Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira


A felicidade se acha é em horinhas de descuido. A frase, dita pelo escritor Guimarães Rosa no século passado, nos preconiza o que já nos falaram, mas que ainda persistimos em manter certa resistência para aceitar: ser feliz é questão de aqui e agora. Sem “mas”. Sem adiamentos. Sem desculpas.

Durante nossa vida, com o passar dos anos, adquirimos encargos e responsabilidades que, até então, nos eram isentos na infância. Tudo começa quando nos vemos obrigados a escolher a faculdade que queremos prestar, o curso a seguir, a carreira que precisa ser construída e diversas outras incumbências relativas a vida pessoal de cada um. E, num mundo cada vez mais competitivo e veloz, o simples fato de “errar” ou “falhar” causa calafrios em qualquer um.

Por isso, muitas vezes nos pegamos vivendo sob um estado de tensão constante, nos esforçando para manter o controle sobre tudo o que acontece, para que o resultado seja sempre positivo. É um esforço para que nada saia “da linha” e a vida siga conforme idealizada. A frustração – que uma hora acabará acontecendo – gera ansiedade, levando-nos a redobrar o empenho para controlar ainda mais as rédeas da vida.

Um acontecimento repentino, sério e desastroso não apenas nos tira do prumo mas, devido à nossa insistência para que nossos desejos e planos sejam realizados, também nos exausta. Enquanto isso, inconscientes do que provocamos a nós mesmos com nossos complexos e fechando os olhos para o que a vida oferece, perdemos novas oportunidades, diferentes das sonhadas, mas que poderiam nos surpreender enriquecendo muito nossa qualidade de vida e bem-estar.

Afinal, é isso o que todos buscamos. Mas os caminhos para viver mais feliz com o que temos e sabendo quem somos nem sempre acontecem ao acaso. É necessário estar atento para percorrer a estrada do autoconhecimento.

 

A felicidade se acha é em horinhas de descuido (Foto: Pixabay)

Conhecer a si mesmo, o seu “eu” interior, é o melhor caminho para que a felicidade se torne uma aliada no dia a dia. E para alcançar esse estado de graça, não é preciso ter o melhor emprego do mundo ou adquirir bens materiais. A felicidade está dentro de nós e situações simples associadas a outras maneiras de pensar são de grande ajuda.

Primeiro passo, descobrir o que você gosta de fazer. Ações singelas do dia a dia podem trazer paz e bem-estar. Para algumas pessoas, por exemplo, cozinhar é uma espécie de terapia. Para outras, buscar o filho na escola é o momento de curtir a sensação de paz interior. Há ainda quem escolha fazer um curso de bordado e jardinagem. Ações simples são atividades que nos colocam em paz e harmonia com a gente mesmo, em primeiro lugar.

Para descobrir do que se gosta, é ideal que abandonemos velhos padrões e, assim, permitir conhecer o novo. Deixar para trás a ideia de que a realidade em que se vive é a única existente, senão, dessa maneira, perdemos a noção de que o que nos cerca é infinitamente maior. E, na maioria das vezes, a resolução de nossos problemas e angústias, que tanto nos impedem de alcançar a felicidade, está justamente no novo e desconhecido.

Outro ponto importante que esquecemos é a máxima que diz “viva o presente”. O agora é a única realidade que temos e que podemos mudar. Muitas vezes idealizamos a felicidade que chegará somente quando alcançarmos determinado objetivo. Ou, então, pensamos “quando eu fazia tal coisa, eu era feliz”. O que esquecemos, porém, é que do passado só temos a memória e do futuro não temos nada. Claro que guardar lembranças boas, aprendizados que já vivenciamos e planejar o futuro de acordo com nossos desejos são papéis importantes, mas a grande questão é não viver preso no que já passou, nem idealizar tanto o futuro achando que somente será feliz “lá”. A vida é uma trajetória gigante e podemos, sim, nos sentir bem em cada momento dela.

A felicidade vai muito além de ter milhões no banco. Ter saúde, bem-estar e liberdade são itens valiosos para ter uma vida plena. E focar no autoconhecimento. Quanto mais achamos que já nos conhecemos, mais somos surpreendidos com o quanto podemos ser falhos. E essa constatação assusta menos. A vida é assim. A felicidade aparece quando paramos de procurá-la incessantemente e descobrimos ela dentro de nós. Nas horinhas de descuido.


Por Michele Matos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s