vida. A profunda convicção de que
aquela saída de emergência estava constantemente aberta lhe dava forças, fazia-o sentir a
curiosidade de provar seu sentimento até às últimas instâncias. E quando se via na miséria,
podia às vezes sentir com furiosa alegria uma espécie de prazer em sofrer: “Estou curioso por
saber até que ponto um homem pode resistir. E quando alcançar o limite do suportável, basta
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abrir a porta e escapar. ” Há muitos suicidas que extraem força extraordinária deste
pensamento.
Por outra parte, a todos os suicidas é familiar a luta contra a tentação do suicídio. Cada um
deles sabe muito bem, em algum canto de sua alma, que o suicídio, embora seja uma fuga, é
uma fuga mesquinha e ilegítima, e que é mais nobre e belo deixar se abater pela vida do que
por sua própria mão. Tendo consciência disso, a mórbida consciência que é praticamente a
mesma daqueles satisfeitos consigo mesmos, os suicidas em sua maioria são impelidos a uma
luta prolongada contra a tentação. Lutam como os cleptomaníacos lutam contra o próprio
vício. O Lobo da Estepe era bastante afeito a esse tipo de luta; nela já havia combatido com
várias armas. Finalmente, aos quarenta e seis anos de idade, deu com uma idéia feliz, mas não
inofensiva, que lhe causava, não raro, algum deleite. Fixou a data de seu qüinquagésimo
aniversário como o dia no qual se permitiria o suicídio. Nesse dia, convencionara consigo
mesmo, podia usar a saída de emergência, segundo a disposição que demonstrasse. Então
poderia ocorrer-lhe o que fosse, enfermidades, miséria, sofrimentos e amarguras, que tudo
teria um limite, nada poderia estender-se além daqueles poucos anos, meses e dias, cujo
número era cada vez menor. E na realidade suportava agora com mais facilidade males que
antes o teriam atormentado profundamente, males que o teriam comovido até as raízes.
Quando por qualquer motivo as coisas iam particularmente más, quando novas dores e perdas
se vinham juntar à desolação, ao isolamento e ao desespero de sua vida, podia dizer aos seus
algozes: ”Esperai mais dois anos e eu vos dominarei. ” E logo se punha a imaginar o dia de
seu qüinquagésimo aniversário, quando, logo pela manhã, começariam a chegar as cartas e
felicitações, enquanto ele, tomando da navalha, despedir-se-ia das dores e fecharia a porta
atrás de si. Então a gota das juntas, a depressão do espírito e todas as dores de cabeça e do
estômago poderiam procurar outra vítima. 55


Carece ainda de elucidação o fenômeno individual do Lobo da Estepe, e principalmente suas
relações singulares com a burguesia, de modo que tais sintomas devem ser perscrutados em
sua fonte de origem. Tomemos como ponto de partida, já que se nos apresenta por si mesma,
precisamente aquela sua relação com o “burguês”!
O Lobo da Estepe vivia, segundo seu próprio entendimento, inteiramente à margem do mundo
convencional, pois não conhecera nem a vida de família nem as ambições sociais. Sentia-se
isolado ora como um esquisitão e doentio eremita, ora como um indivíduo superiormente
dotado, que por seu gênio se sobressaía do comum dos mortais. Desprezava conscientemente
a burguesia e vivia orgulhoso de não pertencer a ela. Contudo, sob muitos aspectos, vivia
inteiramente como burguês, tinha dinheiro no banco, ajudava alguns parentes pobres, vestia-
se sem cuidados particulares mas de maneira decente e sem chamar a atenção; procurava
viver em paz com a polícia, os coletores de impostos e outros poderes semelhantes. Mas além
disso sentia forte e secreta atração pela vida burguesa, pelas tranqüilas e decentes residências
familiares com seus bem cuidados jardins, suas escadas reluzentes e sua modesta atmosfera de
ordem e decoro. Agradava-lhe ter pequenos vícios e extravagâncias, sentir-se antiburguês,
esquisitão ou gênio, mas nunca fixava residência onde não existisse nenhuma classe de
burguesia. Não se encontrava à vontade em meio de pessoas violentas e atrabiliárias, nem
entre delinqüentes e criminosos, mas antes procurava sempre viver em meio à classe média,
com cujos hábitos, normas e atmosfera estava bem familiarizado, embora pudesse ter contra
elas revolta e oposição. Além disso, fora educado em meio à pequena burguesia e dela
conservara um grande número de idéias e noções. Teoricamente nada tinha em contrário i
prostituição, mas na prática não seria capaz de levar urna prostituta a sério ou considerá-la
realmente sua igual. Aos criminosos políticos, aos revolucionários ou aos sedutores
espirituais, podia amá-los como se fossem seus irmãos, ou respeitar
56


estado e a sociedade, mas não saberia como tratar um la-drão, um criminoso ou sádico, a não
ser demonstrando por eles uma compaixão eminentemente burguesa.
Dessa forma sempre reconhecia e afirmava com uma parte de seu ser, por pensamentos ou
atos, o que com a outra parte negava e combatia. Criado num lar burguês e culto, de moral
firme, nunca chegara a libertar parte de sua alma desses convencionalismos, mesmo depois de
haver-se individualizado na medida do possível dentro da burguesia e haver-se divorciado do
conteúdo dos ideais e das crenças burguesas.
O “burguês, como um estado sempre presente da vida humana, não é outra coisa senão a
tentativa de uma transigência, a tentativa de um equilibrado meio-termo entre os inumeráveis
extremos e pares opostos da conduta humana. Tomemos, por exemplo, qualquer dessas
dualidades, como o santo e o libertino, e nossa comparação se esclarecerá em seguida. O
homem tem a possibilidade de entregar-se por completo ao espiritual, à tentativa de
aproximar-se de Deus, ao ideal de santidade. Também tem, por outro lado, a possibilidade de
entregar-se inteiramente à vida dos instintos, aos anseios da carne, e dirigir seus esforços no
sentido de satisfazer seus prazeres momentâneos. Um dos caminhos conduz à santidade, ao
martírio do espírito, à entrega a Deus. O outro caminho conduz à libertinagem, ao martírio da
carne, à entrega, à corrupção. O burguês tentará caminhar entre ambos, no meio do caminho.
Nunca se entregará nem se abandonará à embriaguez ou ao asceticismo; nunca será mártir
nem consentirá em sua destruição, mas, ao contrário, seu ideal não é a entrega, mas a
conservação de seu eu, seu esforço não significa nem santidade nem libertinagem, o absoluto
lhe é insuportável, quer certamente servir a Deus, mas também entregar-se ao êxtase, quer ser
virtuoso, mas quer igualmente passar bem e viver comodamente sobre a terra. Em resumo,
tente plantar-se em meio aos dois extremos, numa zona temperada e vantajosa, sem grandes
tempestades ou borrascas, e o
57


consegue ainda que à custa daquela intensidade de vida e de sentimentos que uma existência
extremada e sem reservas permite. Viver intensamente só se consegue à custa do eu Mas o
burguês não aprecia nada tanto quanto o seu eu (um eu na verdade rudimentarmente
desenvolvido). Ã custa da intensidade consegue, pois, a subsistência e a segurança; em lugar
da posse de Deus cultiva a tranqüilidade da consciência; em lugar do prazer, a satisfação; em
lugar da liberdade, a comodidade; em lugar dos ardores mortais, uma temperatura agradável.
O burguês é, pois, segundo sua natureza, uma criatura de impulsos vitais muito débeis e
angustiosos, temerosa de qualquer entrega de si mesma, fácil de governar. Por isso colocou
em lugar do poder a maioria, em lugar da autoridade a lei, em lugar da responsabilidade as
eleições.
E compreensível que esta débil e angustiada criatura, embora existindo em número tão
grande, não consiga manter-se, que, de acordo com suas particularidades, não possa
representar outro papel no mundo senão o de rebanho de cordeiros entre lobos erradios.
Contudo, vemos que, em tempos de governos fortes, os burgueses se vêem oprimidos contra a
parede, mas nunca sucumbem; na verdade às vezes parecem mesmo dominar o mundo. Como
será possível? Nem o numeroso rebanho, nem a virtude, nem o senso comum, nem a
organização serão suficientes para salvá-lo da destruição. Não há remédio no mundo que
possa sustentar uma intensidade tão débil em sua origem. E, todavia, a burguesia vive, é forte
e próspera. Por quê?
A resposta é a seguinte: Por causa dos lobos da estepe. Com efeito, a força vital da burguesia
não se apóia de maneira alguma nas particularidades de seus membros normais, porém nas
dos extraordinários e numerosos outsiders* que, em conseqüência, a querem rodear com a
vaga indecisão e a elasticidade de seus ideais. Convivem sempre na burguesia uma grande
multidão de naturezas fortes e selvagens. Nosso Lobo

• Em inglês no original. (N. do T. )
58


Estepe, Harry, é um exemplo característico. Ele que se desenvolveu muito mais do que se
espera de um burguês, ele
que conhece as delícias da meditação e também as sombrias alegrias do ódio e do ódio contra
si mesmo, ele que despreza a lei, a virtude, o senso comum, é, no entanto, um prisioneiro
forçado da burguesia e não pode escapar a ela. E assim em torno do núcleo da burguesia se
sobrepõem amplas camadas de Humanidade, muitos milhares de vidas e inteligências, cada
uma das quais surgida certamente da burguesia e disposta a uma vida sem reservas, mas que
continua dependente da burguesia por sentimentos infantis e um tanto contagiada em sua
debilidade pela intensidade vital; e embora desterradas da burguesia, continuam de certo
modo pertencendo a ela, obrigadas a ela e a seu serviço, pois à burguesia assenta
perfeitamente o contrário da máxima do Grande: “Quem não está contra mim, está comigo. “
Se examinarmos agora a alma do Lobo da Estepe, veremos que ele é distinto do burguês por
causa do alto desenvolvimento de sua individualidade, pois toda a individualização superior
se orienta para o egotismo e propende portanto ao aniquilamento. Vemos que tem em si um
forte impulso tanto para o santo quanto para o libertino; no entanto, não pode tomar o impulso
necessário para atingir o espaço livre e selvagem, por debilidade ou inércia, e permanece
desterrado na difícil e maternal constelação da burguesia. Esta é sua situação no espaço do
mundo e sua sujeição. A maior parte dos intelectuais e dos artistas pertence a esse tipo. Só os
mais fortes entre eles ultrapassam a atmosfera da terra da burguesia e logram entrar no espaço
cósmico; todos os demais se resignam ou selam pactos, pertencem a ela, reforçam-na e
glorificam-na, pois em última instância têm de professar sua crença para viver. A vida desse
infinito número de pessoas não atinge o trágico, mas apenas um infortúnio considerável e uma
desventura, em cujo inferno seus talentos engendram e frutifi-cam. Os poucos que se
libertaram buscam sua recompensa no absoluto e sucumbem no esplendor. São os trágicos e
seu nú59


mero é pequeno. Mas os outros, os que permaneceram submissos, a cujo talento a burguesia
concede com freqüência grandes homenagens, a estes se abre um terceiro reino, um mundo
imaginário, mas soberano: o humor. Aos inquietos lobos da estepe, a esses contínuos e
terríveis pacientes, aos que está negado o apoio necessário para o trágico, para subir ao espaço
sideral, que se sentem chamados para o absoluto e, no entanto, não podem nele viver; para
esses, quando seu espírito se fez duro e elástico na dor, abre-se-lhes o caminho conciliante do
humor. O humor é sempre um pouco burguês, embora o verdadeiro burguês seja incapaz de
compreendê-lo. Em suas imaginárias esferas realiza-se o ideal intrincado e multifacetado de
todos os lobos da estepe; aqui é possível não apenas celebrar o santo e o libertino ao mesmo
tempo e unir um pólo ao outro, mas também incluir os burgueses na mesma afirmação. É
possível estar-se possuído por Deus e sustentar o pecador, e vice-versa, mas não é possível
nem ao santo nem ao libertino (nem a nenhum outro absoluto) afirmar aquele meio-termo
fraco e neutro que se chama burguês. Somente o humor, a magnífica descoberta dos que
foram detidos em seu vôo para o mais alto, dos quase trágicos, dos infelizes superdotados, só

o humor (talvez o produto mais genuíno e genial da Humanidade) atinge esse impossível e
une todos os aspectos da existência humana nos raios de seu prisma. Viver no mundo como se
não fosse o mundo, respeitar a lei e no entanto colocar-se acima dela, possuir uma coisa
“como se não a possuísse”, renunciar como se não tratasse de uma renúncia, todas essas
proposições favoritas e formuladas com freqüência, todas essas exigências de uma alta ciência
da vida somente pode realizá-las o humor.
E no caso do Lobo da Estepe, a quem não faltam faculdades e disposições para tanto, se
lograsse, no labirinto de seu inferno, absorver e transpirar essa bebida mágica, então estaria
salvo. Ainda lhe falta muito para isso, mas a possibilidade, a esperança existem. Quem o ama,
quem se interessa por ele, pode desejar-lhe esta salvação. Ela iria, é verdade, man60

tê-lo preso ao mundo burguês, mas seu padecimento seria suportável e produtivo. Suas
relações com o mundo burguês quer no amor ou no ódio perderiam seu sentimentalismo e sua
sujeição a ele cessaria de atormentá-lo continuamente como um opróbio.
Para alcançar isto, ou para, afinal, ser capaz de tentar o salto no desconhecido, teria um lobo
da estepe de defrontar-se algumas vezes consigo mesmo, olhar profundamente o caos de sua
própria alma e chegar à plena consciência de si mesmo. Sua existência enigmática revelar-seia
então para ele em toda sua invariabilidade e ser-lhe-ia impossível para sempre no futuro
escapar do inferno de seus impulsos e refugiar-se em consolos filosóficos e sentimentais.
Seria necessário que o homem e o lobo se conhecessem mutuamente sem falsas máscaras
sentimentais, que se fitassem nos olhos em toda a sua nudez. Então explodiriam ou se
separariam para sempre, de modo que não voltariam a existir lobos da estepe ou chegariam a
bons termos à luz nascente do humor.
É possível que Harry tenha um dia esta última possibilidade. E possível que um dia aprenda a
conhecer-se, seja porque receberá nas mãos um dos nossos espelhinhos, seja porque alcance o
Imortal ou talvez encontre num dos nossos teatros mágicos aquilo de que necessita para
libertar sua alma desgarrada. Mil possibilidades o esperam, seu destino as atrai
irremediavelmente, pois todos esses solitários da burguesia vivem na atmosfera dessas
mágicas possibilidades. Basta apenas um nada para que se produza a centelha.
E tudo isso é amplamente conhecido pelo Lobo da Estepe, ainda que seus olhos nunca
venham a dar com este fragmento de sua biografia íntima. Ele suspeita e teme a possibilidade
de um encontro consigo mesmo, e está cônscio da existência daquele espelho no qual tem
uma necessidade tão amarga de olhar-se e no qual teme mortalmente ver-se refletido.
Para terminar nosso estudo resta esclarecer ainda uma última ficção, um engano fundamental.
Todas as interpretações, to61


da psicologia, todas as tentativas de tornar as coisas compreensíveis se fazem por meio de
teorias, mitologias, de mentiras; e um autor honesto não deveria furtar-se, no fecho de uma
exposição, a dissipar essas mentiras dentro do possível. Se digo “acima” ou ‘ ‘abaixo”, isso já é
uma afirmação, que exige um esclarecimento, pois só existem acima e abaixo no pensamento,
na abstração. O mundo mesmo não conhece nenhum acima nem abaixo.
Da mesma maneira, para ser sucinto, o lobo da estepe também é uma ficção. Se o próprio
Harry se sente como homem-lobo e se crê formado por dois seres inimigos e opostos, isso é
puramente uma mitologia simplificadora. Harry não é nenhum homem-lobo, e se aceitamos a
princípio sua mentira, inventada e acreditada por ele mesmo, e tentamos considerá-lo e
explicá-lo dentro da realidade como um ser duplo, como um lobo da estepe, foi porque nos
aproveitamos dela para sermos compreendidos mais facilmente, mentira essa cuja retificação
deve ser tentada agora.
A divisão em lobo e homem, em impulso e espírito, mediante a qual Harry procura explicar
seu destino, é uma grosseira simplificação, uma violentação do real em favor de uma
explicação plausível porém errônea da desarmonia que este homem encontra em si e que lhe
parece a fonte de seus não leves sofrimentos. Harry encontra em si um “homem”, ou seja, um
mundo de pensamentos, de sensações, de cultura, de natureza domada e sublimada, e vê
também, ao lado de tudo isto, um “lobo”, ou seja, um obscuro mundo de instintos, de
selvagerismo e crueldade, de natureza bruta e insubli-mada. Apesar desta divisão, ao que tudo
indica tão clara de seu ser em duas esferas, que são inimigas entre si, de quando em quando,
já percebeu que o lobo e o homem, durante algum tempo, vivem reconciliados. Se Harry
tentasse estabelecer em cada momento determinado de sua vida, em cada um de seus
sentimentos, a parte correspondente neles ao homem e a parte que corresponde ao lobo,
acabaria por encontrar-se num dilema, e toda a sua bela teoria do homem-lobo cairia
62


por terra. Pois não há um único ser humano, nem mesmo negro primitivo, nem mesmo os
idiotas, convenientemente simples, que possa ser explicado como a soma de dois ou três
elementos principais; e explicar um homem tão complexo quanto Harry por meio da ingênua
divisão em lobo e homem seria uma tentativa positivamente infantil. Harry compõe-se não de
dois, mas de cem ou de mil seres. Sua vida não oscila (como a vida de cada um dos homens)
simplesmente entre dois pólos, tais como o corpo e o espírito, o santo e o libertino, mas entre
mil, entre inumeráveis pólos.
Não devemos surpreender-nos pelo fato de que mesmo um homem tão inteligente e educado
quanto Harry possa tomar-se por um lobo da estepe e reduzir a rica e complexa imagem de
sua vida a uma fórmula tão simples, tão rudimentar e primitiva. O homem não é capaz de
pensar em alta escala, e mesmo o mais espiritual e altamente intelectualizado pode contemplar

o mundo e a si próprio através das lentes de fórmulas enganosas e simplistas — especialmente
a si próprio! Pois parece ser uma necessidade inata e imperativa de todos os homens
imaginarem o próprio ser como unidade. E apesar de essa ilusão sofrer com freqüência graves
contratempos e terríveis choques, ela sempre se recompõe. O juiz que se senta defronte ao
criminoso e o fita no rosto, e por um instante reconhece todas as emoções, potencialidades e
possibilidades do assassino em sua própria alma de juiz e ouve a voz do assassino como
sendo a sua, já no momento seguinte volta a ser uno e indivisível como juiz, volta a encerrar-
se na envoltura do seu eu quimérico e cumpre seu dever e condena o assassino à morte. É se
em algumas almas humanas, singularmente dotadas e de percepção sensível, se levanta a
suspeita de sua composição múltipla, e, como ocorre aos gênios, rompem a ilusão da unidade
personalística e percebem que o ser se compõe de uma pluralidade de seres como um feixe de
eus, e chegam a exprimir essa idéia, então imediatamente a maioria as prende, chama a
ciência em seu auxílio, diagnostica esquizofrenia e protege a Humanidade para que não ouça
63

um grito de verdade dos lábios desses infelizes. Então, para que perder aqui palavras, por que
expressar coisas que todos aqueles que pensam conhecem por si mesmos, quando sua simples
enunciação é uma nota de mau gosto? Assim, pois, se um homem se aventura a converter
numa dualidade a pre-tendida unidade do eu, se não é um gênio, é em todo caso uma rara e
interessante exceção. Mas na realidade não há nenhum eu, nem mesmo no mais simples, não
há uma unidade, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas, de
matizes, de situações, de heranças e possibilidades. Cada indivíduo isolado vive sujeito a
considerar esse caos como uma unidade e fala de seu eu como se fora um ente simples, bem
formado, claramente definido; e a todos os homens, mesmo aos mais eminentes, esse rude
engano parece uma necessidade, uma exigência da vida, como o respirar e o comer.
O equívoco reside numa falsa analogia. Todo homem é uno quanto ao corpo, mas não quanto
à alma. Também na literatura, mesmo na mais refinada, encontramos este conceito habitual
em personagens aparentemente unas, aparentemente uniformes. No teatro de hoje, o que mais
aprecia a gente do ofício, os conhecedores, é o drama, e com razão, pois oferece (ou oferecia)
as maiores possibilidades para a representação do eu como uma pluralidade, se a isto não se
opõe a brutal impressão de unidade que nos dá cada pessoa isolada do drama, ao levar
encerrada, sem resistência, essa pluralidade num corpo simples, uniforme e isolado. Também
apreciam muito a ingênua estética do chamado drama de caráter, no qual cada figura se
apresenta como uma unidade muito característica e isolada. Só de longe e pouco a pouco
começa a despertar em alguns a suspeita de que tudo isto não passa de uma razoável estética
superficial, de que nos equivocaremos se aplicarmos aos nossos grandes dramaturgos a
magnífica idéia de beleza dos antigos, pois esta não é congênita a nós, mas simplesmente
intuída, e é nela, na fonte comum dos corpos visíveis, que se encontra exatamente a ficção do
ego, da
64


personalidade. Nas obras da Índia antiga esta concepção é é completamente desconhecida, os
heróis da epopéia indica não são pessoas, mas aglomerados de pessoas, conjuntos de
reencarnações. E m nosso mundo moderno há obras em que, por trás do véu do jogo das
pessoas e caracteres, tentou-se apresentar uma pluralidade de almas, não de todo inconsciente
para o autor. Quem queira comprovar isto deve decidir-se a considerar de uma vez as figuras
de uma obra semelhante, não como seres individuais, mas como partes, como facetas, como
aspectos diversos de uma suprema unidade (que para mim é a alma do poeta). Quem examinar
deste modo o Fausto tanto o Fausto, Mefistófeles, Wagner e todos os demais significarão para
ele uma unidade, uma superpes-soa, e só nesta suprema unidade e não nas figuras isoladas
estará refletido algo da verdadeira essência da alma. Quando Fausto diz a frase que ficou
célebre entre os professores e admirada com terror por filisteus: “Duas almas, ai, moram no
meu peito!” esqueceu-se de Mefistófeles e de toda uma multidão de outras almas que também
se abrigam em seu peito. Nosso Lobo da Estepe crê levar também em seu peito duas almas
(lobo e homem) e por isto sente o peito demasiadamente oprimido e estreito. O peito, o corpo,
é sempre uno, mas as almas que nele residem não são nem duas, nem cinco, ma’ incontáveis,

o homem é um bulbo formado por cem folhas um tecido urdido com muitos fios. Os antigos
asiáticos sa-biam disto muito bem, e encontraram no ioga búdico uma técnica precisa para
descobrir a ilusão da personalidade. Divertido e multíplice é o jogo da Humanidade: a ilusão
que levou milhares de anos para ser descoberta pelos hindus é a mesma ilusão que aos
ocidentais custou tanto trabalho custodiar e fortalecer.
Se observarmos o Lobo da Estepe a partir deste ponto de vista, veremos claramente por que
sofre tanto sob sua ridícula dualidade. Crê, como Fausto, que duas almas são demais para um
só peito e podem arrebentar com ele. Mas ao contrário, são demasiado poucas, e Harry
violenta terrivelmente sua
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pobre alma se busca compreendê-la numa imagem tão primitiva. Harry, embora seja um
homem grandemente instruído procede talvez como um selvagem, que não sabe contar alérri
de dois. Chama a uma parte de si mesmo de homem, à outra, de lobo, e com isso acredita
haver chegado à meta e esgotado o assunto. No “homem” encerra tudo o que há de espiritual,
de sublime ou culto que encontra em si, e no “lobo” tudo o que há de instintivo, de selvagem e
caótico. Mas as coisas não se passam na vida de maneira tão simples como em nosso
pensamento, nem tão rude como em nosso pobre idioma de idiotas, e Harry se engana
duplamente ao empregar este método tacanho do lobo. Harry considera, o que é de temer-se,
todas as divisões de sua alma como parte do “homem, muitas das quais já deixaram de ser
homem, e qualifica partes de seu ser como lobo, partes que há muito já estão além do lobo.
Como todos os homens, Harry crê saber muito bem o que é o homem, e não sabe
absolutamente nada, embora o suspeite algumas vezes em sonho e em outros estados anímicos
não sujeitos a controle. Quem dera não esquecesse esses pressentimentos, mas se
apropriasse deles tanto quanto possível! O homem não é uma forma fixa e duradoura (tal era o
ideal dos antigos, apesar do pensamento em contrário de alguns luminares da época); é antes
um ensaio e uma transição, não é outra coisa senão a estreita e perigosa ponte entre a
Natureza e o Espírito. Para o espírito, para Deus, ele é impulsionado por sua vocação mais
íntima. Para a natureza, para a mãe, é atraído pelo mais íntimo desejo. Sua vida oscila
vacilando angustiosamente entre ambos os poderes. O que se compreende comumente pela
palavra “homem” é sempre uma estipulação efêmera e burguesa. Certos impulsos mais crus
estão afastados e proibidos nessa convenção; um grau de consciência e de cultura humana são
reclamados à besta; uma pequena parcela de espírito não é somente permitida, como também
encorajada. O homem desta convenção, como todos os outros ideais burgueses, é uma
conciliação, um intento tímido, de ingênua astúcia com o intuito de enganar tanto a
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perversa mãe Natureza primitiva quanto o incômodo primitivo pai Espírito de suas enérgicas
exigências e para viver na zona temperada entre eles. É por isso que a média das pessoas
permite e tolera aquilo que denomina “personalidade”, mas ao mesmo tempo entrega a
personalidade àquele Moloch chamado “Estado” e intriga continuamente um com o outro.
Assim o burguês queima hoje por herege e enforca por criminoso aquele ao qual amanhã
levantará estátuas.
Que o ‘ ‘homem” não é alguma coisa já criada, mas apenas uma exigência do espírito, uma
possibilidade longínqua, tão desejada quanto temida, e que o caminho a que isto conduz só
vai sendo percorrido em pequenos impulsos e debaixo de terríveis tormentos e sonhos,
precisamente por aquelas raras individualidades, para as quais hoje se prepara o patíbulo e
amanhã o monumento — é uma suspeita que vive também no Lobo da Estepe. Porém, o que
ele para si designa como “homem”, em contraposição ao seu “lobo”, não é, em grande parte,
senão aquele homem medíocre do convencio-nalismo burguês. O caminho para o verdadeiro
homem, o caminho para os imortais, Harry adivinha-o perfeitamente e percorre-o também
aqui e ali com timidez, muito lentamente, pagando este avanço com graves tormentos e com
seu doloroso isolamento. Mas, proporcionar-se, aspirar àquela suprema exigência, àquela
encarnação pura e buscada pelo espírito, andar o único caminho estreito para a imortalidade,
isto receia-o no mais profundo de sua alma. Tem perfeita consciência de que isto conduz a
tormentos ainda maiores, à proscrição, à renúncia de tudo, talvez ao cadafalso; e, apesar de
saber que no fim deste caminho a imortalidade sorri sedutora, não está disposto a padecer
todos estes sofrimentos, a morrer todas estas mortes. Tendo ainda mais consciência do fim da
encarnação do que os burgueses, fecha, todavia, os olhos e faz por ignorar que o apego
desesperado ao próprio eu, a desesperada ânsia de viver, são o caminho mais seguro para a
morte eterna, ao passo que o saber morrer, rasgar o véu do
mistério. ir procurando eternamente mutações em si mesmo,
67


conduz à imortalidade. Quando adora os seus favoritos entre os imortais, Mozart, por
exemplo, nunca o faz, afinal, senão com olhos de burguês, e pretende explicar doutamente a
per-feição de Mozart apenas pelos seus altos dotes de músico, ç não pela grandeza de sua
abnegação, paciência no sofrimento e independência perante os ideais da burguesia, pela sua
resignação naquele extremo isolamento, semelhante ao do horto de Getsêmani, que em torno
do que sofre e está em vias de reencarnação rarifica toda a atmosfera burguesa até convertê-la
em gelado éter cósmico.
Mas, enfim, o nosso Lobo da Estepe descobriu dentro de si ao menos a duplicidade fáustica;
conseguiu determinar que à unidade de seu corpo corresponde uma unidade espiritual, mas
que, no melhor dos casos, apenas se encontra em caminho, com uma larga peregrinação à
frente, para o ideal dessa harmonia. Desejaria vencer dentro de si o lobo e viver inteiramente
como homem, ou então, renunciar ao homem e viver ao menos como lobo uma vida uniforme,
sem desvios. Provavelmente nunca observou com atenção um lobo autêntico; então veria,
talvez, que nem mesmo os animais possuem a unidade da alma, que também neles, atrás da
bela e austera forma do corpo, vive uma multiplicidade de desejos e de estados; que também o
lobo tem abismos no seu interior e também sofre. Não! Com a volta à Natureza o homem vai
sempre por um falso caminho, cheio de sofrimentos e sem esperanças. Harry não pode tornar
a converter-se inteiramente em lobo, e se tal acontecesse veria que nem mesmo o lobo é
simples e originário, mas alguma coisa já muito complexa. Também o lobo tem duas e mais
de duas almas dentro do peito, e quem deseja ser um lobo incorre na mesma ignorância do
homem da canção: “Feliz quem voltasse a ser criança!” O homem simpático, mas sentimental,
que entoa a canção do menino ditoso, desejaria também voltar à Natureza, à inocência, ao
princípio, mas esqueceu que nem mesmo as crianças são felizes, e sim suscetíveis de muitos
conflitos, de muitas de-sarmonias, de todos os sofrimentos.
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Para trás, não conduz a nenhum caminho, nem para o lobo nem para a criança. No princípio
das coisas não há simplicidade nem inocência; tudo o que foi criado até o que parece mais
simples, e já culpável, já complexo, foi lançado ao sujo torvelinho do desenvolvimento e já
não pode, não poderá nunca mais, nadar contra a corrente. O caminho para a inocência, para o
incriado, para Deus, não se dirige para trás mas sim para diante; não para o lobo ou a criança,
mas cada vez mais para a culpa, cada vez mais fundamente dentro da encarnação humana.
Nem mesmo com o suicídio, pobre Lobo da Estepe, te livrarás realmente das dificuldades;
tens de percorrer o caminho mais largo, mais penoso e mais difícil da humana encarnação;
freqüentemente terás de multiplicar a tua multiplicidade, complicar ainda mais a tua
complexidade. Em vez de reduzir o teu mundo, de simplificar a tua alma, terás de recolher
cada vez mais mundo, de recolher no futuro o mundo inteiro na tua alma dolorosamente
dilatada, para chegar talvez algum dia ao fim, ao descanso. O mesmo caminho foi percorrido
por Buda e todos os grandes homens, uns conscientes, outros inconscientemente, na medida
em que a fortuna favorecia a sua busca. Nascimento significa desunião do todo, limitação,
afastamento de Deus, penosa reen-carnação. Volta ao todo, anulação da dolorosa
individualidade, chegar a ser Deus, quer dizer: ter dilatado a alma de tal forma que se torne
possível voltar a conter novamente o todo.
Não se trata aqui do homem conhecido das escolas, da economia política ou da estatística,
nem do homem que aos milhões anda pela rua e não tem mais importância do que a areia ou a
espuma dos mares: pouco adiantam alguns milhões a mais ou a menos; são material e nada
mais. Não, nós falamos aqui do homem no sentido elevado do termo, do largo caminho da
encarnação humana, do homem verdadeiramente real, dos imortais. O gênio não é tão raro
como em geral nos parece, nem tão freqüente como pretendem as histórias literárias a história
universal e até mesmo os jornais. O Lobo da Estepe, Harry, segundo nossa opinião, seria
gênio bastan69


te para intentar a aventura da encarnação humana, sem necessidade de trazer para
confrontação, lamentavelmente, a cada dificuldade, o seu estúpido lobo da estepe.
Ê tão estranho e entristecedor que homens de tais possibilidades surjam como lobos
da estepe e com “duas almas, ai!” e que mostrem tamanha afeição covarde ao burguês.
Um homem capaz de compreender Buda, um homem que tem noção dos céus e dos
abismos da natureza humana, não deveria viver num meio em que domina o senso
comum, a democracia e a educação burguesa. Só por covardia continua a viver nele, e
quando suas dimensões o oprimem, quando a estreita cela do burguês se torna
demasiado apertada, ele atribui tudo isto ao ‘ ‘lobo” e não quer aperceber-se de que às
vezes o lobo é a sua parte melhor. Tudo o que há de feroz dentro de si ele o atribui ao
lobo e o tem por mau, perigoso c terror dos burgueses; mas ele que, no entanto, se
acredita um artista e supõe ter sensibilidade, não é capaz de ver que fora do lobo, atrás
do lobo, vivem no seu interior muitas outras coisas: que nem tudo o que morde é lobo;
que dentro de si habitam também a raposa, o dragão, o tigre, o macaco e a ave-do-
paraíso, e que todo este mundo é um éden cheio de milhares de seres, formosos e
terríveis, grandes e pequenos, fortes e delicados, mundo asfixiado e cercado pelo mito
do lobo — tanto como o verdadeiro homem que nele há é asfixiado e preso apenas
pela sua aparência de homem, pelo burguês.
Imagine-se um jardim de cem espécies de árvores, com mil variedades de flores, com
cem espécies de frutas e outros tantos gêneros de ervas. Pois bem: se o jardineiro que
cuida deste jardim não conhece outra diferenciação botânica além do ‘ ‘joio” c do ‘
‘trigo”, então não saberá que fazer com nove décimas partes do seu jardim, arrancará
as flores mais encantadoras, cortará as árvores mais nobres, ou pelo menos ter-lhes-á
ódio e as olhará com maus olhos. Assim faz o Lobo da Estepe com as mil flores de
sua alma. O que não está compreendido na designação pura e simples de “lobo” ou de
“homem” nem sequer merece a sua atenção. E quantas qualida

70


des ele empresta ao homem! Tudo o que é covarde, símio, estúpido, mesquinho, desde
que não seja muito, diretamente lupino, ele o atribui ao “homem”, assim como atribui
ao “lobo” tudo o que é forte e nobre, só porque não conseguiu ainda dominá-lo.
Despedimo-nos de Harry. Deixamos que continue o seu caminho. Se já estivesse com
os imortais, se já tivesse chegado lá onde a sua penosa marcha parece querer levá-lo,
como olharia assombrado este vaivém, este feroz e irresoluto zigue-zague da sua rota,
como sorriria a este lobo da estepe, ani-mando-o, censurando-o, com compaixão e
complacência!
Quando terminei de ler, recordei que uma noite, algumas semanas antes, havia escrito
um estranho poema, que também tratava do Lobo da Estepe. Busquei-o no torvelinho
de papéis que enchem a gaveta de minha mesa, encontrei-o e li:

Eu, o Lobo da Estepe, vago errante
pelo mundo de neve recoberto;
um corvo sai de uma árvore, adejando,
mas não há corças por aqui, nem lebres!
Vivo ansiando por achar a corça,
ah! se eu desse com uma!
Tê-la em meus dentes, entre as minhas garras,
nada seria para mim tão belo.
Havia de tratá-la tão cordial,
de cravar-lhe nas ancas os meus dentes,
beber-lhe o sangue até a saciedade
a uivar depois na noite solitário.
Contentava-me mesmo com uma lebre!
Na noite sabe bem a carne flácida.
Por que de mim há de afastar-se tudo
quanto faz esta vida mais alegre?
Em minha cauda o pêlo está grisalho
e também já não vejo as coisas nítidas;
há muito que morreu a minha esposa
e vivo a errar sonhando corças,
ansiando lebres,
ouço o vento soprar na noite fria
com neve aplaco o fogo da garganta
e levo para o diabo a minha alma.

71


Agora tinha nas mãos dois retratos meus: um, o auto-retrato em versos burlescos, triste e
angustiado como eu mesmo; o outro, frio e traçado com aparência de alta objetividade por um
estranho, visto de fora para dentro e de cima para baixo, escrito por alguém que sabia mais, e,
no entanto, também menos do que eu. E esses dois retratos, meu poema triste e balbuciante, e

o inteligente estudo de mão desconhecida, ambos me causaram dor, ambos tinham razão,
retratavam ambos sem rebuços minha desconsolada existência, ambos mostravam claramente
o insuportável e insustentável da minha condição. Este Lobo da Estepe devia morrer, sua
odiosa existência devia encontrar fim por suas próprias mãos ou havia de consumir-se no fogo
mortal de uma continuada exposição de si mesmo; deveria transformar-se, tirar a máscara e
defrontar-se com uma nova encarnação do seu eu. Ah, este processo não me era novo nem
estranho, já o conhecia, já o havia experimentado em muitas ocasiões, algumas vezes em
momentos de profundo desespero. Às vezes, o meu ser ficava reduzido a frangalhos com
essas experiências destrutivas; às vezes as potências do abismo o despertavam e o destruíam;
outras vezes, atraiçoava-me um período definido e particularmente adorado de minha vida e o
perdia para sempre. Em certa ocasião, perdi minha condição burguesa juntamente com meus
bens, e tive de aprender a renunciar à consideração daqueles que até então tiravam o chapéu
diante de mim. De outra feita, minha vida familiar desmoronou-se da noite para o dia: minha
mulher, atacada de loucura, expulsou-me do lar e do conforto; o amor e a confiança se
converteram logo em ódio e em luta de morte; os vizinhos me olhavam cheios de compaixão e
de desprezo. Foi aí que começou a minha solidão. E outra vez depois de alguns anos amargos
e difíceis, depois de haver construído uma nova vida ascética e espiritual, de haver criado um
ideal, numa severa solidão e penosa autodis-ciplina, depois de haver atingido certa
tranqüilidade e altivez, entregue à prática do pensamento abstrato e a uma meditação
rigorosamente metódica, essa transformação vital
72


também acabou por desabar, essa forma de vida perdeu num instante seu nobre e elevado
sentido; arrastou-me de novo a viajar fatigantemente pelo mundo, amontoaram-se novas dores
e novas culpas. E cada vez que arrancava uma máscara, que via ruir um ideal, cada um desses
acontecimentos era precedido por um silêncio e um vazio cruéis, por um mortal isolamento e
ausência de relações, um triste e sombrio inferno que agora de novo tinha de enfrentar.
Não posso negar que após cada uma dessas comoções de minha vida no final sempre me
restava algum proveito, um pouco mais de liberdade de espiritualidade, de profundidade, mas
também de isolamento, de incompreensão, de frigidez. Vista do ângulo burguês, minha vida
fora, de uma a outra dessas comoções, uma permanente descida, um afastamento cada vez
maior do normal, do permitido, do são. Ao longo de alguns anos fiquei sem trabalho, sem
família, sem lar; estava à margem de qualquer grupo social, sozinho, sem o amor de ninguém;
inspirava suspeita a muitos, estava em contínuo e amargo conflito com a opinião e a moral
públicas, e embora continuasse vivendo na esfera burguesa, era, todavia, por minha maneira
de pensar e de sentir, um estranho neste mundo. Religião e pátria, família e Estado careciam
de significação para mim e já nada me importava; a presunção da ciência, das profissões, das
artes me causava asco; meus pontos de vista, meu gosto, todo o meu pensamento, com o que
em outras épocas brilhara como homem bem conceituado, tudo estava agora abandonado e
embrutecido e causava suspeita a muita gente. Se em todas as minhas dolorosas
transmutações adquirira algo de indizível e imponderável, caro tivera de pagá-lo, e em cada
uma delas minha vida se tornara mais dura, mais difícil, mais solitária e perigosa. Na verdade
não tinha nenhum motivo para desejar a continuação deste caminho que me conduzia a
atmosferas cada vez mais rarefeitas, semelhantes àquela fumaça da Canção de Outono, de
Nietzsche.

