A lei da obediência


AUTOR: REDAÇÃO
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Obrigados a obedecer ao Deus Criador de quem recebemos a vida, somos mais rigorosamente ainda obrigados a obedecer ao Deus Redentor que nos livrou da morte eterna.

A obediência é a lei e a condição essencial de toda criatura. Não fomos criados por nós mesmos, não temos senão uma vida emprestada, dependendo a cada instante do Senhor da vida, o qual pode nos tirar, sem injustiça, o que Ele nos deu sem nenhuma obrigatoriedade de Sua parte: daí se segue que devemos ter sem cessar os olhos fixos na vontade do Senhor e nossas mãos prontas a cumpri-la, como o servo deve estar pronto a obedecer a seu senhor, como a serva deve estar à disposição daquela a quem empenhou seus serviços e seu tempo: “Como os olhos dos servos estão fixos nas mãos de seus senhores, como os olhos das servas estão fixos nas mãos de suas senhoras, assim nossos olhos estão voltados para o Senhor, nosso Deus” (Sl 122, 2). “Criatura independente” são duas palavras que não podem ser juntadas: toda criatura se deve por inteiro ao Criador, de quem tudo recebeu.

Ser de apenas um dia, sopro que passa e não volta mais, flor efêmera que de manhã desabrocha e à noite estará murcha e será calcada aos pés, a vida humana não é mais que um relâmpago entre o berço e a tumba; e mesmo dentro desse momento fugitivo ela está à mercê do menor vento que passa e sujeita a mil vicissitudes e a inumeráveis dores.

Ninguém pode acrescentar à sua altura sequer a espessura de um fio de cabelo, nem prolongar por um minuto os momentos de sua existência. Mero átomo perdido dentro da imensidão, como pode o homem postar-se face ao Senhor de todas as coisas e Lhe dizer, de dentro do seu orgulho: “Eu não obedecerei… romperei todas as sujeições que queirais me impor, lançarei para longe de mim vosso jugo?” Insensato! Será que teu braço se estende mais longe que o de Deus? Por acaso acreditas poder impunemente desafiar seus formidáveis trovões? “Tens um braço semelhante ao de Deus, e uma voz troante como a dele?” (Jó 40, 4).

Dupla obediência a Deus, enquanto Criador e Redentor

Obrigados a obedecer ao Deus Criador, de quem nós recebemos a vida, somos mais rigorosamente ainda obrigados a obedecer ao Deus Redentor que nos livrou da morte eterna. O poder que Deus tem sobre nós, por nos ter criado, duplicou-se, por assim dizer, depois da Encarnação que nos resgatou. Culpado é o homem que se recusa a inclinar-se diante d’Aquele que fez os Céus; mais culpado ainda é quem se recusa a inclinar-se diante de Deus que desceu até nós, revestiu-Se de nossa natureza com suas doenças e dores, e permanece conosco até a consumação dos séculos para ser nosso alimento, nossa força e nossa consolação.

O primeiro é culpado porque desdenha o direito, a justiça, o poder. O segundo é mais culpado porque menospreza a ternura e o amor. O primeiro é ingrato porque ignora o inestimável benefício da existência e da vida.
O segundo é mais ingrato porque desconhece o benefício mais inestimável ainda da graça e da Redenção.

Cristo nos resgatou com sua morte

Se o Deus Criador tem direito sobre tudo quanto temos e tudo quanto somos, se, como diz Santo Agostinho, Ele pode reivindicar nosso espírito com Seus pensamentos, nosso coração com Seus sentimentos, nossos corpos com Seus poderes, em uma palavra nosso ser todo inteiro, pois Ele nos fez todo inteiro, com maior razão e mais direito ainda o Deus redentor pode ter as mesmas exigências. Não é em vão que Ele assumiu nossa humanidade e, morrendo por nós na Cruz, pagou nossa dívida: Ele nos reconciliou com Seu Pai, nos devolveu nossos direitos à herança do Céu e nos livrou da eterna morte.

