AUTISMO E INGENUIDADE: OS PERIGOS DE SER AUTISTA


alimcs

Descrição de imagem: na rua, menia aceita doce de um estranho que está dentro de um carro azul.

Ao relatarem a convivência com seus filhos autistas, muitos pais são unânimes em afirmar: “ele não tem noção do perigo!”, “ela não entende que pode se machucar!” ou “meu filho não tem maldade e acredita em tudo!”. De certo, nós autistas somos mais ingênuos do que o resto da população. Isso trás em si muitos riscos, independente da idade da pessoa.

O excesso de ingenuidade pode ser engraçado ou bonitinho no início, mas é importante entender que é algo muito perigoso e que precisa ser trabalhado.

Lembro que, certa vez, eu estava andando sozinha na rua e fui abordada por um homem que alegava estar atrasado para uma prova da faculdade. Ele me disse que estava sem dinheiro para o ônibus e que precisava fazer uma ligação para pedir carona. Senti um quentinho dentro de mim, uma vontade de ajudar e fazer algo bom para uma pessoa que precisava. Precisei até conter o sorriso. Não hesitei em dar ao moço todas as minhas moedas e a oferecer o meu celular. Ele até pediu para eu mesma digitar, o que me fez sentir mais confiança ainda nele, que preferia não pegar logo o meu telefone para não passar uma má impressão. Digitei o tal número e dei a ele o aparelho. Depois de uma suposta conversa, ele demonstrou ter terminado de conversar. Feito isso, algo completamente inusitado para mim aconteceu: ele jogou a pasta dele no chão e começou a correr, sem ter me devolvido o celular. Fiquei em choque por um tempo, mas logo me pus a correr atrás do meliante, gritando: “Devolve! Devolve!”.

Por sorte, o homem mal intencionado se deparou com um segurança de uma creche e decidiu parar e me devolver o aparelho, depois de já ter corrido uma certa distância. Confesso que cheguei a acreditar que ele tinha apenas esquecido de me devolver, mas depois caí na real. Me pus a chorar e recebi um copo d’água de uma funcionária de um restaurante da esquina.

Em outra ocasião, estava fazendo uma viagem com minha turma do ensino médio para a cidade histórica de Tiradentes. Eu estava sozinha e sem saber qual era o caminho de volta para a pousada. Foi aí que um homem do outro lado da rua se ofereceu para me ajudar e estendeu o braço. Atravessei a rua para apertar sua mão e receber as instruções. Os olhos dele estavam vermelhos. Tudo o que eu queria era dar um aperto de mão cordial e amigável no moço e pedir ajuda, mas acabei sendo segurada com força e puxada para um beijo forçado. Consegui resistir e me livrei dos seus braços. Voltei para a pousada e chorei sozinha no quarto.

Como último exemplo, não vou citar um acontecimento que tenha sido perigoso, mas que mostra perfeitamente a ingenuidade do autista. Quando eu tinha 14 ou 16 anos, não me lembro bem, fui a uma festa junina, na qual aconteceria um casamento de mentira. Tinha uma noiva, um noivo e até um padre! Além disso, eu ouvia a palavra casamento a todo momento. Eu acreditava fielmente que era um casamento de verdade. Na hora do casório, o padre soltou um palavrão. Eu fiquei perplexa: “um padre falando palavrão? No casamento?!”. Fui reclamar para os meus pais da má postura e falta de ética do suposto padre. Foi aí que eles disseram: “ela acreditou!”. Então descobri que não era um casamento de verdade. Me senti uma boba por ter sido a única a não entender que era uma brincadeira. Nunca entendi o motivo de ter essa característica até receber o meu diagnóstico de autismo. Também acontece de fazerem uma brincadeira comigo e eu levar a sério. Minha mãe diz “não dá pra brincar com você! Tudo você leva a sério!”. É uma realidade autista. Felizmente já aprendi muita coisa nesses 20 anos de vida e já entendo muitas brincadeiras e piadas. Às vezes, só preciso de um pouco de tempo ou de uma ajudinha.

Como podem ver pelos exemplos acima, o autismo traz consigo um alto nível de ingenuidade.

Talvez por levarmos tudo ao pé da letra, também achamos que o que nos dizem é verdade sem que passe pela nossa cabeça que aquilo possa ser uma mentira ou uma brincadeira. Eu já percebi que tenho esse problema, o que me causa um certo medo de ser enganada. Quando saio na rua sozinha hoje em dia, fico com medo de falar com estranhos. Não sei diferenciar alguém bem intencionado de alguém mal intencionado. Ou confio em todos ou não confio em ninguém. É muito complicado. Ao mesmo tempo que fico com medo de tratar como mal intencionado alguém que só quer me ajudar, fico com medo de confiar na pessoa e ela estar querendo me enganar. Eu diria que esse é um ponto negativo do autismo. É uma característica que precisa ser trabalhada. Mas como trabalhar isso no autista?

Bem, meus pais estão sempre tentando me alertar dos perigos da rua e da internet. Confesso que, mesmo sabendo que eles existem, ainda tenho medo de ser feita de boba. Diria que, pelo menos na internet, eu sou bem cautelosa. Sei bem como reconhecer um possível mal intencionado. Na rua não. Talvez por a relação interpessoal ao vivo contar com a comunicação não-verbal, seja mais difícil perceber os sinais de um possível enganador. Por telefone também é um perigo. O tom de voz nem sempre me diz alguma coisa. É assim com muitos autistas. No que tange a internet, eu diria que decorei as possíveis situações de enganação. Acho que existem mais situações assim fora da internet, e eu ainda não as dominei. Para ajudar seu autista a ser menos ingênuo, eu posso dizer algumas coisas. Uma delas é orientar a pessoa a nunca fornecer dados pessoais e bancários ou fazer transações financeiras sem antes falar com o responsável e tentar explicar os motivos pelos quais se pretende fazer alguma dessas coisas. Também é possível dar uma lista de empresas e organizações que são realmente confiáveis para o autista, e explicar que bancos e ONGs sérias não pedem dinheiro pelo telefone. Também é importante alertar para o perigo de falar com estranhos na rua e fornecer ao autista informações concretas sobre as pistas para se perceber quando alguém tem más intenções. É possível ensaiar em casa cada uma das situações de perigo mais comuns. Não usar o celular na rua ou perto da janela do ônibus, não fornecer o próprio endereço para estranhos na internet e não confiar plenamente em alguém na rua são dicas valiosas que se pode dar ao autista.

A malícia social é algo que nós não temos, mas que podemos aprender. Assim como as normas sociais, essa malícia/esperteza pode ser aprendida como se fosse regras de um jogo. O seu autista só vai aprender se você não o superproteger. Ele tem que ter suas próprias experiências e aprender com elas. Isso não significa que você deve deixá-lo sozinho para lidar com o mundo. Quer dizer que ele não vai desenvolver essa malícia se só ficar preso em casa e se sempre fizerem tudo por ele.

Espero que tenham achado a matéria de hoje útil! A ingenuidade é uma parte muito forte do autismo, mas, assim como os outros pontos negativos, é tratável. Apesar disso, jamais subestime o seu autista e a sua inteligência! Não esqueça de curtir a minha página do Facebook A Menina Neurodiversa e comentar o que achou!

Estou aberta a dicas, críticas construtivas, sugestões e comentários sobre sua experiência convivendo com o autismo, seja você autista ou não! Por hoje é só! Tchau tchau!

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