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Ah, sim, já conhecia estes acontecimentos, essas transformações que o Destino reserva aos
seus filhos diletos, aos mais difíceis de contentar; conhecia-os demasiadamente bem.
Conhecia-os como um caçador diligente mas sem sorte conhece as etapas de uma caçada,
como um velho jogador de Bolsa pode conhecer as etapas da especulação, do lucro, da
insegurança, da insolvência, da bancarrota. Teria de voltar a sofrer tudo aquilo? Todo este
tormento, toda essa extraviada necessidade, todos esses olhares de vileza e pouco valor do
próprio eu, toda essa terrível angústia diante do sucumbir, todo esse temor da morte? Não era
mais prudente e simples impedir a repetição de tanta dor e sair de cena? Certamente, era mais
simples e razoável. Fosse verdadeiro ou não o que diz o livrinho do Lobo da Estepe sobre o
suicida, nada poderia impedir-me o prazer de matar-me com ajuda do gás, da navalha, ou da
pistola, a repetição de um processo cujas amargas conseqüências já tivera ocasião de
experimentar tantas vezes e com tanta intensidade. Não, com todos os demônios, não havia
nenhuma força no mundo que pudesse exigir de mim novamente o encontro com os horrores
da morte, o ter de passar outra vez por uma nova conformação, uma nova encarnação, cujo
fim não seria já a paz e o descanso, mas sempre uma nova autodestruição, ou pelo menos
outra nova au-toconformação! Embora o suicídio fosse estúpido, covarde e mesquinho;
embora fosse uma saída de emergência difaman-te e vergonhosa para fugir ao torvelinho de
dores, qualquer saída, ainda a mais ignominiosa, seria de desejar-se intimamente; não se
tratava de nenhum drama de nobreza e de heroísmo, aqui estaria eu diante da singela escolha
entre uma dor passageira e leve e um sofrimento infinito e indizível. Não raro em minha vida
difícil e insensata fui como o nobre D. Quixote, preferindo a honra à comodidade e o
heroísmo à razão! Mas já era tempo de acabar com isto!
A manhã já despontava através da vidraça, a plúmbea e maldita luz de um dia chuvoso de
inverno, quando finalmente fui para a cama. Estava afinal decidido. Porém, no úl

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timo instante, no derradeiro momento de consciência, no instante do transpasse, brilhou com a
rapidez de um raio aquela notável passagem do livreto do Lobo da Estepe, onde se fala dos
imortais, e a ela se uniu a palpitante recordação de que em muitas ocasiões (a última fora
recentemente) eu me sentira o bastante próximo deles para saborear, ao compasso de uma
música antiga, toda a serena, clara e sorridente sabedoria de que eram dotados. Esta
lembrança surgiu em mim, brilhou um momento e se extinguiu, e o sono caiu pesado como
uma montanha sobre a minha cabeça.
Despertando ao meio-dia, encontrei logo clara a minha resolução; o livrinho estava na
mesinha-de-cabeceira, junto ao poema, e minha decisão, após uma noite de sono, havia
tomado forma e me contemplava do torvelinho de minha vida atual com um calmo e amigável
gesto de saudação. Não havia pressa. Minha resolução de morrer não era o produto do humor
de uma hora, era um fruto maduro e são, que havia sazonado lentamente até atingir a
plenitude, embalado pelo vento do destino cujo próximo sopro haveria de deitá-lo ao chão.
Tinha em minha caixa de remédios uma droga excelente para aplacar dores, um preparado
extremamente forte à base de ópio, que usava muito raramente, dele me abstendo não raro por
meses seguidos. Recorria ao narcótico somente quando a dor física me mortificava
insuportavelmente. Mas não servia para suicidar; já o havia experimentado há alguns anos
passados. Certa vez, quando o desespero se apoderara de mim, tomei uma boa dose do
medicamento, o suficiente para dar cabo de seis homens e, no entanto, não conseguiu
liquidar-me. É verdade que dormi e estive algumas horas em completo aturdimento, mas
depois, para grande decepção de minha parte, fui semidespertado por violentas convulsões
estomacais, vomitei todo o veneno, e voltei a dormir até o dia seguinte, quando despertei com

o estômago vazio, o cérebro a arder e quase sem memória. A não ser um período de insô75

nia e de fortes dores no estômago, o veneno não me causou nenhum outro efeito.
Não cabia, pois, levar tal meio em consideração, por isso resolvi a coisa da seguinte
forma: quando me visse na necessidade de usar aquele ópio, ninguém me impediria de
administrar-me, em vez desse breve calmante, outro mais duradouro, a morte, a morte
certa, positiva, por meio de uma bala ou da navalha de barbear. Com isto ficava
definida a situação. E quanto a esperar que chegasse aos cinqüenta anos, como o
livreto sabiamente prescrevia, pareceu-me uma espera demasiado longa de suportar,
pois me faltavam ainda dois anos para isto. Mas, dentro de um ano, de um mês ou
talvez amanhã, a porta estaria aberta para mim.
Não posso dizer que aquela resolução tivesse alterado muito a minha vida. Tornou-me
um pouco mais indiferente para com minhas aflições, um pouco mais descuidado no
uso do ópio e do vinho, um pouco mais curioso de conhecer os limites do suportável,
mas isso era tudo. Os outros acontecimentos daquela noite tiveram efeito mais
perdurável. Voltei a ler várias vezes o Tratado do Lobo da Estepe, já com abnegação
e agradecimento como se um mago invisível estivesse dirigindo prudentemente o meu
destino, já com desprezo e desdém pela insipidez do tratado que, a meu ver, não
compreendia em absoluto a disposição e o transe específicos de minha vida. O que ali
estava escrito sobre os lobos da estepe e os suicidas era, sem dúvida, muito bom e
judicioso, caracterizava bem a espécie e o tipo, mas era uma rede de malhas muito
largas para apanhar o meu ser individual, meu destino único e insubstituível.
Todavia, o que mais me ocupava o pensamento era aquela alucinação ou visão do
muro da igreja, a advertência cheia de promessas daquelas letras luminosas, que
concordavam com o significado do tratado. Muito me estava prometido ali, as vozes
daquele estranho mundo acicatavam-me a cu-
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riosidade; nelas pensei profundamente durante longas horas. E a advertência daquela inscrição
me falava cada vez mais claramente: “Só para os raros!” “Só para loucos!” Louco eu devia ser
e sem dúvida era um dos “raros”, senão aquela voz não me teria alcançado, senão aquele
mundo não me teria o que dizer. Meu Deus, não estava, há bastante tempo, afastado da vida
comum, da existência e do pensamento dos normais, não estava, há muito, mais do que
suficientemente solitário e louco? E, no entanto, compreendi muito bem no íntimo do meu ser

o chamado, o convite à loucura, o alijamento da razão, a escapada aos estorvos da convenção
para entregar-me a um mundo flutuante e anárquico, da alma e da fantasia.
Uma tarde, após percorrer em vão as ruas e praças em busca do homem do cartaz e após haver
passado e tornado a passar diante do muro da porta invisível, acabei dando com um cortejo
fúnebre em São Martim. Enquanto examinava a face dos que acompanhavam o carro fúnebre,
fiquei pensando: Em que parte da cidade, em que parte do mundo vive o homem cuja morte
significará uma perda para mim? E onde estará o homem para quem minha morte há de
significar algo? Havia Erika, é verdade, mas há muito que vivíamos separados; raramente nos
víamos sem que brigássemos, e por ora nem sequer sabia de seu paradeiro. Vinha às vezes
ver-me ou ia ao seu encontro, e embora ambos fôssemos pessoas solitárias e difíceis,
aparentadas na alma e nas suas enfermidades, havia entre nós certos laços que persistiam
apesar de tudo. Mas, não haveria de respirar fundo e sentir-se um tanto aliviada, ao ter
conhecimento de minha morte? Não sabia. Também nada sabia sobre a autenticidade de meus
próprios sentimentos. É preciso que se viva no normal e no possível para que saiba algo
destas coisas.
Enquanto isso, seguindo meu capricho, juntei-me ao cortejo fúnebre e caminhei ao lado dos
acompanhantes até o cemitério, uma necrópole moderna, de cimento, dotada de cernatório e
de todos os requisitos imagináveis. Nosso defun77


to, entretanto, não foi cremado. Descarregaram o caixão junto a uma simples cova aberta no
solo, e vi o padre e os outros abutres da morte mais os agentes funerários executarem suas
funções, procurando revesti-las de alta solenidade e de tristeza; sua teatralidade, confusão e
fingimento eram tais que ficavam a um passo do ridículo. Vi como suas vestes negras caíam-
lhes flutuantes dos ombros e como se esforçavam por imitar a tristeza dos parentes e em
dobrar o joelho diante da majestade da morte. Tal afã era inútil, pois ninguém chorava, o
morto não parecia insubstituível para quem quer que fosse. Ninguém parecia disposto a
piedosas reflexões, e quando o padre se dirigiu à comitiva chamando a todos de “meus irmãos
em Cristo”, silenciosos e mercantis aqueles negociantes e quitandeiros acompanhados de suas
mulheres baixaram os olhos com muita seriedade, embaraçados e perplexos, movidos apenas
pelo desejo de que tudo aquilo acabasse o quanto antes. Quando parecia ter chegado o fim, os
dois irmãos em Cristo que estavam na frente apertaram a mão do orador e limparam os
sapatos numa moita tirando-lhes o barro úmido em que fora sepultado o morto; logo os rostos
voltaram a ficar imediatamente naturais e humanos e um deles me pareceu de repente
conhecido; era, segundo imaginei, o homem que naquele dia carregava o cartaz, o mesmo que
me entregou aquele pequeno livro.
Naquele instante, como me parecesse havê-lo reconhecido, o homem se voltou, agachou-se,
deteve-se a baixar a bainha das calças de fazenda negra, que trazia arregaçadas sobre os
sapatos, e afastou-se às pressas dali, com um guarda-chuva pendurado ao braço. Saí atrás
dele, alcancei-o, cumprimentei-o com a cabeça, mas ele pareceu não me reconhecer.

— Hoje tem espetáculo? — perguntei, tentando piscar um olho à maneira daqueles que
compartilham um segredo. Mas semelhante linguagem mímica havia deixado de ser natural
para mim, pois, vivendo como vivia, quase perdera o hábito de falar e senti que toda a minha
tentativa de fazer um sinal acabara não passando de uma estúpida careta.
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__Espetáculo? — grunhiu o homem, olhando-me comose jamais me tivesse deitado os olhos. — O senhor que vá ao Águia Negra, se é o que deseja.
Na verdade eu não estava seguro se aquele era ou não o homem do cartaz. Decepcionado,
continuei a caminhar, sem saber aonde ia, sem metas, sem preocupações ou deveres. A vida
me sabia horrivelmente amarga. O asco que morava em mim estava atingindo o seu mais alto
nível, sentia que a vida me empurrava e me arrastava para fora. Furioso corri pela cidade em
brumas, tudo me parecendo cheirar a terra e a fossa. Não! em meu enterro não haveria
nenhum daqueles pássaros da morte, com suas sotainas e seus murmúrios piedosos! Ah! para
qualquer sítio que olhasse, para qualquer parte que dirigisse o pensamento, em lugar algum
me esperava uma alegria, em nenhuma parte havia um chamado para mim, nem sentia
qualquer atrativo, tudo cheirava a decomposição e a apodrecido conformismo, tudo era velho,
murcho, triste, ba-lofo e esgotado. Meu Deus! como era possível tal coisa? Que havia sido de
mim, que tivera as asas da juventude e da poesia, o amigo das musas, o viajante do mundo, o
ardente idealista? Como me sobreviera uma paralisia tão lenta e furtiva, esse ódio contra mim
mesmo e contra todos, essa obstrução de todo sentimento, essa profunda e perniciosa
indolência, esse imundo inferno de saciedade e coração vazio?
Ao passar pela biblioteca, encontrei-me com um jovem professor, com quem havia
conversado algumas vezes e a quem fora procurar em sua casa quando da última vez em que
estive aqui, faz alguns anos, para conversarmos sobre mitologia oriental — um tema que
então me interessava muito. 0 estudioso vinha em minha direção, andando com ar
empertigado e aparência de quem sofre da vista, e só me reconheceu no momento exato em
que eu já me dispunha a pasmar ao largo. Precipitou-se sobre mim com muita cordialidade, e
eu, em meu lamentável estado de espírito, quase me senti agradecido por tal cordialidade.
Estava contente em ver-me e animou-se ainda mais recordando-me algumas particu79


laridades de nossas conversações anteriores, assegurando-me que muito devia aos
meus estímulos e que pensava freqüentemente em mim; desde aquela época não
voltara a conversar com nenhum colega de maneira tão emotiva e proveitosa.
Perguntou-me desde quando estava na cidade (menti: uns poucos dias apenas) e por
que ainda não fora visitá-lo. Olhei para a cara do homem, achei a cena um tanto
ridícula, mas lambi como um cão faminto aquelas migalhas de simpatia, aquelas
sobras de calor humano, aquele bocado de reconhecimento. Harry, o Lobo da Estepe,
sorriu comovido, a baba veio-lhe às fauces secas e, contra sua vontade, deixou-se
entregar ao sentimentalismo. Sim, tornei a mentir: estava aqui apenas de passagem,
por motivos de estudos, e não me sentia muito bem disposto, senão já teria ido visitá-
lo, é claro. E quando me convidou amavelmente para passar a tarde em sua casa,
aceitei agradecido, e pedi-lhe que transmitisse minhas recomendações à sua senhora,
enquanto as faces me doíam de tanto esforço, pois não estavam acostumadas àquele
fastidioso exercício. E durante o tempo em que eu, Harry Haller, estive em meio à rua
surpreso e envaidecido, estuda-damente polido e sorridente, diante do rosto míope e
bondoso do colega professor, o outro Harry ficou ao lado, rindo-se ironicamente e
pensando no irmão tão singular, tão desnaturalizado, tão mentiroso que tinha, pois não
fazia dois minutos havia arreganhado os dentes contra o mundo maldito e agora, à
primeira chamada, ao primeiro saudar ingênuo de um honrado homem de bem se
sentia comovido e extremamente condescendente, e se refestelava todo como um
leitão-zinho diante de um pouco de afeto, de consideração e de amizade. Assim
estavam os dois Harrys, as duas figuras extraordinariamente antipáticas, diante do
professor, insultan-do-se, observando-se e cuspindo-se mutuamente, e ao mesmo
tempo fazendo a si mesmas, como sempre que se achavam nessa situação, a mesma
pergunta: se aquilo não passava de debilidade e estupidez humana, vulgar falta de
hombridade, ou se aquele sentimental egoísmo, aquela falta de cará

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ter aquele desmazelo e disscnsão dos sentimentos era simplesmente uma peculiaridade dos
lobos da estepe. Se tal sordidez fosse comum aos humanos, então podia entregar-me ao
desprezo pelo mundo com renovadas energias, mas se fosse apenas uma debilidade pessoal,
então ali estava o motivo para uma orgia de autodesprezo.
Com a disputa entre os dois Harrys, o professor foi quase esquecido; de repente voltou a
parecer-me aborrecido e me apressei em despachá-lo. Vi-o afastando-se pela avenida deserta,
com o passo humilde e algo cômico de um idealista, de um crente. Alvoroçava-se a batalha
em meu interior, e enquanto eu contraía e distendia mecanicamente os dedos intu-mescidos,
em luta contra a gota, tive de confessar a mim mesmo que me havia deixado apanhar, que
aceitara um convite para jantar às sete e meia da noite, com a obrigação de fazer cortesias, de
conversar assuntos científicos e de contemplar a felicidade de uma família estranha. Voltei
furioso para casa, misturei conhaque com água, engoli minhas pílulas para a gota, estendi-me
no divã e tentei ler. Quando consegui entregar-me um instante à leitura da Viagem de Sofia,
de Me-mel à Saxônia, um folhetim encantador do século XVIII, recordei-me de repente do
convite e de que não estava barbea-do nem vestido. Sabe Deus por que motivo havia
concordado em aceitar o convite! Assim sendo, Harry, levanta-te, deixa o livro de lado,
ensaboa a cara, raspa a barba até sair sangue, veste a roupa e entrega-te ao convívio dos
homens! E enquan to me barbeava, pensei no imundo buraco de lama do cemi-tério, no qual
haviam baixado o desconhecido, e nos rostos avinagrados dos contrafeitos irmãos de Cristo,
mas não conse gui rir-me disto nem uma só vez. Ali terminava, segundo me parecia, naquele
imundo buraco de lama, em meio às tolas palavras do pregador e os estúpidos gestos dos
acompanhantes, no espetáculo desconsolador de todas aquelas cruzes de lápides de metal e
mármore, junto àquelas flores artificiais de olha e vidro — ali terminava não só o
desconhecido, ali aca-baria enterrado amanhã ou depois não só eu, diante da per

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plexidade e da hipocrisia dos acompanhantes, mas ainda tu-do o mais, todo o nosso anseio,
toda a nossa cultura, toda a nossa fé. toda nossa alegria de viver e nosso gosto de existir!
Nosso mundo cultural era um cemitério, ali estavam Jesus Cristo e Sócrates, ali estavam
Mozart e Haydn, Dante e Goe-the; não passavam de nomes meio apagados numa placa de
metal enferrujada, rodeada de assistentes falsos e hipócritas, que dariam tudo para continuar
acreditando nas placas de metal, em outros tempos sagradas para eles; que dariam tudo para
dizer ao menos umas honestas e sérias palavras de tristeza e desesperança sobre o mundo
desaparecido, mas só sabiam em vez disso rodear o túmulo, gesticulantes e forçados. Acabei
cortando o queixo no lugar de costume; gastei uns minutos para estancar o sangue, e tive de
trocar o colarinho, sem saber por que fazia tudo aquilo, pois não sentia o menor prazer em
atender àquele convite. Mas uma parte de Harry estava representando de novo uma comédia,
dizendo que o professor era uma pessoa simpática; suspirava por um pouco de aroma de
humanidade, de sociedade e de palestra; lembrou-se da bela mulher do professor, achou no
fundo muito alentadora a idéia de passar a noite na casa daqueles amáveis anfitriões, e me
ajudou a pregar no queixo um pedacinho de esparadrapo; ajudou-me a vestir e dar o nó à
gravata decente, e me impediu com jeito de seguir meu verdadeiro impulso de permanecer em
casa. Ao mesmo tempo, pensava comigo: “Assim como agora me visto e saio, vou visitar o
professor e troco com ele algumas frases amáveis, mais ou menos falsas, tudo isto contra a
minha vontade, assim procede a maioria dos homens que vivem e negociam todos os dias,
todas as horas, forçadamente e sem na realidade querê-lo; fazem visitas, mantêm
conversações, sentam-se durante horas inteiras em seus escritórios e fábricas, tudo à força,
mecanicamente, sem vontade; tudo poderia ser realizado com a mes-ma perfeição por
máquinas ou não se realizar; e essa mecânica eternamente continuada é o que lhes impede,
assim como a mim, de exercer a crítica de sua própria vida, reconhecer e

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sentir sua estupidez e superficialidade, sua desesperada triste-za e solidão. E têm razão,
muitíssima razão, os homens que assim vivem, que se divertem com seus brinquedinhos, que
correm atrás de seus assuntos, em vez de se oporem à mecânica aflitiva e olharem
desesperados o vazio, como faço eu, homem marginalizado que sou. Se às vezes desprezo e
até me burlo dos homens nestas páginas, não será por isto que os culpe de minha indigência
pessoal! Mas eu, que cheguei tão longe e estou à margem da vida, de onde se tomba à
escuridão sem fundo, cometo uma injustiça e minto, se pretendo enganar-me e enganar os
outros, como se funcionasse também para mim aquela mecânica, como se continuasse a
pertencer àquele mundo nobre e infantil do eterno jogo!
A noite foi também prodigiosa. Detive-me um momento diante da casa de meu conhecido e
olhei para dentro através das janelas. “Ali mora um homem” — pensei — “que leva avante
seu trabalho ano após ano, que lê e comenta textos, procura inter-relações entre as mitologias
pré-asiáticas e indicas, e sente satisfação com isto, pois crê no valor de seu trabalho, crê na
ciência, de quem é fiel servidor; acredita no valor do saber, que se deva acumular cultura, pois
crê no progresso e no desenvolvimento. Não viveu a guerra nem a revolução das bases do
pensamento humano feita por Einstein (‘Isso é algo que diz respeito somente aos matemáticos’

— pensa ele); não percebe em absoluto que em seu redor se está preparando a próxima
guerra; considera odiosos os judeus e os comunistas; é um bom menino, irreflexivo, alegre,
que se considera importante e invejável”. Assim mesmo resolvi entrar; fui recebido por uma
criada de avental branco, que por algum pressentimento me fez notar com exatidão onde
deixava meu chapéu e o sobretudo; introduziu-me numa sala cauda e luminosa, rogou-me que
esperasse; aí, em vez de rezar uma oração ou dormitar um pouco, segui um impulso
brincalhão e apanhei a primeira coisa que estava a meu alcance, era uma gravura e
representava o poeta Goethe, um ancião cheio de caráter, genialmente penteado e com o rosto
muito
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bem modelado, no qual não faltava nem o célebre fogo do olhar nem o traço de solitário com
um ligeiro véu de cortesia detalhes que devem ter exigido grande trabalho ao artista
Conseguira ele dar a este demoníaco ancião, sem prejuízo de sua profundidade, um ar algo
acadêmico e ao mesmo tempo teatral de autodomínio e probidade, e o representara, enfim
como um senhor formoso em sua ancianidade, próprio para adornar qualquer casa burguesa.
Provavelmente a estampa não fosse mais estúpida que as outras dessa classe; todos aqueles
nobres redentores, apóstolos, heróis, intelectuais e estadistas, confeccionados por aplicados
artífices, me irritavam mais talvez pelo virtuosismo com que eram tratados. Fosse como fosse,
talvez devido à minha irritabilidade habitual, aquela vã e pretensiosa representação do velho
Goethe despertou em mim uma dissonância fatal e me deu a entender que não estava no lugar
devido. Ali era o ambiente familiar dos grandes mestres belamente estilizados e das grandezas
nacionais, e não dos lobos da estepe.
Se o dono da casa se tivesse apresentado, ter-me-ia sido fácil retirar-me em seguida com
aceitáveis pretextos. Mas foi a dona da casa quem entrou e me conformei com a sorte, embora
estivesse prenunciando desgraça. Cumprimentamo-nos, e ao primeiro desacordo seguiram-se
outros mais sonoros. A senhora elogiou minha boa aparência, embora eu estivesse mais que
convencido do muito que mudara desde o nosso último encontro; já ao apertar-me os dedos
gotosos, fez-me recordar minhas terríveis dores reumáticas. E logo perguntou como ia minha
mulher, tendo eu lhe dito que ela me havia abandonado e que o nosso casamento estava
desfeito. Estávamos alegres quando entrou o professor. Ele também me cumprimentou
alegremente, e o falso e o cômico da situação chegaram logo a um belo clímax. Trazia um
jornal à mão, um diário que assinava, órgão do partido militarista exaltado, e após haver-me
dado a mão, apontou o jornal e disse que nele havia um artigo sobre um indivíduo que tinha o
mesmo nome que eu, um tal de Haller, articulista, que devia ser um in

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divíduo sem pátria, pois zombara do Kaiser e afirmara que sua pátria não era menos culpada
da guerra do que os países inimigos. Que espécie de indivíduo devia ser! ? A redação
respondera energicamente a esse tipo e o expusera à execração pública. Passamos a outro
assunto quando viu que o tema não me interessava, e nem de longe ocorreu a ambos a
possibilidade de aquele monstro estar sentado à sua frente, no entanto, a verdade é que estava,
pois o horrível indivíduo era eu. Deixa para lá! para que perturbar e assustar as pessoas! Ri
para dentro, sabendo que lá se fora a esperança de sentir algo agradável àquela noite.
Recordo-me claramente do instante em que o professor começou a falar de Haller, o traidor de
sua pátria. Foi aí que o horrendo sentimento de depressão e desespero, que progressivamente
crescia em meu interior desde a cena do enterro, se materializou numa rude opressão, chegou
ao clímax de uma angústia corporal (no ventre), despertando dentro de mim um terrível e
sufocante presságio. Tive a impressão de que algo estava à minha espera, de que se
aproximava um perigo. Felizmente anunciaram que o jantar estava à mesa. Passamos à sala de
jantar, e enquanto me esforçava por dizer ou perguntar algo sem importância, comi mais do
que de costume e me senti cada vez mais digno de lástima. Santo Deus — pensava
continuamente — por que nos sacrificas tão severamente? Percebi claramente que meus
anfitriões também não se sentiam à vontade e que sua cordialidade era forçada, fosse porque
eu me comportasse de maneira tão lamentável, fosse em conseqüência talvez de algum
desentendimento doméstico. Não houve uma só pergunta que me fizessem que recebesse de
mim uma resposta exata; logo me vi embaraçado em minhas mentiras e tive de lutar contra o
asco que cada palavra me causava. Por fim, à guisa de mudar de assunto, comecei a falar-lhes
a propósito do enterro que presenciara naquela manha. Mas não consegui encontrar o tom;
minhas recorrências o humor soaram vazias e cada vez mais nos afastávamos uns °s outros.
Em meu interior o Lobo da Estepe arreganhava os
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dentes com ironia; e ao chegar a sobremesa, o silêncio já havia tomado conta de nós três.
Regressamos à sala de estar onde tomamos café e licor na esperança de que isso pudesse
animar-nos. Mas ali, entretanto, voltou a cair-me sob a vista a figura do príncipe dos poetas,
embora estivesse colocado sobre uma cômoda a um canto da sala. Sem conseguir livrar-me
dele, levantei-me e apanhei-o de novo, embora ouvisse em meu interior a advertência de que
estava prestes a cometer uma indelicadeza. De tal forma me senti obcecado pelo insustentável
da situação que achei chegado o momento de animar meus anfitriões, arrastá-los para fora de
sua comodidade e colocá-los de acordo comigo, senão, do contrário, sobreviria certamente
uma explosão.

— É de supor — disse eu — que Goethe não fosse assim na realidade, não tivesse este
vaidoso ar de nobreza, esta majestade lançando olhares amáveis para os seus admiradores,
este ar varonil de quem vive num mundo de encantadores sentimentalismos! Sem dúvida,
poder-se-iam dizer muitas coisas contra ele; eu próprio muito teria de recriminar sua venerável
pomposidade; mas, representá-lo assim, bem! já é ir longe demais.
A dona da casa serviu o café com uma expressão de profunda reprovação no olhar e deixou a
sala, e logo o marido confessou-me, um tanto encabulado, que o retrato de Goethe pertencia à
esposa e era considerado por ela uma de suas mais caras relíquias.
— E mesmo que, objetivamente, o senhor tivesse razão, o que me permito duvidar, não devia
ter-se expressado com tamanha franqueza.
— O senhor tem razão — admiti. — Infelizmente, é urn hábito, um vício que tenho, este de
sempre expressar-me da maneira mais rude, coisa que o próprio Goethe costumava fazer em
seus melhores momentos. Nesta reprodução amanei-rada, Goethe certamente jamais se
permitiria o uso de urna expressão crua, direta e autêntica. Peço-lhe mil perdões, ao
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senhor e à sua senhora; diga-lhe, por favor, que sou um es-auizofrênico. E agora, se me
permite, está na hora de retirar-
me. A isso o confuso senhor opôs algumas objeções, voltando a recordar-me quanto tinham
sido belas e emotivas nossas anteriores discussões e que minhas teorias a propósito de Mithras
e Krishna Ine causaram naquele tempo uma profunda impressão; achava, pois, que hoje
também seria a oportunidade.. etc. Agradeci-lhe e disse-lhe que tais palavras eram muito
amáveis, mas que, infelizmente, meu interesse por Krishna, assim como meu gosto pelas
conversas eruditas, haviam desaparecido por completo, e que além do mais, hoje, lhe havia
mentido várias vezes; por exemplo, que não estava na cidade há apenas alguns dias, mas já há
muitos meses; vivia, entretanto, só para mim e não me sentia mais apto a participar de
reuniões familiares, primeiro porque estava sempre de mau humor e afetado pela gota, e
segundo, por estar bêbado a maioria das vezes. Finalmente, para reabilitar-me e não passar
por mentiroso, tive de declarar ao ilustre senhor que ele me havia ofendido muitíssimo.
Corroborara a opinião contra Haller, veiculada por um estúpido militar desocupado e cabeça
dura, expedida num jornaleco reacionário. Aquele indivíduo, o apátrida Haller, era eu mesmo;
e melhor para o país e o mundo que ao menos um ou dois indivíduos capazes de pensar se
inclinassem pela razão e a paz, do que levar cegamente os homens a uma nova guerra.
E me levantei e me despedi de Goethe e do professor, apanhei no cabide as minhas coisas e
saí correndo. O malvado lobo uivava dentro de mim. Os dois Harrys se atracaram numa cena.
Compreendi depois claramente que aquela noitada tão pouco edificante tinha para mim muito
mais importância do que para o indignado professor; para ele fora uma decepção e um
pequeno escândalo; mas para mim foi um último fracasso e deserção; minha despedida do
mundo burguês, moralista, erudito; uma vitória completa do lobo da estepe. E fora uma
despedida de fugitivo e vencido, uma declaração de

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falência ante mim mesmo, uma despedida sem consolo, sem supremacia, sem humor. Eu me
havia despedido de meu mundo de então e de minha pátria, da burguesia, dos costumes, da
ciência, da mesma forma que um paciente de úlcera estomacal se despede do leitão assado.
Furioso, corri sob a luz dos lampiões, furioso e com uma tristeza mortal. Que dia mais
desconsolador, mais vergonhoso e miserável, desde a manhã até a noite, desde o cemitério até
à cena na casa do professor! Por quê? Para quê? Haveria sentido em continuar sofrendo dias e
mais dias assim, em continuar tragando tais sopas? Não! E assim sendo, aquela comédia tinha
de acabar hoje mesmo. Vá para casa, Harry, e corte o pescoço! Chega de esperar!
Corri pelas ruas de um lado para outro, impulsionado pela miséria. Naturalmente fora uma
tolice de minha parte vituperar contra os adornos de salão daquela boa gente; fora tolo e
grosseiro, mas não podia fazer outra coisa, não podia resistir àquela vida mansa, falsa,
judiciosa. E como tampouco pudesse agüentar, ao que parece, a solidão, como minha própria
sociedade me odiasse tão indizivelmente e me tivesse horror, afogado que estava no espaço
sem ar de meu inferno, que saída me restava? Nenhuma. Pensei em meu pai e minha mãe, na
sagrada chama de minha juventude há tanto tempo extinta, nos milhares de alegrias e afãs de
minha vida. Nada me restava de tudo aquilo, nem sequer o arrependimento, somente o tédio e
a dor. Nunca me havia causado tamanha pena o simples fato de viver como naquela hora.
Numa afastada taberna de subúrbio descansei por uns momentos, bebendo água e conhaque, e
depois continuei a correr, acicatado pelo diabo, indo pelas abruptas e tortuosas ruelas da
cidade velha, pelas avenidas, até a praça da estação. “Viajar!” — pensei. Entrei na estação,
consultei a lista dos trens pregada à parede, bebi um copo de vinho e tentei recobrar o ânimo.
Comecei a ver cada vez mais se aproximando, cada vez mais claramente, o fantasma que
tanto temia. A volta a casa, o voltar a encerrar-me no quarto, o ter de permane

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quieto diante do desespero! Não podia escapar a isso ain-que continuasse caminhando horas e
horas: o regresso à minha porta, à minha mesa cheia de livros, ao divã com o reto de minha
amada pendurado em cima; não podia escaao
instante em que tomaria a navalha e teria de cortar o pescoço. Esta imagem fazia-se cada
vez mais clara diante de mim e cada vez mais precisa; sentindo o coração bater-me
fortemente, provava a angústia maior de todas as angústias; o medo à morte! Sim, tinha um
pavoroso horror à morte. Embora não vislumbrasse outra saída, embora o tédio, a dor e o
desespero me tivessem sitiado, embora já nada me atraísse nem pudesse causar-me alegria ou
dar-me esperanças, horrorizava-me indizivelmente a execução, o último instante, a fria ferida
aberta na própria carne!
Não enxergava nenhum caminho por onde pudesse escapar daquilo que tanto temia. Se na luta
contra o desespero e a covardia esta última vencesse também hoje por acaso, amanhã e todos
os dias seguintes estaria diante de mim o desespero, aumentado pelo desprezo de mim
mesmo. Tantas vezes apanharia a lâmina para tornar a afastá-la, que uma vez decerto chegaria
ao fim. Então era melhor fazê-lo logo, hoje! Falava comigo mesmo como se falasse com uma
criança assustada, mas a criança não me ouvia, fugia dali, queria viver. Continuei minha
caminhada inconstante pela cidade, fiz amplos círculos em torno de minha casa, com a idéia
do regresso em mente, mas sempre procrastinando. Parava aqui e ali nas tabernas, enquanto
esvaziava um copo ou dois; logo voltava a caminhar, em amplos círculos em torno da meta,
em torno da navalha, em torno da morte. Às vezes, sentava-me, morto de cansaço, num
banco, na borda de uma fonte, à beira da calçada; ouvia bater meu coração, limpava o suor da
face, continuava meu trajeto, cheio de angústias mortais, cheio de vacilantes ânsias de viver.
Desta forma, cheguei, já avançada a noite, a uma hospe-aria de ura quarteirão afastado e que
pouco conhecia, por trás de cujas janelas soava uma estridente música de dança.
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Sobre a porta li ao entrar um velho letreiro: Ãgura Negra. Dentro havia grande animação,
muita fumaça, cheiro de vi-nho e algazarra; no salão, mais para dentro, estavam dançan-do ao
som de uma música ensurdecedora. Detive-me na pri. meira sala onde havia umas pessoas
simples, na sua maioria pobremente vestidas, enquanto que na sala de baile podiam-se ver
pessoas elegantes. Empurrado pelos circunstantes, acabei por sentar-me a uma mesa, junto ao
balcão; uma jovem bonita e pálida estava sentada num divã junto à parede; trazia um vestido
de baile com grande decote e uma flor enfiada nos cabelos. Lançou-me um olhar observador e
cordial ao me aproximar e com um sorriso chegou-se para o lado a fim de ceder-me lugar.

— Com licença? — perguntei, sentando-me ao seu lado.
— Ã vontade — disse ela.
— Obrigado — respondi. — Não consigo ir para casa. Não quero, não quero, não posso.
Quero ficar aqui, ao seu lado, se é que me permite. Não, não devo ir para casa.
Ela assentiu com a cabeça como se me compreendesse, e enquanto o fazia, observei a onda de
cabelo que lhe ia da testa até atrás da orelha e descobri que a flor já murcha era uma camélia.
No salão a música ressoava e diante do balcão as gar-çonetes transmitiam aos gritos os
pedidos do público.
— Pode ficar aqui à vontade — disse, numa voz que me fez muito bem. — Por que não quer
voltar para casa?
— Não posso. Tenho algo à minha espera. Não posso, não posso; é horrível.
— Pois deixa esperar à vontade e fique por aqui. Mas antes de mais nada, vamos limpar esses
óculos, que assim não vai conseguir ver nada. Empreste-me o lenço. Que vamos beber?
Borgonha?
Limpou meus óculos e pude então vê-la melhor: o rosto pálido e a boca vermelha cor de
sangue, os claros olhos cinzentos, a testa lisa e fresca, com a onda a cair-lhe sobre a orelha.
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Afável c com um toque de ironia, começou a deixar-me – vontade; pediu vinho, brindou
comigo e olhou para os
meus pés.
__Santo Deus! de onde esta vindo? Parece ate que veio a
pé de Paris. Isso não é maneira de se vir a um baile.
Eu disse sim e não, sorri um pouquinho e deixei-a falar. Estava achando-a bastante
encantadora, para surpresa minha, pois até então sempre olhara com desconfiança a esta
classe de moças. E foi muito bondosa comigo, começou a tratar-me da maneira que melhor
me convinha naquele momento. E assim foi sempre a partir daquele instante! Tratou-me com
a doçura de que eu necessitava e troçou de mim exatamente da maneira que convinha. Pediu
um sanduíche e ordenou-me que o comesse. Serviu-me de vinho e mandou-me bebê-lo
devagar e não de um trago. Depois elogiou minha obediência

— Estou vendo que é um bom menino — disse, para animar-me. — Não é de tornar as coisas
difíceis. Mas sou capaz de apostar que há muito tempo não obedece a ninguém.
— Isto mesmo. Como soube?
— Não é difícil. Obedecer é assim como comer ou beber. Quando se passa muito tempo sem
fazer uma ou outra coisa, não é preciso que insistam conosco. Não é verdade? Não ficou
satisfeito de fazer o que lhe disse?
— Muito contente. Como sabe de tudo?
— Você é que facilita as coisas. Sou capaz talvez de lhe dizer o que está esperando em casa e
o que tanto o angustia. Mas, você sabe muito bem o que é e não precisamos falar no assunto,
não é mesmo? Assunto desagradável! Ou a gente se enforca e está tudo muito bem, pois se
deve ter lá suas razões para isso, ou então continua vivendo sem se preocupar senão com a
vida. O negócio é este!
— Ah! — exclamei — se fosse simples assim! Deus sabe o quanto me tenho preocupado com
a vida e que isto de nada
me serviu. Enforcar-se deve ser uma coisa difícil, suponho.
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Mas viver, viver é muito mais difícil! Só Deus sabe o quanto -difícil!

— Verá como é sumamente fácil! Já começamos bem. Limpamos os óculos, você comeu,
bebeu. Agora vamos esco-var um pouco essas calças e sapatos e em seguida você vai dan-çar
o shimmy comigo.
— Vai ver que eu tinha razão! — exclamei exaltado. Nada mais desagradável para mim do
que deixar de satisfazer um desejo seu. Mas não posso aceder ao que me pede. Não sei dançar
o shimmy, nem a valsa, nem a polca, nem como se chamam todas essas outras; nunca aprendi
a dançar em toda a minha vida. Agora está vendo que a coisa não é assim tão fácil quanto diz?
A bela jovem sorriu com os lábios cor de sangue e balançou a cabeça firme e resoluta.
Enquanto a olhava, pensei ver nela alguma semelhança com Rosa Kreisler, a primeira jovem
de quem me enamorei quando rapaz, só que Rosa tinha os cabelos castanhos e a pele morena.
Não, não me lembrava com quem se parecia aquela estranha jovem; era alguém de minha
primeira juventude, talvez de minha infância.
— Vamos com calma — disse — muita calma! Então você não sabe dançar? Dança
nenhuma? Nem mesmo o one-stepl E não obstante andou aí dizendo que teve de lutar na vida!
Esta é uma mentira da grossa, seu moço, e não fica bem fazer isso na sua idade. Como pode
dizer que a vida lhe deu muito trabalho se você nem sequer sabe dançar?
— É que nunca aprendi. Não pude. Ela sorriu.
— Mas aprendeu a escrever e a ler, não é verdade? E a somar, aprendeu latim e francês
possivelmente e muitas outras coisas semelhantes? Aposto que passou uns dez ou doze anos
na escola e estudou nela o possível, e talvez tenha ate um título de doutor e conhece o chinês
ou o espanhol. Ou não? Muito bem. Mas a verdade é que nunca dedicou um pouco de tempo
nem dinheiro para aprender a dançar, hein?
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  • Foram meus pais — justifiquei-me. — Fizeram-me aprender o latim e o grego e todas essas
    coisas. Mas não me
    ensinaram a dançar, não era uso entre nós; eles próprios não
    sabiam dançar.
    Olhou-me friamente, com muito desprezo, e em seu
    rosto voltou a brilhar algo que me recordou a infância.
    — Agora põe a culpa nos pais! Será que perguntou a eles também se podia vir hoje ao Águia
    Negra? Perguntou? Está me dizendo que morreram há muito tempo? Ah! Talvez você não
    tenha aprendido a dançar em sua juventude por ser uma criança obediente. Embora eu não
    creia que você tenha sido uma criança modelo. Mas, e depois, que foi que você fez durante
    tantos anos?
    _ Ah! — confessei — nem eu mesmo sei. Estudei, aprendi música, li, escrevi livros, viajei…
    — Engraçada a idéia que você tem da vida! Sempre metido em coisas difíceis e complicadas,
    e não aprendeu as fáceis? Não teve tempo para isso? Tinha outras coisas para fazer. Bem,
    graças a Deus, não sou sua mãe. Mas agir assim, como se você já tivesse experimentado toda
    a vida e nela não encontrasse nada de interessante, isso não; isso não pode ser.
    — Não ralhe comigo! — supliquei. —Já sei que estou louco.
    — Espere aí, não me venha com esta história. O senhor não está louco, professor; até me
    parece que de louco não tem nada. É apenas racional de uma maneira estúpida, eis o que
    acho; exatamente como um professor. Vamos, coma outro sanduíche! Depois você me conta.
    Pediu para mim outro sanduíche, deitou nele um pouco de sal, untou-o com mostarda, cortou
    um pedaço para si e me animou a que comesse a outra metade. Comi. Teria feito tudo o que
    me pedisse; tudo, menos dançar. Fazia-me muito
    em estar-lhe obedecendo, sentar-me junto a alguém que pergunta, que ordena, que nos
    desnuda. Se o professor e sua
    senhora tivessem feito o mesmo comigo algumas horas antes,
    93

    tcr-me-iam evitado muitas coisas. Mas, não, assim fora me-lhor; do contrário teria perdido
    muito mais!

— E como é que você se chama? — perguntou de repen-te
— Harry.
— Harry? Que nome mais infantil! E continua sendo uma criança, Harry, apesar das manchasgrisalhas do cabelo. É uma criança e precisa de alguém que vele um pouco por você. Não vou
falar mais nada sobre a dança. Mas como você está mal penteado! não tem nem mulher, nem
amante?
— Não tenho mulher, estamos separados. Tenho uma amante, mas não mora aqui. Só a vejo
de quando em quando, não nos entendemos muito bem.
Ela resmungou.
— Você me parece uma pessoa muito difícil, pois ninguém pára ao seu lado. Mas que lhe
aconteceu hoje de especial para fazê-lo correr assim tão desesperado? Brigou com alguém?
Perdeu no jogo?
Aquilo era difícil de explicar.
— Veja só — comecei a dizer. — Na verdade, não foi nada de grave. Fui convidado a jantar
em casa de um professor (devo dizer-lhe que eu não sou professor), mas na verdade não devia
ter ido; não estou acostumado a sentar-me entre as pessoas e conversar, já esqueci. Entrei na
casa com a sensação de que algo não ia bem; e quando pendurei o chapéu no ca-bide, veio-me
logo a idéia de que breve iria precisar dele. Pois bem, havia na casa desse professor uma
gravura, uma gravura estúpida, que muito me aborreceu…
— Que gravura? Por que se aborreceu? — perguntou interrompendo-me.
— Bem, era um quadro que representava Goethe, sabe, o poeta Goethe. Mas não estava ali
representado como o foi de fato. A rigor não se sabe muito bem como foi na realidade, pois há
mais de cem anos que morreu. Mas algum pintor moderno pintou-o tão alambicado e
penteadinho conforme
94

imaginação, que o retrato me irritou e achei-o odioso. Não sei se me compreende.

-Estou compreendendo perfeitamente, não se preocupe. Adiante!
—Já antes disso eu não estava lá muito de acordo com o professor. Como quase todos os
professores, eJe é um grande patriota e durante a guerra ajudou decididamente a enganar o
povo, com as melhores intenções, é claro. Eu, ao contrário, sou inimigo da guerra. Mas,
deixemos isso de lado. Continuando a história, não havia a menor necessidade de estar
olhando para o retrato…
— Claro que não.
— Mas, em primeiro lugar, causou-me pena por causa de Goethe, a quem tenho na mais alta
das considerações, e, além disso, porque pensei: “Bem, estou aqui sentado entre pessoas que
me parecem iguais a mim e que devem amar Goethe tanto quanto eu e devem ter dele uma
imagem igual àquela que tenho em meu espírito; e, no entanto, ali está aquele retrato
sensaborão, falso e meloso, e o acham admirável e não têm a menor idéia de que o espírito
desse retrato é exatamente o contrário do espírito de Goethe. Acham o quadro maravilhoso, da
mesma forma como acham maravilhoso quase tudo quanto eu também estimo; mas a essa
altura eu já perdera de vez toda a confiança, amizade e sentimento de afinidade que podia
depositar nessas amáveis pessoas. Além do mais, a minha amizade por eles não era lá grande
coisa. De modo que fiquei indignado e triste e compreendi que estava completamente só e que
ninguém me compreendia. Sabe o que quero dizer?
— Perfeitamente, Harry. E depois? Você quebrou o quadro na cabeça deles?
Não, mas cheguei quase a insultar o professor e me despachei dali, correndo. Queria ir para
casa, mas…
— Mas lá não encontraria nenhuma mamãe que conso-asse o nenenzinho ou que ralhasse com
ele, não é? Sim,
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Harry, você chega a me dar pena. Nunca vi ninguém criança quanto você!
Também me parecia, tive de concordar. Deu-me um copo de vinho para beber. Estava
comportando-se comigo co. mo se fosse uma babá. Não obstante eu ia aos poucos perce.
bendo o quanto era jovem e bonita.

