Mas o que diferencia o autismo leve dos outros?


“No autismo leve, as pessoas têm a eficiência intelectual preservada”, explica Joana Portolese, neuropsicóloga e coordenadora do Programa do Transtorno do Espectro Autista do IPq – HC/FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Ela acrescenta que tem a condição normalmente não apresenta comportamento agressivo e problemas na fala. Pode ter poucas comorbidades (doenças associadas, como <a href=”https://uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/07/17/ansiedade-o-que-e-quais-os-tipos-os-sintomas-e-tratamentos-mais-eficazes.htm“>ansiedade</a> e <a href=”https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/07/10/depressao-sintomas-tratamento-tipos-e-relacao-com-suicidio.htm“>depressão</a>), mas tem uma vida praticamente normal.

“O nível de autonomia é mais fácil de ser alcançado”, completa.</p><p>Na infância, as crianças ficam isoladas na escola, gostam de uma só brincadeira ou de falar apenas sobre coisas pelas quais se interessam, mesmo que os outros não gostem desses assuntos, e não raro sofrem bullying.

Mesmo assim, conseguem se adaptar às situações quando recebem acompanhamento médico e de outros profissionais da saúde. Os adultos podem ser ótimos profissionais se tiverem uma rotina bem planejada, desde que executem um trabalho que não envolva riscos, surpresas e imprevistos e que eles não precisem liderar uma equipe. Isso costuma fazê-los sentir-se vulneráveis.</p> <div id=”uolpd-video-inarticle”></div><p>

Ainda assim, eles são bem diferentes de quem tem autismo grave, cujas características são a dependência total, deficiência intelectual, agressividade e baixo nível de funcionalidade, além de mais comorbidades.

Também levam uma vida mais normal se comparados aos autistas moderados, que possuem capacidade intelectual abaixo da média, comportamentos disruptivos (socialmente inadequados), comorbidades e uma dificuldade maior de se adaptar às situações.</p><p>

O número de autistas na sociedade não é pequeno. De acordo com uma estimativa de 2014 do grupo The Autism and Developmental Disabilities Monitoring (ADDM), uma em cada 59 crianças de oito anos foi identificada com TEA nos Estados Unidos. Eles ainda são vítimas de muito preconceito, o que<span style=”color:black”> é um erro, </span>segundo a enfermeira <span style=”color:black”>Mariana Andre Honorato Franzoi, professora de enfermagem da UnB (Universidade de Brasília) e pesquisadora do Gescaf (Grupo de Estudos em Saúde da Criança, Adolescente e Família) na mesma instituição. “</span>

Autismo é uma experiência de ser, como existe a experiência de ser de cada um. Há toda uma heterogeneidade, singularidade e subjetividade que envolve essa experiência”.</p><h3><strong>Inteligência que chama a atenção</strong></h3><p>

Quem vê a desenvoltura e a segurança de Greta Thunberg ao defender a causa ambiental fica impressionado. Afinal, com o seu discurso ela consegue influenciar milhões de jovens mundo afora. De fato, alguns autistas têm habilidades intelectuais que chamam a atenção. “Há pessoas brilhantes como a Greta, que apoiam causas, que se aprofundam e entendem tudo sobre um assunto.

Elas fazem conexões e usam isso para algo específico”, diz Portolese. Esse hiperfoco acaba se tornando uma habilidade.

Mas essa inteligência só está presente nos autistas leves. “O autismo associado a várias habilidades, a chamada síndrome de Savant está associada a mais ou menos 10% dos indivíduos com TEA. No caso, são pessoas dentro do espectro leve”, ressalta Franzoi. Esse brilhantismo não quer dizer que elas têm uma rotina normal quando chegam em casa. Ou que não precisam de uma rotina conhecida e bem estruturada para se sentirem bem e seguras.

O desafio da convivência

Apesar de os autistas leves terem uma vida semelhante à nossa, não significa que eles não enfrentem dificuldades no dia a dia. A maior delas é a interação social. “Para ter autismo é preciso haver uma alteração da comunicação social desde o começo da vida e presença de comportamentos repetitivos e estereotipados”, afirma Portolese.

