Chaves para a Felicidade


A primeira chave e o desejo de liberdade. A segunda é o discernimento, a capacidade de distinguir o real do aparente.

· 8 mins de leitura 
felicidade
Um amigo pediu-me para sintetizar os meus quase 40 anos de busca da felicidade num mínimo número de temas. Após ponderar bastante sobre o assunto fiz uma lista longa, com mais de 20 ítens.

Logo, fui eliminando elementos similares ou que não eram essenciais, até perceber que não tinha mais nada que pudesse sair da lista sem comprometer a eficiência da prática. Quando fui ver, haviam sobrado quatro chaves. Elas são as seguintes:

  1. Desejo de Liberdade — Mumukṣutvaṁ, para iniciar a busca
  2. Discernimento — Viveka, para ver as coisas como são
  3. Desapego — Vairāgya, para abrir mão da vontade de controlar
  4. Esforço — Abhyāsa, para manter-se firme na visão

1) Desejo de Liberdade — Mumukṣutvaṁ

A primeira chave é o desejo de ser livre. Liberdade é sinônimo de felicidade no contexto do Yoga. É fato que não podemos adquirir as qualidades para sermos felizes através do simples desejo.

Embora Mumukṣutvaṁ, o desejo de ser feliz seja o ponto de partida desta busca, ele não é, de maneira alguma, o fim da jornada. A tomada de decisão é apenas o primeiro passo. Cabe lembrar aqui que decidir cultivar uma qualidade não significa adquirí-la.

Por exemplo, como soluções para a busca da felicidade, o professor israelense Ben-Shahar, da Universidade de Harvard, dá aos seus alunos pitorescos conselhos como “usar sapatos confortáveis”, “ser grato aos demais” ou “ter empatia”.

Ora, dizer que a felicidade depende do tipo de calçado que usamos é absurdo, com todo respeito pelo professor Ben-Shahar. Ora, qual é a conexão causal entre sapatos e felicidade? Se eu não tiver (ou decidir não usar) sapatos, não serei feliz?

Os outros conselhos do professor são igualmente duvidosos: não é por desejar “ter empatia”, que vou resolver o tema da minha timidez, por exemplo. Não é por repetir 1000 vezes “confio em mim, confio em mim” que vou tornar-me autoconfiante.

Não é por propor a mim mesmo que posso superar qualquer obstáculo, que consigo por arte de mágica as habilidades necessárias para realizar as minhas conquistas. É isso o melhor que a psicologia moderna tem para nos recomendar?

Muitas vezes confundimos o desejo de
realizar algum objetivo com a qualificação
que precisamos para levá-lo a cabo.

Mumukṣutvaṁ pode ser definido com a insatisfação com a vida condicionada, da maneira que ela se apresenta.

Nesse sentido, toda yogiṇī, todo yogin, é um(a) inconformista, alguém que não engole tudo o que mastiga, alguem disposto a questionar os valores ou objetivos que a sociedade nos propõe (ou impõe), e alguém com coragem e força para quebrar os moldes dos condicionamentos.

Liberdade, neste contexto, não é ser livre para fazer o que nos der na telha. Liberdade é algo bem específico e pontual: a capacidade de desfazer medos, condicionamentos e crenças.

Liberdade, o Yoga nos mostra, é a nossa própria natureza. É o que já somos. Portanto, a busca pela liberdade, a busca pela felicidade, é a iniciativa mais legítima que alguém pode tomar.

2) Discernimento — Viveka

A segunda chave é o cultivo do discernimento. Para que haja felicidade real, transformação duradoura, é preciso compreender. É aqui que entra a segunda chave, o discernimento.

Sem compreender as razões pelas quais não temos autoestima ou autoconfiança, não poderemos resolver a incapacidade de acreditar em nós mesmos.

Portanto, não basta querer. É necessário obter as qualificações adequadas e firmar-se nelas. Isso é chamado adhikāritvam, em sânscrito. Um adhikāri é uma pessoa preparada, é alguém que está em (ou já completou o) processo de antaḥkaraṇaśuddhi, a purificação psíquica.

Para isso, é preciso fazermos um pacto com as feridas do nosso coração. Se isso não for feito a priori, não podemos pretender ter muitas esperanças de sucesso nessa caminhada.

Pretender o contrário seria tão tolo quanto querer completar uma maratona com uma lesão no joelho. Devemos primeiramente curar a lesão, para podermos correr seguros depois.

Assim, se a primeira chave e o desejo de liberdade, a segunda é o discernimento, a capacidade de distinguir o real do aparente.

Noutras palavras, isto quer dizer transcender a nossa história pessoal e deixar de lado a subjetividade do próprio ego. Questionar, como mencionamos acima, a pessoa que, às vezes penosamente, fomos construindo ao longo da vida.

Nesse sentido, podemos dizer que o Yoga seja uma espécie de revolução interior. Pede-se coragem para dar esse passo. É necessário compreender as causas profundas e verdadeiras do mal-estar. Nesse sentido, viveka, o discernimento, é a capacidade de fazer uma autoanálise sincera e honesta.

Quem sou eu, realmente?

Quem sou eu, para mais além da personalidade, do que mostro aos demais, do que faço e digo? Voltaremos sobre isso no fim desta exposição.

Nessa autoanálise vamos identificar e resolver os conflitos pessoais que produzem sofrimento e nos afastam da felicidade. E como é que esse passo vai ser colocado na prática, de fato? Através da terceira chave, que é o desapego

3) Desapego — Vairāgya

A terceira chave é vairāgyaṁ, o desapegoDesapego é a capacidade de ver (e tomar) as pessoas, situações ou coisas como elas são, sem projetar nelas valores ou qualidades que não lhes sejam intrínsecos.

Isso quer dizer cultivar uma atitude equânime e objetiva, sem deixar-se iludir pelos valores que são impostos pela sociedade (e principalmente, a sociedade de consumo) aos relacionamentos, coisas e situações.

Todo o mundo valoriza o desapego, pois ele é um atitude natural para o ser humano. Ninguém deseja carregar ou acumular coisas inutilmente. Todo o mundo deseja viver com o mínimo. O problema é determinar qual é o mínimo para cada um.

Desapego não é abrir mão dolorosamente de bens materiais, nem conformar-se resignadamente em relação a perdas econômicas ou de outro tipo. O desapego bem compreendido traz leveza para o coração.

Ele inclui, por exemplo, a coragem para deixar de lado os nossos problemas, tanto como referências pessoais quanto como táboas de salvação. Digo isto pois, muitas vezes, nos definimos através das nossas feridas, doenças ou acidentes.

Por exemplo: como você se sentiu quando abriu mão daquela coleção de CDs que tanto prezava na década de 1990? Não foi um alívio ver ela alegrando a vida de outras pessoas? Você não sente alívio quando vai ao cabeleireiro e, depois do corte, olha para o que sobrou caído lá no chão?

Essa mesma atitude de alívio deve ser dirigida a todos os aspectos da própria personalidade. Não somos as nossas crenças. Não somos os nossos condicionamentos.

Não somos aquilo que a religião, a sociedade ou a família deseja que sejamos. Desapego é ter a coragem de deixar para trás esse tipo de condicionamento. Isso, por sua vez, pede um esforço, o que nos leva para a última chave.

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