— Acontece que — voltou ela a dizer — há mais de cem anos Goethe está morto e Harry o
admira tanto que faz dele uma idéia maravilhosa, de como teria sido e nisto está no seu
direito, não é mesmo? Mas o pintor, que também admita Goethe e dele tem a sua idéia, esse
está errado e bem assim o professor, já que isso não agrada a Harry e o põe desesperado a
ponto de insultar as pessoas e sair correndo! Se fosse uma pessoa normal, teria simplesmente
rido do pintor e do professor. Se fosse louco, teria atirado com o retrato na cabeça deles. Mas
como não passa de um garotinho, só sabe correr para casa e pensar em matar-se. Olha,
compreendi muito bem a sua história, Harry. É muito engraçada. Me faz rir. Espere aí, nada
de beber de um só trago! O borgonha se bebe aos pouquinhos, senão dá muito calor. Puxa! a
gente tem de ensinai tudo a você!
Seu olhar era severo e admoestador como o de uma governanta sessentona.
— Oh, por favor, senhorita — supliquei, contente. — Ensine-me tudo!
— Que você quer mais que lhe ensine?
— Tudo o que a senhorita houver por bem.
— Olhe, vou lhe dizer uma coisa. Há coisa de uma hora que o estou chamando com toda a
intimidade de você e você ainda me vem com esse negócio de senhorita. Cheio de frases
rebuscadas, sempre complicando as coisas. Quando uma pes-soa trata a gente com intimidade
e isso não nos desagrada, devemos tratá-la com intimidade também. Bem, já lhe ensi-nei uma
coisa. Depois, em segundo lugar, há meia hora se que se chama Harry. Sei porque lhe
perguntei. Mas você nem sequer se interessou em saber o meu nome.
96

— Oh, por favor, me interesso sim; quero saber como se
__Agora é tarde! Se nos encontrarmos de novo, pode então
me perguntar Hoje é que não digo. E agora vou dançar. E como fizesse menção de
levantar-se, meu ânimo aba se e a angústia tomou conta de mim, pois se ela se fosse e
deixasse só, tudo iria começar de novo. Como uma dor de dente que passa por um instante e
depois volta a abrasar como fogo, assim reapareceram em mim a angústia e o horror. Oh,
Deus, tinha conseguido esquecer, então, o que estava à minha espera? Podia esperar outra
coisa?
— Espere! — exclamei suplicante — não se vá! Você pode dançar o quanto quiser, mas volte
depois para cá. Volte de novo, volte!
Levantou-se, sorrindo. Imaginava-a mais alta; era es-guia, mas não muita alta. Voltou de novo
a lembrar-me alguém. Quem seria? Não conseguia atinar.
— Volta? Promete?
— Prometo, mas isso pode durar um instante ou uma hora talvez. Quero dizer-lhe mais uma
coisa: feche os olhos e descanse um pouco. É disso que você está precisando.
Afastei-me para que ela passasse e a saia roçou-me os joelhos. Ao sair, olhou-se num
pequenino espelho de bolsa, ergueu as sobrancelhas e passou a esponja pelo queixo; depois
desapareceu no salão de baile. Olhei em meu redor: caras estranhas, homens fumando, cerveja
derramada sobre o mármore das mesas, vozerio e algazarra por toda a parte e música de dança
em meus ouvidos. Eu devia dormir, me dissera ela. Ah, boa menina, se você soubesse que o
meu sono é tão arisco quanto uma doninha! Dormir em meio a este tumulto, sentado a uma
mesa, entre o brindar dos copos de cerveja!… Sorvi um pouco do vinho, tirei um cigarro do
bolso, procurei o fósforo, mas como na realidade não tivesse nenhum desejo de fumar, pus o
cigarro diante de mim sobre a mesa. “Feche os olhos!” — me dissera ela. Sabe Deus por
a moça tinha aquela voz, uma voz tão bondosa, mater97

nal. Fazia bem obedecer-lhe, isso eu já havia descoberto an-tes. Fechei os olhos obediente,
apoiei a cabeça na parede, ou-vi o ruído de mil vozes que vinham chocar-se contra achei
graça na idéia de dormir naquele lugar, resolvi aproxi-mar-me da porta do salão de baile e dar
uma olhada para dentro — queria ver a minha formosa companheira dançan-do — fiz um
movimento para levantar-me e logo me dei con. ta de como estava exausto em razão de haver
caminhado ho. ras e horas e por isso permaneci sentado. E logo adormeci, co-mo me fora
ordenado pela voz maternal; dormi ansioso e agradecido, e sonhei, um sonho claro e belo,
como há muito não me era dado sonhar.
Sonhei que estava sentado numa sala de espera já fora de moda. A princípio sabia apenas que
tinha uma entrevista marcada com alguma pessoa importante. Logo percebi que era o Sr. von
Goethe quem iria receber-me. Infelizmente eu não estava ali em caráter pessoal, mas como
correspondente jornalístico, o que muito me desagradava e não podia compreender por que
demônios me tinham metido naquela en rascada. Além disso, estava preocupado com um
escorpião que aparecia de vez em quando e tentava subir-me pela perna. É certo que saberia
defender-me contra o negro rastejante, mas não sabia agora onde se escondera e não me
atrevia a procurá-lo.
Ademais, não estava muito certo se, por engano, me haviam anunciado a Matthinson, em vez
de Goethe, a quem confundi de novo em sonhos com Bürger, pois lhe atribuía os poemas de
Molly. Por outra parte, eu teria apreciado muito um encontro com Molly, pois a imaginava
maravilhosa, delicada, musical. Se pelo menos não estivesse ali a mando da-quele maldito
jornal! Meu mau humor foi aumentando, aumentando, e pouco a pouco se concentrava sobre
Goethe, a quem já intentava fazer várias reprovações. A entrevista talvez não se encaminhasse
a bom termo. O escorpião, apesar* perigoso e escondido bem próximo de mim, talvez não
fosse tão mau assim; pareceu-me que podia significar também algo
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amistoso pareceu-me provável que tivesse algo a ver com Molly ser uma espécie de enviado
seu, ou uma fera heráldi-m belo e perigoso animal da feminilidade e do pecado. Não poderia
chamar-se por acaso Vúlpius? Mas neste momento
um criado abriu a porta, levantei-me e entrei. Lá estava o velho Goethe, baixo e muito
ereto, trazendo neito clássico a enorme condecoração de alguma Ordem. Dava a impressão de
que ainda governava, de que estava concedendo audiências, de que ainda controlava o mundo
sentado em seu museu de Weimar. Pois mal olhou para mim, com um movimento de cabeça
que lembrava um velho corvo, começou a falar pomposamente:

— Com que então, vós, os jovens, não tendes grande apreço por nós e pelos nossos esforços?
— Exatamente — disse eu, gelado pelo seu frio olhar ministerial. — Nós, os jovens, não
estamos muito de acordo com Vossa Excelência. Sois demasiado solene para nós, demasiado
vaidoso, demasiado auto-suficiente e pouco sincero Sem dúvida, este é o ponto capital: pouco
sincero.
O homenzinho lançou a severa testa para a frente e enquanto sua boca dura e enrugada se
distendia num leve sorriso e se tornava encantadoramente viva, o coração bateu-me com
força, pois recordei a poesia “Desceu a tarde… ” e que fora daquela boca e daquele homem
que haviam brotado as palavras daquela poesia. Fiquei tão desarmado e vencido naquele
instante que, sem dúvida, teria preferido ajoelhar-me diante dele. Mas me mantive de pé e
ouvi-o dizer com um sorriso:
— Então o senhor me acusa de insinceridade? Isso é coisa que se diga! Tenha a bondade de
fazer-se mais explícito!
Eu estava contente em poder fazê-lo.
-— Como todos os grandes espíritos, Exmo. Sr. Goethe, o senhor claramente reconheceu e
sentiu a dúvida e a desesperança da vida humana, com seus momentos de transcendência
que vão afundar-se de novo na miséria, a impossibili-dade de atingir-se a altura ideal
dos sentimentos senão à custa
99

de muitos anos de escravidão à labuta cotidiana; o ardente as pirar pelo reino do espírito em
eterna luta mortal com o amor à perdida inocência da natureza, igualmente ardente e sagrado;
todo este temeroso oscilar no vazio e na incerteza essa condenação ao transitório, incompleto,
ao eternamente empírico e diletante; em suma, toda a falta de escopo a que o ser humano está
condenado… para seu desespero devorador O senhor reconheceu tudo isso e houve tempo em
que também o confessou, e no entanto consagrou toda sua vida a pre-gar o contrário,
manifestando fé e otimismo e espalhando diante de si e dos demais a ilusão de que nosso
esforço espiri-tual tinha algum significado e continuidade. O senhor fez ouvidos surdos
àqueles que sondavam as profundezas e reprimiu as vozes dos que diziam a desesperada
verdade, o que se aplica a Kleist e a Beethoven. Ano após ano, o senhor viveu em Weimar a
acumular conhecimentos e a colecionar objetos de arte, a escrever cartas e a coletá-las, como
se tivesse em sua idade provecta encontrado o verdadeiro caminho para eternizar o instante,
embora só pudesse mumificá-lo, e a tentar espiritualizar a natureza, embora só conseguisse
ocultá-la sob uma bela máscara. Esta é a insinceridade que nós lhe reprovamos.
O velho conselheiro olhou-me, pensativo, nos olhos, enquanto sua boca continuava a sorrir.
Logo perguntou, enchendo-me de admiração:

— O senhor deve ter uma profunda objeção contra a Flauta Mágica de Mozart, não?
E antes que eu pudesse responder, continuou:
— A Flauta Mágica apresenta-nos a vida como se fora um canto prodigioso, celebra nossos
sentimentos, ainda que transitórios como são, como algo divino e eterno, não estando pois de
acordo nem com o Sr. Kleist nem com o Sr. Beethoven, já que predica a fé e o otimismo.
— Já sei, já sei — gritei furioso. — Deus sabe que a Flauta Mágica que o senhor menciona é
o que mais venero neste mundo! Mas Mozart não chegou aos oitenta e dois anos
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de idade, nem teve essas pretensões de continuidade, de ordem

de rígida dignidade que o senhor teve. Não se deu tan-ímportância! Compôs suas divinas
melodias e morreu; morreu cedo, pobre e desconhecido…
O hálito me faltava. Quisera dizer mil coisas em dez palavras. Minha testa começou a suar.
Goethe, no entanto, disse, muito amável:
__Pode parecer imperdoável que eu tenha chegado aos
oitenta e dois anos. Minha satisfação relativamente a esse fato é, entretanto, muito menor do
que o senhor imagina. Tem razão quando afirma que sempre tive um grande anseio de
perdurar; sempre vivi em luta contra a morte, temendo-a sempre. Creio que a luta contra a
morte, a obstinação absoluta de querer continuar vivo, seja a força motivadora que jaz sobre
as vidas e atividades de todos os homens representativos. Com meus oitenta e dois anos, meu
jovem amigo, consegui provar apenas que o homem tem de morrer afinal, da mesma forma
como teria morrido quando era um escolar. Se acaso servir de justificativa, queria dizer
também que havia muito de infantilidade em minha natureza de curioso e muito desejo de
matar o tempo em brincadeiras. E custei muito a dar-me conta de que o jogo haveria de
acabar, afinal.
Ao dizer isso, sorria com muita sutileza, quase pilhe-riando. Sua figura tornara-se maior,
desaparecera a rígida postura e a forçada dignidade de sua face. O ambiente que nos rodeava
estava agora cheio de sonoras melodias, e harmoniosos lieder de Goethe; ouvi distintamente a
Veilchen (Violetas), de Mozart e a Füllest wieder Busch und Tal (De Novo Enches o Bosque e

o Vale), de Schubert. O rosto de Goethe estava agora cotado e jovem e sorria; parecia-se
agora com Mozart, logo com Schubert, ou como se fora um seu irmão, e a roseta que havia
em seu peito estava composta inteiramente de flores silvestres, com uma primavera amarela
abrindo-se alegre e louçã no meio delas.
Não me agradou de todo que o ancião estivesse fugindo as minhas perguntas e reprovações
daquela maneira tão irôni101


ca, e olhei para ele com olhar de censura. A isso, inclinou-se e aproximando de mim a
boca que se havia tornado inteira-mente infantil, sussurrou ao meu ouvido:

— Meu amigo, levas o velho Goethe muito a sério. Não se devem tomar as pessoas
idosas que já estão mortas demasiadamente a sério, pois seria cometer uma injustiça
contra elas. Nós, os imortais, não gostamos de coisas que devem ser levadas a sério,
preferimos gracejar. A seriedade, meu jovem é uma conseqüência do tempo; consiste,
permito-me confiar-lhe, numa superestimaçâo do tempo. Eu também, em minha
época, dei valor demais ao tempo, por isso queria viver cem anos. Mas, na eternidade,
como vês, não há tempo; a eternidade não é mais que um momento, cuja duração não
vai além de um gracejo.
E, em verdade, já não se podia continuar falando a sério com o homem: dava pulos de
contentamento, ágil e flexível, e logo deixou a primavera saltar de sua condecoração
como se fosse um foguete para, em seguida, fazê-la encolher-se e desaparecer.
Enquanto se exibia de um lado para outro com seus passos de dança e suas visagens,
tive de admitir pelo menos que aquele homem não se havia esquecido de aprender a
dançar. Fazia-o maravilhosamente. Então lembrei-me do escorpião, ou antes de
Molly, e perguntei a Goethe:
— Diga-me: Molly está aí?
Goethe riu sonoramente. Caminhou para a escrivaninha e abriu uma gaveta; tirou de
dentro uma caixa de couro ou de veludo, abriu-a e colocou-a diante dos meus olhos.
Dentro havia uma diminuta perna de mulher, perfeita e brilhante, repousando sobre o
escuro fundo da caixa, uma perna encantadora, um pouco inclinada no joelho,
estirando o pé para baixo e com os delicados dedos em ponta.
Estendi a mão e quis apanhar a pequenina perna, que tanto me havia encantado, mas
quando quis tomá-la entre os dedos me pareceu que o brinquedinho se movia com
imper-ceptível movimento, e de súbito assaltou-me a suspeita de que podia ser o
escorpião. Goethe pareceu compreendê-lo;
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parecia mesmo que o tivesse feito de propósito, com o fito de provocar aquela febril dissensão
entre o desejo e o temor. Estendeu o provocante escorpião muito próximo do meu rosto,
me viu desejá-lo, me viu retroceder horrorizado, e isto parecia causar-lhe grande prazer.
Enquanto me provocava com o objeto encantador e perigoso, voltara a tornar-se novamente
velho, convertera-se num ancião de mil anos, com os cabelos brancos como a neve; e o rosto
enrugado de ancião sorria sereno e silencioso, um riso que lhe comovia as entranhas com o
insondável humorismo dos velhos.
Quando despertei, havia esquecido o sonho, do qual só me recordei mais tarde. Dormira mais
de uma hora, em meio à música e à algazarra, na mesa de um salão, como jamais julgara
possível. A adorável moça estava de novo diante de mim e sua mão repousava em meu
ombro.

— Me dá dois ou três marcos — disse. — Tenho de pagar algo no salão.
Dei-lhe minha bolsinha de níqueis. Ela tomou-a, saiu, mas voltou em seguida.
— Bem, agora posso sentar-me com você um pouco, mas logo tenho de ir embora. Tenho um
encontro.
Estremeci:
— Com quem? — perguntei com precipitação.
— Com um senhor, meu caro Harry. Convidou-me para irmos ao bar Odeon.
— Oh! pensei que você não me deixaria sozinho.
— Então, por que não me convidou? Alguém passou à sua frente. É bom, que assim você
economiza dinheiro. Conhece o Odeon? Depois da meia-noite só servem champanha; as
poltronas são de veludo, tem uma orquestra de jazz, tudo muito elegante.
Eu jamais dera importância a tais coisas.
— Ah! — disse, suplicante. — Mas eu quero convidá-la! Pensei que estivesse subentendido,
agora que somos amigos. Escolha o lugar que bem lhe aprouver. Venha, por favor, eu lhe
peço.
103


— Muito obrigada, mas acontece que palavra é palavras já me comprometi com outro e tenho
de ir. Mas não fique triste por isso! Vamos, beba outro gole; ainda há muito vinho na garrafa.
Beba-o e depois vá tranqüilo para casa. Prometa-me!
— Não, para casa não posso ir.
— Ah, voltamos à mesma história de sempre! Será que você não entra em acordo com
Goethe? (Neste momento, recordei-me de meu sonho com Goethe. ) Mas, se é verdade que
não quer ir para casa, pois então fique aqui; eles alugam quartos. Quer que eu peça um para
você?
A idéia agradou-me e perguntei-lhe quando voltaria a vê-la. Onde morava? Mas ela não me
disse. Bastava procurá-la por aí que a acabaria encontrando.
— Posso convidá-la para irmos a um lugar?
— Que lugar?
— Qualquer um que você queira.
— Está bem. Terça-feira podemos jantar no Velho Fran-ciscano, no primeiro andar. Nos
encontramos lá.
Estendeu-me a mão e analisei que esta se casava perfeitamente com sua voz, formosa e cheia,
sábia e bondosa. Ela sorriu irônica enquanto eu lhe beijava a mão.
E, no último instante, voltou-se de novo para mim e disse:
— Quero dizer-lhe mais uma palavra a propósito de
Goethe. O que lhe aconteceu em relação a Goethe, de quem não pode suportar certas
representações, acontece comigo em
relação aos santos.
— Aos santos? Você é tão religiosa assim?
— Não, não sou religiosa, infelizmente, mas já fui noutra época e mais tarde voltarei a ser.
Agora não tenho tempo
para isso.
— Não tem tempo? É preciso tempo para ser religioso?
— Claro que sim. Para sermos religiosos, é preciso tempo, muito tempo. Ter independência
de tempo! Não se pode ser formalmente religiosa e viver ao mesmo tempo na realida104

de e levar as coisas a sério: o tempo, o dinheiro, o bar Odeon
e tudo o mais.
__ Compreendo. Mas o que foi que disse a propósito dos
santos?

— Bem, há muitos santos pelos quais tenho devoção:
Santo Estêvão, São Francisco e outros. Às vezes vejo imagens deles e também do Salvador e
da Virgem Santíssima, imagens tão piegas, tão falsas e estúpidas que não posso suportar,
como lhe aconteceu com a gravura de Goethe. Quando vejo uma imagem tão melosa e
apalermada do Salvador ou do Santo de Assis, que os outros acham tão devota e edificante,
considero-a um insulto ao verdadeiro Salvador e penso: Ah! Ele viveu e sofreu tão
terrivelmente para que as pessoas se contentem com uma estampa tão idiota? Apesar disso,
sei também que a imagem que faço do Salvador ou de São Francisco não passa de uma
imagem humana que não alcança nem de leve a imagem original, e que o Salvador por sua
vez acharia a imagem interior que faço d’Ele, tão estúpida e insuficiente quanto acho aquelas
estampas medíocres. Estou-lhe dizendo isto, não pata lhe dar razão por seu mau humor e sua
fúria contra o retrato de Goethe; não, nisso você não tem razão. Digo-lhe simplesmente para
demonstrar-lhe que posso compreendê-lo Vocês, os artistas e os eruditos, têm coisas
singulares no miolo, mas no fundo não passam de pessoas iguais as outras, e nós também
temos nossos sonhos e fantasias na cabeça. Também notei, ilustre senhor, que teve certa
vacilação em me contar sua história sobre Goethe, que teve de esforçar-se para compartilhar
suas idéias com uma moça simples como eu. Por isso quis demonstrar-lhe que não precisava
esforçar-se tanto. Compreendo-o perfeitamente. Bem, já disse o que queria e agora você vai
para a cama.
Ela se foi e uma velha criada subiu comigo dois lances de
escada. Primeiro perguntou-me onde estava minha bagagem
e quando se inteirou de que eu não trazia nenhuma, tive de
Pagar-lhe o pouso adiantado. Depois levou-me por uma escavelha
e escura até um quarto e me deixou só. Ali havia
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uma cama de madeira estreita e dura, e da parede pendiam uma espada e um cromo de
Garibaldi, além de uma coroa de flores murchas de alguma festa de associação. Eu teria dado
tudo por um pijama. Mas ao menos havia água e uma pequena toalha, podia lavar-me; depois
meti-me vestido na cama deixei a luz acesa e tive tempo para refletir. Então acertei contas
com Goethe. Fora esplêndido que me visitasse em sonhos E aquela maravilhosa jovem, se
pelo menos eu lhe soubesse o nome! De repente uma pessoa, uma pessoa viva percute a
campânula de cristal da minha apatia e me estende a mão, uma mão boa, bela, cálida! De
repente, voltam a surgir coisas que me afetam, nas quais posso pensar com alegria, com
preocupação, com interesse! De repente, uma porta que se abre e por ela entra a vida para
mim! Talvez possa voltar a viver, talvez possa voltar a ser gente. Minha alma, que havia
tombado adormecida no frio e quase se enregela, respira de novo e volta a bater sonolenta as
pequenas asas débeis. Goethe estivera comigo. Uma jovem me animara a comer, a beber e a
dormir, se mostrara amável comigo, me havia sorrido e me chamara de criança tola. E aquela
maravilhosa amiga me havia falado também sobre os santos e me mostrara que até em minha
prodigiosa esquisitice eu não estava só, nem era incompreendido, nem era uma enfermiça
exceção, mas que tinha irmãos que me compreendiam. Voltaria a vê-la? Com certeza! Podia
confiar nela: “Palavra é palavra”.
E antes que me desse conta peguei no sono e dormi durante quatro ou cinco horas. Eram mais
de dez da manhã quando acordei, com as roupas todas amarrotadas, exausto, e em minha
cabeça a memória semi-esquecida da sensação horrível do dia anterior; mas estava vivo, tinha
esperança e felizes pensamentos. Ao voltar para casa, já não sentia aquele terror que teria
sentido se regressasse na véspera.
Na escada, no andar acima do pinheirinho, dei de encontro com a “tia”, minha hospedeira, a
quem via de raro em raro, mas cuja amistosa presença me era muito agradável. Tal encontro
não fora muito oportuno, pois estava sujo e três106


noitado, despenteado c com a barba por fazer. Cumprimen-■ e quis passar adiante. Ela
sempre respeitava meu desejo de estar sozinho e de não ser observado continuamente, mas
hoje parecia ter-se rompido um véu entre mim e o mundo em redor, ter-se desmoronado a
barreira — ela sorriu e permaneceu parada.
__Divertiu-se esta noite, hein, Sr. Haller? Não desfez a
cama e decerto deve estar cansado, não?
__Sim — disse eu, e tive de sorrir também — a noite de
ontem foi animada e, como não quisesse interromper a paz de sua casa, acabei dormindo num
hotel. Meu respeito pela calma e a honorabilidade de sua casa é muito grande, e às vezes me
sinto como um “corpo estranho” nela.

— Não faça pouco, Sr. Haller.
— Eu só faço pouco de mim mesmo.
— Pois não devia fazê-lo. Não devia sentir-se em minha casa como um “corpo estranho”.
Pode viver como melhor lhe convenha e fazer o que bem entenda. Já tive muitos inquilinos
distintos, verdadeiras jóias de amabilidade, mas nenhum era tão sossegado ou nos incomodou
menos que o senhor. E agora, quer tomar uma chávena de chá?
Não me opus. Na sala de jantar, entre formosos retratos de seus antepassados e os móveis de
seus avós, tomei um chá excelente e conversamos um pouco; a amável senhora, sem que o
perguntasse expressamente, ficou sabendo algumas coisas a respeito de minha vida e de meus
pensamentos, e ou-viu-me com esse misto de respeito e de indulgência maternal que as
mulheres prudentes têm para com as complicações dos homens. Falou-me também de seu
sobrinho e me mostrou num quarto contíguo o trabalho que este fizera durante as últimas
férias: um aparelho de rádio. Ali o esforçado jovem passava seus momentos de ócio e montara
aquela máquina, seduzido pela telegrafia sem fios, prostrado de joelhos diante do deus da
técnica, cujo poder possibilitou o descobrimento, após milhares de anos, de um fato que todos
os pensadores sempre souberam e do qual fizeram melhor uso do que neste
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recente e muito imperfeito estágio atual. Falamos a propósito disso, pois a senhora era
inclinada à devoção e os temas religiosos não lhe eram desagradáveis. Disse-lhe que a
onipresença de todas as forças e ações eram bem conhecidas pelos antigos hindus, e a
técnica havia simplesmente trazido um pouco desse fato à consciência comum, e por
esse meio, no que se refere às ondas sonoras, havia construído um emissor e um
receptor que ainda estavam totalmente imperfeitos. A base daquela idéia antiga, a
irrealidade do tempo, não fora ainda observada pela técnica, mas naturalmente viria a
ser finalmente “descoberta” e cairia nas mãos dos laboriosos engenheiros. Seria
descoberto, talvez muito em breve, pois não só as imagens e acontecimentos presentes
e momentâneos poderiam chegar continuamente até nós, como a música de Paris ou
de Berlim se faz agora audível em Frankfurt ou em Munique, mas também tudo o que
já aconteceu fica registrado e pode tornar-se atual; e que um dia, com fios ou sem
eles, com ou sem ruídos, chegaremos a ouvir a voz do rei Salomão ou a de Walter von
der Vogelwide. E que tudo isto, como hoje os primórdios do rádio, só servirá ao
homem para fugir de si mesmo e de sua meta e envolver-se numa rede cada vez mais
cerrada de distrações e ocupações inúteis. Mas disse todas essas coisas não no
costumeiro tom de amargura e desdém contra os tempos atuais e a técnica, mas em
tom de pilhéria e com ar de brincalhão; a senhora se ria e passamos assim uma hora
juntos, a tomar chá e a nos divertirmos.
Havia convidado a admirável jovem do Águia Negra para a noite de terça-feira, e não
me foi fácil esperar que chegasse aquele dia; quando por fim chegou a terça-feira, tive
perfeita noção da importância que tinham para mim as relações com aquela moça,
uma simples desconhecida, e isso me encheu de espanto. Só pensava nela, e esperava
tudo dela, estava disposto a sacrificar-lhe tudo e pôr tudo a seus pés, embora não
estivesse em absoluto enamorado dela. Bastava imaginar que não compareceria ao
encontro ou que dele se houvesse esquecido, para ver claramente o que ela
representava para
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mim; o mundo me parecia então novamente vazio, os dias eram escuros e destituídos de
encanto, voltava a envolver-me a cruel quietude e a morte, e não via outra saída daquele
inferno silencioso senão a navalha de barbear. E a navalha de barbear não fora nada agradável
para mim nestes dias, não havia perdido nada de seu antigo horror. Isto era exatamente o mais
terrível: sentia uma profunda e opressiva angústia em cortar a garganta, temia a morte como
uma força tão obstinada e selvagem, como se fosse o homem mais saudável do mundo e
minha vida um verdadeiro paraíso. Conhecia meu estado com plena e brutal clareza e
reconhecia que a tensão insuportável entre o não poder viver e o não poder morrer era o que
me fazia dar tanta importância à desconhecida, à linda bailarina do Águia Negra. Era a única
janela, a luminosa e diminuta abertura em minha sombria e angustiosa caverna. Era a
salvação, o caminho para a liberdade. Haveria de ensinar-me a viver ou ensinar-me a morrer,
haveria de tocar com sua mão firme e formosa meu coração transido, para que ele, em contato
com a vida, de novo florescesse ou se tornasse em cinzas. De onde tirava ela essa força, de
onde lhe vinha a magia, de que profundos abismos se elevava até ela essa profunda
significação que tinha para mim? Não sabia e não me importava sabê-lo. Bastava-me saber de
sua existência. Nenhuma ciência, nenhum conhecimento me importara tanto; estava saciado
deles, precisamente nisto consistia a ignomínia e o tormento mais agudos de que eu padecia:
ver tão claramente meu próprio estado, ter perfeita consciência dele. Via a este infeliz, a este
Lobo da Estepe diante de mim como uma mosca numa teia de aranha, e contemplava como
seu destino forçava o desenlace, como pendia da teia enlaçado e indefeso, como a aranha se
dispunha a devorá-lo, como aparecia também uma salvadora mão. Poderia dizer as coisas
mais racionais e inteligentes sobre a concatenação e os motivos do meu padecimento, da
enfermidade de minha alma, de meu enfei-tiçaamentn e de minha neurose, pois a mecânica
era evidente para mim. O que mais me fazia falta, aquilo por que suspira109


va tão desesperadamente, não era saber e compreender, mas vida, decisão, movimento e
impulso.
Embora durante aqueles dois dias de espera nunca duvidasse de que minha amiga cumpriria o
prometido, às últimas horas estive muito excitado e inseguro; nunca na vida esperara com
tamanha ansiedade a noite de nenhum dia. E embora a tensão e a impaciência se me
tornassem quase insuportáveis, aquilo me causou um grande bem: era indizivelmente formoso
e novo para mim, para o desiludido que há muito tempo nada mais esperava, que não se
satisfazia com o que quer que fosse; era maravilhoso correr daqui para ali o dia todo, cheio de
impaciência, de inquietude e veemente expectativa, imaginar antecipadamente o encontro, a
conversação, os acontecimentos da noite, barbear se e vestir-se para o encontro (com muito
apuro, camisa nova, gravata nova, cordões novos nos sapatos). Fosse quem fosse aquela moça
inteligente e misteriosa, que tivesse chegado até mim por este ou aquele caminho, tudo me era
indiferente; ali estava, e realizara-se o prodígio de eu voltar a sentir-me um ser humano e
encontrar novamente interesse na vida! Só me importava que tudo prosseguisse, abandonar-
me àquela atração, seguir aquela estrela!
Momento inesquecível em que tornei a vê-la! Estava sentado junto a uma mesinha no antigo e
confortável restaurante, a qual eu reservara pelo telefone, sem que houvesse necessidade;
examinei o cardápio e coloquei no jarro duas formosas orquídeas que comprara para
presentear minha amiga. Tive de esperá-la algum tempo, mas sempre na certeza de que viria,
e não me angustiei. E chegou, e deteve-se junto ao vestiário e me cumprimentou somente com
um olhar atento, um tanto inquisitivo, de seus claros olhos cor de cinza. Desconfiado, fiquei
observando como o moço do vestuário se comportaria com ela. Não, graças a Deus, não
houve qualquer intimidade entre eles, qualquer falta de respeito; mostrou-se impecavelmente
correto. E, no entanto, se conheciam, pois ela o chamou por Emil.
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Quando lhe dei as orquídeas, alegrou-se e sorriu.
__Muito obrigada pela sua atenção, Harry. Você queria
me dar um presente, não é? E não sabia exatamente o que escolher. Não estava certo se eu
ficaria satisfeita em receber o presente ou se me ofenderia, por isso escolheu orquídeas, que
não passam de flores, mas são sempre muito apreciadas. Portanto, muito, muito grata. E
aproveito para dizer-lhe que não quero que me traga presentes. Vivo à custa dos homens, mas
não quero viver à sua custa. Mas, como você está diferente! Parece até outra pessoa! Outro
dia estava como alguém que foi salvo da forca e agora já está quase um homem outra vez.
Bem, diga-me: fez o que lhe ordenei?

— Que foi que você me ordenou?
— Você se esqueceu? Estou perguntando se aprendeu a dançar o fox? Você disse que tudo o
que desejava era receber ordens minhas, que nada lhe era mais agradável do que obedecer-me.
Não se recorda?
— Recordo-me, sim! E volto a repetir. Com toda sinceridade.
— E então, aprendeu a dançar?
— Mas, pode-se aprender com tanta rapidez, assim de um dia para o outro?
— Claro que sim. Numa hora se pode aprender o fox; o boston, em duas. O tango demora
mais, mas este não precisa aprender.
— Agora queria saber, afinal, como é seu nome. Olhou para mim silenciosa um momento.
— Acho que você será capaz de adivinhá-lo. Gostaria muitíssimo que adivinhasse. Preste
bastante atenção e olhe bem para mim! Você às vezes não acha que tenho feições de rapaz?
Agora, por exemplo.
Sim, agora que me fixava bem, podia assegurar que a moça tinha feições de rapaz! E
enquanto o examinava, aquele rosto começou a falar-me e recordou minha própria infância e
Um amigo daquela época que se chamava Hermann. Por um
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pareceu-me converter-se inteiramente naquele disse, assombrado — diria
momento, Hermann.

— Se você fosse homem que seu nome é Hermann.
— Quem sabe, talvez eu seja um homem e esteja simplesmente disfarçada — disse
ela, em tom jocoso.
— Seu nome é Hermínia?
Assentiu, resplandecente, alegre por eu haver adivinhado. Naquele instante serviram
sopa, começamos a jantar, e ela mostrou-se infantilmente satisfeita. O que mais me
agradava nela, o que mais me encantava, era que podia passar de repente da mais
profunda seriedade para a alegria mais rego-zijante, e vice-versa, sem a menor
dificuldade, como se fosse um menino prodígio. Neste momento parecia divertir-se,
logo zombava de mim por causa do foxtrote; até me deu um pequeno toque com o pé,
elogiou a ceia com entusiasmo, notou que eu me preocupara em vestir-me bem, mas
que havia muitos detalhes a corrigir nas minhas arrumações.
Numa pausa perguntei-lhe:
— Como você conseguiu num instante parecer-se tanto com um rapaz e que eu
pudesse adivinhar seu nome?
— Oh, foi você mesmo quem o fez. Não compreende, meu ilustre senhor, que eu lhe
agrado e tenho importância para você exatamente por ser como um espelho seu,
porque dentro de mim há algo que responde e compreende o seu ser? Na verdade,
todos os homens deveriam ser espelhos uns dos outros e responder-se e compreender-
se mutuamente; mas os corujões como você são um tanto estranhos e caem facilmente
no engano de acreditar que não podem mais ler nem ver nada nos olhos dos demais,
que isso já não lhes diz respeito. E quando um corujão encontra de repente um rosto
que o contempla de verdade, sente nele algo assim como uma resposta e um
parentesco, e se alegra, naturalmente.
— Você sabe tudo, Hermínia — exclamei assombrado. — E tudo é exatamente como
você diz. E, no entanto, você e
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tão diferente de mim! É o contrário de mim; tem tudo o que
me falta.

— Ê bom que você pense assim — disse laconicamente.
E aí passou por seu rosto, que me parecia mesmo um espelho mágico, uma pesada nuvem de
seriedade, e de súbito aquele rosto falou não só com seriedade, tragicamente, mas também
insondavelmente, como através dos olhos vazios de uma máscara. Lenta, palavra por palavra,
como se falasse contra a vontade, disse:
— Não se esqueça daquilo que me disse! Que eu devia mandá-lo, e que seria uma alegria para
você obedecer ao meu mando. Não se esqueça disto! Saiba de uma coisa, meu pequeno Harry:
assim como há algo em mim que corresponde a você e lhe inspira confiança, o mesmo se dá
comigo em relação a você. Outro dia, quando vi você entrar no Águia Negra, exausto e
ausente, como se não pertencesse a este mundo, senti imediatamente: Este homem me
obedecerá, este está desejando que eu lhe ordene. E isto é o que farei. Para isto foi que eu
vim. Para isto ficamos amigos.
Falou com tamanha seriedade, tão dentro de um impulso profundo de sua alma, que não
procurei nem tranqüilizá-la nem dissuadi-la. Ela balançou a cabeça, franziu o cenho e com um
olhar dominante e a voz inteiramente fria, continuou:
— Você terá de manter sua palavra, meu pequeno, pois do contrário se arrependerá. Receberá
ordens minhas e terá de cumpri-las todas, ordens agradáveis e belas; será para você um prazer
cumpri-las. E por fim terá de obedecer ao meu último comando, Harry.
— Obedecerei — disse eu, concordante. — E qual será sua última ordem para mim?
Eu quase o suspeitava, Deus sabe por quê. Ela estremeceu e parecia despertar lentamente de
seu ensimesmamento. seus olhos não me abandonavam. Logo se tornaram mais sinistros
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— Seria mais prudente não lhe dizer nada. Mas não quero ser prudente, Harry; desta vez não
quero. Quero o contrário. Escute! Você vai ouvir, terá logo de esquecer-se do que ouviu,
achará graça nisto, chorará por causa disto. Preste atenção, pequeno! Quero brincar com você
na vida e na morte, meu irmão, e antes de começarmos a jogar vou colocar minhas cartas
sobre a mesa.
Que formoso era seu rosto, que celestial estava ao dizer isto! Nos olhos frios e claros flutuava
uma tristeza de quem sabe; aqueles olhos pareciam já ter sofrido todas as dores imagináveis e
aquiescido nelas. Seus lábios falavam com dificuldade, como se fala quando o frio nos
intumesce o rosto; mas entre os lábios, nas comissuras da boca, no voltear da ponta de sua
língua que raramente se deixava ver, havia, em contradição com o olhar e a voz, uma doce
sensualidade jubilosa de íntimo regozijo. Sobre a fronte serena e lisa pendia um cacho, e dali,
daquele trecho da face onde pendia o anel de cabelos, manava de quando em quando, como
um hálito vivo, aquela vaga semelhança de rapaz, de magia hermafrodita. Eu a ouvia cheio de
angústia e, no entanto, como aturdido, como meio ausente.
— Você gosta de mim — prosseguiu — pelos motivos que já lhe disse: consegui romper a
sua solidão, porque o arranquei das próprias portas do inferno e consegui despertá-lo. Mas
quero algo mais de você, muito mais. Quero que você se apaixone por mim. Não, não me
interrompa, deixe-me falar! Você me aprecia muito, já sei, e está agradecido, mas ainda não
está apaixonado por mim. Quero que você fique e isso faz parte do meu plano. Só vivo para
que os homens se apaixonem por mim. Mas, preste atenção, não faço isto por achar você
encantador. Eu não estou mais apaixonada por você, Harry, do que você por mim. Mas
necessito de você como você necessita de mim. Necessita de mim agora, neste momento,
porque está desesperado e necessita de alguém que o empurre para a água que lhe devolverá a
vida. Precisa de mim para ensiná-lo a dançar, a rir, a aprender a viver. Mas eu não
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preciso de você hoje, e sim mais tarde; para algo muito im-nortante e maravilhoso. Quando
você estiver apaixonado eu lhe darei minha última ordem e você terá de obedecer, e isso será
proveitoso tanto para você quanto para mim.
Consertou na jarrinha uma das orquídeas violeta-escura de hastes esverdeadas; inclinou o
rosto um momento e olhou fixamente para a flor.
__Não lhe será fácil, mas terá de fazê-lo. Terá de cumprir a minha ordem: terá de matar-me!
É isso. Agora, não me pergunte mais nada!
Com os olhos ainda fitos na orquídea, emudeceu; o rosto distendeu-se-lhe como um botão que
floresce e, de súbito, apareceu um sorriso encantador em seus lábios, ao passo que os olhos
permaneceram fixos e alheios por uns instantes. Logo ergueu a cabeça movendo o pega-rapaz,
bebeu um gole d’água, deu-se conta de que estávamos jantando e inclinou-se sobre o prato
com alegre apetite.
Eu escutara palavra por palavra a sua inquietante exposição, pressentira mesmo o significado
de sua última ordem antes que ela a houvesse pronunciado e não me assustei ao ouvi-la dizer:
você terá de matar-me.
Tudo o que disse soou-me convincente e predestinado; aceitei-o e não me opus a isso; e, no
entanto, apesar da crua seriedade com que ela o pronunciara, tudo aquilo para mim carecia de
realidade, não o podia levar a sério. Uma parte de minha alma bebeu suas palavras e acreditou
nelas, mas a outra acudiu conciliadora e veio assegurar-me que também esta prudente, sadia e
segura Hermínia tinha seus momentos de devaneio e seus estados nebulosos. Mal terminara
de pronunciar suas últimas palavras, um véu de irrealidade e inexistência baixou por sobre
elas.
Não obstante, eu não podia ir de um pólo ao outro assim com a mesma rapidez com que
Hermínia o fazia. . -De modo que um dia terei de matá-la? — perguntei, ainda meio em
sonho, enquanto ela ria, e trincava o pato com grande satisfação.