São Paulo, mostrando aos primeiros cristãos o sangue do Calvário, o preço infinito pago por Seu resgate, faz-lhes ver as conseqüências eternas dessa morte do Filho de Deus e dessa remissão do gênero humano: “Já não vos pertenceis”, diz-lhes. Não vos pertenceis mais, porque a obra pertence ao operário: “Res clamat Domino” (A coisa clama pelo seu dono). Como obra de Deus, vós pertenceis a Deus; mas agora Lhe pertenceis a um título ainda maior, mais estrito e mais augusto: não mais somente como Sua obra, mas também como Seus escravos e servidores, resgatados por Ele ao preço de Seus sofrimentos e de Sua morte (cf. 1 Cor, 6).

“Ó mercador caritativo – diz-lhe Santo Agostinho – comprai-nos. O que estou dizendo? Comprai-nos? Nós devemos render-Vos graças, porque nos comprastes. Vós nos criastes afim de que, gozando da existência, fôssemos um hino à Vossa glória. Vós nos resgatastes porque nós estávamos cativos sob o império do mal. Nós vos devemos, portanto, obediência e submissão, não somente como a nosso Senhor, mas também como a nosso Libertador”.

Deus é nosso fim supremo e eterna recompensa

Enfim, o Deus Criador e Redentor é também nosso fim supremo. É para Ele que caminhamos. Cada dia que passa é um

Santa Ana e Nossa Senhora.jpg
O exemplo de Maria Santíssima nos
induz à humildade e à obediência
Sant’Ana ensina a Virgem Maria a
ler, de Muri-lo – Museu do Prado,
Madrid – Sérgio Hollmann

passo a mais que damos para a morte e, por conseguinte, para Deus. Ora, esse Deus fez tudo para Si mesmo: “Tudo fez o Senhor para seu fim” (Pr 16, 4). Ele impôs sua vontade e ditou suas leis, e aqueles que forem encontrados fiéis na obediência entrarão na alegria do Senhor e possuirão a eterna recompensa; mas os que se revoltarem contra o poder e contra o amor, os que não se inclinarem diante de Deus Criador e Redentor, encontrarão então um juiz inexorável e um castigo eterno.

Maria Santíssima, exemplo de obediência

Eis as razões que nos impõem a obediência. Mas o exemplo de Maria Santíssima, hoje, a ela nos induz eficazmente. Vejam-na apresentar-se no Templo como uma mulher comum, e, no entanto, Ela é uma exceção sublime. Vejam-na purificar-se, Ela que sempre foi pura e sem mancha! Vejam- na obedecer até a uma lei que não a obrigava, a fim de ensinar toda a raça cristã a obedecer às leis pelas quais nós somos rigorosamente ligados.

Maria Santíssima começou a praticar a obediência já desde a sua juventude. Praticou-a no momento em que, tornando-se Mãe de Deus, inclinou- se diante da palavra do anjo e pronunciou seu fiat imortal. Ela a praticará até o fim. Ela a praticará no meio das humilhações e dos abandonos do Calvário. De sua alma submissa sempre se evolará o grito da obediência e do amor: “Ó meu Deus, façase em Mim segundo a vossa palavra! Fiat mihi secundum verbum tuum”.

Saibamos nós também, a exemplo de Maria Santíssima, praticar sempre a obediência e a submissão. Nós somos os filhos dAquele que foi obediente até a morte, e morte de cruz. Nós fazemos parte de Sua Igreja. Ora, está escrito que a sociedade dos justos é só obediência e amor: “Os filhos da sabedoria formam a assembléia dos justos, e o povo que compõem é, todo ele, obediência e amor” (Eclo 3, 1). ?

(Traduzido, com adaptações, de L’Ami du Clergé, 1902, pp. 49-50.)
(Revista Arautos do Evangelho, Março/2008, n. 75, p. 24-25)

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