Alguns podem fazer movimentos repetitivos com as mãos quando ficam ansiosos, apresentar distúrbios como a ecolalia (repetição mecânica de falas ou frases), uma entonação de voz diferente, além de serem ingênuos e inflexíveis.

Outros têm alteração sensorial. “Alguns estudos mostram que o tempo entre perceber e reagir é um pouco mais lento neles. Esse contato olho no olho quando o bebê nasce não é tão constante como um bebê com um desenvolvimento normal”, salienta a neuropsicóloga.

Eles ficam mais atentos a determinados estímulos, como os luminosos, do que ao seio da mãe durante a amamentação. Seguem assim ao longo da vida, sem o sistema motor e o sensorial caminharem juntos. Também costumam ter dificuldades de prestar atenção nas coisas por terem um único foco.</p><p>

Mas esse não é o maior desafio dos autistas leves. “Eles podem ter dificuldade de entender e expressar emoções, ter um pensamento muito concreto, uma interpretação mais literal, dificuldade para entender metáforas, piadas e ironias”, enumera Franzoi. Em outras palavras, não conseguem perceber o que é dito nas entrelinhas nem pensar de forma abstrata. Tudo isso pode acontecer em maior ou menor intensidade, dependendo do autista. E se manifestar de forma diferente na mesma pessoa nas várias fases da vida.</p><p>Existe uma explicação para a relação dos autistas leves com as emoções ser assim. “A criança de desenvolvimento normal aprende as emoções intuitivamente. Para a que tem autismo, muitas vezes isso precisa ser nomeado. Ela tem várias emoções que não sabe o que significam, não sabe nomear e dar contexto a elas”, enfatiza Portolese.

Algo que os faz se sentirem perdidos. “Isso acarreta de certa forma um sofrimento para o autista e faz o relacionamento com o outro ser mais difícil”, observa Franzoi.</p><p>

Ou seja, suportar a presença de determinadas pessoas, aproximar-se delas e agir conforme a sociedade espera às vezes custa um grande esforço por parte do autista leve. Quem olha de fora pode confundir essa resistência com uma timidez. Esse, aliás, é muitas vezes o motivo para a demora no diagnóstico. Em muitos casos, esse comportamento faz com que eles sejam excluídos na escola ou no trabalho.</p><h3><strong>

O acompanhamento desde cedo faz a diferença</strong></h3><p>

Para que um autista tenha a vida mais normal possível, é preciso começar o tratamento cedo. A família deve ficar atenta sempre que algo fugir do desenvolvimento esperado, como o atraso na fala, ausência de contato ocular, a criança permanecer isolada, não brincar, não responder quando chamada, girar objetos o tempo todo, repetir movimentos com as mãos e ter interesses peculiares. Nesses casos, a recomendação é procurar um especialista o quanto antes. Essa é a melhor maneira de estimular a aprendizagem e o entendimento dos autistas, até porque na infância a neuroplasticidade é maior.</p><p>Esse acompanhamento médico e de outros profissionais da área da saúde ajuda a criança a ter mais autonomia, de modo que ela não precise, por exemplo, de um mediador na sala de aula quando estiver na escola. “Quanto mais cedo começar a intervenção, melhora mais a socialização, a compreensão e a interação social, a percepção das nuances, o jogo simbólico, a brincadeira e o desenvolvimento da abstração”, resume Portolese.</p><p>O diagnóstico do autismo é feito por uma equipe multidisciplinar, geralmente composta por médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos e neuropsicólogos. Cada autista recebe um tratamento personalizado de acordo com as suas necessidades, que muitas vezes também inclui remédios para tratar as comorbidades, já que não existem medicamentos para o autismo em si. Com essa ajuda, eles aprendem a organizar a rotina e lidar melhor com imprevistos e tudo o que sai do controle.</p><p>Receber o diagnóstico é um alívio para muitos autistas leves. É quando eles percebem que seu mundo faz sentido e que há outras pessoas na mesma condição. Mas antes passam por um longo processo. “Com uma intervenção precoce, pode-se ter uma adolescência mais saudável, sem a depressão que costuma ser associada ao autismo leve, e uma melhor interação social de poder estar integrado à vida, sem a necessidade de tanto suporte”, conclui Franzoi.

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