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— Sem dúvida — disse — mas não vamos voltar ao assunto, pois estamos jantando. Seja
bonzinho e peça agora um pouco mais de salada para mim. Não está com apetite? Acho que
lhe falta ainda aprender aquilo que é natural nas outras pessoas, como por exemplo o prazer
de comer. Veja só este peito de pato: quando se separa a carne branca e deliciosa do osso, é
como se fosse uma festa! Deve ser para o nosso coração tão apetitoso, emocionante e sensível
quanto para um jovem ajudar pela primeira vez a namorada a tirar o casaco. Compreendeu?
Não? Você é burrinho mesmo. Aqui: vou lhe dar um pedacinho desta carne para você provar.
Assim, abra a boca! Oh, que bobão você é! Fica olhando em torno para ver se estão
observando você comer do meu garfo! Não ligue para isso, filho pródigo, não farei um
escândalo. Mas pobre daquele que não pode se dar a um prazer sem pedir antes a permissão
dos outros.
A cena que se passara antes tornava-se cada vez mais irreal. Cada vez mais me era difícil
acreditar fossem os mesmos aqueles olhos que um momento antes se mantiveram fixos como
numa obsessão de horror. Mas neste particular Hermí-nia era como a própria vida: não se
podia antecipá-la, era sempre o momento presente. Agora comia e levava a sério a carne do
pato e a salada, a torta e o licor; fazia deles objetos de alegria e raciocínio, de conversação e
fantasia. Quando retiraram os pratos, começou um novo capítulo. Aquela mulher, que tão
completamente havia penetrado em mim, que parecia saber mais a respeito da vida do que
todos os sábios, continuava menina, continuava vivendo cada minuto com tal arte que havia
feito de mim um discípulo incondicional. Quer fosse alta perspicácia quer simples
ingenuidade, quem vivia assim tão no presente e sabia apreciar tão cuidadosa e
amigavelmente cada florzinha do caminho, estava acima de tudo e a vida nada podia contra
ela. E dizer que a alegre criatura, com sua gula infantil, era ao mesmo tempo uma sonhadora e
uma histérica, que desejava a morte, ou uma fria calculista, que queria fascinar-me consciente
e friamente e fazer de mim
116

seu escravo!… Isto não podia ser. Não, seu abandono ao momento era tão simples e tão
completo que estava aberta por inteira ao mesmo tempo a todo acontecimento prazeroso como
a todo horror negro e fugitivo que proviesse dos mais profundos recessos de sua alma; e tudo
saboreava até o fim.
Embora fosse aquela a segunda vez que eu me encontrava com Hermínia, ela tudo sabia a
meu respeito e pareceu-me inteiramente impossível que lhe pudesse ocultar qualquer segredo.
Talvez não chegasse a compreender por completo a minha vida espiritual; talvez não
conseguisse acompanhar-me nas minhas relações com a música, Goethe, Novalis ou
Baudelaire. Mas isto também era um ponto discutível; talvez não tivesse mais trabalho nisso
do que em relação aos demais. E, afinal de contas, que restara de minha vida espiritual? Não
estava toda feita em pedaços? Não perdera o sentido? Mas, quanto ao resto, aos meus
problemas pessoais, meus anseios, não tinha dúvida de que ela os compreendia bem. Em
breve falaria com ela a propósito do Lobo da Estepe, do tratado, de tudo aquilo que até então
só existira para mim e a respeito do que nunca dissera uma palavra a quem quer que fosse. De
fato, não consegui resistir à tentação de tocar no assunto imediatamente.

— Hermínia — disse — há pouco me sucedeu uma coisa extraordinária. Um desconhecido
me entregou um folheto impresso, como esses livretos que se compram nas feiras, e nele vi
descrita toda a minha história e tudo quanto me diz respeito. Você não acha isto uma coisa
prodigiosa?
— Como se chama o folheto? — perguntou casualmente.
— Intitula-se O Tratado do Lobo da Estepe.
— Oh, Lobo da Estepe é excelente! E o Lobo da Estepe é você! Aplica-se a você?
— Sim, sou eu. Sou uma espécie de meio-lobo, meio-nomem, ou pelo menos alguém que se
imagina assim.
117

Não respondeu. Olhou-me inquisidoramente nos olhos examinou-me as mãos, e por
um momento seu olhar e seu rosto refletiram de novo aquela profunda seriedade e a
sombria paixão que neles vira antes. Certo adivinhei-lhe o pensamento, de que ela
estava avaliando se eu seria suficientemente lobo para levar a cabo a sua última
vontade.

— Naturalmente é uma ilusão sua — disse, voltando a mostrar-se alegre — ou, se
prefere, uma ilusão poética. Mas há algo de real. Hoje você não é lobo; mas no outro
dia, quando entrou no salão, como se caísse do céu, parecia um animal selvagem; e foi
precisamente por isso que você me agradou.
Interrompeu-se com uma idéia repentina, e disse, meio confusa:
— Soam tão absurdas palavras assim como animal ou besta. Não se devia falar dos
animais desta maneira. Podem ser terríveis às vezes, mas sem dúvida são muito mais
justos que os homens.
— Que entende você por justo?
— Bem, veja um animal qualquer, um gato, um cachorro, um pássaro ou um desses
belos animais maiores do zoológico, um puma ou uma girafa. Terá de admitir que
todos são justos, que nenhum animal se mostra indeciso ou ignora o que tem de fazer
ou como se há de comportar. Não procuram impressionar-nos nem representar para
nós. Nada de teatro. São como são, como as pedras ou as flores ou como as estrelas do
céu. Não concorda?
Eu concordava.
— Em geral os animais são tristes — prosseguiu. — E quando um homem está triste…
bem entendido, não quando sente uma dor de dentes ou tenha perdido dinheiro •••
mas porque vê, por uma hora, como é tudo, como é a vida, e está triste de verdade,
sempre se parece um pouco com os animais. Então se mostra não apenas triste, e sim
também mais justo e mais belo que de hábito. É assim que vejo a coisa,
118

Harry, e foi assim que o vi, Lobo da Estepe, a primeira vez que você apareceu.

  • Mas, Hermínia, o que você acha afinal do livrinho em que me senti retratado?
    __Oh, não sei ficar sempre pensando. Falaremos sobre
    isto numa outra ocasião. Você podia deixar o livro comigo para ler. Mas, não, se voltasse
    novamente a ler, gostaria de ler um dos seus próprios livros.
    Pediu um café e permaneceu um instante como despreocupada de tudo. Mas de repente
    resplandeceu e pareceu haver encontrado a chave de suas especulações.
    — Pronto! — exclamou, alegre. — Achei a solução!
    — Qual?
    — A do foxtrote. Estive pensando nisto a tarde inteira. Diga-me uma coisa: você tem um
    quarto onde se possa dançar de vez em quando? Não importa que seja pequeno, mas
    principalmente que não haja ninguém no andar de baixo que possa achar ruim por causa do
    barulho. Pois, ótimo, então! Você pode aprender a dançar em sua própria casa.
    — Sim — disse eu timidamente — é o melhor. Mas acho que vamos precisar também de
    música.
    — É claro. Mas música se pode comprar, e sai mais barato que pagar um curso de dança em
    casa de uma professora. Assim você economizará a professora, porque eu vou dar as aulas, e
    no fim acaba ainda ficando com o gramofone.
    — Gramofone?
    — Sim, um gramofone. Você vai comprar um portátil e alguns discos.
    — Magnífico! — exclamei. — Se você conseguir ensinar-me a dançar vai receber o
    gramofone em pagamento. De acordo?
    Disse isso com ânimo, mas a frase não me saiu do cora-ção. Não podia imaginar aquele
    aparelho tão pouco simpático para mim, em meu quarto de estudos, entre meus livros, e de
    modo algum estava em bons termos com a dança. Podia tentar uma vez, pensei, embora
    estivesse convencido de que
    119

    era velho e duro demais para aprender a dançar. Sentia que em meu interior se
    erguiam, como antigo conhecedor e amante da música, todas as diatribes que antes
    lançara contra os gramofones, o jazz e a moderna música de dança. Pensar que alguém
    pudesse me pedir que tivesse em meu quarto, ao lado de Novalis e Jean-Paul, em meu
    tugúrio de pensamento e de reflexão, um gramofone a tocar música de dança
    americana e que teria de dançar, tudo isso era certamente duro demais para que eu
    pudesse suportá-lo. Mas não era alguém que me pedia; era Hermínia quem pedia. Por
    isso obedeci. Naturalmente que obedeci!
    Encontramo-nos no dia seguinte pela tarde em um café. Hermínia já lá estava quando
    cheguei; tomava chá e me mostrou sorridente um jornal, onde havia encontrado meu
    nome. Era um jornal de meu país, reacionário e provocador, no qual, de vez em
    quando, apareciam artigos ignominiosos contra mim. Durante a guerra, eu me mantive
    antibelicista; depois da contenda incitei os homens à paz, à paciência e ao
    humanitarismo, a examinarem-se a si mesmos, e por isso tivera de enfrentar a reação
    nacionalista, cada dia mais acirrada, mais obstinada e selvagem. Lá estava um novo
    ataque muito mal escrito composto parte pela redação, parte plagiando outros artigos
    da imprensa afim. É sabido que ninguém escreve pior do que os partidários das velhas
    ideologias, das idéias decrépitas; ninguém exerce sua profissão de jornalista com
    menos dignidade e consciência. Hermínia lera o artigo e por ele se informara de que
    Harry Haller era um inseto nocivo e um homem que renegava sua própria pátria e que
    naturalmente esta não poderia suportar a existência de homens semelhantes e permitir
    a difusão de tais pensamentos que inclinavam a juventude para idéias sentimentais de
    humanitarismo em vez de nela suscitar um bélico furor contra o inimigo secular.

— Trata-se de você? — perguntou Hermínia, assinalando meu nome. — Então você
tem inimigos a valer, Harry. Isso não o aborrece?
120

Li algumas linhas; era o mesmo de sempre e cada um da-eles vitupérios
estereotipados já me eram conhecidos desde muito até à saciedade.
__Não — disse — não me aborrece, já estou acostumado. Venho manifestando já por
vezes minha opinião de que cada povo e até cada indivíduo, em vez de sonhar com
falsas “responsabilidades” políticas, devia refletir a fundo sobre a parte de culpa que
lhe cabe da guerra e de outras misérias humanas, quer por sua atuação, por sua
omissão ou por seus maus costumes; este seria provavelmente o único meio de se
evitar a próxima guerra. E por isso, não me perdoam, pois se julgam todos, sem
dúvida, inocentes: o Kaiser, os generais, os grandes industriais, os políticos, os
jornalistas… nenhum deles tem absolutamente nada de que recriminar-se, ninguém
tem culpa alguma! Poder-se-ia até pensar que tudo foi melhor assim para o mundo,
embora alguns milhões de mortos estejam embaixo da terra. E saiba, Hermínia,
embora esses artigos ignominiosos não me possam atingir, às vezes me entristecem.
Dois terços da gente do meu país lêem esta espécie de jornal; lêem de manhã e à noite
coisas escritas neste tom, são trabalhados permanentemente, incitados, açulados;
semeia-se neles o descontentamento e a maldade, e a meta final de tudo isto é outra
vez a guerra, a próxima guerra, que já está chegando e que sem dúvida alguma será
muito mais horrenda do que a última. Tudo isto é claro e simples, qualquer pessoa
pode compreendê-lo; com uma hora de meditação todos poderiam chegar ao mesmo
resultado. Mas ninguém quer agir assim, ninguém quer evitar a próxima guerra, quer
livrar-se nem livrar a seus filhos da morte aos milhares, nem quer parar um instante e
pensar voluntariamente. Uma hora de reflexão, um momento de entrar em si mesmo e
perguntar a parte de culpa que lhe cabe nesta desordem e na maldade que impera no
mundo… mas ninguém quer fazê-lo! E assim todo continua como estava e a próxima
guerra vai-se preparando cada dia que passa, com o auxílio de milhares e milha-res de
pessoas diligentes. Estas coisas sempre me desespera-
121


ram: para mim não existe “pátria”, não existe “ideal” al-gum. Tudo isto não passa de frases
inculcadas por aqueles que preparam a próxima carnificina. Não tem sentido pensar ou
escrever algo que seja humano, de nada vale ter boas idéias na mente… são duas ou três
pessoas que agem assim em compensação, há milhares de jornais, de revistas, de
conferências, reuniões públicas ou secretas que, dia após dia, insistem no contrário e acabarão
por alcançá-lo.
Hermínia permaneceu ouvindo com interesse.

— Sim — disse em seguida — você tem razão. Naturalmente haverá outra guerra; não é
preciso ler nos jornais para saber disto. É certo, embora isso nos entristeça, que o homem,
apesar de tudo e de todos, apesar do que possa fazer, o homem tem inevitavelmente de
morrer. A luta contra a morte, meu caro Harry, é sempre uma coisa bela, nobre, prodigiosa e
digna, da mesma forma que a luta contra a guerra. Mas há de ser sempre uma quixotada sem
esperanças.
— Talvez seja verdade — exclamei enérgico — mas com verdades semelhantes a esta de que
temos todos de morrer e que, por conseguinte, tudo é igual, é que convertemos a vida em algo
monótono e estúpido. Desta forma teremos de renunciar a tudo, ao espírito, às aspirações;
teremos de destruir a Humanidade, teremos de permitir que reine o egoísmo e o dinheiro e
esperar a próxima guerra com um copo de cerveja à mão.
Estranho foi o olhar que Hermínia me dirigiu; um olhar de regozijo, cheio de ironia e malícia,
de compreensão e camaradagem, mas também cheio de arrogância, de consciência e de
profunda seriedade.
— Isto não se aplica a você — disse em tom maternal. — Sua vida não será monótona nem
estúpida, embora saiba que sua luta é inútil. É muito mais lisonjeiro, Harry, lutar-se por
alguma coisa bela e ideal e saber ao mesmo tempo que não se conseguirá alcançá-la. Os ideais
serão algo que se possa alcançar? Viveremos para acabar com a morte? Não, vivemos para
temê-la e também para amá-la, e precisamente por causa da
122

morte é que nossa vida vez por outra resplandece tão radiosa num breve instante. Você é uma
criança, Harry. Seja obediente e venha comigo, temos muito o que fazer. Hoje não quero me
preocupar mais com a guerra nem com os jornais. E
você?
__Oh! não! eu tampouco estava disposto a isto.
Saímos juntos — era a primeira vez que saíamos juntos pela cidade — e fomos a uma loja de
discos onde vimos alguns gramofones, os quais abrimos e fechamos, fizemos funcionar, e
quando achamos um que nos agradou pela sua qualidade e preço, quis comprá-lo, mas
Hermínia não estava disposta a adquiri-lo com tanta rapidez. Sustou minha intenção e lá fui
visitar com ela uma outra loja, em que nos mostraram e testamos todos os modelos existentes,
do mais caro ao mais barato, para que ela finalmente se decidisse pelo que tínhamos visto na
primeira casa. Voltamos lá e compramos o aparelho.

— Você acha? Talvez nos arrependêssemos ao ver o mesmo aparelho em outra vitrina a vinte
francos mais barato. Além disso, é gostoso visitar as lojas e o que é agradável a gente deve
fazer. Você precisa aprender as coisas.
Com ajuda de um carregador, levamos a compra para o meu quarto.
Hermínia examinou com atenção meu aposento, elogiou a estufa e o divã, experimentou as
cadeiras, apanhou alguns livros do chão e deteve-se durante algum tempo diante da fotografia.
Pusemos o gramofone sobre a cômoda, entre montões de livros. E então começaram as
minhas lições de dança. Hermínia pôs um foxtrote e me ensinou os primeiros passos, tomou-
me da mão e começou a guiar-me. Trotei com ela obediente, tropecei nas cadeiras, obedeci
suas ordens sem a entender, pisei-lhe várias vezes e me mostrei tão desastrado quanto cioso
do meu dever. Depois do segundo disco, ela deixou-se cair no divã e riu-se como uma criança
— Meu Deus! como você é duro! É preciso andar sim-Ptesmente como se estivesse
passeando. Não é necessário ne123


nenhum esforço. Você está aí, como sufocado Vamos descansar um pouco! Veja só:
dançar, quando se sabe, é tão fácil como pensar, e aprender a dançar é mais fácil
ainda. Você pode agora compreender a razão por que os homens não querem aprender
a pensar e preferem chamar o Sr. Haller de traidor da pátria e nada fazem para impedir
a próxima guerra.
Ao fim de uma hora lá se foi, assegurando-me que da próxima vez tudo seria melhor.
Eu não pensava desta maneira e ficara bastante decepcionado por causa da minha
inabilidade; achei que não havia aprendido nada durante aquele primeiro exercício e
não esperava sair-me melhor da próxima vez. Não; para dançar era necessário
possuir-se faculdades que me faltavam por completo: alegria, despreocupação,
inocência, ímpeto. Já pensara nisto outras vezes.
No entanto, na vez seguinte saí-me melhor na realidade e até mesmo comecei a gostar
do exercício; ao final da lição, Hermínia afirmou que eu já sabia dançar o fox. Mas
quando acrescentou que no dia seguinte iríamos dançar num restaurante, fiquei
receoso e refuguei a idéia. Mas ela recordou-me com frieza a promessa que lhe fizera
de obedecê-la sempre e combinou de tomarmos chá pela manhã no Hotel Balances.
Passei a tarde toda em casa; quis ler mas não consegui. Estava angustiado com o
futuro encontro; era-me impossível admitir que um velho, um tipo tímido e sensível
como eu, pudesse freqüentar um odioso e moderno salão de chá onde se dançava ao
som de música de jazz, e mais ainda que pudesse exibir-me como dançarino diante de
pessoas estranhas, sem ao menos saber dançar. Confesso que me ri bastante de mim
mesmo e me envergonhei interiormente quando, só, em meu quarto de estudo, botei
um disco no aparelho e repeti, de cuecas, os passos do fox, que aprendi.
No dia seguinte, no Hotel Balances, tocava uma pequena orquestra e serviam chá e
uísque. Tentei subornar Hemí-nia, propondo-lhe comermos alguns salgados e
tomarmos uma garrafa de vinho, mas ela se mostrou incorruptível.

124


Não viemos aqui para nos divertir. Viemos para a aula de dança.
Tive de dançar duas ou três vezes com ela e, numa pausa da orquestra, apresentou-me ao
homem do saxofone, um jovem moreno e bem apessoado, de origem espanhola ou sul-
americana, que, como ela me disse, era capaz de tocar todos os instrumentos e falar todas as
línguas do mundo. Este senor* parecia ser velho conhecido de Hermínia e muito seu amigo.
Tinha dois saxofones de tamanhos diferentes diante de si, e os tocava um após outro,
enquanto seus olhos negros e sedutores examinavam os pares do salão. Com grande
admiração de minha parte, senti que o inofensivo e fino execu-tante me despertava ciúmes;
mas não eram ciúmes amorosos o que sentia, já que não havia amor entre Hermínia e mim,
mas ciúmes de sua amizade, pois o músico não me parecia digno do interesse, da distinção e
até do respeito que Hermínia lhe demonstrava. Bons conhecimentos iria fazer ali, pensei
comigo, de mau humor.
Logo vieram convidar Hermínia a dançar; fiquei sozinho à mesa, junto da chávena de chá, a
ouvir a música, uma espécie de música que até então não conseguia suportar. Santo Deus,
pensei, estou aqui metido neste mundo que até então procurei evitar com tanto cuidado, neste
mundo tão desprezível de boêmios e gente sibarita, neste mundo rotineiro e polido das
mesinhas de mármore, da música de jazz, de co-cottes e de caixeiros-viajantes! Confuso,
tomei meu chá olhando fixamente a multidão de elegância duvidosa. Duas belas jovens
atraíram minha atenção, ambas boas dançarinas, as quais, com admiração e inveja, via
deslizarem elásticas, belas e alegres com segurança pela pista do salão.
Voltou Hermínia de novo à mesa e mostrou-se aborrecida comigo. Eu não estava ali para ficar
com aquela cara e permanecer sentado imóvel à mesa do chá; tinha de fazer um esforço para
dançar. Como? Eu não conhecia ninguém? Mas,

Em espanhol no origina). (N. do T. )

125


isto não era necessário. Ou será que não me agradava nenhuma daquelas moças que estavam
no salão?
Apontei-lhe uma muito bonita, que estava sentada precisamente junto de nós e se mostrava
encantadora em seu vestido de veludo vermelho, de cabelos curtos e muito loiros, os braços
roliços e femininos. Hermínia ordenou-me que a fosse tirar imediatamente, mas eu me
defendi confuso.

— Não tenho coragem! — disse contrafeito. — Se eu fosse um jovem bonito e elegante, mas
sou um velho pateta, que não sabe dançar; a moça vai rir-se de mim.
Hermínia olhou para mim com desdém.
— E se eu me rir de você, então isso não lhe importa? Que covarde você é! Quem quer que
se aproxime de uma mulher, está se arriscando a ser motivo de riso. Portanto, atreva-se,
Harry, e na pior das hipóteses, deixe que se riam. Em caso contrário, não mais confiarei em
sua promessa de obediência.
Ela não cedia. Levantei-me tímido e aproximei-me da jovem quando a música recomeçou a
tocar.
— Na verdade, estou acompanhada — disse ela, exami-nando-me curiosa com seus grandes
olhos puros — mas meu par foi ao bar e por lá ficou. De modo que vamos dançar!
Enlacei-a pela cintura e dei os primeiros passos, admirado de que ela não se recusasse a
continuar a dança; logo percebeu a minha indecisão e passou a guiar-me. Dançava admiravelmente
e me levava com facilidade; esqueci-me por momento dos conselhos e regras de
dança, deixando-me simplesmente conduzir, sentindo as ancas firmes e os joelhos flexíveis da
minha dançarina; fitei-lhe o rosto jovem e resplandecente e confessei-lhe que era a primeira
vez que eu dançava na vida. Sorriu e me animou a prosseguir, respondendo aos meus olhares
de admiração e às minhas frases elogiosas com toda a naturalidade, não com palavras, mas
com deliciosos movimentos que mais nos aproximavam, excitantes. Tinha a mão direita
firmemente apoiada sobre a sua cintura, e esforçava-me por seguir satisfeito e ardoroso o
elástico movimento
126

de suas pernas, dos ombros e dos braços; não a pisei numa só vez o que me encheu de
assombro; e, quando a música terminou, permanecemos em meio à pista aplaudindo, até que
voltaram a soar os compassos do fox e reencetei o rito com toda a devoção de um amante.
Quando terminou a dança, rápida demais, a jovem de vestido vermelho afastou-se de mim e
logo apareceu Hermí-nia ao meu lado, que nos estava observando.

— Está vendo? — riu elogiosamente. — Descobriu que as pernas de uma mulher não são
exatamente iguais às pernas de uma mesa? Muito bem! Já sabe dançar o fox, graças sejam
dadas! Amanhã começaremos com o boston, e dentro de três semanas haverá o baile de
máscaras nos salões do Globo.
Chegara o intervalo; sentamo-nos e veio também fazer-nos companhia o elegante e jovem Sr.
Pablo, o tocador de saxofone, que se colocou ao lado de Hermínia. Pareciam bons amigos.
Mas a mim, confesso, não me agradou nada naquela primeira entrevista. Era bem apessoado,
não se podia negar, belo de estatura e de rosto; mas a não ser isto, não descobri outras
qualidades nele. Quanto às suas qualidades de poliglota, estas não passavam, na verdade, do
conhecimento de algumas palavras soltas, como “por favor”, “obrigado”, “sim”, “decerto”,
“alô” e outras parecidas, ditas em vários idiomas. Mas falar, o Senor Pablo não falava nada, e
também parecia não pensar lá grande coisa o bonito caballero. * Sua habilidade parecia
cingir-se à execução do saxofone na orquestra de jazz e a isto se entregava com amor e
devoção, às vezes acompanhando os músicos com palmas ou lançando exclamações
animadoras, tais como “O! o! o! Ha! Ha! Hallo!”; mas, ao que parece, não viera ao mundo
senão para ser belo, para agradar às mulheres, para usar gravatas e nós da última moda e um
grande número de anéis nos dedos. Sua conversação consistia em ficar sentado junto de nós, a
sorrir, a olhar o
Em espanhol no original. (N. do T. )

127


relógio de pulso e a enrolar cigarros, no que era perito. Seus olhos escuros e belos de mestiço,
seus negros cabelos não ocultavam nenhum romantismo, nenhum problema, nenhum
pensamento; examinado de perto, o belo e exótico se-mideus era um jovem alegre e algo
mimado, de maneiras agradáveis e nada mais. Falei com ele a propósito de seu instrumento e
das tonalidades na música de jazz; devia perceber que estava falando com um velho amante e
conhecedor de assuntos musicais, mas nada disse também a este respeito. E quando eu, por
consideração a ele, ou mais exatamente a Hermínia, iniciei algo assim como uma justificativa
musical do jazz, o moço sorriu ingenuamente de mim e de meus esforços para conseguir tal
justificativa, desconhecendo presumivelmente que antes do jazz também havia existido outro
tipo de música. Era simpático, simpático e gracioso; sorria bonito com seus grandes olhos
vazios, mas entre nós dois parecia não haver nada em comum; nada talvez do que para ele
fosse importante e sagrado poderia sê-lo igualmente para mim — vínhamos de regiões
antípodas da terra, nossas linguagens não tinham qualquer palavra em comum. (Mais tarde, no
entanto, Hermínia me disse algo que foi para mim surpreendente. Disse-me que Pablo, após
aquela conversação, recomendara-lhe cuidado comigo, porquanto eu lhe parecia muito infeliz.
E quando ela lhe perguntou por que havia chegado àquela conclusão, o moço respondera:
“Pobre coitado! Olhe só para ele! Não sabe sorrir!”)
Quando o músico se despediu e a dança recomeçou, Hermínia pôs-se de pé.

— Agora você podia dançar de novo comigo, Harry. Ou não quer mais dançar?
Também com ela mostrei-me mais leve, mais solto e mais alegre, embora não tão livre e
esquecido de mim quanto me mostrara com a outra moça. Hermínia deixou-se conduzir,
amoldando-se a mim como uma pétala de flor, delicada c suavemente, e junto dela voltei a
sentir todas aquelas belezas que umas vezes vinham ao meu encontro e outras se afasta128

vam; ela também cheirava a mulher e a amor também sua maneira de dançar cantava
delicada e intimamente a nobre canção cativadora do sexo e, no entanto, eu não podia
responder a tudo aquilo com alegria e inteira liberdade, não podia esquecer-me por
completo e abandonar-me a tudo. Hermínia estava próxima demais de mim, era minha
companheira, minha irmã; era minha igual, parecia-se comigo e com meu
companheiro de infância, Hermann, o exaltado, o poeta, o brilhante companheiro dos
meus anseios espirituais e de meus excessos.

— Eu sei — disse-me ela quando lhe falei do assunto — sei disto muito bem. Mas
mesmo assim vou fazer com que você se apaixone por mim; mas não há pressa.
Primeiro é necessário que nos tornemos camaradas, duas pessoas que esperam ser
amigas, porque nos conhecemos mutuamente. Por ora temos de aprender um com o
outro e nos divertir juntos. Eu lhe ensinarei minha comédia, vou ensinar-lhe a dançar
e a ser mais alegre e despreocupado, enquanto você me transmite um pouco das suas
idéias e do seu saber.
— Ah! Hermínia, não há muito o que ensinar, você sabe muito mais que eu. Que
pessoa interessante você é, mocinha! Em tudo e por tudo você caminha à minha
frente. Significo algo para você? Não a aborreço?
Olhou para o chão com olhos sombrios.
— Não me agrada ouvi-lo falar assim. Você se esquece da noite em que, desesperado
pelo tormento e a solidão, cruzou por meu caminho e nos tornamos bons amigos? Por
que imagina que pude conhecê-lo e compreendê-lo então?
— Por que, Hermínia? Diga-me!
— Porque eu sou como você. Porque estou tão só e amo tão pouco a vida, as pessoas
e a mim mesma quanto você; e, como você, não posso levar nada disto a sério.
Sempre houve pessoas assim, que exigem da vida o que ela tem de mais alto e não
podem conformar-se com sua estupidez e crueldade.
— Oh! você! — exclamei, profundamente admirado. — Compreendo-a muito bem,
minha amiga; ninguém a com129

preende melhor do que eu. E, no entanto, continua a ser um enigma para mim. Você brinca
com a vida, tem uma prodigiosa afeição pelos pequenos detalhes e prazeres, é uma espécie de
artista da vida. Como pode sofrer na vida? Como pode duvidar?

— Eu não duvido, Harry. Mas quanto a sofrer na vida, disso tenho muita experiência. Você se
surpreende por eu ser infeliz e conseguir dançar e estar tão segura de mim nas coisas
superficiais da vida. E eu, meu amigo, me surpreendo por sabê-lo desiludido da vida sendo
capaz de dominar tão profundamente as mais belas coisas do espírito, da arte e do
pensamento! Eis por que fomos arrastados um para o outro e por que nos fizemos irmãos.
Vou ensinar-lhe a dançar, a brincar e a sorrir, e ainda assim permanecer infeliz. E você me
ensinará a pensar e a saber, e ainda assim permanecer descontente. Sabe que somos ambos
filhos do demônio?
— Sim, isto é o que somos. O demônio é o espírito, e nós, seus filhos desgraçados. Saímos
da natureza e caímos no vazio. Mas agora recordo-me de uma coisa: no Tratado do Lobo da
Estepe, do qual já lhe falei, há um trecho que fala ser apenas uma ilusão de Harry o acreditar-
se composto de uma ou duas almas, de uma ou duas personalidades. Todo homem, segundo o
livro, se compõe de dez, de cem, de mil almas.
— Isto me agrada muito — exclamou Hermínia. — Em você, por exemplo, o espiritual está
altamente representado c por isso em muitas outras coisas da vida você ficou para trás. O
pensador Harry tem cem anos, mas o bailarino Harry tem apenas meio dia. Este é o que
vamos exercitar agora, bem como outros irmãozinhos seus, tão infelizes e desajeitados quanto
ele.
Olhou para mim sorrindo c perguntou em voz baixa, mudando o tom de voz:
— E que acha de Maria, diga-me?
— Maria? Que Maria?
130

__A moça com quem você dançou. Uma garota muito
bonita, admirável. Achei que você estava gostando um pouco
dela.
__Você a conhece?

— Conheço, claro! Conhecemo-nos muito bem. Está interessado?
— Achei-a muito simpática e fiquei satisfeito por ela mostrar-se compreensiva com o meu
modo de dançar.
— Só isto? Você devia cortejá-la, Harry. Ela é bonita e dança muito bem, e além disso você
está gostando dela. Acho que daria certo.
— Qual, não dou para isto!
— Já está dizendo mentiras! Sei que você tem uma amante em algum lugar do mundo, com
quem se encontra de seis em seis meses para brigar É muito elogiável que você queira
permanecer fiel a essa mulher extraordinária, mas permita-me, não leve este gesto tão a sério!
Acho que você leva o amor muito a sério. Pode fazê-lo, pode amar desse modo ideal a tudo
quanto queira, isso é assunto seu, pouco se me dá. Só quero que você aprenda melhor os
pequenos e despretensiosos jogos e artes da vida, pois nesse terreno sou sua mestra e serei
melhor professora do que a sua amada ideal. Na verdade, Lobo da Estepe, você está
precisando é de voltar a dormir com uma mulher bonita
— Hermínia — gritei atormentado — olhe para mim, eu sou um velho!
— Você é jovem ainda. E assim como aprendeu a dançar, embora um tanto tarde, também
poderá aprender a amar. Amar ideal e tragicamente, meu amigo, isto já sabe fazer muito bem,
sem dúvida alguma! Mas agora você vai aprender a amar à vulgar maneira humana. O
primeiro passo já foi dado; agora você pode ir sozinho ao baile. É preciso aprender a dançar o
boston vamos começar amanhã. Irei às três horas. E que achou da música, afinal?
— Excelente!
131

— Está vendo? Isto foi também um progresso! Até então você não podia suportar a música de
dança e o Jazz; achava-a pouco séria e sem profundidade, e viu agora que não é necessário
levá-la a sério, que pode ser agradável e encantadora. É bem verdade que sem Pablo a
orquestra não valeria nada. Ele é quem a domina, é quem ordena.
Assim como o gramofone viciava a atmosfera de espiritualidade ascética do meu estúdio, e
também os ritmos americanos, estranhos e perturbadores, destrutivos, penetravam em meu
cultivado mundo musical, assim irrompiam por todas as partes coisas novas, temidas,
libertadoras, em minha vida até agora tão rígida e tão severamente delimitada. O Tratado do
Lobo da Estepe e Hermínia tinham razão em sua teoria das mil almas; amiúde surgiam em
mim, junto a todas as antigas, algumas novas almas, com suas pretensões, alvoroçadas, e
agora via claramente, como um quadro posto diante de mim, o processo de minha
personalidade até então. As poucas habilidades e matérias em que eu casualmente era forte
haviam ocupado toda a minha atenção, e eu pintara de mim a imagem de uma pessoa que não
passava de um estudioso e refinado especialista em poesia, música e filosofia; e como tal
tinha vivido, deixando o resto de mim mesmo ser um caos de potencialidades, instintos e
impulsos que me pareciam um transtorno e por isso os encobria com o nome de Lobo da
Estepe.
Todavia, essa reversão de minha quimera, esta libertação de minha personalidade não
constituía, de modo algum, uma aventura agradável e divertida mas, ao contrário, era
freqüentemente amarga e dolorosa e, não raro, quase insuportável. O gramofone soava as
vezes diabólico em meio àquele ambiente onde tudo estava sintonizado com um tom
inteiramente diverso. E muitas vezes quando dançava os meus one-steps em algum
restaurante da moda entre as pessoas elegantes e alegres libertinos, sentia-me como uma
espécie de trai132

dor para com tudo aquilo que na vida me fora respeitável e sagrado. Se Hermínia me tivesse
deixado sozinho durante uma semana, teria fugido imediatamente daquele intento penoso e
ridículo de converter-me em homem mundano. Mas Hermínia estava sempre ao meu lado;
ainda que não a visse todos os dias, continuamente me estava observando, me acompanhava,
me vigiava, me advertia. Chegava mesmo a ler sorridente em meu rosto todos os meus
pensamentos de insubordinação e fuga.
Com a destruição do que havia chamado antes minha personalidade”, comecei a compreender
por que, apesar de todo desespero, eu temera tão horrivelmente a morte, e comecei a notar que
também esse temor atroz e ignominioso pela morte era um resquício de minha antiga
existência, burguesa e enganadora. O Sr. Haller de até então, escritor de talento, conhecedor
de Mozart e de Goethe, autor de observações dignas de ler-se sobre a metafísica da arte, sobre

o gênio e o trágico, sobre a Humanidade — o solitário melancólico em sua clausura de livros,
tinha de fazer sua autocrítica ponto por ponto, sem nada omitir. Este douto e interessante Sr.
Haller havia, de fato, pregado a razão e a humanidade e pro testado contra a crueldade da
guerra, mas durante a guerra não se deixou levar junto a um paredão para ser fuzilado como
seria a verdadeira conseqüência de seu pensamento; antes arranjou alguma forma de
transigência, nobre e decente sem dúvida, mas que não deixava de ser uma acomodação. Era,
além disso, inimigo do poder e da exploração, mas tinha no banco muitas ações de empresas
industriais, cujos dividendos recebia sem que lhe doesse a consciência. E assim para tudo o
mais, Harry Haller se atribuíra um prodigioso papel de idealista e desprezador do mundo, de
melancólico solitário e de profeta tonitruante, mas no íntimo era um burguês, capaz de
censurar uma vida como a de Hermínia; lamentava-se das noites perdidas nos restaurantes e
do dinheiro que neles gastara; tinha remorsos e suspirava não exatamente por sua
emancipação e aperfeiçoamento, mas ao contrário para voltar
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aos velhos tempos em que seus problemas espirituais ainda lhe causavam prazer e lhe traziam
fama. Agia exatamente como os leitores de jornais, tão desprezados e insultados por ele, que
se lembravam dos tempos ideais de antes da guerra, pois isto era mais cômodo do que
aprender a lição das coisas já’ sofridas. Com os demônios, que tipo asqueroso esse Sr. Hal-ler!
No entanto, me agarrava a ele ou à sua larva já em transformação, agarrava-me ao seu namoro
com o espiritual, ao seu temor burguês pelo desordenado e o casual (a que também pertencia a
morte) e o comparava com o novo Harry, o tímido e cômico diletante das salas de dança,
sarcástico c cheio de inveja daquela imagem do Harry de outros tempos, daquele Harry de
ideais mentirosos, no qual havia descoberto, no entanto, aquelas fatais características que
tanto lhe haviam desagradado ver no retrato de Goethe em casa do professor. Ele próprio, o
velho Harry, fora exatamente como um Goethe burguês idealizado, um herói espiritual com
olhar demasiado nobre, irradiando superioridade, espírito e sentido humano, untado de
brilhantina e emocionado ao mesmo tempo pela sua própria nobreza de alma! Raios, aquele
nobre retrato estava agora, sem dúvida, precisando de reparos e o ideal Sr. Haller fora
lamentavelmente desmantelado! Seme-Ihava-se a um dignitário caído em mãos de
salteadores, que lhe tivessem feito as calças em frangalhos, e em vez de aprender a portar-se
como um esfarrapado, ostentava seus molam-bos como se deles pendessem ainda as antigas
condecorações e continuava afetando dolorosamente a antiga dignidade perdida.
Cada vez me achava com mais freqüência em companhia de Pablo, o músico, e tive de mudar
minha opinião sobre ele ainda que somente pelo fato de Hermínia considerá-lo tanto e viver
ansiosa de sua companhia. Pablo me dera a impressão de uma bela nulidade, um simples
moço bonito, um tanto vaidoso, uma criança feliz e sem problemas, cuja satisfação consistia
em soprar numa cometa de brinquedo que lhe compraram na feira e era capaz de manter-se
quieto à custa de

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elogios e bombons de chocolate. Pablo, no entanto, não estava interessado em minhas
opiniões. Eram-lhe tão indiferentes quanto minhas teorias musicais. Ouvia-me com amistosa
cortesia, sorrindo sempre, sem nunca emitir uma resposta. Por outro lado, parecia que eu lhe
despertara o interesse, pois se esforçava visivelmente por agradar-me e mostrar-se simpático
em relação a mim. Certa vez, quando demonstrei certa irritação e mesmo mau humor, numa
dessas tentativas de conversação inúteis, ele encarou-me com um ar confuso e triste e,
tornando-me a mão esquerda, alisou-a e ofereceu-me uma pitada de rapé que trazia numa
caixinha de ouro. Olhei para Hermínia indagativamente e, como assentisse, tomei uma pitada.
Imediatamente senti a mente clara e o ânimo mais jovial; sem dúvida havia cocaína misturada
ao pó. Hermínia contou-me que Pablo tinha muitas drogas daquelas, que ob-tinha por meios
secretos; vez por outra oferecia-as aos amigos, e era mestre na mistura e dosagem daqueles
preparados. Tinha remédios para aplacar a dor, para provocar o sono, para produzir sonhos
eróticos, para alegrar o espírito e despertar a paixão.
Certa vez encontrei-o na rua, próximo do cais, e ele imediatamente veio ao meu encontro.
Desta vez consegui finalmente fazê-lo falar.

— Sr. Pablo — disse-lhe, enquanto ele brincava com um bastãozinho de ébano com castão de
prata — o senhor é amigo de Hermínia e por este motivo me interesso pelo senhor. Mas,
desculpe-me a franqueza, o senhor torna muito difícil a conversação. Já várias vezes tenho
tentado falar-lhe a respeito de música; gostaria de conhecer sua opinião e conceitos, quer
contradigam ou não os meus, entretanto o senhor nunca se dignou de me dar uma resposta.
Sorriu-me com a maior cordialidade e desta vez não se furtou a dá-la, dizendo impassível:
— Bem, na minha opinião não há nenhum sentido em falar-se a respeito de música. Nunca
falo sobre isto. Que responder,
então, às suas observações eruditas e judiciosas? O
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senhor tem toda a razào naquilo que afirma. Mas, veja, eu sou um músico, não um
erudito, e no que diz respeito à música acho que não há a menor importância em estar
alguém com a razão. A música não depende de estarmos com razão, de termos bom
gosto ou erudição musical e tudo o mais.

— Ah, não? E de que depende então?
— De se fazer música, Sr. Haller, de se fazer música tão boa e tão abundante quanto
possível e com toda a intensidade de que alguém é capaz. Aí é que está a coisa,
Monsieur*. Ainda que eu tivesse na memória toda a obra de Bach e de Haydn e
pudesse dizer as coisas mais admiráveis a respeito delas, isto não teria a menor
utilidade para os outros. Mas quando tomo meu instrumento e coco um shitnmy bem
movimentado, seja este bom ou mau, há de causar alegria a alguém, entrará pelas
pernas e até chegará ao sangue. Isto e somente isto é o que importa. Observe a
fisionomia dos pares num salão de dança no momento em que a música volta a tocar
após uma pausa prolongada, observe como os olhos brilham, como as pernas semovem e os rostos começam a sorrir. É por isso que se faz música.
— Muito bem, Sr. Pablo. Mas não é só a música sensual que existe, existe também a
espiritual. Além daquela música que se executa no momento, existe a música imortal
que sobrevive mesmo quando já não é interpretada. Pode estar uma pessoa sozinha
deitada e vir lhe ao pensamento um trecho da Flauta Mágica ou da Paixão Segundo
Mateus, então a música se faz realidade sem que alguém precise de soprar a flauta ou
de arranhar o violino.
— Sem dúvida, Sr. Haller. Também o Yearning e Va-lencia são reproduzidos cada
noite por muitas pessoas solitárias e sonhadoras; até a mais humilde datilografa tem
na cabeça, quando está no escritório, os ritmos do último one-step e acompanha no
teclado o seu compasso. O senhor tem razão. A todas essas pessoas solitárias eu
concedo a música mu-
• Em francês no original (N. do T. )
136


da, seja ela o Yearning, seja a Flauta Mágica ou Valencia*. Mas, de onde recebem,
porém, esses homens a música solitária e’ muda? Recebem-na de nós, dos músicos,
pois primeiro ela tem de ser executada e ouvida e penetrar no sangue, antes que
alguém possa pensar nela sozinho em seu quarto e com ela sonhar.

— De acordo — disse friamente. — No entanto, não se pode colocar no mesmo plano
a música de Mozart e o último foxtrote. E não é a mesma coisa servir ao público
música divina e eterna ou música barata e efêmera.
Quando Pablo percebeu a excitação de minha voz, assumiu a expressão facial mais
amável, tocou-me o braço e falou com incrível doçura:
— Ah! meu caro senhor, nisto dos planos pode ser que o senhor tenha toda a razão.
Nada tenho a objetar que coloque Mozart, Haydn e Valentia no plano que melhor lhe
agrade. A mim pouco importa. Nada tenho de decidir sobre tais planos, nunca me
perguntaram nada sobre eles. É possível que continuem a executar Mozart daqui a
cem anos e talvez daqui a dois anos já nenhuma orquestra toque Valencia, mas isso
podemos deixar tranqüilamente nas mãos de Deus. Ele é justo e tem em suas mãos a
duração da vida de todos nós, até mesmo de cada valsa e de cada foxtrote. Ele saberá
fazer o que é justo. Mas nós os músicos temos de fazer a nossa parte, o que é nosso
dever e nosso ofício: devemos tocar o que o público pede no momento e devemos
fazê-lo bem e de maneira bela e tocar com todo o entusiasmo possível.
Suspirando, assenti também a isto. Não havia jeito de enquadrar o homem.
Em muitos momentos o velho e o novo, a dor e o prazer, o temor e a alegria
apareciam prodigiosamente entremesclados. Tão logo estava no céu como no inferno,
e muitas vezes nos dois ao mesmo tempo. O velho e o novo Harry viviam algumas
vezes em contínua peleja, outras em profunda paz. O ve-
137

lho Harry parecia às vezes inteiramente morto e enterrado, e de súbito, lá surgia, dominador e
tirano, e tudo sabia melhor do que o outro, e o novo, o pequeno, o jovem Harry se
envergonhava, calava e se deixava levar contra a parede. Em outros momentos, o jovem
Harry pegava o velho pela garganta e apertava-a violentamente, havia muitos gemidos, muitas
lutas de morte, muitos pensamentos na navalha de barbear.
Mas com freqüência me açoitava uma onda de dor e de ventura. Momento semelhante foi
quando, poucos dias depois de minha primeira tentativa de ir ao baile público, ao entrar de
noite em meu dormitório, com indizível surpresa, com horror e encanto, encontrei deitada em
minha cama a formosa Maria.
De todas as surpresas que Hermínia me havia preparado até então, aquela sem dúvida era a
mais extraordinária. Pois não duvidei um só momento de que fosse ela quem me havia
enviado a Ave do Paraíso. Excepcionalmente eu não estivera aquela noite com Hermínia, mas
fora a um concerto de música clássica religiosa na abadia, concedendo-me uma bela e
melancólica escapada à minha vida de antes, aos campos da minha juventude, aos terrenos do
Harry ideal. Nos âmbitos góticos da igreja, cujas formosas abóbadas enredadas quebravam a
luz em mil matizes de sombras e penumbras, ouvira peças de Buxtehude, Pachelbel, Bach,
Haydn; voltara a percorrer os velhos e amados caminhos, voltara a ouvir a voz soberba de
uma cantora de Bach, com quem tivera relações amistosas em tempos passados e a quem
ouvira atuar muitas vezes. A voz da música antiga, sua infinita dignidade e santidade haviam-
me despertado de novo toda a elevação, todo o entusiasmo, toda a inspiração da juventude;
sentei-me no alto coro da igreja, triste e meditativo, hóspede por uma hora deste mundo nobre
e venturoso, que em outro tempo fora a minha pátria Ouvindo um dueto de Haydn, vieram-me
lágrimas aos olhos, não esperei o final do concerto, renunciei ao pensamento de despedir-me
da cantora (Oh! que noites
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tão maravilhosas havia passado cm outros tempos, depois desses concertos, em companhia
dos cantores!), saí da abadia e corri fatigado pelas ruas solitárias, nas quais se ouvia, vindo do
interior dos restaurantes, as melodias de dança da vida moderna. Oh! que confusão tão grande
era agora a minha vida!
Durante aquela caminhada noturna pensei também em
minhas singulares relações com a música e voltei novamente a reconhecer que essas fatais
relações com a música eram o destino de toda a intelectualidade alemã. No espírito alemão
domina o direito maternal, a sujeição natural na forma a uma hegemonia da música, como não
se conheceu em nenhum outro povo. Nós, os intelectuais, em lugar de nos defendermos
varonilmente contra isto e reduzir a obediência ao espírito, ao logos e à palavra, sonhamos
todos com uma linguagem sem palavras, que possa exprimir o inexprimível, que possa
representar o irrepresentável. Em vez de tocar seu instrumento da forma mais fiel e honesta
possível, o intelectual alemão está sempre em luta com a palavra e a razão e fazendo a corte à
música. Na música, nas sinfonias maravilhosamente sonoras, nos sentimentos e estados de
alma prodigiosamente nobres, que nunca se vêem obrigados a se fazerem realidade, nutriu-se

o espírito alemão e nelas deixou cair a maior parte de suas energias reais. Nenhum de nós,
intelectuais, se achava em seu elemento dentro da realidade; éramos estranhos e inimigos
dela. Por isso o espírito desempenha um papel tão lastimável em nossa realidade alemã, em
nossa História, em nossa política, em nossa opinião pública. Sim, já havia pensado naquilo
muitas vezes, não sem sentir sempre anseios intensos de representar a realidade, de trabalhar
séria e respon-savelmente, em vez de me ocupar o tempo todo só da estética e das profissões
artísticas espirituais. Mas no final acabava com a resignação, com a capitulação diante da
fatalidade. Os senhores generais e os donos da indústria pesada tinham muita razão: não era
possível cerrar fileiras conosco, os intelectuais; éramos uma quadrilha de charlatães
espirituais, sem
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força real, carentes de responsabilidade. Ah! raios! a navalha de barbear!
Deste modo, cheio de pensamentos e ressonâncias musicais, com o coração carregado
de tristeza e de desesperados anseios de vida, de realidade, de sentido, de tudo o que
havia perdido e não podia mais recuperar, cheguei por fim a casa, subi minha escada,
acendi a luz do quarto de estudos e tentei em vão ler um pouco, pensei no encontro
que havia marcado para amanhã à tarde no Cecil-Bar, e senti rancor não só contra
mim mesmo, como também contra Hermínia. Embora pensasse bem e fosse bondosa,
embora fosse um ser maravilhoso, podia ter feito melhor se me deixasse perecer em
vez de me haver arrastado a este mundo confuso, estranho, agitado, no qual sempre
seria um estrangeiro e onde o que eu tinha de melhor se havia rebaixado e sofria
amargamente.
E assim, triste, apaguei a luz e fui para o meu quarto; comecei a despir-me com
imensa tristeza, quando me surpreendeu um perfume que não me era familiar, e
olhando em redor vi estendida em minha cama a bela Maria, que me sorria um tanto
tímida, com seus grandes olhos azuis.

— Maria! — disse eu.
E meu primeiro pensamento foi que a minha hospedeira certamente me mandaria
embora se chegasse a descobrir aquilo.
— Eu vim — disse ela em voz baixa. — Você não está aborrecido?
— Não, não. Decerto Hermínia lhe deu minha chave. Pode ficar.
— Oh! estou achando que você ficou aborrecido. É melhor ir-me embora.
— Não, formosa Maria, fique! É que hoje precisamente estou muito triste, não
poderia mostrar-me alegre hoje; amanhã decerto estarei.
Eu me inclinara um pouco sobre ela, então me agarrou pela cabeça com suas mãos
grossas e firmes, me puxou para si e me beijou demoradamente. Depois sentei-me a
seu lado,
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segurei-lhe a mão, roguei-lhe que falasse baixo, para que ninguém nos ouvisse, e olhei-a bem
no rosto bonito e cheio, que parecia uma flor estranha e grande sobre o meu travesseiro.
Lentamente levou-me a mão à boca, depois introduziu-a sob o lençol e colocou-a em seu seio
cálido e palpitante.

— Não precisa estar alegre — disse ela. — Hermínia me disse que você tem seus problemas.
Qualquer um pode perceber isto. Diga-me somente uma coisa: eu lhe agrado? Outro dia, ao
dançar comigo, achei-o muito interessado em
mim.
Beijei-lhe os olhos, a boca, o pescoço e os seios. Um momento antes eu havia pensado em
Hermínia com amargura e reprovação. Agora eu tinha nas mãos o presente que ela me enviara
e estava agradecido. As carícias de Maria não conspurcavam a música maravilhosa que eu
ouvira aquela noite. Eram dignas dela e como que a completavam. Lentamente retirei as
roupas de cima de seu corpo admirável para que meus beijos pudessem chegar aos seus pés.
Quando me deitei ao seu lado, a flor de sua face me sorriu onisciente e bondosa.
Naquela noite, ao lado de Maria, não dormi muito, mas meu sono foi profundo e bom como o
de uma criança. E entre um sono e outro, eu bebia sua alegre e formosa juventude e ouvi,
enquanto falávamos baixinho, um sem-número de detalhes curiosos sobre a sua vida e a de
Hermínia. Eu sabia muito pouco sobre esta espécie de vida. Somente no mundo teatral,
ocasionalmente, deparara com similiares existências — homens e mulheres que viviam
metade para a arte e metade para o prazer. Agora, pela primeira vez, podia lançar uma olhada
sobre aquela espécie de vida, extraordinária não só por sua singular inocência quanto por sua
singular corrupção. Essas jovens, provenientes em sua maioria de famílias pobres, demasiado
inteligentes e bonitas para atirarem suas vidas simplesmente em qualquer ganha-pão mal-
remunerado e melancólico, viviam todas de empregos ocasionais ou mesmo de sua graça e
amabilidade. Passavam, às vezes, um ou dois meses empregadas como datilógrafas; depois
algum tempo
141

como amantes de pessoas de dinheiro, recebendo mesadas e presentes; viviam algum tempo
entre peles, automóveis e hotéis de luxo; outras vezes em águas-furtadas; e embora pudessem
chegar ao casamento por causa de um bom partido, não viviam de forma alguma ansiosas por
isso. Muitas delas amam sem desejo e só concedem seus favores contra a vontade e por alto
preço. Outras, e Maria era uma delas, eram extraordinariamente dotadas para o amor e
incapazes de passar sem ele; a maioria era também experiente no amor com ambos os sexos.
Viviam exclusivamente para o amor e, juntamente com o amante oficial que as mantinha,
quase sempre deixavam florescer outros amores. Ativas e diligentes, prudentes e loucas,
apesar de tudo essas mariposas viviam sua vida tão infantil quanto refinada, independentes,
não se vendendo a qualquer um, vivendo mais ou menos do momento e, embora apegadas à
vida, o eram menos que os burgueses, sempre prontas a seguir um príncipe encantado a seu
castelo, mas sempre com o pressentimento de que um final difícil e triste as esperava.
Maria ensinou-me muitas coisas — naquela maravilhosa primeira noite e nos dias seguintes

— não apenas nobres e novos jogos e prazer dos sentidos, mas ainda uma nova compreensão,
um novo conhecimento, um novo amor. O mundo dos salões de baile e dos locais de prazer, o
cinema, o bar e os chás nos salões de hotéis, que para mim, o solitário e asceta, sempre tinham
sido algo inferior, proibido e degradante, era, para Maria, para Hermínia e suas companheiras,
simplesmente o mundo, sem ser bom nem mau, nem agradável nem odioso; nesse mundo
florescia sua curta e anelante vida. Estavam à vontade nele e conheciam todos os seus
caminhos. Amavam um champanha ou um prato especial num grill-room*, como nós outros
amamos um compositor ou um poeta, e punham numa dança da moda ou na canção
sentimental e melosa de um cantor de jazz o mesmo entusiasmo, a mesma
■ Em inglês no original. (N. do T. )
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emoção e ternura que um de nós devotava a Nietzsche ou a Hamsun. Maria falou-me a
propósito do simpático caçador de saxofone, Pablo, e de uma canção americana que ele
cantava com freqüência; falou disso com uma emoção, uma admiração e um amor que me
comoveu muito mais que os êxtases de alguns espíritos cultos diante de refinados prazeres
artísticos. Estava disposto a entusiasmar-me, fosse qual fosse a canção; as palavras amorosas
de Maria, seu olhar anelante e deslumbrado haviam aberto brechas em minha estética. Existia
sem dúvida uma Beleza, única e indivisível, restrita e seleta, que estava para mim, com
Mozart a coroá-la, acima de qualquer dúvida ou discussão; mas onde estava o limite? Pois
nós, os conhecedores e críticos não havíamos, na juventude, nos devotado a obras e artistas
que hoje nos pareciam duvidosos e desagradáveis? Não acontecera isso conosco em relação a
Liszt e a Wagner e com muitos até em relação a Beethoven? Aquele comovedor entusiasmo
de Maria por uma canção americana não era uma emoção estética tão pura, tão bela; não
estava tão acima de toda dúvida como a emoção de qualquer professor diante do Tristão ou o
êxtase de um regente diante da Nona Sinfonia? E aquilo não se harmonizava
maravilhosamente com a opinião do Sr. Pablo e lhe dava razão? Maria também parecia amar

o simpático Pablo!
— É uma pessoa muito simpática — disse. — A mim também me agrada muito. Mas diga-
me, Maria, como podes gostar de mim, uma pessoa sem atrativos, um velho, feio, com o
cabelo já esbranquiçando e que não sabe tocar saxofone nem cantar nenhuma canção de amor
em inglês?
— Não fale assim! — repreendeu-me. — É muito natural. Você também me agrada, você
também tem algo de belo, amoroso e particular, você não pode ser diferente do que é. Não
vale a pena falar destas coisas nem pedir explicações de tudo isto. Olhe, quando você me beija
o pescoço ou a ore-Jna, sinto que gosta de mim e que gosto de você; você sabe beijar de uma
maneira que parece tímida e isto me diz: ele te ama, está muito satisfeito contigo por seres
bela. E isto me
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agrada, me agrada muito. Já com outros homens o que rnc agrada é exatamente o contrário, é
beijarem como se fosse uma graça que me estivessem concedendo.
Tornamos a dormir. Voltei a despertar, sem deixar de manter-me abraçado à minha formosa
flor.
E que prodígio! Aquela formosa flor continuava sendo sempre o presente que Hermínia me
enviara! Hermínia permanecia constantemente por trás dela, disfarçada dentro dela! E de
repente pensei em Erika, em minha distante (e mal) amada, em minha pobre amiga. Era pouco
menos bela que Maria, embora não tanto radiante; e era mais retraída e não tão adestrada nas
pequenas artes do amor. Tive-a um momento diante dos olhos, clara e doloridamente, amada
e profundamente enraizada em meu destino; depois caiu num profundo olvido, numa distância
quase lamentável.
E surgiram muitas imagens de minha vida durante aquela bela e deliciosa noite, imagens de
minha vida que fora tão vazia e pobre. Agora, libertada prodigiosamente por Eros, brotava a
fonte das imagens, caudalosa e profunda, e o coração me parava a cada momento, de
entusiasmo e tristeza também, ao pensar quão abundante fora a galeria de minha vida, quanto
a alma do pobre Lobo da Estepe estava cheia de altas estrelas e eternas constelações.
Apareceu a imagem da infância e a mãe, delicada e diáfana, como do alto de uma montanha
azul; ressonou bronze e claro o coro das minhas amizades, a começar pelo fabuloso Hermann,

o irmão espiritual de Hermínia; exalando aromas extraterrenos, como as flores do lago que se
abrem sobre as águas, flutuavam as imagens das mulheres que amei, a quem desejei e exaltei
em versos, das quais pouca coisa obtive e das que em vão tentei conquistar. Também
apareceu minha mulher, com quem vivi vários anos, que me ensinou a vida em comum, com
seus conflitos e resignações; em quem, apesar de todas as insatisfações da vida, depositara
uma profunda confiança até o dia em que, enlouquecida e enferma, me abandonou; reconheci
então o quanto a amara e quão profundamente confiara nela
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para que seu abuso de confiança me tivesse podido afetar de modo tão grave e para toda a
vida.
Aquelas imagens — eram centenas, com e sem nome — estavam ali de novo, surgiam novas e
jovens do poço daquela noite de amor, e tornei a ter consciência do que havia esquecido na
miséria, que elas eram o tesouro e os bens da minha vida e que continuavam existindo
inalteráveis, acontecimentos culminantes que poderia esquecer, mas não destruir, cuja série
formava a lenda de minha vida, cujo brilho era o indestrutível valor de minha existência.
Minha vida fora penosa, transtornada e infeliz, conduzindo à destruição e ao niilismo, fora
amargurada pelo sal de todo destino humano, mas havia sido rica, orgulhosa e senhorial; uma
vida soberba até mesmo na miséria. E ainda que o resto do caminho até o ocaso fosse
inteiramente desfigurado, o cerne desta vida fora nobre, tinha feição e estirpe, não girara em
torno das moedas, mas em torno das estrelas.
O tempo passou e sucederam muitas coisas depois disso e só posso recordar-me de alguns
detalhes daquela noite, de algumas palavras, de alguns gestos e ações de profunda delicadeza
amorosa, do momento estelar em que despertei do pesado sono do cansaço amoroso. Mas
aquela noite foi a primeira vez que, desde a época de minha decadência, voltei a olhar a
própria vida com olhos inflexíveis e resplandecentes, em que voltava a reconhecer na
casualidade um destino e nas ruínas de minha vida fragmentos celestiais. Minha alma voltava
a respirar, meus olhos voltavam a ver, e às vezes suspeitava ardentemente que só necessitava
recolher o mundo disperso das imagens, que só necessitava congregar a minha vida como
Harry Haller e o Lobo da Estepe na unidade de uma só imagem, a fim de poder penetrar no
mundo da imaginação e ser imortal. Não era aquela a meta a que aspirava toda vida humana?
Pela manhã tive de tirar Maria às escondidas de casa, de-de haver com ela partilhado o meu
café da manhã. Na145


quele mesmo dia aluguei um quarto nas imediações, destinado especialmente aos nossos
encontros.
Minha professora de dança, Hermínia, compareceu fiel ao compromisso, e tive de aprender o
boston. Era severa e inflexível, e não me deixou um só momento, pois estava assentado que
eu a acompanharia ao baile de máscaras. Pediu-me dinheiro para comprar uma fantasia,
acerca da qual não quis me adiantar nenhum detalhe. Também me estava proibido visitá-la e
mesmo saber onde morava.
Os dias que antecederam o baile de máscaras, umas três semanas, foram extraordinariamente
belos. Maria me pareceu ser a primeira amada real que eu tinha tido. Sempre exigira das
mulheres a quem amara que tivessem inteligência e educação, sem me dar conta de que nem
mesmo a mulher mais espiritual e relativamente educada jamais dera resposta ao logos que
havia em mim, mas, antes, se opunha a ele; confiava meus problemas e pensamentos às
mulheres, e me havia parecido inteiramente impossível amar por mais de uma hora uma
jovem que não lesse um livro, que não soubesse o que é ler, que não conseguisse distinguir
uma peça de Tchaikovski de uma de Beethoven. Maria não tinha nenhuma instrução, não
necessitava estes rodeios nem estes substitutivos; seus problemas nasciam diretamente dos
sentidos. Era seu ofício e sua tarefa extrair todo o prazer sensorial e amoroso que fosse
possível obter dos sentidos que possuía, com sua singular figura, com sua cor, seu cabelo, sua
voz, sua pele, seu temperamento; e encontrar e provocar nos amantes resposta, compreensão,
réplica prazerosa a cada uma de suas habilidades, a cada curva de sua linha, a cada suave
modelado de seu corpo. Já naquela primeira vez em que dancei com ela senti tudo isto, hauri
aquele aroma de genial e encantadora sensualidade, e por isso fiquei encantado. Também é
certo que não foi por casualidade que Hermínia, a que tudo sabe, me encaminhou para Maria.
Seu aroma e todo seu timbre era estivai e róseo.
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Não tive a sorte de ser o único amante de Maria e nem preferido; era um dos vários. Amiúde
não tinha tempo que me pudesse dedicar; às vezes só uma hora pela tarde, raramente à noite.
Não queria receber dinheiro; Hermínia estava certamente por trás de tudo aquilo. Mas
aceitava sim, com satisfação, os meus presentes, e quando lhe presenteei com uma carteira de
couro laqueado, coloquei dentro dela duas ou três moedas de ouro. O porta-moedas,
entretanto, fez-me cair em ridículo diante dela! Era muito bonito, mas fora uma pechincha e já
estava fora de moda. Destas coisas, de que estava pouco inteirado e entendia menos que a
linguagem dos esquimós, aprendi muito com Maria. Soube que aqueles pequenos adereços e
objetos de luxo e de moda não eram simples futilidades inventadas pelo comércio ganancioso,
mas um pequeno, ou antes, um grande mundo de coisas necessárias, belas, variadas, que não
tinham outro sentido senão servir ao amor, afinar os sentidos, animar o ambiente morto e
dotá-lo prodigiosamente com novos órgãos amorosos, desde os pós e perfumes até os sapatos
de baile, desde os anéis às ci-garreiras, dos cintos às bolsas. As carteiras não eram carteiras,
os porta-moedas não eram porta-moedas, as flores não eram flores, os leques não eram leques

— tudo era o material plas-tificante do amor, da magia, da sedução; era mensageiro,
contrabandista, arma, grito de guerra.
Muitas vezes pensei quem seria o verdadeiro amor de Maria. Havia muitas possibilidades de
que fosse o jovem Pablo, o do saxofone, o dos olhos negros e das mãos longas, brancas,
nobres e melancólicas. Eu imaginava Pablo um tanto indo-lente para o amor, por ser algo
mimado e passivo, mas Maria me assegurou que ele era de fato um tanto lento para excitar-se,
mas que depois era tão pertinaz, exigente e varonil quanto qualquer boxeador ou mestre de
equitação. E desta forma aprendi e fiquei sabendo de segredos sobre um e outro, sobre
músicos de jazz e artistas de teatro, sobre muitas mulheres, moças e homens de nosso
convívio; soube toda a classe de segredos, vi abaixo da superfície uniões e inimizades, e eu,
que
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fora neste mundo um corpo estranho sem relação com ninguém, acabei por ver-me absorvido
por completo. Também soube muitas coisas de Hermínia. E de Pablo, com quem meencontrava com freqüência, porque Maria o amava muito. Às vezes ele empregava seus meios
secretos, também me fazia sentir de vez em quando aquela sensação, e sempre se me
mostrava amistoso e serviçal. Certa vez me disse sem rodeios:

— Você é muito infeliz. Isso é mau. Não se deve ser assim. Causa-me pena. Por que não tenta
fumar um pouco de ópio?
Minha opinião sobre aquele homem alegre, prudente, infantil e ao mesmo tempo insondável
ia continuamente se modificando; ficamos amigos e algumas vezes provei suas drogas.
Encarava meu caso com Maria com certo ar de divertimento. Certa vez preparou uma “festa”
para nós em seu quarto, uma água-furtada de um hotel de subúrbio. Só havia uma cadeira, de
modo que eu e Maria tivemos de nos sentar na cama. Deu-nos a beber um estranho e
misterioso elixir, que se compunha da mistura de três garrafas. E logo quando comecei a
demonstrar bom humor, propôs-nos, com um olhar muito brilhante, que celebrássemos uma
orgia amorosa a três. Neguei-me prontamente, aquilo não me agradava nada; mas olhei por
um momento para Maria a fim de ver como tomara o caso, e embora ela concordasse com
minha recusa, vi o ardor de seu olhar e percebi o seu desgosto pela minha renúncia. Pablo
estava desapontado com a recusa, embora não ofendido.
— Ê uma pena — disse. — Harry é moralista em excesso. Nada se pode fazer. Teria sido tão
bonito! Mas tenho outra idéia!
Deu-nos a cada um uma tragada de ópio, e sentados imóveis, vivemos os três as cenas
sugeridas por ele, ante as quais Maria tremia de prazer. Quando comecei a sentir-me mal,
Pablo estendeu-me na cama, deu-me umas gotas de um remédio, e quando cerrei por uns
instantes os olhos, senti nas
148

pálpcbras uns beijos suaves e delicados. Aceitei-os crendo me viessem de Maria, mas
comprovei que me vinham dele.
Numa outra noite, surpreendi-me ainda mais. Apareceu em minha casa, dizendo-me
que necessitava de vinte francos e se eu lhe podia arranjar. Pediu-me em troca que
dispusesse aquela noite de Maria em seu lugar.

— Pablo — disse-lhe, muito chocado — você não sabe o que está dizendo. Ceder a
amante a outro por dinheiro é algo que consideramos de todo vergonhoso. Vou fingir
que não ouvi sua proposta.
Olhou para mim compassivo.
— Então não quer, Sr. Harry? Pois bem. Você mesmo é quem cria dificuldades. Pois
então não durma esta noite com Maria, mas me dê o dinheiro assim mesmo, que
depois lhe devolvo. Tenho muita necessidade dele.
— Para quê?
— Para Agostino, sabe quem é? O rapaz do segundo violino. Há oito dias que está de
cama e não tem ninguém para cuidar dele; está sem um níquel e meu dinheiro também
se acabou.
Por curiosidade e também um pouco por autopunição, fui com ele ver Agostino.
Levou-lhe leite e remédios ao terrível pardieiro em que vivia. Fez-lhe a cama e arejou
o ambiente e preparou com mãos habilidosas uma compressa que lhe aplicou à testa
febril, tudo com a rapidez, a delicadeza e a eficácia de uma boa enfermeira. Na
mesma noite vi-o tocar até de madrugada nos salões do City-Bar.
Falei freqüentemente com Hermínia a respeito de Mana, de suas mãos, de seus
ombros, de sua cintura e de sua maneira de rir, de beijar e de dançar.
—Já lhe ensinou isto? — perguntou Hermínia certa vez quando me descreveu
determinado movimento de língua ao beijar.
Roguei-lhe que me ensinasse ela própria, mas olhou-me muito séria e respondeu:
— Isto virá mais tarde; ainda não sou sua amante
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Perguntei-lhe como sabia a maneira de beijar de Máfia e outras particularidades sobre seu
corpo, só conhecidas por seus amantes.

— Oh! — exclamou — porque somos amigas. Você acha que temos segredos uma para a
outra? Já dormi várias vezes com ela e praticamos juntas o amor. Você arranjou uma garota
muito bonita, que sabe amar melhor do que ninguém.
— Acho, no entanto, Hermínia, que ainda há segredo entre vocês. Já lhe contou tudo que
sabe a meu respeito?
— Não, isto é outra coisa, que não compreenderia. Maria é prodigiosa. Você teve sorte. Mas
entre você e eu existem coisas que ela não suspeita. Falei-lhe muito a seu respeito, muito mais
do que você gostaria que eu falasse. Tinha de seduzi-la para você! Mas compreenda, meu
amigo. Assim como eu o conheço, nem Maria nem nenhuma outra seria capaz de conhecer.
Também soube de muitas coisas por intermédio dela; e a seu respeito, Harry, sei tudo quanto
Maria sabe. Conheço-o tão bem como se tivéssemos dormido juntos com freqüência.
Quando voltei a estar com Maria, causou-me surpresa e mistério saber que ela tivera
Hermínia em seus braços da mesma forma como tivera a mim; que havia sentido, beijado,
provado e acariciado cada um de seus membros, seus cabelos, sua pele, da mesma forma
como fizera comigo. Surgiram diante de mim novas, indiretas e complexas relações, novas
possibilidades de amor e de vida, que me levaram a pensar nas mil almas do Tratado do Lobo
da Estepe.
No breve intervalo entre meu conhecimento com Maria e o grande baile de máscaras eu fora
inteiramente feliz, e nunca me passara pelo pensamento que isso fora uma libertação, uma
bem-aventurança alcançada, mas antes sentia claramente que tudo aquilo era um prelúdio e
uma preparação, que tudo isso caminhava energicamente para diante, que o verdadeiro
haveria de chegar.
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Já sabia dançar, tanto assim que agora me parecia possível enfrentar o baile de que se falava
cada dia mais. Hermínia tinha um segredo, que guardava resoluta, sobre o traje que vestiria no
baile de máscaras. Eu a reconheceria imediatamente, dizia ela, e se não conseguisse, ela me
ajudaria. Mas não devia saber nada com antecedência. Também não demonstrou curiosidade
em saber qual seria o meu disfarce, e por isso resolvei não disfarçar-me. Maria, quando fui
convidá-la para o baile, disse-me que já tinha acompanhante para a festa; já estava com o
convite, e concluí, decepcionado, que eu iria assistir sozinho a um canto ao baile de máscaras.
Tratava-se do mais famoso baile de carnaval que os artistas promoviam no Teatro Globo.
Durante esses dias, pouco vi Hermínia, mas na véspera do baile esteve um instante em minha
casa — veio apanhar o convite que eu adquirira para ela — e sentou-se tranqüilamente junto a
mim em meu quarto, iniciando logo uma conversação, extraordinária para mim e que me
causou profunda impressão.

— A dança está lhe causando um grande bem — disse. — Quem o visse há quatro semanas,
hoje não o reconheceria
— Concordo — disse eu. — Há anos que não me sinto tão bem. E isso eu devo a você,
Hermínia.
— A mim, não; à formosa Maria.
— Não. Também ela foi um presente seu. Ela é maravilhosa.
— É a amante de que você necessitava, Lobo da Estepe. Bonita, jovem, alegre, muito
prudente no amor e não para ser desfrutada todos os dias. Se não tivesse de compartilhá-la
com outros, se ela não fosse uma hóspede fugitiva em sua casa, as coisas não iriam tão bem.
Sim, também tive de concordar com isso.
— Então, agora tem tudo de que necessita?
— Não, Hermínia, não é bem assim. Tenho algo maravilhoso e encantador, uma grande
alegria, um adorável consolo. Sou realmente feliz..
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— Então, que quer mais?
— Quero mais. Não estou satisfeito em ser feliz, não fui criado para isso, não é este o meu
destino. Meu destino é exatamente o contrário,
— Ser infeliz? Mas isso você era antes, quando não queria voltar para casa com medo da
navalha.
— Não, Hermínia, é algo mais. Àquela época, concordo, eu era muito infeliz. Mas tratava-se
de uma infelicidade idiota que não conduzia a nada.
— Por quê?
— Porque eu não devia sentir medo da morte se ao mesmo tempo a desejava. A infelicidade
de que necessito e por que anseio é diferente; é uma infelicidade que me permitiria sofrer com
ânsia e morrer com prazer. Essa é a infelicidade, ou felicidade, por que anseio.
— Compreendo. Nisso somos iguais. Mas que tem contra a felicidade que encontrou agora
com Maria? Por que não está contente?
— Não tenho nada contra essa felicidade. Oh, não! gosto de Maria. Estou satisfeito com ela. É
maravilhosa como um dia de sol em meio a um verão chuvoso. Mas sinto que isso não pode
durar. Além do mais, trata-se de uma felicidade infrutífera. Dá satisfação, mas a satisfação
não é alimento para mim. Faz adormecer o lobo da estepe, torna-o dócil. Mas não é uma
felicidade pela qual se possa morrer.
— Mas, é forçoso morrer por alguma coisa, Lobo da Estepe?
— Creio que sim! Minha felicidade enche-me de contentamento e posso suportá-la ainda por
algum tempo. Mas quando a felicidade me permite um pouco de reflexão, aí meu desejo não é
o de mantê-la para sempre, mas antes voltar a sofrer, só que de maneira mais bela e menos
lamentável do que antes. Anseio por uma dor que me prepare e me faça desejar a morte.
Hermínia olhou-me carinhosamente nos olhos com um sombrio olhar que lhe surgiu de
repente. Soberbos e promis152

sores olhos! Lentamente, buscando as palavras uma por uma, e colocando-as uma após outra,
disse, em voz tão baixa que tive de esforçar-me para ouvi-la:
__Quero dizer-lhe hoje uma coisa que já sei há muito e
que você também sabe, mas que talvez nunca a confessou a si mesmo. Quero dizer-lhe agora

o que sei de mim, de você, de nosso destino. Você, Harry, sempre foi um artista e um
pensador, um homem cheio de fé e de alegria, sempre ao encalço do grande e do eterno,
nunca se contentando com o bonito e o mesquinho. Mas quanto mais foi despertado pela vida
e conduzido para dentro de si mesmo, tanto maior se tornou sua necessidade, tanto mais fundo
mergulhou no sofrimento, na timidez, no desespero; mergulhou até o pescoço, e tudo o que no
passado conheceu, amou e venerou como belo e santo, toda a sua fé de então nos homens e
em nosso elevado destino, nada pôde ajudá-lo, tudo perdeu o valor e se fez em pedaços. Sua
fé não encontrou mais ar que respirasse. E a morte por asfixia é uma morte muito dura. Não é
verdade, Harry? Não é este o seu destino?
Eu assentia, assentia e assentia.
— Você trazia no íntimo uma imagem da vida, uma fé, urna exigência; estava disposto a
feitos, a sofrimentos e sacrifícios, e logo aos poucos notou que o mundo não lhe pedia
nenhuma ação, nenhum sacrifício nem algo semelhante; que a vida não é nenhum poema
épico, com rasgos de heróis e coisas parecidas, mas um salão burguês, no qual se vive
inteiramente feliz com a comida e a bebida, o café e o tricô, o jogo de cartas e a música de
rádio. E quem aspira a outra coisa e traz em si o heróico e o belo, a veneração pelos grandes
poetas ou a veneração pelos santos, não passa de um louco ou de um Quixote. Pois bem, meu
amigo, comigo também foi assim! eu era uma jovem bem dotada, com vocação para viver
dentro de um elevado padrão, para esperar muito de mim mesma e para realizar grandes
feitos. Poderia ter um belo futuro, ser a esposa de um rei, a amante de um revolucionário, a
irmã de um gênio, a mãe de um mártir. E a vida só me permitiu ser
153

uma cortesã de mediano bom gosto, o que já se vai tornando bastante difícil para mim! Foi
isso o que me aconteceu. Fiquei algum tempo desconsolada e procurei com afinco a culpa em
mim mesma. A vida, pensava eu, sempre acaba tendo razão, e se a vida se ria dos meus belos
sonhos, pensava, era porque meus sonhos tinham sido estúpidos e irracionais. Mas isso não
me valeu de nada. Mas como tivesse bons olhos e ouvidos, e, além disso, fosse curiosa,
examinei a vida com certa atenção, observei meus vizinhos e conhecidos, mais de cinqüenta
pessoas e destinos, e percebi então, Harry, que meus sonhos estavam certos, estavam mil
vezes certos, assim como os seus. Mas a vida, a realidade, não tinha razão. O fato de uma
mulher da minha classe não ter alternativa senão envelhecer de uma maneira insensata e
pobremente junto a uma máquina de escrever a serviço de um capitalista, ou casar-se com ele
por seu dinheiro ou converter-se numa espécie de meretriz, era tão injusto quanto o de um
homem como você, solitário, tímido e. desesperado, ter de recorrer à navalha de barbear.
Talvez que a miséria em mim fosse mais material e moral, e em você mais espiritual; mas o
caminho era o mesmo. Pensa que eu não pude reconhecer sua angústia diante do foxtrote, sua
repugnância pelos bares e pelos dancings, sua hostilidade para com a música de jazz e tudo o
mais? Compreendia e muito bem, como compreendia seu horror pela política, sua tristeza
pelo palavreado vão e a conduta irresponsável dos partidos e da imprensa; seu desespero
diante da guerra, as passadas e as futuras; pela maneira como hoje se pensa, se lê, se edifica,
se compõe música, se celebram as festas e se educa! Você tem razão, Lobo da Estepe, mil
vezes razão, e contudo terá de perecer. Vive demasiadamente faminto e cheio de desejos para
um mundo tão singelo, tão cômodo, que se contenta com tão pouco; para o mundo de hoje em
dia, que lhe cospe em cima, você tem uma dimensão a mais. Quem quiser hoje viver e
satisfazer-se com sua vida, não pode ser uma pessoa assim como você e eu. Quem quiser
música em vez de balbúrdia, alegria em vez de prazer, alma
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em vez de dinheiro, verdadeiro trabalho em vez de exploração, verdadeira paixão em vez de
jogo, não encontrará guarida neste belo mundo…
Olhou para baixo, meditando.
__Hermínia! — exclamei afetuosamente. — Irmã, como você vê as coisas claramente! E, no
entanto, foi você quem me ensinou a dançar o fox! Mas por que diz que as pessoas como nós,
com uma dimensão a mais, não podem viver neste mundo? Em que consiste isso? Isso ocorre
somente em nossa época ou sempre foi assim?
__Não sei. Quero admitir, em honra do mundo, que seja assim somente em nosso tempo, que
tudo não passe de uma enfermidade, de um mal momentâneo. Nossos líderes trabalham sem
descanso e com êxito na preparação da próxima guerra, e enquanto isso nós todos dançamos o
fox, gastamos dinheiro e comemos confeitos; numa época assim o mundo sem dúvida parece
bastante resignado. Esperemos que venham dias melhores, mais ricos, mais amplos, mais
profundos. Mas isso pouco nos ajudará. E talvez sempre tenha sido assim…

— Sempre como é hoje? Sempre um mundo só para os políticos, os aproveitadores, os scrvis
e os sibaritas, sem lugar para os indivíduos?
— Não sei, ninguém sabe. Mas isso também é indiferente. Agora já estou pensando em seu
predileto, naquele, meu amigo, de quem você me falou tantas vezes e cujas cartas me leu: em
Mozart. Que se passou com ele? Quem dominava o mundo em sua época, quem dava as
cartas, quem imprimia o tom e tinha valor? Mozart ou os negociantes, Mozart ou o homem
comum? E de que maneira morreu e foi enterrado? Por isso creio que talvez sempre tenha
sido assim e sempre será, e o que na escola chamamos de História Universal e tudo quanto
dela sabemos de cor sobre os heróis, os gênios, os grandes feitos e sentimentos, tudo não
passa de uma grande farsa inventada pelos mestres para fins educacionais com o intuito de
manter as crianças ocupadas por um determinado número de
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anos. Sempre foi e será assim: o tempo e o mundo, o dinheiro e o poder pertencem aos
mesquinhos e superficiais, e nada coube aos outros, aos verdadeiros homens, nada a não ser a
morte.

— Nada mais?
— Talvez a imortalidade.
— Quer dizer, um nome, a fama depois da morte?
— Não, Lobo da Estepe, a fama não. Terá ela algum valor? Você acredita que os homens
realmente de valor e íntegros são famosos e serão conhecidos pela posteridade?
— Claro que não.
— Então não é a fama. A fama existe apenas para fins de ensino, é assunto para professores.
Não, não é a fama. É o que chamo de imortalidade. Os piedosos chamam-no de reino de
Deus. Penso comigo: todos nós, os que desejamos demasiadamente, os que temos uma
dimensão a mais não poderíamos viver se não existisse uma outra atmosfera onde respirar
além da atmosfera deste mundo, se a eternidade não existisse além do tempo; e esse é o reino
da Verdade. A ele pertencem a música de Mozart e os poemas dos grandes poetas que você
admira; a ele pertencem os santos que operaram milagres, os que sofreram martírio e deram
um grande exemplo aos homens. Mas também pertence à eternidade a imagem de um todo
verdadeiro, a força de cada verdadeiro sentimento, ainda que desconhecido por todos, ainda
que ninguém o consigne e o preserve para a posteridade. Na eternidade não há futuro, mas
apenas o presente.
— Você tem razão — disse-lhe.
— Os piedosos — prosseguiu, pensativa — sabem algo a esse respeito. Foi por isso que
criaram os santos e inventaram a ‘ ‘comunhão dos santos”. Os santos, ou seja, os verdadeiros
homens, os jovens irmãos do Salvador. Durante toda nossa vida caminhamos em direção a
eles através de cada uma de nossas belas ações, de cada um dos nossos bons pensamentos, em
cada um de nossos amores. Os pintores representavam a princípio a comunhão dos santos sob
a forma de um céu dourado,
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resplandecente, belo e cheio de paz, e isso não é outra coisa senão o que chamei há pouco de
eternidade. É o reino que fica além do tempo e da luz. Pertencemos a ele, é nele que fica a
nossa pátria, para ele tende nosso coração, Lobo da Estepe, e por isso é que suspiramos pela
morte. Ali você encontrará Goethe, Novalis, Mozart, e eu encontrarei meus santos. São
Cristóvão, São Felipe Néri e todos os demais. Há muitos santos que, a princípio, foram
grandes pecadores; o pecado também pode ser um caminho para a santidade, o pecado e o
vício. Você pode achar graça, mas com freqüência penso que meu amigo Pablo também pode
ser um santo encoberto. Ah, Harry, quanta miséria e desatino temos de passar para chegar a
casa! e não temos ninguém que nos guie, a não ser nosso desejo de chegar.
Suas últimas palavras, voltou a pronunciá-las em voz baixa, e houve silêncio no quarto; o sol
se punha, fazendo brilhar o ouro das lombadas dos livros. Tomei a cabeça de Hermínia entre
as mãos, beijei-a na testa e juntamos as faces fraternalmente, e assim permanecemos por um
momento. Gostaria de assim permanecer por toda a noite, mas havia marcado encontro com
Maria, nesta última noite que antecedia o baile.
Indo-lhe ao encontro, não pensava nela, mas no que me havia dito Hermínia. Talvez aqueles
pensamentos não tivessem sido seus, mas antes meus, e a vidente os lesse e se apropriasse
deles, para em seguida devolvê-los a mim sob uma nova forma. Naquele instante estava-lhe
muito grato por haver expressado o pensamento da eternidade. Eu necessitava dele, sem ele
não poderia viver, e muito menos, morrer. O bendito além, fora do tempo, o mundo do eterno
valor, da substância divina, me fora presenteado hoje por aquela amiga, que me ensinara a
dançar. Fui forçado a lembrar-me de meu sonho com Goethe, na imagem do velho sábio que
sorriu tão desumanamente de mim, fazendo-me objeto de seu escárnio imortal. Compreendia
agora o riso de Goethe, o riso do imortal. Era um riso sem motivo, era só luz, claridade; o
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que resta de um homem verdadeiro que passou pelos sofri-mentos, os vícios, os erros, as
paixões e os mal-entendidos dos homens e entrou no eterno, no cosmos. E a eternidade não
era outra coisa senão a libertação do tempo; era, de certo modo, a volta à inocência, o regresso
ao espaço.
Fui procurar Maria no lugar onde habitualmente nos encontrávamos para jantar, mas ela ainda
não havia chegado Naquele tranqüilo restaurante de subúrbio, sentado à mesa já posta,
esperei-a com o pensamento nesta última conversação. Todos aqueles pensamentos que
Hermínia e eu havíamos trocado me pareciam tão familiares e já tão conhecidos como se
fossem criados por minha própria mitologia e por meu mundo de imagens! De onde me eram
tão familiares os imortais, que vivem no espaço sem tempo, libertos, convertidos em imagens
com a cristalina eternidade a envolvê-los como éter, e a fria alegria estelar resplandecente
desse mundo supraterreno? Enquanto refletia, passagens das Cassations, de Mozart, e do
Cravo Bem Temperado, de Bach, vieram-me à mente e pareceu-me ver nessa música a fria
claridade estelar, a claridade etérea. Sim, ali estava. Aquela música era algo assim como
tempo congelado no espaço, e sobre ele vibrava infinitamente uma alegria sobre-humana, um
eterno riso divino. Sim, e como o velho Goethe de meu sonho se harmonizava bem com tudo
aquilo! De repente, senti a meu redor aquele riso imortal. Fiquei estarrecido. Estarrecido,
busquei um lápis no bolso do casaco, procurei uma folha de papel, encontrei a lista de vinhos,
virei-a no verso, e nela escrevi um poema, que dias depois encontrei no bolso, e que dizia:
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Os Imortais

Dos vales terrenos chega até nós o anseio da vida: impulso desordenado, ébria exuberância, sangrento aroma de
repastos fúnebres.


São espasmos de gozo, ambições sem termo,
mãos de assassinos, de usurários, de santos,

o enxame humano fustigado pela angústia e o prazer.
Lança vapores asfixiantes e pútridos, crus e cálidos,
respira beatitude e ânsia insopitada,
devora-se a si mesmo para depois se vomitar.
Manobra a guerra e faz surgir as artes puras,
adorna de ilusões a casa do pecado,
arrasta-se, consome-se, prostitui-se todo
nas alegrias de seu mundo infantil;
ergue-se em ondas ao encalço de qualquer novidade
para de novo retombar na lama.
Já nós vivemos
no gelo etéreo transluminado de estrelas;
não conhecemos os dias nem as horas,
não temos sexos nem idades.
Vossos pecados e angústias,
vossos crimes e lascivos gozos,
são para nós um espetáculo como o girar dos sóis.
Cada dia é para nós o mais longo.
Debruçados tranqüilos sobre vossas vidas,
contemplamos serenos as estrelas que giram,
respiramos o inverno do mundo sideral;
somos amigos do dragão celeste:
fria e imutável é nossa eterna essência,
frígido e astral o nosso eterno riso.
Logo chegou Maria e depois de um alegre jantar, acompanhei-a ao nosso pequeno
apartamento. Naquela noite, estava mais linda, mais fervente e íntima do que nunca, e me fez
sentir carícias e prazeres que me pareceram o máximo da entrega.

— Maria — disse-lhe — você está hoje tão pródiga quanto uma deusa. Não vamos nos matar
a ambos; afinal de contas, amanhã é o dia do baile. Quem será seu acompanhante amanhã?
Temo, minha flor, que seja um príncipe encantado, que levará você e nunca mais a verei. Hoje
você me amou como fazem os bons amantes ao se despedirem, quando se amam pela última
vez.
159

Aproximou os lábios de meu ouvido e disse sussurrante:

— Não diga isto, Harry! Cada vez pode ser a última. Quando Hermínia o agarrar, nunca mais
você voltará para mim. Quem sabe se será amanhã?
Nunca tinha provado com tanta intensidade a sensação característica daqueles dias, aquela
prodigiosa e agridoce dualidade de ânimo, como nessa noite antes do baile. Era felicidade o
que sentia: a beleza e a entrega de Maria, o usufruir, apalpar e respirar cem finas e nobres
sensações, que tão tarde havia conhecido; estava banhado por uma suave e oscilante onda de
prazer. E isso era apenas o invólucro; por dentro estava repleto de significado, de tensão, de
destino, e enquanto me ocupava amorosa e delicadamente com as doces e comovedoras
sutilezas do amor, flutuando aparentemente em delícias mornas e harmoniosas, sentia no
coração como o meu destino avançava a toda pressa para frente, galopando e golpeando o
solo como um cavalo sem bridas, em direção do abismo, da queda, cheio de angústia, de
anseios, cheio de abandono à morte. Tal como há pouco resistia com timidez e temor diante
da agradável inconsciência do amor apenas carnal, tal como sentira angústia diante da beleza
sorridente de Maria, disposta a entregar-se a mim, assim sentia agora angústia diante da
morte, mas uma angústia que sabia capaz de transformar-se em abandono e em libertação.
Enquanto nos entregávamos silenciosamente ao afanoso jogo do amor e nos pertencíamos um
ao outro mais intimamente do que nunca, minha alma despediu-se de Maria, despediu-se de
tudo quanto ela havia significado para mim. Com ela aprendera a confiar uma vez mais
infantilmente no jogo da superfície, a buscar fugazes alegrias, a ser criança e animal na
inocência do sexo; uma situação que não conhecera em minha vida anterior senão em casos
excepcionais, pois a vida dos sentidos e o sexo haviam tido quase sempre para mim um
amargo sabor de culpa, o doce, mas temeroso sabor de fruto proibido, diante do qual o
homem de espírito deve estar sempre em guarda. Hermínia e Maria me haviam assina160

lado em sua inocência este jardim, e eu fora seu hóspede agradecido; mas em breve seria
tempo de sair dele, pois me sentia confortável demais nesse jardim. Era meu destino continuar
aspirando pela coroa da vida na expiação de seus infinitos pecados. Uma vida fácil, um amor
fácil, uma morte fácil

  • tais coisas não eram para mim.
    Pelas alusões da moça, percebi que haviam planejado para o baile do dia seguinte ou para o
    fim dele algumas diversões singulares e libertinas. Seria aquilo o final? Maria estava certa em
    sua suposição de que estaríamos hoje juntos pela última vez? Começaria talvez amanhã uma
    nova fase de meu destino? Estava cheio de ardente anelo, de sufocante angústia, e me
    abraçava ferozmente a Maria, percorria, mais uma vez, vacilante e ansioso, todos os sendeiros
    e espessuras de seu jardim; voltei uma vez mais a morder o doce fruto da árvore do paraíso.
    Recuperei na manhã seguinte o sono perdido durante a noite. Após um banho, regressei a casa
    morto de cansaço e fechei as cortinas; ao despir-me, encontrei no bolso da calça o poema;
    mas deixei-o ficar, deitei-me em seguida, esqueci Maria, Hermínia, o baile de máscaras, e
    dormi o dia inteiro. Quando me levantei, já de tarde, lembrei-me, enquanto me barbeava, de
    que faltava uma hora apenas para começar o baile e que eu tinha de arranjar uma camisa de
    rigor. Aprontei-me bem-humorado e saí. Antes de mais nada, era preciso jantar.
    Aquele era o primeiro baile de máscaras de que eu iria participar. É certo que já assistira a
    outras festas em tempos passados; vez por outra as achara agradáveis, mas em nenhuma eu
    dançara, nelas funcionando apenas como espectador; a animação com que ouvia outras
    pessoas descrevê-las e a alegria que demonstravam em sua participação sempre me pareceram
    algo cômico. Hoje o baile era também para mim um acontecimento, que me causava alegre
    entusiasmo, mas não isento de angústia. Como não tivesse de levar dama em mi

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nha companhia, resolvi chegar tarde, segundo me havia recomendado Hermínia.
Há muito não ia ao Elmo de Aço, meu refugio de outros tempos, onde vêm sentar-se os
homens desiludidos para be-ber e jogar, pois essa atitude já não se harmonizava com a
tranqüilidade de minha vida atual. Mas, naquela noite, algo voltava a atrair-me para ali; no
estado de espírito tímido e alegre, que me dominava de quando em vez, causado pelo Destino
e no limiar da despedida, todas as etapas e lugares de recordação de minha vida ganhavam
mais uma vez aquele belo e doloroso resplendor do passado, e entre eles a pequena e úmida
taberna, de que eu era um dos fregueses há pouco tempo atrás, quando então me teria bastado

o primitivo narcótico de uma garrafa de vinho para me dar forças de ir para casa e suportar a
vida por mais um dia. Outros meios de poderoso encanto havia eu saboreado depois disso,
havia sorvido doces venenos. Entrei, sorrindo, no local e fui acolhido por uma saudação do
gerente e inclinações de cabeça de alguns fregueses silenciosos. Pedi um frango assado,
serviram-mo, bem como vinho da Alsácia que despejei no copo rústico de vidro grosso. As
mesas de madeira, muito brancas e limpas, olhavam para mim amistosas, bem como os velhos
lam-bris amarelos. E enquanto bebia e comia, aumentou dentro de mim aquele sentimento de
decadência e despedida, esse doce, doloroso e íntimo sentimento de uma aderência que não se
desprendia, embora já estivesse madura para tanto; uma aderência de todos os pontos de vista
e coisas de minha vida anterior. O homem moderno chama a isso sentimentalismo; já não ama
as coisas inanimadas, nem mesmo ao seu mais sagrado objeto, seu automóvel, que está
sempre querendo trocar por outro mais novo O homem moderno é enérgico, capaz, são, frio e
rígido — um tipo excelente, que será um milagre de eficiência na próxima guerra. Mas tudo
isso nada me importa. Não sou um homem moderno, nem também um antiquado. Estava fora
do tempo e me arrastava em direção a morte, que desejava. Nada tinha contra o
sentimentalismo,
162

estava alegre e agradecido de sentir ainda em meu coração algo assim como alguns
sentimentos. De modo que me entreguei às recordações que a velha taberna suscitava em
mim, e a simpatia que me despertavam aquelas velhas cadeiras maciças, o odor a fumo e a
vinho que eram para mim como um resplendor do habitual, do cálido, do caseiro, pois todos
estes significados tinha a taberna para mim. Despedir-se é belo, doce. O banco duro pareceu-
me agradável e bem assim o copo rústico; apreciava o vinho da Alsácia, apreciava minha
confiança em todas e em cada uma das coisas daquele lugar; amava a fisionomia dos
bebedores, que estavam sentados a sonhar e dos quais eu fora irmão por algum tempo.
Sentimentos burgueses eram os que aqui experimentava, levemente enraizados com um aroma
de pousada romântica de meus tempos de rapaz, quando ainda me estavam vedadas as tabernas,
o vinho e o fumo. Mas não se levantou nenhum lobo da estepe para estraçalhar com os
dentes em riste o meu senti-mentalismo. Estava sentado pacificamente à luz do passado que
no seu crepúsculo ainda irradiava um doce resplendor.
Chegou um vendedor ambulante vendendo castanhas assadas e lhe comprei um punhado.
Veio uma velha vendendo flores e lhe comprei dois cravos, dando-os de presente à dona da
casa. Quando fui pagar e procurei em vão pelo meu bolso do paletó foi que me dei conta de
que estava vestido a rigor. O baile de máscaras! Hermínia!
Contudo ainda era cedo e não consegui convencer-me de ir desde já para o Globo. Também
senti — como era hábito ultimamente em todas essas diversões — alguma resistência, algum
impedimento, uma oposição a entrar em locais amplos, abarrotados de gente e cheios de
ruídos, uma timidez escolar diante de uma atmosfera estranha, diante do mundo dos elegantes,
diante do baile.
Vagando, passei diante de um cinema, com suas luzes cintilantes e enormes cartazes de cores
resplandecentes; passei ao largo alguns passos, mas voltei e entrei. Ali poderia sentar-nie
tranqüilamente até às onze horas. Guiado pelo vaga-lu163


me com sua lanterninha, encontrei um lugar, não antes de haver tropeçado com as cortinas do
salão às escuras. E de súbito me encontrei em meio ao Velho Testamento. A película era uma
dessas que, segundo afirmavam, não tinham intenções comerciais, mas feita com propósitos
mais puros e nobres, dessas a que os professores de religião levam seus alunos para ver nas
matinês. Representava a história de Moisés e dos israelitas no Egito, com grandes massas
humanas, cavalos, camelos, palácios, esplendores faraônicos e misérias do povo judeu nas
ardentes areias do deserto. Lã estava Moisés, com seus longos cabelos e barbas à maneira de
Walt Whitman, um Moisés magnífico e teatral, com um enorme báculo e seu andar de Wotan,
caminhando com todo fervor e austeridade pelo deserto, à frente dos judeus. Vi-o implorando
a Deus junto ao Mar Vermelho, e vi as águas se abrirem para ele de um e de outro lado,
deixando-lhe um caminho livre, um caminho cortado entre as montanhas de águas represadas
(os meninos que os professores de religião trazem a ver a película certamente discutiram
sobre a maneira pela qual os cineastas haviam conseguido executar a cena); vi o profeta e seu
povo temeroso atravessando o mar, vi aparecer no encalço deles os carros de guerra do faraó,
vi os egípcios se deterem vacilantes à orla do mar, depois avançarem valentemente pela
brecha e em seguida derrubarem-se sobre eles as montanhas de água afogando a
magnificência e o esplendor dos carros do faraó e de seus guerreiros, que me recordou um
dueto para baixos de Hándel, no qual esta passagem aparece maravilhosamente descrita. Vi
Moisés subindo depois ao monte Sinai, um herói adusto numa adusta confusão de penedos, e
vi como Jeová lhe foi transmitindo entre trovões e relâmpagos os dez mandamentos, ao passo
que seu indigno povo erigia o bezerro de ouro aos pés da montanha e se entregava a regozijos
bastante desorbitados. Era para mim prodigioso e surpreendente contemplar tudo aquilo e ver
representada a História Sagrada, com seus santos e milagres, que em nossa juventude nos
permitiram pressentir confusamente um outro mundo, ali, dian164


te daquele público agradecido, que comia em silêncio as guloseimas que trouxera consigo,
além de poder admirar uma pequena e formosa estátua de Ramsés e a cultura daqueles
tempos. Meu Deus, teria sido preferível que perecessem, além dos egípcios, os judeus e os
outros povos, de morte violenta e digna, em vez dessa cruel e pretensa morte aos bocados por
que passamos hoje em dia. Mil vezes preferível!
Meus secretos impedimentos, meus temores diante do baile de máscaras não haviam
diminuído com o filme e suas emoções, mas antes aumentado desagradavelmente, tanto que
tive de concentrar meus pensamentos em Hermínia para me encaminhar ao Globo e penetrar
no salão. Já era tarde da noite e o baile estava em seu máximo esplendor; logo me vi envolto
pela multidão de mascarados, empurrado daqui para lá, solicitado pelas garotas para que as
convidasse ao champanha, recebendo dos pierrôs pancadinhas nos ombros e tratado por todos
com a maior intimidade. Não fazendo caso de nada, aproximei-me com dificuldade do
vestiário. Quando recebi o cartão numerado, guardei-o cuidadosamente num dos bolsos,
pensando que decerto iria usá-lo de volta se aquela multidão continuasse a aborrecer-me
como estava.
Em todos os salões do grande edifício se acotovelava a gente festiva; dançava-se em todas as
salas, até nos corredores; escadas e patamares estavam cheios de mascarados, bailarinos,
música, risos e júbilo. Fui deslizando como pude, oprimido, de uma sala onde tocava uma
orquestra de negros até outra onde havia uma banda de aldeões, do grande salão
resplandecente até à entrada, das escadarias até ao bar, ao buf-fet, aos nichos onde serviam
champanha. As paredes estavam quase inteiramente cobertas de quadros e desenhos festivos e
bárbaros, pintados por jovens artistas. Todos lá estavam, artistas, jornalistas, professores,
comerciantes, e também, naturalmente, todas as pessoas de nota da cidade. Numa das
orquestras tocava Pablo, soprando com entusiasmo no seu tubo recurvo: quando me
reconheceu, reforçou a intensidade de suas notas, à guisa de cumprimento. Empurrado pela
multi165


dão, entrava numa ou noutra sala, subia ou descia uma escada; o vestíbulo de entrada fora
decorado pelos artistas com motivos do inferno, e a música era executada por demônios
furiosos. Pouco a pouco comecei a preocupar-me por não ver Hermínia nem Maria; lancei-me
em sua busca, tentei várias vezes penetrar no grande salão, mas era sempre detido pela
multidão que vinha em sentido contrário. À meia-noite ainda não havia encontrado ninguém;
embora não tivesse dançado ainda, estava todo suado e aborrecido; deixei-me cair sobre a
primeira cadeira que encontrei vaga, entre pessoas estranhas; pedi vinho e compreendi que
uma festa tão ruidosa não era para um velho como eu. Resignado, tomei meu copo de vinho,
olhei fixamente para os ombros e os braços nus das mulheres em torno, vi passar muitas
máscaras grotescas, pus-me a atirar confete e serpentinas, despachei com um gesto as duas
garotas que queriam sentar-se em meus joelhos ou dançar comigo. “Velho urso” — gritou-me
uma delas, e tinha razão. Decidi animar-me bebendo, mas o vinho também me sabia mal, pois
não cheguei a tomar um segundo copo. E pouco a pouco comecei a sentir que o lobo da estepe
estava atrás de mim com a língua de fora. Não me sentia à vontade, estava desambientado.
Viera com a melhor das intenções para me divertir, mas não conseguia encontrar alegria e
todo aquele riso e exagerado regozijo me pareciam estúpidos e fora de propósito.
E aconteceu que, decepcionado e insatisfeito comigo mesmo, ao fim de uma hora aproximei-
me do vestiário para apanhar meu casaco e ir-me embora. Era uma derrota, um retorno ao
lobo da estepe, e Hermínia não me perdoaria. Mas não podia fazer outra coisa. No difícil
avançar através da multidão até o vestiário, examinei atentamente as pessoas, para ver se
descobria minhas amigas. Mas em vão. Já estava diante do balcão do vestiário; a moça
estendeu a mão para receber o cartão numerado, que eu buscava encontrar no bolso do
smoking: o cartão não estava ali! Diabo, isto era o que faltava. Durante a minha penosa
peregrinação entre a gente alvoroça166


da, enquanto estive sentado a tomar vinho, lutando com o desejo de sair dali, tinha apalpado
mais de uma vez o bolso constatando a existência do cartão em seu devido lugar. Mas agora já
não o encontrava. Tudo estava contra mim.

— Perdeu o cartão — perguntou junto a mim um diabi-nho vermelho e amarelo. — Não seja
por isso, meu camarada, pode usar o meu.
E me entregou um cartão. Enquanto o apanhava mecanicamente e o virava entre os dedos, o
ágil diabinho desapareceu.
Quando aproximei dos olhos o cartão, comprovei que não trazia nenhum número, mas uma
inscrição em letras miúdas. Pedi à moça do vestiário que esperasse, aproximei-me do primeiro
foco de luz e li. Nele havia garatujada qualquer coisa, em caracteres miúdos e vacilantes,
difíceis de ler:
HOJE A PARTIR DAS QUATRO NO TEATRO MÁGICO
SÕ PARA LOUCOS
ENTRADA AO PREÇO DA RAZÃOPARA OS RAROS SOMENTE. HERMÍNIA
ESTÁ NO INFERNO.
Como uma marionete, cujos fios se tivessem escapado dos dedos de seu manipulador, após
uma morte breve e rígida e num momentâneo embotamento dos sentidos, volta a reanimar-se,
volta a entrar em ação, a dançar e a agitar-se, assim corri, como arrastado por um fio mágico,
para o tumulto donde há pouco fugira fatigado, desanimado e envelhecido, correndo então
elástico, jovem e diligente. Nunca nenhum pecador empregou tamanha diligência em correr
para o inferno. Pouco antes me incomodavam os sapatos de verniz, o ambiente carregado de
perfume; o calor me desagradava e aba-üa; agora corria célere sobre os pés alados ao
compasso do one-step, pela sala, em direção do inferno; senti o ambiente cheio de encanto, fui
carregado pelo calor, por aquela música estridente, pela orgia de cores, de perfume de ombros
femi167

ninos, do múltiplo rumor de vozes e risos, de compassos de dança, de resplendor de todos
aqueles olhos acesos. Uma bailarina espanhola refugiou-se entre os meus braços.

— Vamos dançar?
— Não posso — disse. — Tenho de ir ao inferno. Mas receberia com prazer um beijo teu.
A boca rubra que havia sob a máscara veio em busca da minha e ao primeiro beijo reconheci
Maria. Agarrei-a firmemente entre os braços; como uma rosa madura do verão sua boca
florescia. E dançamos de lábios colados, passando assim diante de Pablo, que estava enlevado
com o ritmo de seu instrumento, e seu olhar de animal formoso envolveu-nos brilhante e meio
ausente. Mas antes que tivéssemos dançado vinte passos, a música parou; com desagrado,
deixei que Maria se soltasse de meus braços.
— Gostaria tanto de dançar mais — disse-lhe, encantado com seu ardor. — Adoraria que a
dança tivesse durado mais uns passos. Estou apaixonado pelo seu braço divino. Deixa-me
tomá-lo por mais um instante. Mas, sabe? Hermí-nia me chamou. Está no inferno.
— Já suspeitava. Vai, então, Harry; continuarei a querer-lhe bem.
Despediu-se de mim. Era o adeus, era o outono, era o Destino que havia feito a rosa de verão
lançar seus aromas mais puros.
Continuei a correr pelos amplos corredores cheios de deliciosos apertos; desci a escada em
direção ao inferno. Ali ardiam nas paredes negras como o breu umas lâmpadas deslumbrantes,
e a orquestra de diabos tocava frenética. Num banco alto do bar estava sentado um lindo
jovem, sem máscara, vestido de fraque, que me olhou um instante com olhos irônicos. Eu
estava espremido contra a parede, porque havia mais de vinte pares bailando no estreito
recinto. Angustiado e ansioso, examinava todas as mulheres, a maioria ainda de máscara;
algumas me sorriam, mas nenhuma era Hermíma. O jovem do bar continuava a olhar para
mim ironicamente
168

‘ ‘No próximo intervalo da música — pensei — Hermínia virá ao meu encontro. ” A
música parou, mas ninguém apareceu. Aproximei-me do bar, que estava localizado a
um canto do recinto. Sentei-me ao lado do jovem e pedi uísque. Enquanto bebia, olhei

o perfil do jovem, que me pareceu muito conhecido e encantador, como uma imagem
dos tempos antigos, surgindo através do véu da poeira do passado. Oh! — disse para
mim mesmo, num estremecimento: Era Hermann, meu amigo de infância!
— Hermann! — disse, vacilante. Ele sorriu.
— Harry. Então me encontraste?
Era Hermínia. Pouco maquilada e um tanto despentea-da, seu rosto inteligente
aparecia um tanto pálido sobre o rijo pescoço; as mãos pareciam prodigiosamente
pequenas na ne-grura das mangas do fraque, com seus punhos brancos à mostra;
admiravelmente delicados pareciam seus pés metidos nuns sapatinhos de seda, pretos
e brancos, de forma masculina, na extremidade das calças largas e negras.
— Este é o traje com que pensas fazer-me apaixonar por ti, Hermínia?
— Até agora — disse ela — já consegui fazer várias damas se apaixonarem por mim.
Chegou a tua vez. Mas, antes tomemos uma taça de champanha.
Assim fizemos, sentados em nossos altos assentos de bar, enquanto junto a nós
continuava o baile e ressoavam as estri-dências da música. E sem que Hermínia
empregasse muito cuidado, ao que parece, de súbito me senti enamorado dela. Como
estivesse vestida com trajes masculinos, não podíamos dançar nem podia permitir-me
qualquer carícia, e enquanto permanecia distante e neutra em suas vestes de homem,
envolvia-me em olhares, em palavras, em gestos que tinham todos os encantos de sua
feminilidade. Sem sequer tocar-lhe, fiquei subjugado por seu encanto, e esse encanto
residia em seu disfarce, no seu hermafroditismo. Depois esteve conversando comigo a
propósito de Hermann e da infância da mi-
169

nha e da sua, daqueles anos anteriores à puberdade, em que a capacidade de amar se estende
não só sobre ambos os sexos mas sobre tudo o mais, o sensorial e o espiritual, e tudo fica
impregnado de encanto amoroso e da prodigiosa capacidade de transformação, que só é dado
aos eleitos e aos poetas conhecer às vezes nos momentos extremos de suas vidas. Fingia ser
um rapazinho, fumava e falava pausada e discretamente, não raro com um pouco de ironia,
mas tudo estava trespassado de Eros, tudo se transformava em caminho para os meus sentidos
em nobre sedução.
Embora julgasse conhecer bem e suficientemente Her-mínia, ela se revelava aquela noite
inteiramente nova para mim. Com quanta suavidade e sem que eu o notasse estendeu em
torno de mim a rede tão desejada; como me deu a beber, como se estivesse brincando, o doce
veneno!
Conversamos e bebemos champanha. Passeamos pela sala observando, como aventureiros
descobridores, buscando os casais, cujo enlace amoroso contemplávamos. Apontou-me
algumas mulheres, com as quais me pediu que dançasse, e me deu conselhos sobre a maneira
com que me devia conduzir com elas. Comportávamo-nos como rivais, perseguíamos a
mesma mulher, dançávamos alternadamente com ela, intentávamos ambos conquistá-la. E, no
entanto, tudo isso não passava de fingimento, um jogo entre nós dois, que nos enlaçava
intimamente, que nos acendia a ambos. Tudo era pura fantasia, tudo tinha uma dimensão a
mais, uma significação mais profunda; tudo era jogo e símbolo.
Vimos uma jovem muito bonita, que parecia estar descontente e entristecida. Hermann
dançou com ela, fê-la florescer, desapareceu com ela para tomar champanha, e depois me
contou que havia conquistado aquela mulher não como homem, mas como mulher, com o
encanto de Lesbos. Mas toda a casa retumbava cheia de salas em que estrondeava o baile;
aquele rumoroso mundo de máscaras transformou-se pouco a pouco para mim num paraíso de
sonho; a flor enfei-tiçava a flor com seu perfume, rebuscava entre os frutos,

170


provando-os com os dedos; as serpentes me fitavam, sedutoras, em meio às verdes sombras da
folhagem; as flores de ló-tus se abriam sobre o negro pântano; pássaros mágicos cantavam nas
ramadas, e tudo me conduzia para uma meta anela-da, tudo me incitava com mais ardente
desejo para a única. Uma vez dancei com uma jovem desconhecida, ardente, atraente;
arrastou-me na voragem, e enquanto nos agitávamos no irreal, disse-me, rindo de súbito:

— Pareces outro. Antes estavas todo aborrecido e estúpido.
Então reconheci a moça que algumas horas antes me chamara de ‘ ‘velho urso”. Julgou que me
havia conquistado, mas já na dança seguinte era outra por quem o meu entusiasmo ardia.
Dancei duas horas ou mais todos os ritmos de dança, mesmo aqueles que não conhecia. E
sempre, depois de cada volta, aparecia Hermann ao meu lado, o sorridente jovem; saudava-me
com a cabeça e desaparecia entre a multidão
Uma experiência, que me fora desconhecida ao longo de cinqüenta anos, embora familiar a
qualquer mocinha airada ou a qualquer estudante, revelou-se-me naquela noite de baile: a
experiência da festa, o rumor da comunidade em festa, o segredo da submersão da pessoa na
multidão, da unio mystica da alegria. Já ouvira falar nisso, qualquer criada de quarto o
conhecia, e com freqüência vira brilhar nos olhos de tais pessoas a luz, e sempre sorrira um
pouco ironicamente de tudo isso, com um ar superior porém com certa inveja. Aquele
esplendor nos olhos embriagados de um homem liberto de si mesmo, aquele sorriso e meio-
louca imersão que nasce do rumor da comunidade, já o vira centenas de vezes na vida, em
exemplos nobres e vulgares, em recrutas e marinheiros embriagados, bem como em grandes
artistas, talvez no entusiasmo de representações solenes, e também nos jovens que marcham
para a guerra, e não havia muito admirara esse res-plendor e esse sorriso iluminado, com
ironia e inveja, em meu amigo Pablo, quando na embriaguez da música se inclinava feliz
sobre o saxofone ou olhava alheado, em êxtase, pa171

ra o maestro, o baterista ou o homem do banjo. Muitas vezes cheguei a pensar que tal sorriso,
que esse resplendor infantil, só era possível nas pessoas jovens ou em certos povos que não
apresentam nenhuma individualização real e diferença entre os indivíduos. Mas hoje, nesta
bendita noite, expandia eu mesmo, Harry, o Lobo da Estepe, aquele sorriso, agitava-me eu
mesmo no doce sonho e na embriaguez da comunidade, da música, do ritmo, do vinho e dos
prazeres do sexo, cuja exaltação ao descrever um baile eu ouvira na voz de qualquer estudante
em outros tempos com um ar de mofa e pobre superioridade. Eu já não era eu mesmo, minha
personalidade se dissolvera na embriaguez da festa como o sal na água. Dancei com uma e
outra mulher, mas já não era uma só que estava em meus braços, cujos cabelos roçavam
minha face, cujo perfume eu aspirava, mas todas as mulheres que se moviam na mesma sala,
numa mesma dança, com idêntica música que eu e cujos rostos deslumbradores passavam
diante de mim como grandes flores fantásticas; todas me pertenciam, eu pertencia a todas,
todos participávamos de todos. E também pertenciam a mim todos os homens, também estava
eu entre eles, não me eram estranhos, seu riso era o mesmo meu, seu anelo o meu anelo, e o
meu também era o deles.
Um novo ritmo havia conquistado o mundo naquele inverno, um foxtrote chamado Yearning.
Esse Yearning era tocado a cada instante, e sempre novamente solicitado; todos estávamos
encantados com ele e trauteávamos a melodia. Dancei ininterruptamente com todas as
mulheres que cruzaram por meu caminho: com garotas muito jovens, com mulheres
esplendorosas, com matronas maduras, com melancólicas solteironas: todas me encantavam, a
todas sorria feliz, radiante. E quando Pablo me viu tão esfuziante, a mim que sempre via
como um pobre-diabo lamentável, seus olhos me enviaram um olhar de ventura, levantou-se
da cadeira e soprou em seu instrumento com toda a força e acentuou o compasso do Yearning
com movimentos de todo seu corpo, c meu par e eu lhe enviamos beijos com a mão e
cantamos em

172


coro. Ah! pensei entretanto, haja o que houver, pelo menos fui feliz uma vez, meu olhar teve
brilho, libertei-me de mim mesmo, sou irmão de Pablo, sou uma criança.
Havia perdido a noção do tempo, não sabia as horas ou os instantes que durava aquela
felicidade embriagadora. Tampouco percebi que a festa, quanto mais animada se fazia, tanto
mais se concentrava num espaço menor. A maioria já se retirara, nos corredores reinava a
tranqüilidade, muitas luzes tinham sido apagadas, a escada estava vazia, nas salas superiores
as orquestras se emudeceram uma após outra e se retiraram; só no salão principal e no inferno
continuava em alvoroço a variegada concorrência, cada vez mais ardorosa. Como não pudesse
dançar com Hermínia, o rapazinho, víamo-nos e nos saudávamos somente nos intervalos entre
as danças, e finalmente acabou por desaparecer, não só diante dos meus olhos, mas até mesmo
em meu pensamento. Eu não tinha pensamentos. Flutuava imponderável no torveli-nho da
dança, comovido pelos perfumes, os sons, os suspiros e as palavras, saudado por olhos
estranhos, rodeado por estranhos rostos, lábios, braços, peitos, joelhos, levado daqui para ali
ao compasso da música como uma onda.
E, de súbito, vi — num momento de lucidez, entre os últimos convidados que enchiam a sala,
na última sala em que ainda havia música — um pierrô negro com o rosto em-polvilhado,
uma formosa e fresca jovem, coberta apenas por uma leve meia máscara, uma figura
encantadora que não havia visto em toda aquela noite. Enquanto todos os demais denotavam o
avançado da hora em suas faces ruborizadas e su-dorosas, nas vestes amarfanhadas, nas golas
e peitilhos amarrotados, a negra pierrette estava nova e fresca, com a fantasia perfeita, a gola
impoluta, os brancos punhos imaculados e o penteado intocável. Veio em minha direção e eu
enlacei-a, levando-a a dançar; a gola perfumada provocava-me cócegas no queixo, seus
cabelos roçavam-me a face, com mais delicadeza e mais intimamente que qualquer outra das
mulheres com quem dancei aquela noite; o jovem vigor de seu corpo

173


respondia a cada um de meus movimentos, cedia a eles, provocava naquele jogo novos
contatos. E, de súbito, ao inclinar-me durante a dança buscando-lhe a boca, aquela boca sorriu
confiante, reconheci o queixo firme, reconheci feliz os ombros, os cotovelos, as mãos. Era
Hermínia, já não Hermann, vestida de novo, fresca, levemente perfumada e empoada. Nossos
lábios se uniram ardorosamente; por um momento todo seu corpo se estreitou contra o meu.
Até os joelhos, cheios de desejo e entregando-se a mim; logo retirou a boca e dançou discreta
e fugidia.
Quando a música cessou, permanecemos enlaçados ali onde estávamos; todos os pares que
nos rodeavam batiam palmas, batiam os pés, gritavam, assobiando, pedindo à orquestra
exausta que tocasse o Yearning de novo. E de novo todos sentimos a manhã, vimos a luz
pálida através das cortinas, sentimos próximo o fim do prazer, percebemos a chegada do
cansaço e nos arrojamos cegos, rindo e desesperados à dança, à música, à golfada de luz,
caminhamos furiosos no compasso, comprimidos pelos pares, e voltamos a sentir uma vez
mais a venturosa onda que nos açoitava. Naquela volta, Hermínia abandonou sua
superioridade, sua ironia, sua frial-dade, sabia que não precisava fazer mais nada para que eu
me apaixonasse. Eu lhe pertencia. E ela se entregava, na dança, no olhar, no beijo, no sorriso.
Todas as mulheres daquela noite febril, todas com quem dançara, todas as que entusiasmara e
me haviam entusiasmado, todas as que me apeteceram e que eu abraçara cheio de desejo,
todas as que contemplara com anseios amorosos, estavam fundidas e concentradas em uma
única que florescia agora nos meus braços.
Aquela dança nupcial durou muito. Por duas, por três vezes, a orquestra se calou, os músicos
deixaram cair os instrumentos, o pianista levantou-se da banqueta, o primeiro violino
balançou a cabeça em sinal de negativa, e outras tantas vezes tiveram de voltar a tocar ante a
insistência dos últimos pares, voltaram a tocar com maior rapidez, selvagemen-te. De repente

— estávamos ainda abraçados e ofegantes da
174

última dança — a tampa do piano se fechou com um golpe seco, nossos braços caíram
fatigados como os dos violinistas, e o flautista meteu seu instrumento no estojo, as portas se
abriram, entrou por elas o ar frio, apareceram os criados com os abrigos, e o moço do bar
apagou a luz. Fantasmais e horropi-lantes fugiram todos, uns dos outros, tintando
envolveram-se em seus abrigos os dançarinos, há pouco ardorosos, erguendo as golas.
Hermínia estava pálida, embora sorridente. Ergueu lentamente os braços, consertando o
penteado, a axila brilhou à luz, uma fina sombra infinitamente delicada corria a se ocultar no
seio, e me pareceu que aquela linha de sombra resumia todo o encanto, todo o jogo e
possibilidades de seu corpo formoso como um sorriso.
Estávamos de pé e nos contemplávamos um ao outro, os últimos na sala, os últimos em toda a
casa. Em alguma parte, no andar de baixo, ouvi abrir-se uma porta, quebrar-se um copo, um
riso ir morrendo mesclado ao desagradável ruído dos automóveis que se punham em marcha.
Em alguma parte, em alguma distância ou altura imprecisa, ouvi ressoar uma gargalhada, uma
gargalhada clara e alegre, mas espantosa e estranha, uma gargalhada como cristal e gelo,
aguda e brilhante, mas fria e inexorável. De onde conhecia aquele riso singular? Não me
lembrava.
Estávamos de pé e nos contemplávamos um ao outro. Durante um momento, estive desperto e
sóbrio, senti imenso cansaço, senti as roupas suadas colarem-me aos ombros úmidos e
cálidos, vi minhas mãos vermelhas com as veias inchadas surgindo dos punhos enrugados e
suados. Mas em seguida tudo passou: um olhar de Hermínia bastou para tudo apagar. Diante
de seu olhar, que parecia penetrar-me até a alma, toda a realidade se esboroava, até mesmo a
realidade de meu desejo sensual por ela. Olhávamo-nos alheados, contemplei minha própria
alma.

— Estás pronto? — perguntou Hermínia e seu sorriso se evaporou, como se evaporara a
sombra no seu seio. Distante e na altura, ressoava o riso estranho no espaço desconhecido.
175

Assenti com a cabeça. Oh, sim! estava disposto.
Então apareceu Pablo na porta e nos iluminou com seus olhos alegres, que eram na
verdade uns olhos de fera, mas os olhos das feras sempre estão sérios, e os seus riam
continuamente, e esse riso os transformava em olhos humanos. Fez-nos sinais com
toda a sua amabilidade cordial. Vestia uma jaqueta de seda de várias cores e sobre a
gola aberta e em desalinho da camisa empapada, o rosto fatigado e pálido estava
exausto e descolorido, mas os olhos negros e brilhantes desfaziam toda essa
impressão. Também eles apagavam a realidade, também eles encantavam.
Seguimos sua indicação e, à porta, me disse em voz baixa:

— Irmão Harry, convido-o para uma pequena diversão. Somente para loucos. A
entrada custa a razão. Está disposto?
Assenti de novo.
O bom sujeito nos tomou delicada e cuidadosamente o braço, Hermínia à direita, eu à
esquerda, e nos levou escadas acima, até um quarto circular, iluminado por uma luz
azulada que vinha de cima, e quase vazio, pois havia ali apenas uma mesinha redonda
com três cadeiras, em que nos sentamos.
Onde estávamos? Dormíamos? Estava em minha casa? Seguia no assento de um
carro? Não, estava sentado no quarto iluminado por uma luz azul, numa atmosfera
rarificada, num leito de irrealidade. Por que Hermínia estava tão pálida? Por que
Pablo falava tanto? Não seria eu talvez quem o fazia falar, quem falava por sua boca?
Não contemplava também através de seus olhos negros a minha própria alma, o
tímido pássaro perdido, igual aos olhos acinzentados de Hermínia?
Com toda sua bondosa e um tanto cerimoniosa amabilidade, o amigo Pablo nos
contemplava e falava, falava sem cessar. Ele, a quem nunca ouvira falar
coerentemente, a quem nunca interessavam as discussões, a quem não acredita-
176

ria capaz de pensar, falava agora incessantemente, com sua voz cálida, fluida e sem uma só
falha de dicção.

— Amigos, eu os convidei para esta pequena diversão, que Harry tanto desejava, com a qual
sonhou tantas vezes. Certamente é um pouco tarde e estamos todos cansados, ao que parece.
Por isso descansaremos aqui, a fim de recobrarmos as forças.
De um nicho na parede, tomou três copos e uma graciosa garrafinha, apanhou uma exótica
caixa de madeira escura, encheu os copos com o licor da garrafa, tomou da caixa três finos
cigarros, longos e amarelos; tirou do bolso de sua jaqueta de seda um isqueiro e acendeu
nossos cigarros. Fumamos todos, atirando o corpo para trás sobre o respaldo de nossas
cadeiras, fumamos lentamente o cigarro, cujo fumo era espesso como o do incenso, e
bebemos um pequeno sorvo do líquido agridoce, desconhecido e estranho, cujo efeito logo
nos reani-mou, como se estivéssemos cheios de gás e tivéssemos perdido a gravidade.
Assim sentados, fumamos em pequenas tragadas, descansamos, libando lentamente a bebida,
e nos sentimos mais leves e alegres. Então Pablo falou debilmente, com sua cálida
voz:

— É para mim uma alegria, meu caro Harry, poder tê-lo um instante como hóspede. Você tem
andado freqüentemente desgostoso da vida e com ânsias de deixá-la, não é verdade? Tem
ansiado abandonar este tempo, este mundo, esta realidade, e entrar numa outra realidade que
lhe seja mais adequada, num mundo intemporal. Pois faça-o, meu amigo, eu o convido a isto.
Você já sabe onde se oculta esse outro mundo, já sabe que esse outro mundo que busca é a
sua própria alma. Só em seu próprio interior vive aquela outra realidade por que anseia. Nada
lhe posso dar que já não exista em você mesmo, não posso abrir-lhe outro mundo de imagens
além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o
impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível seu próprio mundo, e isso é tudo.
177


Voltou a tirar do bolso da jaqueta um espelhinho

— Repare, é assim que você se tem visto até agora!
Manteve o espelho suspenso diante de meus olhos (lembrei-me de uns versos infantis:
“Espelhinho, espelhinho em minha mão”) c vi, algo liqüefeito e nebuloso, uma
imagem inquietante, voltada sobre si mesma, auto-atormentada, trabalhando em si
mesma — eu próprio, Harry Haller. E dentro desse Harry Haller, vi o Lobo da Estepe,
um lobo tímido, formoso, mas de olhar confuso e angustiado que ora faiscava com
malignidade ora com tristeza, e essa figura de lobo corria incessante pelo corpo de
Harry, como um afluente na correnteza do rio principal, com outra cor, turvo e
agitado, lutando dolorido, devorando-se um ao outro para preservar a sua forma.
Triste, muito triste me contemplava o lobo fugidio e meio plasmado, com seus belos e
tímidos olhos.
— Assim é que você se tem visto — repetiu Pablo docemente, e tornou a guardar o
espelho no bolso. Cerrei os olhos agradecido e sorvi um gole de elixir.
— Agora já descansamos — disse Pablo — já recobramos nossas forças e
conversamos um pouco. Se já não se sentem fatigados, quero levá-los a ver minha
lanterna mágica e mostrar-lhes meu pequeno teatro. Querem vir?
Levantamo-nos. Pablo nos precedia sorrindo; abriu a porta, afastou uma cortina e nos
achamos numa galeria de teatro em forma de ferradura, exatamente no centro, e de
cada lado, a passagem abobadada dava acesso a um número incrível de portas muito
estreitas no palco.
— Este é o nosso teatro — declarou Pablo — um teatro divertido, no qual espero
encontrem grandes motivos de riso.
E riu fortemente, duas gargalhadas apenas, mas estas me transpassaram
violentamente, pois era o mesmo riso agudo, estranho, que antes ouvira provindo das
alturas.
— Meu teatrinho tem tantas portas de palco quantas queiram, dez, cem ou mil, e atrásde cada uma espera-lhes precisamente aquilo que andam a buscar. É uma formosa
178


lanterna mágica, meu caro amigo, mas de nada valerá recorrer a ela nas condições em que se
encontra. Você se veria impedido e deslumbrado por aquilo a que se acostumou chamar de
sua personalidade. Sem dúvida já terá adivinhado há algum tempo que o domínio do tempo, a
libertação da realidade e tudo aquilo que deseja chamar de seu anseio não significam outra
coisa senão o desejo de libertar-se de sua chamada personalidade. Tais são as prisões em que
você se encontra. E se entrasse neste teatro assim como está, assim como é, acabaria por ver
tudo com os olhos de Harry, com os velhos óculos do Lobo da Estepe. Por isso. convido-o a
despojar-se desses anteparos e deixar no vestíbulo a sua honrada personalidade, onde estará à
sua disposição a qualquer momento que assim o desejar. A maravilhosa noite de baile da qual
acabam de vir, o Tratado do Lobo da Estepe, e por fim os estimulantes que acabamos de
tomar, devem tê-lo preparado suficientemente. Você, Harry, após despojar-se de sua valiosa
personalidade, terá à sua disposição a parte esquerda do teatro, enquanto Hermínia ficará com
a direita; uma vez lá dentro, poderão encontrar-se conforme desejarem. Por favor, Hermínia,
oculte-se por trás da cortina um momento que desejo acompanhar Harry em primeiro lugar.
Hermínia desapareceu pela direita, diante de um espelho gigantesco que cobria a parede
posterior desde o assoalho até o teto.

— Agora, Harry, venha comigo e conserve sempre o bom humor. Mantê-lo alegre e ensinar-
lhe a rir é o objetivo de toda esta representação; espero que você me facilite a empresa. Está
se sentindo inteiramente à vontade, suponho? Não tem medo? Então, ótimo. Você vai entrar
agora, sem receio e com verdadeiro prazer, em nosso mundo visionário; conseguirá isso por
meio de um suicídio aparente, de acordo com o hábito.
Tornou a tirar do bolso o espelhinho e colocou-o diante de meu rosto. De novo, vi-me
defronte ao mesmo reflexo indistinto e nebuloso, a imagem do lobo a se superpor à de
179

Harry, uma imagem que me era muito conhecida e, na verdade, não muito simpática, cuja
destruição não me causaria qualquer desgosto.

— Você irá agora extinguir este reflexo supérfluo, meu caro amigo. Basta isto. Para consegui-
lo, é suficiente que você, se seu humor o permitir, contemple esta imagem com um riso
sincero. Você está numa escola de humor, tem de aprender a rir. Mas todo verdadeiro humor
começa quando a pessoa deixa de levar-se a sério.
Deixei o espelhinho que Pablo tinha à mão e no qual o lobo Harry continuava a debater-se em
convulsões. Por um momento, agitou-se em meu interior, suave, mas dolorosamente, uma
recordação, uma lembrança, um arrependimento. Logo a leve angústia cedeu lugar a uma
nova sensação, semelhante àquela que experimentamos ao extrair um dente sob a ação da
anestesia, uma sensação de alívio e um respirar profundo e, paralelamente, o assombro de que
não nos causara dor alguma. E a esta sensação associou-se um bom humor e um desejo de rir,
ao qual não consegui resistir, deixando escapar uma gargalhada libertadora.
A difusa imagem do espelho esteitorou e desvaneceu-se, a própria superfície redonda pareceu
arder, tornando-se logo acinzentada, esturricada e opaca. Pablo arrojou longe o cristal, a rir, o
qual foi perder-se rodando pelo chão do infinito corredor.
— Boa gargalhada, Harry — exclamou Pablo — embora ainda tenha de aprender a rir como
os imortais. Você acabou com o Lobo da Estepe, afinal. Não teria conseguido isso com a
navalha. Esteja atento para que ele continue morto. Da mesma forma você podia abandonar a
farsa da estúpida realidade. Na próxima vez brindaremos como irmãos, meu caro” nunca o
apreciei tanto quanto hoje. E se ainda acha que isso é importante, poderemos filosofar e
discutir sobre música, sobre Mozart, Gluck, Platão e Goethe, sobre tudo que lhe agrade.
Compreenderá agora por que não pudemos fazê-lo antes. É de se esperar que esteja por hoje
livre do Lobo da Este180

pe. Mas naturalmente, seu suicídio não é definitivo, de maneira alguma; estamos num teatro
mágico, onde tudo não passa de símbolos, onde não existe nenhuma realidade. Busque
imagens belas e alegres e demonstre que já não está realmente enamorado de sua dadivosa
personalidade! Mas, se, apesar de tudo, você voltar a desejá-la, basta apenas que se olhe de
novo no espelho que lhe vou mostrar agora. Já conhece o velho provérbio: ‘ ‘Mais vale um
espelho na mão que dois na parede. ” Ah! Ah! (e voltou a rir, daquele modo belo e aterrador).
Bem, agora só nos falta uma pequena e divertida cerimônia. Já se livrou dos óculos de sua
personalidade; agora venha olhar-se num espelho de verdade! Você se divertirá bastante.
Sorrindo e pronunciando frases cordiais, fez-me virar de costas, colocando-me defronte a um
monumental espelho que havia por trás de nós. Olhei-me nele.
E vi, durante um brevíssimo instante, o Harry que eu conhecia, mas com uma fisionomia
inusitada, de bom humor, luminosa e sorridente. Mal o reconheci, porém, desfez-se em
pedaços, dele saltando uma segunda figura, uma terceira e logo dez ou vinte, e todo o espelho
gigantesco estava cheio de Harrys e de fragmentos de Harrys, infinitos Harrys, cada um dos
quais eu olhava e reconhecia em um momento instantâneo como um relâmpago. Alguns
daqueles Harrys eram tão velhos quanto eu, outros muito mais, alguns velhíssimos, outros
muito jovens, rapazes, meninos, crianças de escola, garotos, molecotes. Harrys de cinqüenta e
de vinte anos corriam e saltavam uns atrás dos outros, de trinta e de cinco anos, sérios e
divertidos, dignos e cômicos, bem vestidos e esfarrapados e também completamente despidos,
e todos eram eu mesmo, e cada qual era visto e reconhecido por mim e logo desaparecia com
a velocidade do raio, corriam em todas as direções, para a direita, a esquerda, para o fundo do
espelho e até saíam dele. Um deles, um jovem e elegante indivíduo, saltou ao pescoço de
Pablo, abraçou-o e saiu correndo com ele. E outro, que me agradava singularmente, um rapaz
formoso e encan181


tador de seus dezesseis ou dezessete anos, correu como um relâmpago pelo corredor, leu
avidamente as inscrições que havia sobre cada uma das portas. Corri em seu encalço e fui
encontrá-lo diante de uma porta em cujo alto havia o seguinte le-treiro:
TODAS AS MULHERES SÃO TUAS! ENTRADA: UM MARCO
O caro jovem precipitou-se de um salto e, atirando-se de cabeça pela ranhura, desapareceu por
trás da porta.
Também Pablo havia desaparecido, e aparentemente o mesmo acontecera ao espelho e com
todas as infinitas imagens de Harry. Senti que estava então abandonado a mim mesmo e ao
teatro, e comecei a vagar de porta em porta em cada uma das quais lia uma inscrição, um
convite, uma promessa.
A inscrição
CAÇADA ALEGRE! MONTARIA EM AUTOMÓVEIS
me atraiu, abri a estreita porta e entrei.
Vi-me atirado num mundo ruidoso e excitante. Nas ruas, os automóveis, meio desgovernados,
davam caça aos pedestres, esmagando-os sobre o solo ou contra as paredes das casas.
Compreendi em seguida: era a luta entre o homem e a máquina, preparada há tanto tempo,
esperada há tanto, temida há tanto tempo, que por fim havia estalado.
Por toda a parte havia mortos e estropiados, por toda parte também viam-se automóveis
batidos, amassados e meio incendiados, e sobre aquela confusão selvagem planavam aviões
que eram atacados dos telhados e das janelas das casas
182


por rifles c metralhadoras. Em todos os muros havia cartazes selvagens, magníficos,
instigadores, pedindo à nação, em letras gigantescas que ardiam como tochas, que se
colocasse afinal ao lado dos homens na guerra contra as máquinas, que matasse afinal os
ricos, os obesos, os bem-vestidos, os perfumados, que com a ajuda das máquinas espremiam a
gordura dos demais, e destruísse os automóveis luxuosos, estrepitosos, malcheirosos, que
incendiasse afinal as fábricas e despovoasse e desalojasse um pouco a terra profanada, para
que nela voltasse a nascer a grama, para que sobre este mundo de cimento voltasse a haver
bosques, prados, urzes, arroios e pântanos. Havia outros cartazes, prodigiosamente pintados,
magnifica-mente estilizados, de cores suaves e um pouco infantis, redigidos com
extraordinária discrição e espiritualidade, advertindo a todos os proprietários e a todas as
pessoas de bem que se pusessem em guarda contra o caos ameaçador da anarquia,
representando de maneira comovedora a bênção que era a ordem, o trabalho, o capital, a
cultura, o direito e elogiando as máquinas como sendo a mais alta e definitiva invenção dos
homens, com ajuda das quais estes se convertiam em deuses. Meditativo e admirado, eu lia os
cartazes, os vermelhos e os verdes, e suas ardentes palavras influenciavam fabulosamente o
meu espírito, sua esmagadora lógica tinha razão, e profundamente convencido, detinha-me
ora diante de um, ora diante de outro, sempre perturbado ostensivamente pela abundante
fuzilaria que me rodeava. O motivo era claro: era a guerra, uma guerra violenta, racial, que
nada tinha a ver com o Kaiser ou a República, nem com fronteiras, bandeiras ou cores, nem
com outras coisas igualmente decorativas e teatrais, bagatelas afinal de contas; mas na qual
cada pessoa, achando demasiadamente estreito seu espaço vital e sentindo que a vida não lhe
reservava nada de agradável, dava contundente vazão ao seu desgosto e tudo fazia para
preparar o caminho à destruição comum daquela civilização de aço. Eu via sorrir claramente
em todos os olhos o prazer da destruição e da morte, e em mim mesmo floresciam rosas
rubras e silves-

i

183


três, que me sorriam frescas e louçãs. Alegremente me lancei à luta.
Mas o curioso foi que, de súbito, apareceu ao meu lado um colega dos tempos de
escola chamado Gustav, a quem fazia muitos anos eu não via, e que naquele tempo
era o mais másculo, mais forte, mais sedento de vida de meus amigos de infância.
Senti o coração alegrar-me quando o vi fazer-me um sinal com seus olhos azuis. Ante

o sinal, dirigi-me imediatamente para onde ele estava.
— Mas, ora viva, Gustav! — exclamei feliz. — Bons olhos o vejam! Que é feito de
você?
Sorriu contrariado, exatamente como quando era menino.
— Vamos acabar com estas perguntas idiotas! Sou professor de teologia, se é o que
desejas saber! Mas por sorte agora não se trata de teologia e sim de guerra, meu filho.
Vem comigo!
Gustav abateu com um tiro o chofer de um pequeno caminhão que vinha resfolegando
em nosso rumo, saltou como um macaco à boléia, parou o veículo e me deixou subir a
seu lado, após o que passamos a correr como demônios por entre os disparos de
carabina e os carros capotados, até deixarmos para trás a cidade e os subúrbios.
— Você está do lado dos fabricantes? — perguntei a meu amigo.
— Isso é uma questão de preferência que depois veremos. Mas não, espera, sou de
opinião que devemos escolher o outro lado, embora no fundo seja tudo a mesma
coisa. Sou teólogo, e meu antecessor Lutero ajudou em sua época aos príncipes e aos
poderosos contra os camponeses, e desejo corrigir isso um pouco. Este carro
miserável, não sei se agüentará mais alguns quilômetros!
Célere como o vento, o filho celestial, saíamos a matra-quear até uma campina verde
e tranqüila, caminhamos muitos quilômetros por uma grande planície e depois
começamos a subir por uma abrupta montanha. Então paramos numa es-
184

trada faiscante, que passava entre grandes penedos, serpenteando em curvas arrojadas,
protegidas por um frágil peitoril; embaixo, a distância brilhava a superfície de um
lago.

— Bonita paisagem! — disse.
— Muito bonita. Podemos chamá-la a estrada da encruzilhada, pois, mais de um eixo
vem quebrar-se aqui, meu caro Harry. Por isso, atenção!
À margem do caminho havia um enorme pinheiro, e entre suas ramagens, algo assim
como uma choça sobre uma plataforma, uma espécie de posto de observação. Gustav
sorriu luminosamente para mim, descemos pressurosos de nosso veículo e subimos
pelo tronco até chegar à choça, a respiração ofegante, e nos escondemos naquele
posto que muito nos agradou. Lá encontramos rifles, revólveres e caixas de munição.
Mal chegamos a acomodar-nos da escalada, quando ouvimos ressoar na curva da
estrada a buzina imperiosa de um carro luxuoso que avançou zumbindo a grande
velocidade pela estrada lisa. Já tínhamos os rifles preparados à mão. A excitação era
intensa.
— Atira no chofer! — ordenou Gustav, no momento em que o carro se aproximava
da árvore.
Apontei para o boné azul do motorista e disparei. O homem caiu sobre o volante, o
carro perdeu a direção, chocou-se contra a muralha, deu uma guinada, voltou-se
furioso como um besouro contra o parapeito da estrada, mergulhou e espatifou-se lá
embaixo no abismo com um ruído surdo.
— Acertaste!! — riu Gustav. — O próximo será meu.
Já outro carro vinha chegando; os três ou quatro passageiros estavam recostados sobre
os assentos. Da cabeça de uma mulher, uma ponta de lenço esvoaçava horizontal no
ar; o véu era azul-claro. Senti verdadeiro remorso. Quem sabe se não estaria sorrindo
embaixo daquele véu um formoso rosto de mulher? Santo Deus, se estávamos
brincando de bandidos, o certo seria, seguindo o exemplo dos bandidos generosos,
não saciarmos nas belas mulheres nosso bravo desejo de matar. Mas Gustav já havia
disparado. O chofer contraiu-se e
185

tombou de lado; o carro precipitou-se sobre as rochas da direita, voltou a cair sobre o leito da
estrada com as rodas voltadas para cima. Esperamos um instante, nada se moveu; os homens,
como se tivessem caído num laço, jaziam silenciosos sob o carro. Este continuava rugindo e
as iodas giravam burlescamente no ar, mas logo se ouviu uma horrível explosão e o auto foi
engolfado pelas chamas.

— É um Ford — disse Gustav. — Temos de descer para deixar a estrada livre.
Descemos e ficamos a contemplar a fogueira. Pouco demorou a apagar-se; nesse meio tempo,
arranjamos troncos de árvores verdes e usamo-los à maneira de alavancas para desvirar o
carro e atirá-lo ao abismo. Dois dos cadáveres caíram de dentro em uma das viradas e jaziam
estendidos na estrada com as roupas um pouco chamuscadas. Um deles conservava o paletó
em muito bom estado: revistei-lhe os bolsos para ver se encontrava algum indício de quem era
a pessoa. Na carteira de couro, encontrei alguns cartões de visita. Apanhei um e nele li estas
palavras: Tat Twam An.
— Muito engraçado — disse Gustav. — Mas, na realidade, é indiferente saber quem sejam
nossas vítimas. São po-bres-diabos como nós mesmos e o nome pouco importa. Este mundo
deve perecer e nós com ele. A solução menos dolorosa seria mantê-lo dez minutos debaixo
d’água. Mãos à obra!
Atiramos os cadáveres atrás do carro. Já outro veículo vinha buzinando. Contra este,
disparamos mesmo do solo. Continuou a rodar mais um pouco, em seguida deu meia-volta e
permaneceu resfolegante em meio à estrada; um dos passageiros mantinha-se sentado em seu
interior. Era uma bela jovem, que saiu do carro, pois não estava ferida, embora estivesse
muito pálida e bastante trêmula. Cumprimentamo-la amavelmente e pusemo-nos à sua
disposição. Estava, todavia, demasiado assustada, tanto assim que não conseguia falar e
olhou-nos por um momento como enlouquecida.
— Bem, vamos ver o que aconteceu com o velho — disse Gustav
186

E voltou-se para o viajante, que continuava sentado no carro, atrás do chofer morto. Era um
senhor de cabelos grisalhos e curtos; tinha os olhos abertos, um olhar inteligente, mas parecia
estar gravemente ferido, pois deitava sangue pela boca e mantinha o pescoço sinistramente
inclinado e rígido.

— Permita-me apresentar-me, meu caro senhor. Chamo-me Gustav. Tomamos a liberdade de
matar o seu chofer. Posso ter a honra de saber com quem estou falando?
O velho olhou-nos triste e friamente com seus olhos cinza.
— Sou o promotor-geral Loering — disse lentamente. — Vocês não mataram apenas meu
chofer, mas a mim também. Sinto que estou para morrer. Por que dispararam contra nós?
— Por excesso de velocidade.
— Mas estávamos viajando a uma velocidade normal!
— O que ontem era normal, hoje já não é, senhor promotor. Achamos hoje excessiva qualquer
que seja a velocidade de um automóvel. Estamos destruindo todos os automóveis e também
todas as máquinas.
— E esses rifles?
— A vez deles chegará, se tivermos tempo para tanto. É possível que amanhã ou depois já
estejamos todos destruídos. Como o senhor sabe, nossa parte do mundo estava horrivelmente
superpovoada. Pois estamos arejando um pouco a paisagem.
— Estão disparando contra todos, sem distinção?
— Isso mesmo. Em alguns casos, a situação é realmente lamentável. Por exemplo, eu teria
sentido muito se tivesse causado dano a esta maravilhosa dama. É sua filha?
— Não; minha estenógrafa.
— Tanto melhor. E agora, por favor, desça do carro ou permita que o retiremos daí, pois
temos de destruir o carro.
— Prefiro ser destruído com ele.
— Como queira. Mas antes permita-me uma pergunta. O senhor é promotor. É
incompreensível para mim que um
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homem possa ser promotor. O senhor vive de acusar e pedir condenação para os outros, na
maioria das vezes para uns po-bres-diabos. Não é?

— É verdade. Cumpro meu dever. É minha profissão. Bem como o verdugo, cuja profissão é
matar aqueles que eu acuso. O senhor também escolheu este mesmo ofício. O senhor também
mata.
— Exato. Mas nós não matamos por obrigação, matamos por prazer, ou melhor, por
desespero, por estarmos descontentes com este mundo. Por isso sentimos certa satisfação em
matar. O senhor nunca sentiu satisfação?
— Vocês me enojam. Queiram acabar logo com esse intento. Se lhes é totalmente
desconhecida a noção do dever…
Calou-se e contraiu os lábios, como se quisesse cuspir. Mas só deixou escapar um coágulo de
sangue, que lhe ficou aderido ao cavanhaque.
— Espere aí! — disse Gustav cortesmente. — A noção de dever me é inteiramente
desconhecida. Antes, em decorrência de minha profissão, tinha muito a ver com ela; era
professor de Teologia. Além disso, fui soldado e tomei parte na guerra. O que me parecia o
dever e o que as autoridades e as leis me haviam ordenado não era realmente bom, e de boa
vontade teria feito exatamente o contrário. Mas embora admita que o conceito do dever não
mais me atinja, conheço contudo o conceito da culpa; talvez sejam a mesma coisa. Desde o
instante em que nasci, já era culpado, condenado a viver, obrigado a pertencer a um estado, a
ser soldadova matar, a pagar impostos para comprarem armas. E agora, neste exato momento,
o delito de haver nascido me força a matar, como na guerra. E desta vez não mato com
repugnância; estou resignado à minha culpa, nada tenho a opor que este mundo imbecil e
obtuso se faça em pedaços, e colaboro com gosto na tarefa, é prazerosamente sucumbirei com
ele.
O promotor esforçou-se muito por sorrir um pouco com seus lábios unidos pelo sangue
coagulado. Não conseguiu de forma alguma, mas deixou transparecer sua boa intenção.
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— Está bem. Então somos colegas. Cumpra com seu dever, caro colega!
A bela jovem, entretanto, havia-se afastado até a margem da estrada e chegando ali tombou,
num desmaio.
Neste instante, ouviu-se a buzina de outro carro, que chegava em desabalada carreira.
Deixamos a jovem de lado, ocultamo-nos por trás das rochas e deixamos que o carro se
aproximasse dos destroços do outro. Freou violentamente e o carro chegou a erguer-se nas
rodas de trás, mas sem sofrer qualquer dano. Empunhamos rapidamente os fuzis e apontamos
para os recém-chegados.
— Saiam! — gritou Gustav. — Mãos ao alto!
Eram três homens que desceram do carro e ergueram, obedientes, as mãos.
— Alguém aí é médico? — perguntou Gustav. Os três abanaram a cabeça.
— Então queiram tirar este senhor que está ferido do interior deste carro. E levem-no em sua
companhia, no carro de vocês, até a cidade mais próxima. Mãos à obra!
Pouco depois o velho promotor estava colocado no outro carro. Gustav deu ordem e partiram.
Nesse ínterim, a estenógrafa havia recobrado os sentidos e presenciava os acontecimentos. Eu
estava contente com a bela presa que havíamos feito.
— Senhorita — disse Gustav — acaba de perder seu patrão. É bem possível que já não
andassem em muito boa harmonia. Agora está contratada por mim, sejamos bons camaradas!
Venha, temos pressa. Dentro em pouco estaremos mal colocados aqui. Sabe subir em árvores?
Não? Então nós dois a carregaremos.
Subimos os três, com a rapidez que pudemos, até a ca-bana da copa. A moça sentiu-se mal lá
em cima, mas demos-lhe conhaque e logo se restabeleceu, tanto que conseguiu em seguida
contemplar a formosa paisagem que oferecia o lago e a montanha e nos disse que se chamava
Dora.
189

Já a essa altura, surgiu embaixo um outro carro, que com hábil manobra evitou chocar-se com

o que estava capotado em meio à estrada, e, sem deter-se, acelerou a marcha e seguiu em
frente.
— Presunçoso! — sorriu Gustav, e disparou contra o chofer.
O carro dançou um pouco, jogou-se contra o muro, subiu as rodas da frente e ficou
dependurado sobre o abismo.
— Dora — disse eu — sabe manejar um rifle?
Não sabia, mas ensinamo-la a carregar a arma. A princípio mostrou-se desajeitada e chegou
mesmo a sangrar um dedo, lamuriou-se e pediu esparadrapo. Mas Gustav explicou-lhe que
estávamos em guerra e que era necessário demonstrar ser uma jovem valente e corajosa.
— Por quê? Que vai acontecer conosco? — perguntou então.
— Não sei — disse Gustav. — Meu amigo Harry gosta de moças bonitas. Poderá cuidar de
você.
— Mas podem vir com polícias e soldados e matar-nos. —Já não existe mais polícia nem
nada que se assemelhe
a isso. Podemos fazer das duas uma: ou ficar aqui tranqüilamente e disparar contra todos os
carros que passem pela estrada ou tomar um desses carros e deitar a correr por aí para que os
outros nos metralhem. Tanto faz tomar um partido quanto outro. Acho preferível ficarmos
aqui.
Lá embaixo surgiu um outro automóvel, cuja buzina soava estridentemente. De pronto
liquidamos com ele e lá ficou com as rodas viradas para cima.
— É curioso — disse eu — que um disparo possa causar tamanha diversão. Eu antes era
inimigo da guerra!
Gustav sorriu:
— Sim, há homens em demasia na terra. Antes a gente não se dava conta disso. Mas agora,
quando as pessoas já não se contentam em respirar e querem também ter um automóvel, a
coisa se nota mais. Naturalmente, o que estamos fazendo não é racional; trata-se de uma
infantilidade, como tam190

bém a guerra é uma infantilidade em escala monumental. A Humanidade aprenderá mais tarde
a regular a população por meios racionais. Enquanto isso, é necessário reagirmos contra esta
situação insuportável de maneira bastante irracional; mas no fundo, fa2emos o que é
necessário: reduzimos.

— Sim — disse eu — isto fazemos; possivelmente há de ser uma loucura, mas talvez seja
também bom e necessário. As coisas não vão bem quando a Humanidade fatiga
excessivamente sua inteligência e procura ordenar com o auxílio da razão as coisas
inacessíveis à razão. Então surgem ideais, tais como os dos americanos ou dos bolchevistas;
ambos são extraordinariamente racionais, mas desejando ingenuamente simplificar a vida,
acabam por violentá-la de maneira terrível. A igualdade do homem, um ato ideal das épocas
pretéritas, está a ponto de se tornar um clichê. Talvez nós, os loucos, consigamos enobrecê-lo
um pouco.
Gustav respondeu sorrindo:
— Falas como um sábio, meu filho. É um prazer e um privilégio beber em tua fonte de
sabedoria. É possível até mesmo que tenhas um pouco de razão. Mas, por favor, volta a
carregar teu rifle; estás ficando muito sonhador; a qualquer momento pode surgir um casal de
cervos e não podemos matá-los com filosofia. É preciso ter bala no cano.
Apareceu outro carro que foi logo abatido; a estrada ficou obstruída. Um sobrevivente, um
homem gordo e de cabelos ruivos, gesticulava furioso junto aos destroços, olhava para cima e
para baixo, até que descobriu nosso esconderijo, e correu em nossa direção, aos berros,
disparando várias vezes contra nós com tiros de revólver.
— Vá embora senão disparo — gritou Gustav.
O homem mirou em sua direção e disparou de novo. Então nós dois disparamos para baixo.
Enquanto isso chegaram mais dois carros, que estendemos por terra. Depois disso a estrada
ficou tranqüila e deserta; a notícia de que era perigosa decerto já havia corrido. Isso nos deu
tempo para apreciarmos a beleza da paisagem. Do
191

outro lado do lago havia uma pequena cidade ao fundo; dos telhados saía fumo e logo vimos o
fogo alastrar-se de casa em casa. Ouviam-se também disparos. Dora começou a chorar e eu
lhe acariciei as faces úmidas.

— Teremos de morrer todos? — perguntou. Ninguém respondeu. Nesse ínterim, chegou
embaixo
da árvore um caminhante, viu os carros capotados, começou a bisbilhotar em redor, meteu a
cabeça e metade do corpo para dentro de um deles e de lá tirou uma sombrinha colorida, uma
bolsa de senhora e uma garrafa de vinho; depois sentou-se tranqüilamente no peitoril da
estrada, tomou um gole da garrafa e comeu algo que estava envolto em papel estanhado e que
encontrara no interior da bolsa; terminou de beber a garrafa e seguiu, satisfeito, seu caminho,
com a sombrinha embaixo do braço. Quando se afastava, disse a Gustav:
— Você seria capaz de atirar contra aquele homem e fazer-lhe um buraco na nuca? Por Deus
que eu não conseguiria.
— Isso porque não te ordenaram — grunhiu meu amigo-
Mas ele também não se sentia à vontade. Bastou vermos
um homem que se comportava inocentemente, pacífico e infantil, que continuava a viver
ainda em estado de inocência, para que toda a nossa atividade, tão elogiosa e necessária, nos
começasse a parecer estúpida e repelente. Com os diabos, quanto sangue! Envergonhamo-nos
de nós mesmos. Mas na guerra deve ter havido generais que sentiram o mesmo.
— Não podemos permanecer aqui por mais tempo — soluçou Dora. — Temos de descer.
Com certeza encontraremos nos carros algo que comer. Vocês não estão com fome, seus
bolchevistas?
Lá ao longe, na cidade em chamas, os sinos começaram a tocar angustiosamente. Iniciamos a
descida. Enquanto ajudava Dora a galgar o parapeito, beijei-lhe os joelhos. Ela riu
sonoramente, mas aí as pranchas cederam e tombamos juntos no vazio…
192

De novo encontrei-me no corredor circular, excitado ainda pela caçada aventurosa. E por toda
a parte, nas inumeráveis portas, os letreiros me atraíam:
MUTABOR
TRANSFORMAÇÃO EM PLANTAS E ANIMAIS DE SUA PREDILEÇÃO
KAMA-SUTRA
LIÇÕES DE ARTE AMATÕRIA DOS HINDUS
CURSO PARA PRINCIPIANTES: 42 MÉTODOS
DIVERSOS DE PRATICAR O AMOR
DELICIOSO SUICÍDIO: VOCÊ SE ARREBENTA DE RIR!
DESEJA ESPIRITUALIZAR-SE? A SABEDORIA DO ORIENTE
QUEM ME DERA TER MIL LÍNGUAS! SÓ PARA CAVALHEIROS
O OCASO DO OCIDENTE PREÇOS REDUZIDOS. NUNCA SUPERADOS
193


QUINTESSÊNCIA DA ARTETRANSFORMAÇÃO
DO TEMPO EM ESPAÇO POR MEIO DA MÚSICA
AS LAGRIMAS RIDENTES GABINETE DE HUMOR
A SOLIDÃO AO ALCANCE DE TODOS
VALIOSO SUBSTITUTO PARA TODAS AS FORMAS DE SOCIABHIDADE
A série de inscrições parecia interminável. Uma delas dizia
GUIA PARA A FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE ÊXITO GARANTIDO
Aquela me pareceu digna de atenção e entrei porta adentro.
Encontrei-me num quarto imerso na penumbra e no silêncio; um homem lá estava sentado no
chão à maneira dos povos orientais e tinha diante de si algo como um tabuleiro de xadrez. A
princípio me pareceu tratar-se de meu amigo Pablo, pois trazia um colete de seda de cores
variegadas e seus olhos eram escuros e brilhantes como os do músico.

— O senhor não é o Pablo? — perguntei.
— Não sou ninguém — declarou o homem amistosamente. — Aqui ninguém tem nome, aqui
ninguém é ninguém. Sou um jogador de xadrez. O senhor deseja que lhe dê lições sobre a
formação da personalidade?
194

— Sim, por favor.
— Então queira ter a bondade de colocar algumas dezenas de peças à minha disposição.
— De peças?…
— Daquelas peças a que o senhor viu reduzir-se a sua famosa personalidade. Não posso jogar
sem elas.
Ergueu um espelho diante de mim e nele voltei a ver a unidade de meu ser decomposta em
muitos eus, cujo número parecia haver aumentado ainda mais. Só que as figuras eram agora
muito pequenas, semelhantes a peças de xadrez, e o jogador tomou com toda a calma e
precisão com a ponta dos dedos uma dúzia delas e colocou-as no solo junto ao tabuleiro. O
homem começou a falar monotonamente, como quem se refere a uma conversação mantida
com outra pessoa ou como quem repete uma lição.
— O falso e infeliz conceito de que o homem seja uma unidade duradoura já é conhecido pelo
senhor. Também já sabe que o homem é formado por um número incalculável de almas, por
uma multidão de egos. Dividir a unidade aparente do indivíduo nessas numerosas figuras é
algo que passa por loucura; a ciência encontrou para esse fenômeno a designação de
esquizofrenia. A ciência está certa, até certo ponto, quando afirma que nenhuma pluralidade
pode conduzir-se sem uma direção, sem uma certa ordem e agrupamento. Mas, por outro lado,
não tem razão ao imaginar ser possível somente uma ordenação única, encadeadora, perpétua,
para a multiplicidade dos egos subordinados. Esse erro da ciência acarreta conseqüências
desagradáveis; sua única vantagem reside na simplificação do trabalho dos mestres e dos
educadores a serviço do Estado, poupando-lhes os trabalhos do pensamento e da
experimentação. Em conseqüência desse erro, muitos homens que passam por ‘ ‘normais”, e
até por valiosos membros da sociedade, são loucos incuráveis, e, por outro lado, muitos que
passam por loucos são verdadeiros gênios. Por isso é que completamos aqui a imperfeita
psicologia da ciência com o conceito a que denominamos a edificação da alma. Aqui de195

monstramos aos que experimentaram a destruição de seu próprio eu que podem a qualquer
instante reordenar os fragmentos e com isso conseguir uma variedade infinita no jogo da vida.
Assim como o dramaturgo cria um drama a partir de um punhado de personagens, assim
construímos, com as peças de nosso eu despedaçado, novos grupos com novos jogos e
atrações, com situações eternamente novas. Veja só!
Com seus dedos serenos e prudentes apanhou minhas peças, todos os velhos, jovens, crianças,
mulheres; todas as figuras, as alegres e as tristes, as fortes e as delicadas, as ágeis e as lerdas,
ordenou-as rapidamente em seu tabuleiro para o jogo, no qual logo começaram a formar
grupos, famílias, prontas a jogar e a lutar, criando amizades e inimizades, edifican-do todo um
mundo em miniatura. Deixou desfilar diante dos meus olhos aquele mundo liliputiano, um
mundo cheio de animação mas bastante ordenado, deixou que se movesse, jogasse lutasse,
fizesse pactos, desse batalha, trocasse votos, unindo-se, multiplicando-se; era, de fato, um
drama repleto de personagens, vivido e interessante.
Logo o homem desfez o jogo com um gesto alegre, derrubando todas as peças, juntando-as
num monte e voltando a armar um novo jogo com o mesmo cuidado anterior, como um artista
meticuloso, com as mesmas figuras, mas em grupos diferentes, com outras interdependências
e entrelaçamentos. Este segundo jogo guardava relação com o primeiro: era o mesmo mundo,
formado pelos mesmos materiais, mas nele havia mudado o tom, o tempo, o motivo e a
situação.
E assim foi o sábio arquiteto construindo com as figuras, que eram fragmentos de mim
mesmo, vários jogos, uns após outros, todos semelhantes, todos participantes de um mesmo
mundo, todos submetidos a um mesmo destino, mas sempre inteiramente novos.

— Eis a arte da vida — disse doutoralmente. — O senhor mesmo pode formar e viver no
futuro um jogo de sua própria vida à sua vontade, desenvolvendo-o e enriquecendo-o; está em
suas mãos fazê-lo. Assim como a loucura, em seu
196

mais alto sentido, é o princípio de toda sabedoria, assim a esquizofrenia é o princípio de toda
arte, de toda fantasia. Mesmo os homens instruídos chegaram ao reconhecimento parcial desta
verdade, como se pode ler no Príncipe Wunder-horn, naquele livro encantado no qual o
trabalho fatigante e atento de um sábio se vê imortalizado com a colaboração genial de um
número de artistas loucos e recolhidos como tais. O senhor agora pode guardar suas
figurinhas, pois o jogo lhe proporcionará muitas alegrias. A figura que hoje passou por um
espantalho medonho e acabou por fazê-lo perder o jogo poderá converter-se amanhã numa
pobre figura secundária. E a pobre figurinha, que parecia ainda há pouco viver sob a
influência de uma estrela má, poderá converter-se no próximo jogo em uma princesa. Desejo-
lhe muitas satisfações, meu caro senhor.
Inclinei-me profundamente agradecido diante daquele hábil jogador de xadrez, guardei as
peças no bolso e saí pela estreita porta.
Havia pensado sentar-me no chão e jogar durante horas inteiras, durante toda a eternidade,
com as figurinhas, mas tão logo me vi no corredor circular do teatro, surgiram-me de novo
outros incentivos, mais fortes do que eu. Um letreiro flamejava diante dos meus olhos:
MARAVILHOSA DOMA DO LOBO DA ESTEPE
Vários foram os sentimentos que tal letreiro suscitou em mim; as angústias e opressões de
minha vida pregressa e da realidade que eu deixara à margem oprimiam pesadamente o meu
coração. Com a mão trêmula, abri a porta e me encontrei numa barraca de feira, onde havia
uma barra de ferro que me separava do cenário. Mas em cena vi um domador, um senhor que
gritava como se estivesse num mercado com ares pomposos, e apesar dos enormes bigodes,
da musculatura
197


exagerada dos bíceps e da bizarra vestimenta circense, tinha maliciosa e repelente
semelhança comigo. O homenzarrão conduzia — lastimável espetáculo! — um lobo
enorme, belo, mas terrivelmente macilento e com um olhar tímido de escravo, atado
por um cordel, como um cão. Era ao mesmo tempo repulsiva e interessante, horrível e
intimamente agradável, a visão daquele brutal domador fazendo com que o nobre e
vergonhosamente dócil animal realizasse toda a sorte de truques e sensacionais
cambalhotas.
O homem, meu sósia diabolicamente distorcido, conseguira domar o lobo de maneira
extraordinária. A besta obedecia atentamente a todas as suas ordens, reagia
caninamente à chamada e ao estalido do látego, punha-se de joelhos, fingia-se de
morto, imitava uma menina carregando na boca um pãozinho, um ovo, um pedaço de
carne, uma cesta, tudo com muito cuidado e obediência; e chegava mesmo a apanhar
do chão com os dentes o látego que o domador deixava cair e o levava na boca até ele,
abanando a cauda, de uma maneira insuportavelmente submissa. Puseram diante do
lobo um coelho e, depois, um cordeiro branco. É verdade que o lobo arreganhou os
dentes e deixou cair uma saliva de convul-so desejo, mas nem sequer tocou nos
animais, tendo apenas saltado sobre eles com elegantes movimentos, ao lhe ser assim
ordenado, estendendo-se entre o coelho e o cordeiro assustados, abraçando-os com as
patas dianteiras e formando com eles um grupo comovedoramente familiar. Em
seguida comeu um tablete de chocolate das mãos do domador. Era um tormento
contemplar até que grau aprendera a renegar sua natureza aquele pobre lobo e senti
me arrepiarem os cabelos.
Houve alguma compensação, entretanto, não só para o espectador horrorizado quanto
para o próprio lobo, quando chegou a segunda parte do programa. Após aquela
refinada exibição de domesticidade animal e logo que o homem acabou de inclinar-se
numa reverência triunfante sobre o grupo do lobo e do cordeiro, os papéis de súbito
inverteram-se. Meu sósia domador pôs imediatamente o látego aos pés do
198


lobo com muita reverência e começou a tremer, a mover-se e a olhar timidamente como fizera
antes o animal. Mas o lobo lambia o focinho sorridente, seu constrangimento desapareceu,
seus olhos fuzilaram e todo o seu corpo se retesou e floresceu ao recobrar sua natureza
selvagem.
Agora o lobo mandava e o homem obedecia. A uma palavra de comando, caiu de joelhos,
imitou o lobo, deixou pender a língua e rasgou as vestes do corpo a ranger os dentes. Andou
sobre duas e quatro patas, obedecendo às ordens do domador de homens; imitou as mocinhas,
fingiu-se de morto, deixou que o lobo o cavalgasse, levou o látego nos dentes à mão do
domador. Com a destreza de um cão submeteu-se a toda sorte de humilhações e de
perversidades. Uma jovem bela aproximou-se do palco, foi até junto ao homem domesticado,
acariciou-lhe a barbela e roçou o seu rosto contra o dele, mas o homem continuou posto em
quatro patas, em seu papel de animal. Sacudiu a cabeça e começou a mostrar os dentes à
“jovem, de maneira tão ameaçadora e lupina, que a moça acabou por fugir. Deram-lhe
chocolate, mas ele o cheirou e deixou de lado. E por último lhe trouxeram o cordeiro branco e

o gordo coelho malhado, e o homem amestrado executou de maneira prodigiosa sua última
imitação do lobo. Agarrou com unhas e dentes os apavorados animais arrancando-lhes
pedaços de pele e carne, abocanhou uivando as carnes vivas e bebeu-lhes o sangue quente,
com os olhos embriagados de prazer
Saí horrorizado pela porta. Aquele teatro mágico, estava percebendo, não era nenhum paraíso.
Todo o inferno estava reunido sob sua bela superfície. Oh, Deus, também aqui não havia
redenção?
Corri aturdido de um lado para outro, sentindo um sabor a chocolate e a carne, igualmente
horríveis; desejei ansiosamente fugir daquela onda de torpor, lutei fervorosamente para criar
dentro de mim imagens mais amistosas e suportáveis. “Oh, amigos, não neste tom!” dizia algo
dentro de mim, e recordei com horror aquelas espantosas fotografias
199

àofront, que durante a guerra tive algumas vezes diante dos olhos, daqueles montões
de cadáveres, cujos rostos pareciam disfarçados de demônio pelas máscaras contra
gases. Como pude então ser tão tolo e infantil, embora fosse um inimigo da guerra e
amante da Humanidade, para horrorizar-me com aquelas gravuras! Hoje sabia que
nenhum domador, nenhum ministro, nenhum general era capaz de elucubrar em seu
cérebro um pensamento ou uma imagem que eu não pudesse igualar em toda a sua
crueza e estupidez, em sua selvageria e malignidade.
Dando um profundo suspiro, recordei o cartaz que antes, ao começar o teatro, tanto
havia atraído aquele formoso rapaz, o letreiro que dizia:
TODAS AS MULHERES SÃO TUAS
e me pareceu ser aquilo o mais desejável de tudo. Alegre por poder escapar ao maldito
mundo do lobo, entrei naquele quarto.
Prodigiosamente — tanto que estremeci pelo fabuloso e ao mesmo tempo pelo
familiar daquele prodígio — vi-me envolto ali pelo aroma da juventude, pela
atmosfera dos meus tempos de moço, e em meu coração começou a circular o sangue
daquele tempo. Tudo o que havia pensado e havia acontecido nestes últimos tempos
ficara para trás, e voltei a ser jovem. Uma hora, poucos minutos antes, havia
imaginado saber bem o que era o amor e a felicidade, mas tais sentimentos eram o
amor e a felicidade de um homem velho. Agora era jovem novamente, e o que sentia
em mim, um fluente fogo abrasador, aquele poderoso impulso, aquela paixão
desvairada como um vento de março, era jovem e novo e verdadeiro. Oh, como
voltaram a arder os fogos esquecidos, como soavam os tons baixos e ressoantes do
passado, como florescia tremu-lante este passado no sangue, como gritava e cantava
em mi

200


nha alma! Era um rapaz de quinze ou dezesseis anos, com a cabeça cheia de latim e
grego e formosas poesias, meu pensamento cheio de aspirações e de ambições, minha
fantasia cheia de sonhos de artista, porém mais fundo, mais forte e mais terrível que
todos esses fogos chamejantes ardia e palpitava em mim o fogo do amor, a fome do
sexo, o pressentimento consumidor do prazer.
Achava-me sentado numa das colinas rochosas que se erguem sobre minha cidade
natal, respirava o vento cálido e o perfume das primeiras violetas; lá na cidade o rio
faiscava e bem assim a janela de minha casa paterna, e tudo isso surgia, soava e
perfumava tão rumorosamente perfeito, tão novo e ébrio de criação, resplandecia tão
profundamente colorido e perfumava no vento da primavera tão irrealmente e tão
transfigurado, quanto o havia visto nas horas mais plenas, mais poéticas de minha
primeira juventude. Estava na colina, o vento me fustigava os longos cabelos com
mão trêmula, perdidas em sonhados anelos amorosos; arranquei de um ramo apenas
enverdecido um broto de flor, segurei-o diante dos olhos, cheirei-o (e com este cheirar
voltou a surgir-me na lembrança todo aquele passado); logo colhi aquele raminho
verde entre os lábios que ainda não haviam beijado mulher alguma e comecei a
mordiscá-lo. E com esse sabor amargo, aro-mático e rude soube imediatamente o que
sentia, que tudo estava de novo ali. Estava revivendo certa ocasião dos meus últimos
anos de adolescente, uma tarde de domingo num princípio de primavera, um dia em
que em meu passeio solitário encontrei Rosa Kreisler e a cumprimentei com tanta
timidez e de quem fiquei embriagadoramente enamorado.
Sem que fosse visto por ela, eu observava, cheio de tímidas esperanças, a jovem que
subia a colina, sozinha e sonhadora; olhava seus cabelos presos em duas grandes
trancas, com anéis soltos de ambos os lados da face com os quais o vento brincava.
Vira, pela primeira vez em minha vida, toda a formosura que aquela moça
representava, toda a beleza e encanto que era aquele jogo do vento em seu delicado
cabe-

201


lo, quão graciosa e excitante era a harmonia de seu fino vestido azul sobre os seus
membros juvenis; e assim como pelo amargo sabor do talo mordido chegara até mim

o prazer tímido e doce e a angústia da primavera, assim me povoaram ao ver a jovem
todas as ânsias mortais do amor, do desejo sensual, do comovedor pressentimento de
imensas possibilidades e promessas, de delícias sem par, de impensadas turba-ções,
angústias e dores, da mais íntima redenção e da mais profunda culpa. Oh! como ardia
o amargo sabor da primavera em minha língua! Oh! como corria o vento brincalhão
através dos cabelos soltos em sua face! Então chegou a meu lado, viu-me e
reconheceu-me, enrubesceu ligeiramente um instante e voltou os olhos para o outro
lado; então cumprimentei-a tirando o boné de colegial, e Rosa, que logo recupe rara o
natural, correspondeu sorrindo ao meu cumprimento de maneira bastante adulta, com
o rosto erguido, e partiu adiante, lentamente, segura e altiva, envolta em mil desejos
amorosos, esperanças e adorações que eu fiz seguir em seu encalço.
Assim sucedeu um domingo, há trinta e cinco anos, e todo aquele passado retornava a
mim num instante: colina e cidade, vento de março e perfume de brotos. Rosa e seu
cabelo castanho, crescente anelo e doce angústia sufocante — tudo era como então, e
me parecia que nunca havia amado na vida como antes amei Rosa. Mas desta vez me
foi dado tê-la de maneira diferente. Vi que ela me reconheceu enrubescida e percebi
de imediato que gostava de mim, que aquele encontro tinha tanta importância para ela
quanto para mim. E em vez de voltar a tirar o boné e permanecer com a cabeça
descoberta solenemente, até que ela tivesse passado, fiz, apesar de minha angústia que
beirava a obsessão, aquilo que meu sangue me ordenava que fizesse, e gritei:
— Rosa, graças a Deus que vieste, ó jovem maravilhosa! Eu te amo tanto!
Isto não era talvez o que de mais espiritual eu lhe pudesse dizer naquele momento,
mas não se tratava ali de espí202


rito, aquilo era suficiente, Rosa não assumiu ares de adulta, nem passou ao largo.
Detevc-se, fitou-me, enrubesceu ainda mais do que antes e disse:

— Bom-dia, Harry. £ verdade que gostas de mim?
Então seus olhos castanhos brilharam no rosto vigoroso e senti que toda minha vida
passada e todos os meus amores tinham sido falsos e confusos e cheios de estúpidas
desventuras, a partir do momento em que deixei Rosa ir-se embora naquele domingo.
Mas agora a falta ia ser reparada, e tudo seria diferente, tudo seria bom.
Demos as mãos e de mãos dadas caminhamos lentamente, indizivelmente felizes, um
tanto embaraçados, sem saber o que dizer nem o que fazer, fazendo-nos o embaraço
caminhar mais depressa, até que rompemos numa carreira que nos fez perder o fôlego
e depois parar, sem que largássemos as mãos. Estávamos ambos ainda no limiar da
juventude e não sabíamos bem o que fazer um com o outro, não chegamos a beijar-
nos nem uma só vez naquele domingo, mas éramos inteiramente felizes. Paramos e
respiramos profundamente, sentamo-nos na relva, acariciei-lhe a mão e ela passou a
outra sobre os meus cabelos, e logo nos erguemos e começamos a ver quem era mais
alto do que o outro, e embora eu fosse mais alto que ela apenas um dedo, não o admiti
e afirmei que tínhamos a mesma altura e que Deus nos havia feito um para o outro e
que, mais tarde, nos casaríamos. Então Rosa disse que sentia o perfume das violetas e
nos ajoelhamos na relva curta da primavera e começamos a procurar até que
encontramos um raminho de violetas e cada um deu ao outro a que achara, e quando
começou a esfriar e a luz passou a cair inclinada sobre as rochas, Rosa disse que tinha
de voltar a casa, e então ambos nos pusemos tristes, pois eu não podia acompanhá-la,
mas já agora tínhamos ambos um segredo em comum e isso era o que de mais
precioso possuíamos. E lá permaneci no alto da rocha, a cheirar a violeta que Rosa me
presenteara, aproximei-me do precipício, com o rosto voltado para o fundo e olhei lá
embaixo a cidade e acompanhei com a
203


vista a doce c pequena figura da jovem, que apareceu lá mais embaixo, passando junto
à fonte, e correu pela ponte. Sabia agora que já havia chegado à casa de seus pais e
estaria passeando em seu quarto, e eu estava aqui em cima, com o coração repleto
dela, mas de mim até ela havia um hame, havia uma corrente, soprava um mistério.
Voltamos a ver-nos uma e outra vez, nos rochedos, nos jardins, durante toda a
primavera e, quando os lilases começaram a florescer, demos o primeiro beijo
angustioso. Pouco era o que, por sermos então crianças, podíamos dar um ao outro, e
nosso beijo foi trocado assim sem ardor e sem plenitude; só me atrevi a acariciar os
cachos soltos que lhe cobriam as orelhas, mas tudo era nosso, tudo o que éramos
capazes de fazer em amor e alegria; e com cada tímido contato, com cada palavra
amorosa, imatura, com cada medroso esperar, provávamos uma nova delícia,
subíamos um degrau a mais na escada do amor.
E assim, começando com Rosa e as violetas, voltei a reviver todos os amores de
minha vida, mas sob signos mais ven-turosos. Desapareceu Rosa e surgiu Irmgard, e o
sol se tornou mais ardente e as estrelas mais ébrias, mas nem Rosa nem Irmgard
foram minhas; tive de subir degrau por degrau, tive de aprender muito, sofrer muito,
tive de perder também Irmgard e Anna. Voltei a amar a cada uma das mulheres a
quem amara em minha juventude, mas podia agora inspirar amor a cada uma delas,
dar algo a cada uma, ser agraciado por elas. Desejos, sonhos e possibilidades que em
outro tempo só haviam vivido em minha fantasia eram agora realidade e eu os vivia.
Oh! flores todas formosas, Ida e Lore, todas as que amei durante um inverno, um mês,
um dia!
Compreendi que eu era agora o formoso e deslumbrante rapazinho que eu vira antes
correr tão diligente em direção à porta do amor. Eu estava vivendo somente uma parte
de meu ser, uma porção que em meu ser e em minha vida reais não havia ocupado
nem a décima ou milésima parte, e eu o estava vivendo inteiramente, livre de todas as
outras figuras de meu

204


ser, sem ser perturbado pelo pensador, nem torturado pelo Lobo da Estepe, nem
tolhido pelo poeta, o visionário ou o moralista. Não, eu era agora exclusivamente o
amante, respirava apenas a felicidade e o perfume do amor. Irmgard me ensinara a
dançar. Ida, a beijar; e a mais formosa, Emma, foi a primeira que, sob as ramagens
dos olmos, numa tarde de outono, me deu a beijar os seus seios morenos e a beber o
cálice do prazer.
Grandes prazeres tive no pequeno teatro de Pablo, e as palavras não conseguem
exprimir a milésima parte deles. Todas as mulheres que em outra época amei, foram
minhas então; cada uma delas me deu o que só ela tinha para dar e a cada uma dei o
quanto só ela sabia como tomar. Muito amor, muita ventura, muito prazer, muita
perplexidade e dor também sofri; os amores que desperdicei na vida, foram
recuperados naquela hora de sonho, floresceram prodigiosamente em meu jardim:
flores castas e delicadas, flores vermelhas, flores escuras que logo murchavam,
ardente luxúria, íntimo devaneio, melancolia ardente, angustioso desfalecimento, esplendente
renascer. Deparei com mulheres a quem tinha de conquistar de um lance,
num relâmpago, e a outras que era um prazer conquistar aos poucos e
cuidadosamente; voltaram a surgir dos ângulos crepusculares de minha vida, nos
quais, em outros tempos, embora apenas por um instante, me chamou a voz do sexo,
me incendiou um olhar de mulher, me enfeitiçou o brilho da pele clara de uma jovem,
e todo o perdido foi recuperado. Todas foram minhas, cada uma ao seu modo. A
mulher de olhos notavelmente castanhos e escuros sob uns cabelos de linho lá estava;
aquela junto à qual estive certa vez um quarto de hora debruçado na janela de um trem
e com quem sonhei depois tantas e tantas vezes — não falou uma só palavra, mas
ensinou-me habilidades amorosas insus-peitadas, espantosas, mortais. E a chinesa
suave, tranqüila e sorridente como o cristal, do porto de Marselha, com seu cabelo liso
profundamente negro e os olhos ridentes também sabia coisas inauditas. Cada uma
tinha o seu segredo, e o per-
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fume peculiar de sua terra; beijava, ria à sua maneira, ruborizava a seu modo,
mostrava-se à sua maneira despudorada. Vinham e partiam, a corrente as trazia até
mim, atraía-me para elas, delas me afastava, num flutuar jocoso e infantil na corrente
do sexo, cheio de encanto e cheio de perigo, cheio de surpresas. E estava assombrado
de quão rica fora a minha vida, minha vida de Lobo da Estepe na aparência tão pobre
e sem amor, nas oportunidades e nas seduções do amor. E as havia perdido todas,
fugido diante delas, feito com que se precipitassem, esquecido depois. Mas aqui
estavam todas guardadas, sem faltar nenhuma, as centenas. E agora que as via, a elas
me entregava sem entraves e mergulhava no róseo crepúsculo de seu mundo inferior.
Também voltara aquela sedução a que Pablo me convidara havia tempo, bem como
outras anteriores, as quais não havia compreendido; fantásticos jogos amorosos entre
três e entre quatro recebiam-me a sorrir em sua cadência. E sucederam coisas e
praticamos jogos que não são para serem descritos.
Dessa interminável cadeia de atrativos, de vícios, de enredos, saía eu sempre
silencioso, tranqüilo, preparado, saciado de saber, prudente, mais experimentado,
mais maduro para Hermínia. Como última figura de minha mitologia numerosa, como
último nome de uma série infinita, aparecia Hermínia, e ao mesmo tempo me voltou a
consciência e pus fim a esta história de amor, pois não queria encontrá-la nos reflexos
de um espelho mágico. Eu pertencia a ela não como uma simples peça de meu jogo de
xadrez, mas pertencia-lhe inteiramente. Oh, eu prepararia agora todas as peças de meu
jogo de modo a que tudo se concentrasse nela e me conduzisse à concretização de
meu desejo!
A corrente havia-me arrojado à terra; de novo me encontrava nos corredores do teatro.
Que fazer agora? Procurei as figurinhas em meu bolso, mas já aquele impulso se
desvanecera. Inesgotável me rodeava aquele mundo de portas, de le-treiros, de
espelhos mágicos. Li sem vontade o cartaz mais próximo, e estremeci:
206


COMO SE MATA POR AMOR
era o que dizia.
Uma recordação despertou dentro de mim, palpitante, e não durou mais que um
segundo: Hermínia, na mesa de um restaurante, entregue inteiramente à conversação,
esquecida dos vinhos e da comida, com o olhar terrivelmente sério quando disse que
se tornaria minha amante somente para que pudesse morrer por minha mão. Uma
pesada onda de angústia e obscuridade inundou-me o coração; de súbito ergueu-se
outra vez diante de mim, logo senti no mais íntimo a última chamada do destino.
Desesperado, meti a mão no bolso para tirar as figurinhas, para praticar um pouco de
mágica e restabelecer a ordem em meu tabuleiro. Mas as figuras já não estavam ali.
Em vez delas, tirei do bolso um punhal. Mortalmente horrorizado, corri pelo corredor,
passando diante das portas, e me detive frente ao monumental espelho e olhei bem no
fundo dele. Lá dentro estava um formoso lobo da minha altura, sereno, com os olhos
inquietos timidamente a brilhar. Olhou-me vacilante, sorriu um pouco, deixando ver
um momento a língua rubra entre o focinho partido.
Onde estava Pablo? Onde estava Hermínia? Onde estava o prudente senhor que havia
falado com tanto acerto sobre a formação da personalidade? Voltei a olhar no espelho.
Esta va ficando louco. Ali não havia nenhum lobo por detrás do cristal, a lamber o
focinho com a língua. No espelho estava eu, Harry, com o rosto abatido, cansado por
todos os jogos, fatigado de todos os vícios, horrivelmente pálido, mas continuava
sendo um ser humano, continuava sendo alguém com quem se podia falar.

— Harry — disse eu — que fazes aí? – Nada — disse o espelho — estou esperando.
Espero a morte
207


— Mas onde está a morte?
—Já vem — disse o outro. E ouvi soar nos âmbitos vazios do interior do teatro uma
música bela e horrível, aquela música do Don Giovanni, que anuncia a entrada do
convidado de pedra. Ressoava tetricamente seu frígido som pela casa fantasmagórica,
como se viesse do além, da imortalidade.
“Mozart!” pensei, e com esta palavra, conjurei a imagem mais excelsa e amada de
minha vida interior.
Ouviu-se então atrás de mim uma gargalhada, uma clara e gélida gargalhada, nascida
além da dor insuspeitada pelo homem, nascida do humor dos deuses. Voltei-me
transido e feliz ao ouvir aquele riso, e vi Mozart, que se aproximava, vi-o passar
diante de mim, sorrindo; dirigiu-se preguiçosamente a uma das portas, abriu-a e
entrou, e eu o segui ansioso, pois era o deus de minha juventude, toda a minha vida
fora objeto de amor e veneração a ele. A música continuava tocando. Mozart estava
em frente à caixa do teatro, do qual nada se via, pois que estava envolto em trevas.
— Observe — disse Mozart — que a coisa anda bem mesmo sem o saxofone,
embora em verdade não queira de forma alguma menosprezar esse famoso
instrumento.
— Onde estamos? — perguntei.
No último ato do Don Giovanni; Leporello está de joelhos. Uma cena soberba e, diga-
se, a música também é boa. Embora tenha algo muito humano em si, já se percebe,
não obstante, o além, o riso, não?
— É a melhor música que já se escreveu — disse eu solenemente, como um mestre-
escola. — Certamente, depois viria Schubert, Hugo Wolf, e não posso esquecer o
pobre e magnífico Chopin. O senhor se admira, Maestro? Oh, sim, Beethoven também
está entre eles, também é prodigioso. Mas todos, embora admiráveis, têm algo de
fragmentário, de dissolução em si; uma obra de tamanha plenitude e força não voltou
a surgir depois do Don Giovanni.
— Não se exceda — sorriu Mozart, terrivelmente irônico. — O senhor também é
músico? Já abandonei o ofício e
208


agora me entrego ao descanso. Só por distração é que vez por outra ainda me preocupo com o
assunto.
Ergueu a mão como se estivesse regendo a orquestra, e uma lua, ou uma pálida constelação,
surgiu algures. Olhei sobre a caixa do palco o espaço insondável, no qual se levantavam
névoas e nuvens, no qual emergiam montanhas envoltas em crepúsculos e praias, e aos nossos
pés se estendia uma ampla planície desértica. Na planície vimos um ancião de aspecto
respeitável, de longa barba, e rosto aflito, que conduzia um exército poderoso de uns dez mil
homens todos vestidos de preto. Parecia estar confuso e desesperado, e Mozart disse:

— Veja, é Brahms. Aspira à redenção, mas custará muito a alcançá-la.
Soube que aqueles milhares de homens vestidos de preto eram seus cantores e executantes
daquelas vozes e notas que, segundo o juízo divino, haviam sido desnecessárias e supérfluas
em suas partituras.
— Orquestração demasiado pesada, vasto material desperdiçado — observou Mozart.
Em seguida vimos à frente de um grande exército, igualmente numeroso, Richard Wagner
empurrado pela multidão, fatigado, arrastando-se com passos vacilantes.
— Em minha juventude — observei com tristeza — esses dois músicos eram tidos como os
mais extremos contrastes que se podia conceber.
Mozart sorriu.
— Sim, é sempre assim. Tais contrastes, vistos a pequena distância, sempre tendem a
apresentar sua crescente simi-litude. A instrumentação excessiva não foi, na verdade, uma
falha pessoal de Wagner ou de Brahms; era um defeito de sua época.
— Como? E tiveram de pagar tão duramente por isso? — exclamei em tom de protesto.
209

— Naturalmente. A lei segue seu curso. Depois de pagar a culpa de seu tempo, ver-seá
se a culpa pessoal merece alguma redenção.
— Mas nenhum dos dois teve culpa?
— Certamente que não. Não tiveram culpa, como tampouco Adão teve culpa de haver
comido a maçã e nem por isso deixou de pagar pelo pecado.
— Mas isso é terrível.
— Sem dúvida, a vida é sempre terrível. Nada podemos fazer em contrário e, não
obstante, somos responsáveis. Mal se nasce já se é culpado. O senhor deve ter
recebido instrução religiosa muito particular para desconhecer tais dogmas.
Aquilo fora para mim desilusório. Vi-me a mim mesmo arrastando-me pelo deserto
do além, como um peregrino morto de cansaço, carregado com os inúmeros livros
inúteis que havia escrito, com todos os artigos e opúsculos que havia publicado,
seguido de um exército de leitores que se viram obrigados a tragar tudo aquilo. Meu
Deus! E além disso, ali estavam também Adão e a maçã e toda a restante culpa
hereditária. Tinha de purgar tudo aquilo e só então poder-se-ia levantar a questão se,
após tudo aquilo, havia algo pessoal, algo próprio que considerar, ou se todos os meus
atos e suas conseqüências não seriam mais que espumas boiando no mar, ondulação
sem sentido na torrente dos acontecimentos.
Mozart começou a rir com vontade quando viu minha cara constrangida. Dava saltos
no ar e fazia cabriolas com as pernas sem parar de rir. Logo me gritou:
— Ah! Ah! Ah! meu camarada, fizeste uma embrulhada e acabaste sem dizer nada.
Pensas nos teus leitores, nesses pobres pecadores e de livros roedores? E nos teus
linotipistas, nos homens de curtas vistas, nos medianos artistas? Seu dragão de
chamas falsas, isso é de rir até arrebentar as alças e fazer pipi nas calças. Oh, coração
de fé imensa, vejo tua luta intensa, com tua tinta de imprensa; uma vela eu te daria só
por pura zombaria! Burlado, escarnecido, vai avante, com teu rabo bamboleante. Deus
ordena que o diabo te carregue, que
210


em boa sova te pegue, e te moa o bom finório por todos os teus escritos e teu oco
palavrório. *
Aquilo era demasiado forte para mim. O asco não me deixava lugar para a aflição.
Agarrei Mozart pelo chino, mas ele me fugiu; a trança foi ficando comprida, comprida
como a cauda de um cometa, a cujo extremo eu estava seguro e girava ao redor do
mundo! Esses imortais suportam uma atmosfera horrivelmente tênue e fria. Mas dava
prazer aquele ar gelado, pelo menos assim me pareceu nos poucos instantes que levei
para perder os sentidos. Transpassou-me uma alegria amarga, acerada, gélida, um
desejo igualmente luminoso, selvagem e supraterreno de rir como Mozart o fizera.
Mas o alento e a consciência me fugiram.
Confuso e destroçado, voltei a mim mesmo; a branca luz do corredor refletia-se no
solo brilhante. Já não estava entre os imortais. Continuava do lado de cá do mistério,
da dor, do Lobo da Estepe, da confusão atormentadora. Não havia encontrado nenhum
sítio aprazível, nenhum lugar suportável. Aquilo tinha de acabar.
No grande espelho da parede achava-se Harry diante de mim. Seu aspecto não era
melhor do que na noite em que, após a visita ao professor, entrou no baile do Águia
Negra. Mas aquilo estava muito longe, anos e séculos afastado; Harry havia
envelhecido, havia aprendido a dançar, havia visitado o teatro mágico, havia ouvido
Mozart rir; já não sentia angústia diante do baile, diante das mulheres, diante dos
punhais. Mesmo aqueles medianamente dotados, com o passar de uma centena de
anos, atingiriam a maturidade. Examinei Harry demoradamente no espelho:
reconhecia-o ainda, continuava ainda a parecer-se um tanto com o Harry de há
cinqüenta anos, que num domingo de março havia encontrado Rosa nos penedos e
havia tirado diante dela o boné de escolar. E, no

Todo o parágrafo é uma algaravia rimada. (N. do T. )

211


entanto, havia envelhecido uma centena de anos após isso, havia cultivado a música e a
filosofia, lutara até não poder mais, bebera vinho no Elmo de Aço e discutira sobre Krishna
com homens de honesto saber. Amara Erika e Maria, fora amigo de Hermínia, disparara
contra automóveis e dormira com a suave chinesinha; encontrara Goethe e Mozart e fizera
alguns buracos na rede do tempo e da realidade ilusória, na qual caíra prisioneiro. E embora
tivesse perdido duas figurinhas de xadrez, ainda tinha um magnífico punhal no bolso.
Adiante, velho Harry, seu velho patife!
Ufa! que diabo! que amargo era o gosto da vida! Cuspi contra o Harry do espelho, dei-lhe um
pontapé e o fiz cair em pedaços. Lentamente avancei pelo corredor cheio de ressonâncias,
examinei atentamente as portas, que tantas coisas maravilhosas prometiam: já não havia
nenhum letreiro nelas. Passei lentamente diante das cem portas do teatro mágico. Não estivera
hoje no baile de máscaras? Haviam-se passado cem anos desde aquele dia? Em breve os dias
iriam acabar inteiramente. Algo, no entanto, ainda restava por fazer. Hermínia continuava à
minha espera. Seria uma estranha união, e eu flutuava numa onda amarga, amargamente
arrastado, escravo, lobo da estepe. Ufa, demônios!
Detive-me diante da última porta. Até ali se havia arrastado a onda turva. Oh! Rosa! a
longínqua juventude! Oh! Goethe! Oh! Mozart!
Abri. O que encontrei no interior da porta foi uma cena simples e bela. Num tapete que
recobria o solo vi duas figuras desnudas, a bela Hermínia e o formoso Pablo, uma ao lado da
outra, adormecidas profundamente, totalmente esgotadas pelo jogo do amor, que tão
insaciável parece e, contudo, tão logo nos sacia. Formosas, formosíssimas criaturas, soberba
imagem, corpos maravilhosos! Sob o seio esquerdo de Hermínia havia uma mancha redonda e
fresca, que começava a roxear — uma dentada amorosa dos branquíssimos dentes de Pablo.
Ali onde havia a marca, cravei meu punhal até o cabo. O sangue correu sobre a pele branca e
delicada de Her

212


mínia. Eu teria beijado aquele sangue cem, mil vezes, se tudo tivesse corrido um
pouco diferente. Agora já não havia lugar para isso; olhava apenas como o sangue
fluía e vi seus olhos se abrirem por um momento, cheios de dor, profundamente
assombrados. “Por que se espanta?”, pensei. Então me ocorreu que eu teria que cerrar-
lhe os olhos. Mas estes se cerraram por si sós. E tudo estava feito. Só se voltou um
pouco de lado, e desde a axila até o seio vi correr uma delicada e fina sombra, que
pareceu querer recordar-me algo, mas não atinava com o que era. Logo jazeu imóvel.
Contemplei-a por longo tempo. Por fim estremeci como se despertasse e quis ir-me
embora. Então vi Pablo espregui-çar-se, vi-o abrir os olhos e estender os braços,
depois inclinar-se sobre a jovem morta e sorrir. ‘ ‘Esse camarada nunca levaria nada a
sério”, pensei comigo. “Será que tudo é para ele motivo de riso?” Pablo apanhou
cuidadosamente a ponta do tapete e cobriu com ele o corpo de Hermínia até a altura
do peito, de modo a encobrir a ferida, e saiu imperceptivelmen-te do palco. Onde iria?
Todos estavam me deixando só? Fiquei sozinho com a morta meio coberta, aquela a
quem amava e invejava. Sobre sua fronte pálida pendia o riso juvenil, a boca
resplandecia vermelha no rosto intensamente pálido e estava um pouco aberta, os
cabelos perfumavam suavemente o ambiente e deixavam ver a orelha bem modelada.
Seu desejo se havia cumprido. Antes que fosse inteiramente minha, havia matado o
meu amor. Fizera o impensado, e então me ajoelhei diante dela e fitei-a fixamente e
não sabia o que esta ação significava, se fora justa e boa ou totalmente o contrário.
Que diria o prudente jogador de xadrez, que diria Pablo? Não sabia, não conseguia
pensar. Cada vez refulgia mais rubra a boca pintada no rosto apagado. Assim fora
toda a minha vida. Minha parca felicidade e amor tinham sido como aquela boca
pasma: um pouco de carmim numa máscara mortuária.
E do rosto morto, dos brancos ombros mortos, dos mortos braços brancos exalava um
horror, que se aproximava len-

213


tamente, uma solitude e um deserto hibernai, um frio que crescia lenta e lentamente,
no qual se iam tornando hirtos os lábios e as mãos. Terei apagado o sol? Matei o
coração de toda a vida? O frio da morte estender-se-á por todo o universo?
Olhei fixamente para a face que se fizera de pedra, os traços que se tornaram rígidos,

o resplendor plúmbeo e frio da orelha. A frigidez que de todas essas partes emanava
era mortal e também bela: soava, vibrava prodigiosamente — era música!
Eu já não experimentara em outro tempo este mesmo horror, que àquela época era
então uma delícia? Não escutara já uma vez esta mesma música? Sim, junto com
Mozart, junto aos imortais.
Recordei uns versos que em outro tempo havia encontrado não sei onde:
Já nós vivemos
no gelo etéreo transluminado de estrelas,
não conhecemos os dias nem as horas,
não temos sexo nem idade…
fria e imutável é nossa eterna essência,
frígido e astral o nosso eterno riso

Abriu-se a porta do palco e apareceu Mozart, a quem reconheci num segundo olhar,
pois estava sem chino, sem os calções curtos, sem os sapatos de fivela, mas vestido à
moderna. Aproximou-se de mim e quase tive de detê-lo para que não se manchasse
com o sangue que escorrera pelo solo, jorrado do peito de Hermínia. Sentou-se e
começou a entreter-se com uns aparelhos e instrumentos que havia em seu redor,
movendo-os e aparafusando-os com detida atenção; fiquei observando-o, admirado da
destreza de seus dedos, os quais em outra época eu gostaria de ver tocando o piano.
Contemplava-o pensativo, ou melhor, não pensativo mas sonhador e perdido na
contemplação de suas mãos, formosas e sábias, animado por um sentimento de
proximidade e também um
214


tanto angustiado. Não suspeitava em absoluto o que ele andava maquinando, nem o
que intentava.
Logo percebi que era um aparelho de rádio que ele havia montado c posto em
funcionamento. Do alto-falante veio uma voz: “Fala Munique. Ouviremos agora o
Concerto Grosso, em Fá Maior, de Hàndel. “
Imediatamente, para meu indescritível assombro e horror, o diabólico funil de metal
começou a vomitar aquela mistura de viscosidades bronquiais c goma de mascar que
os proprietários de fotógrafos c amantes do rádio concordaram em chamar de música,
e no fundo daquela turva reunião de mucilagem e escórias podia-se perceber, como
por baixo de uma grossa camada de graxa, uma antiga e apreciada imagem, a nobre
estrutura dessa música divina, o amplo e profundo sopro, a funda c larga ressonância
das cordas.

— Meu Deus — exclamei horrorizado. — Mozart, que fazeis? Desejais de fato
infligir-nos, a vós e a mim, essa lavagem? Pretcndeis deixar-nos este diabólico
aparelho, o triunfo de nossa época, a última arma vitoriosa na luta de destruição
contra a arte? Será possível, Mozart?
Como se ria o homem sinistro, como ria fria e fantasmal-mente, silenciosamente c, no
entanto, fazendo retumbar todos os âmbitos com seu riso! Com íntimo júbilo
observava meu tormento. movia os botões e atentava para a cometa de metal. Rindo
ainda, deixava retumbar pela sala a música deformada, assassina e assassinada; e
rindo sempre, respondeu:
— Por favor, nada de sentimentalismos, meu caro! Prestou atenção ao ritardando?
Um achado, não? Isso mesmo, e agora, meu impaciente senhor, permita que o sentido
desse ritardando lhe penetre o espírito. Está ouvindo os baixos? Caminham como
deuses. Deixe que penetre e tranqüilize o seu inquieto coração este capricho do velho
Hãndel. Ouça de novo, ó infeliz, ouça sem sentimentalismos nem zombarias, e deixe
passar, por trás do véu deste ridículo e imbecilizante aparelho, a forma distante dessa
música divina! Preste atenção que aprenderá algo. Observe o que este alto-falante
idiota, o
215

mais estúpido e inútil objeto que o mundo contém, consegue fazer: apodera-se de
certa música tocada em qualquer parte, sem qualquer seleção ou refinamento, e além
disso lamentavelmente desfigurada, e carrega-a para um espaço que não lhe pertence;
e, contudo, nada pode destruir o espírito original desta música, mas apenas manifestar
nela a própria técnica torpe e a febre de atividade isenta de qualquer espírito. Ouça
com atenção, ó infeliz! O senhor tem necessidade dela! E agora, através do rádio,
ouvirá não somente a música de Hãndel desfigurada, embora permaneça divina sob
uma forma tão medonha, mas ouvirá e verá, caríssimo senhor, um admirável símbolo
de nossa existência. Quando o senhor ouve rádio, ouve e vê a luta ancestral entre a
idéia e o fenômeno, entre a eternidade e o tempo, entre o divino e o humano. Assim
como o rádio despeja a música mais sublime do mundo sem distinção nos lugares
mais impossíveis, nos salões burgueses e nas águas-furtadas e em meio a ouvintes que
discutem, que devoram alimentos, que bocejam ou que dormem, assim como rouba a
essa música sua beleza sensual, estraga-a, arranha-a e lambuza-a e todavia não
consegue matar de todo o seu espírito — assim também a vida, a chamada realidade,
trata a sublime imagem do mundo, permite acompanhar em Hándel uma informação
sobre a técnica de manipular os balanços das empresas industriais de médio porte, faz
da prodigiosa ressonância da orquestra uma mixórdia, introduz sua técnica em todas
as partes, sua atividade febril e sua miserável incultura, entre a idéia e a realidade,
entre a orquestra e o ouvido. A vida é toda assim, meu filho, e temos de deixá-la ser
assim, e se não formos idiotas devemos rir-nos dela. Pessoas do seu nível não devem
criticar o rádio ou a vida. Aprenda primeiro a ouvir! Aprenda a levar a sério o que
merece ser levado a sério, e a rir de tudo o mais! Ou será que o senhor conseguiu
fazer algo melhor, algo mais nobre, mais prudente, mais gracioso? Oh! Monsieur
Harry, nada disso o senhor fez. Apenas fez de sua vida a atroz história de uma
enfermidade, fez de seus dotes um infortúnio. £ como acabo de ver, não
216


soube fazer outra coisa com uma jovem tão linda e encantadora senão enfiar-lhe um punhal
no peito e destruí-la! Isso lhe parece justo?

— Justo? Oh! não! — exclamei, desesperado. — Meu Deus, tudo é tão falso, tão
infernalmente estúpido e errado! Sou uma besta, Mozart; um animal estúpido e cruel, enfermo
e estropiado; tendes mil vezes razão. Mas no que respeita à moça, foi ela mesma quem o quis;
eu apenas lhe satisfiz a vontade.
Mozart riu-se em silêncio, mas teve a grande amabilida-de de desligar o rádio.
Minha justificativa soou a mim mesmo desde logo inteiramente insensata, embora tivesse nela
acreditado com toda a minha alma. Quando Hermínia me falou a propósito do tempo e da
eternidade — ocorreu-me de pronto — cheguei a ver em seus pensamentos um reflexo dos
meus. Mas aceitei como evidente que a idéia de fazer-se matar por mim não passava por
inteiro de um capricho e de um desejo pessoal de Hermínia, sem a menor influência de minha
parte. Mas, por que não me limitei então a aceitar e a crer esta idéia tão espantosa e
surpreendente, mas ainda cheguei a adivinhá-la? Talvez porque fosse também minha? E por
que matara Hermínia precisamente no momento em que a vi nua nos braços de outro? A
gargalhada de Mozart ressoou sábia e irônica.
— Harry — disse — isto é uma pilhéria. Será possível que esta jovem não desejava do
senhor outra coisa senão que lhe desse uma punhalada? Vá dizer esta para outro! Bem, pelo
menos soube fazê-lo com certa perícia: a pobre moça está bem morta. Já está em tempo de
apurarem as conseqüências de sua galanteria para com esta jovem. Ou pensa, acaso, escapar
das conseqüências?
— Não! — gritei. — Não me compreendeis de todo? Fugir as conseqüências? Não aspiro a
outra coisa senão pagar, pagar e pagar, deitar a cabeça sob o cutelo e deixar que baixe sobre
mim o castigo e o aniquilamento.
Mozart olhou para mim com intolerável ironia.
217


— O senhor é sempre patético! Mas tem de aprender o que é o humor, Harry; o humor
é sempre humor patibulário e, em caso de necessidade, há de aprendê-lo mesmo no
patí-bulo. Está disposto a isso? Está? Pois bem, então apresente-se ao juiz e deixe que
todo o aparato sem humor da justiça humana caia sobre os seus ombros e sua cabeça
seja deles separada numa fria manhã no pátio de um cárcere. Está preparado para
isso?
Um letreiro brilhou de súbito diante de mim:
EXECUÇÃO DE HARRY
e com um movimento de cabeça manifestei minha aprovação. Um pátio sombrio entre
quatro muros, com janelas estreitas e fechadas por grades, uma guilhotina preparada,
uma dezena de homens vestidos de túnicas e, no meio deles, eu, tiritando na luz
acinzentada do amanhecer, com o coração oprimido pela angústia e o medo, porém
disposto e conformado. Dei passos à frente quando assim me ordenaram, e ajoelhei-
me quando me mandaram. O juiz tirou o barrete, limpou a garganta; todos os outros
senhores também limparam a garganta. Abriu um documento oficial e, segurando-o à
sua frente, leu:
— Meus senhores, em vossa presença está Harry Haller, acusado e julgado culpado de
uso fraudulento de nosso teatro mágico. Harry não só ultrajou a arte sublime,
confundindo nossa formosa casa de imagens com a chamada realidade, matando uma
jovem ilusória com um punhal ilusório, como também demonstrou sua intenção de
servir-se de nosso teatro como de uma máquina de suicídio, sem nenhum humor. Em
conseqüência, condenamos o mencionado Sr. Haller à pena de vida eterna e à
proibição por doze horas de entrar em nosso teatro. Tampouco poderemos perdoar ao
condenado o castigo de lhe rirmos na cara. Senhores, todos juntos: um, dois e três!
218

Ao três, todos os presentes prorromperam numa gargalhada unânime, uma gargalhada
em coro elevado, uma gargalhada do além, dificilmente suportável pelos ouvidos
humanos.
Quando voltei a mim, vi Mozart sentado ao meu lado como antes, tocando-me nos
ombros e dizendo-me:

— Acabou de ouvir a sentença. Já pode ir-se acostumando a ouvir a música de rádio
desta vida. Isso lhe fará bem. O senhor é extraordinariamente mal dotado, não passa
de um cabeça-dura; mas irá compreendendo pouco a pouco o que se espera do senhor.
Tem de aprender a rir, isso é o que se exige. Tem de compreender o humor da vida, o
humor patibular. Mas, é claro, o senhor está preparado no mundo para tudo, menos
para o que se lhe pede! Está preparado para matar mocinhas, para deixar-se julgar
solenemente, decerto também está preparado para mortificar-se durante cem anos e
mesmo flagelar-se, não é verdade?
— É verdade! Estou preparado de todo o coração — exclamei em minha miséria.
— Naturalmente! O senhor está disposto a qualquer tolice que careça de humor, meu
caro; para tudo o que seja patético e destituído de graça. Mas eu não estou disposto a
dar-lhe nem wcapfennig por toda a sua romântica penitência. O senhor quer ser
julgado, quer que lhe cortem a cabeça, ó sanguinário! Por esse estúpido ideal seria
capaz de dar outras dez punhaladas. O senhor está disposto a morrer, seu covarde,
mas não a viver. Ao diabo! mas terá de viver! Seria bem merecido que o
condenássemos ã pena máxima.
— Oh! e qual seria essa pena?
— Podíamos, por exemplo, ressuscitar a moça e casá-lo com ela.
— Não, a isso não estaria disposto. Seria uma desgraça.
— Como se não fosse uma desgraça toda a confusão que o senhor já preparou! Mas
vamos acabar de vez com todo o patético e os golpes mortais. Já está na hora de ser
razoável. O senhor tem de viver e aprender a rir. Tem de aprender a es-
219

cutar a maldita música de rádio da vida, tem de reverenciar o espírito que existe portrás dela e rir-se da algaravia que há na frente. É tudo o que exigimos do senhor.
Lentamente, por entre dentes cerrados, perguntei:

— E se eu não me submeter? E se eu vos negar, Sr. Mo-zart, o direito de dispor do
Lobo da Estepe e de vos imiscuir-des em meu destino?
— Então — disse Mozart, calmamente — eu o convido a fumar um dos meus
maravilhosos cigarros.
Dizendo isto, e enquanto tirava num passe de mágica um cigarro do bolso do colete e
mo oferecia, deixou de ser Mozart, e fitando-me calidamente com seus olhos exóticos,
converteu-se em meu amigo Pablo, bem assim no homem que me havia ensinado a
jogar com as figurinhas no tabuleiro de xadrez.
— Pablo! — exclamei, palpitando. — Pablo, onde estamos?
Pablo deu-me o cigarro e ofereceu-me fogo.
— Estamos — disse rindo — em meu teatro mágico, e se quiseres aprender a dançar o
tango ou ser um general ou conversar com Alexandre o Grande, tudo isto estará à tua
disposição da próxima vez. Mas devo dizer-te, Harry, que me de-cepcionaste bastante.
Esqueceste horrivelmente de ti, que-braste o humor do pequeno teatro e cometeste
uma felonia; mataste a punhaladas e manchaste o nosso belo mundo de imagens com
as nódoas da realidade. Isso não foi correto de tua parte Espero, pelo menos, que o
tenhas feito por ciúmes, quando viste Hermínia dormindo nos meus braços.
Infelizmente, não soubeste manejar essa figura; imaginei que ha-vias aprendido o jogo
melhor. Espero que procedas melhor da próxima vez.
Apanhou Hermínia, que se havia convertido, de súbito, numa figurinha de xadrez em
seus dedos, e guardou-a no mesmo bolso do colete de que antes havia tirado o cigarro.
Prazerosamente saboreei o doce e pesado fumo do cigarro, senti-me exausto e
disposto a dormir um ano inteiro.
220


Oh! agora compreendia tudo: compreendia Pablo, compreendia Mozart, ouvia algures atras de
mim seu riso espantoso, sabia ter em meu bolso centenas de milhares de figurinhas do jogo da
vida, suspeitava emocionado o sentido, tinha a intenção de iniciar de novo o jogo, de voltar a
estremecer diante de seus desatinos, de voltar a percorrer o inferno do meu interior, não uma
vez, mas sempre.
Da próxima vez saberia jogar melhor. Da próxima vez aprenderia a rir. Pablo me esperava.
Mozart também.


Nota do Autor
(1961)
Os escritos poéticos podem ser compreendidos e incompreendidos de muitas maneiras. Na
maior parte dos casos o autor não constitui a autoridade mais indicada para decidir até que
ponto o leitor compreende e onde começa a incompreensão. Não são poucos aqueles a cujos
leitores sua obra parecia muito mais clara do que a eles próprios. Além do mais, as
incompreensões até que podem ser frutíferas sob certas circunstâncias.
Contudo, parece-me que de todas as minhas obras, o Lobo da Estepe é a que vem sendo mais
freqüente e violentamente incompreendida, e o curioso é que, em geral, a incompreensão
parte mais dos leitores entusiastas e satisfeitos com o livro do que dos leitores que o
rejeitaram. Em parte, mas só em parte, isto pode ocorrer com tal freqüência em razão de este
livro, escrito quando eu tinha cinqüenta anos e tratando, co

223


mo trata, de problemas peculiares a essa idade, cair não raro em mãos de leitores
muito jovens.
Mas, entre leitores da minha própria idade, também tenho encontrado com freqüência
alguns que — embora bem impressionados com o livro — só percebem
estranhamente apenas uma parte do que pretendi. Tais leitores, ao que me parece,
reconheceram-se no Lobo da Estepe, identificaram-se com ele, sofreram suas dores e
sonharam os seus sonhos; mas não deram o devido valor ao fato de que este livro fala
e trata também de outras coisas, além de Harry Haller e de seus problemas, que fala a
propósito de um outro mundo mais elevado e indestrutível, muito acima daquele em
que transcorre a problemática vida de meu personagem. O Tratado do Lobo da Estepe
e outros trechos do livro que versam questões do espírito abordam assuntos de arte e
mencionam os “imortais”, opõem-se ao mundo sofredor do Lobo da Estepe com a
afirmativa de um mundo de fé, sereno, multipersonalístico e atemporal. O livro trata,
sem dúvida alguma, de sofrimentos e necessidades, mas mesmo assim não é o livro de
um homem em desespero, mas o de um homem que crê.
É claro que não posso nem pretendo dizer aos meus leitores como devem entender a
minha história. Que cada um nele encontre aquilo que lhe possa ferir a corda íntima e

o que lhe seja de alguma utilidade! Mas eu me sentiria contente se alguns desses
leitores pudessem perceber que a história do Lobo da Estepe, embora retrate
enfermidade e crise, não conduz à destruição e à morte, mas, ao contrário, à redenção.
224

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