C Í C E R O , por Plutarco


(Nascido no ano 106 e morto no ano 43 antes de J.
C.)
Capítulo de Vidas Paralelas (Bioi Paralleloi)
Sobre a tradução: Primeira tradução brasileira, de Sady Garibaldi. Atena Editora, São Paulo.
Para correções, comparações e compilação de notas foram usadas ainda outras edições: 1. Plutarco, Vidas
Paralelas, Editora Paumape, Quinto Volume. Tradução de Gilson Cardoso e notas de Paulo Peixoto.
2.Plutarco, Vidas. Tradução e notas de Jaime Bruna. Editora Cultrix, São Paulo e 3. Plutarco, Vidas dos
homens Ilustres, tradução do Pe. Vicente Pedroso a partir da edição clássica francesa de Amyot, com
observações de Brotier, Vauvilliers e Clavier. Edameris, São Paulo
Copista (edição virtual): Miguel Duclós
Digitalizado por consciencia.org
I. Quanto a Cícero, sua mãe segundo se diz, chamava-se Hélvia. Pertencia a uma família distinta e,
desde seu nascimento, sua conduta se mostrou sempre digna. Há, a respeito da condição do seu pai, 1
opiniões contraditórias: uns pretendem que tenha nascido e que foi criado na oficina de um pisoeiro;
outros o fazem descender de Tulo Átio 2, que reinou gloriosamente sobre os Volscos 3, e lutou sem
muita desvantagem contra os romanos. Quanto ao mais, o primeiro dessa família que teve o sobrenome
de Cícero parece ter sido um homem respeitável, e é por isso que seus descendentes, longe de
desprezarem o sobrenome, começaram a usá-lo com ufania, não obstante isso ter sido, para muitos, motivo de pilherias. Cicer, em latim, significa “grão de bico”.
Cícero, cuja vida descrevemos, a primeira vez que conseguiu uma causa e tomou parte nos negócios públicos, foi instado pelos seus amigos a que abandonasse esse nome e tomasse outro. Ele, porém, respondeu com nobre altivez:
– Eu farei todos os esforços possíveis para fazer o nome de Cícero mais célebre do que os de Scauro e de Catulo 4.
Durante sua questura na Sicília, ofereceu aos deuses um vaso de prata 5, no qual fez gravar os seus dois
primeiros nomes: Marco Túlio. Porém, no lugar do terceiro, recomendou ao artista, por pilheria, que gravasse um grão de bico. Eis aí o que se conta a propósito do nome de Cícero.
II. Afirma-se que sua mãe deu-o à luz sem dores e sem trabalho: foi no terceiro dia das calendas novas 6, dia em que os magistrados de Roma fazem muitas preces e sacrifícios em intenção do imperador.
Assegura-se que um fantasma apareceu à sua ama e disse-lhe que o menino que ela amamentava seria o firme sustentáculo de Roma. Essas predições, que se costumam ordinariamente catalogar no rol dos
sonhos e das bobagens, Cícero, mal chegado à idade de se aplicar ao estudo, tomou a peito transformá-las em realidade. O talento de que era possuidor tornou-o célebre entre os seus camaradas, a ponto de os pais destes irem à escola para ver Cícero com os seus próprios olhos e testemunharem eles próprios tudo
quanto se dizia a respeito do seu engenho e da sua capacidade intelectual. Alguns destes, mais grosseiros,
censuravam seus filhos quando os viam, na rua, colocar Cícero honrosamente entre eles. Nasceu com
esta qualidade que constitui, segundo Platão, 7 a aptidão literária e filosófica: era capaz de abarcar todas
as ciências e não desdenhava de nenhuma espécie de estudo e de saber. Cedo, porém, toda a sua paixão
foi para a poesia. Existe ainda um pequeno poema em versos tetrâmetros 8, intitulado Pontius Glaucus, composto por ele em plena infância. À medida que avançava em idade, aperfeiçoava o talento pela
cultura, e conseguiu a fama de ser não só o melhor dos oradores romanos, mas também o melhor dos
seus poetas. O renome da sua eloquência subsiste ainda, não obstante as modificações consideráveis
introduzidas na língua latina. O grande número, entretanto, de excelentes poetas, aparecidos depois dele,
apagou e arruinou completamente a sua glória.
III. Ao concluir os primeiros estudos, tomou lições com Filon o acadêmico, um dos discípulos de
Clitomaco 9, do qual os romanos admiravam particularmente a eloquência e o caráter. Cícero
freqüentava, ao mesmo tempo, a casa de Múcio 10, grande homem de Estado e um dos mais ilustres
senadores. Nessa convivência, adquiriu um profundo conhecimento das leis. Serviu, durante algum
tempo, sob Sila, na guerra Mársica 11.
Depois, como visse a República afundar-se na guerra civil, e a guerra civil numa monarquia absoluta,
inaugurou uma vida de meditação e de estudo, travando conversações com os sábios gregos, aplicando-se
às ciências, até ao momento em que Sila se apossou do poder supremo e pôde dar ao governo uma
espécie de estabilidade.
Nesse tempo, Crisógono, liberto de Sila, pôs em leilão os bens de um homem que disse ter sido morto
em conseqüência da proscrição, e comprou-os ele mesmo pela importância de duas mil dracmas. Róscio,
filho e herdeiro do morto, indignado com este negócio iníquo, provou que tais bens valiam 250 talentos.
Sila, convencido do contrário, não se conteve: instigado por Crisógono, intentou contra Róscio um
processo em que o acusava de parricídio. Ninguém ousou socorrer o acusado: o pavor que a crueldade de
Sila inspirava afastou quantos estivessem em condições de defendê-lo. O rapaz, abandonado por todos, recorreu a Cícero. Cícero viu-se logo rodeado de seus amigos, que o estimulavam a aceitar uma causa que lhe oferecia oportunidade de adquirir glória como ele não encontraria jamais, nem mais bela nem
mais brilhante. Resolveu-se, pois, a defender Róscio e conseguiu salvá-lo. O sucesso lhe valeu a
admiração geral. Temendo, porém, a vingança de Sila, abandonou Roma e foi viajar pela Grécia. Fez crer que tomava tal resolução em virtude da sua saúde abalada. Com efeito, era magro, fraco e possuía um estômago delicadíssimo, não podendo comer muito tarde e tomando apenas pequeníssimas rações.
Possuía uma voz forte e sonora, porém dura e pouco flexível. E, como declamasse com muito calor e
muita veemência, atingindo, sem cessar, os tons mais altos, temia-se que sua saúde estivesse em perigo.
IV. Chegado a Atenas, tomou lições com Antíoco o Ascalonita: a doçura e a graça dos discursos desse filósofo o encantavam, se bem que não aprovasse as inovações por ele introduzidas nas doutrinas.
Antíoco já estava separado da nova Academia e da escola de Carneades – ou porque cedesse à evidencia
da razão, ou, como querem outros, porque uma espécie de ambição e desavenças com os discípulos de
Clitomaco e Filon o tivessem feito mudar de idéia e abraçar a maior parte dos dogmas do estoicismo.
Cicero amava a nova Academia: era a escola cujos escritos estudava de boa vontade. Projetava mesmo,
no caso em que fôsse obrigado a abandonar a advocacia e renunciar ao Fórum e aos empregos públicos,
retirar-se para Atenas, para aí viver uma vida tranqüila, toda entregue à filosofia.
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Ao ter, porém, conhecimento da morte de Sila e sentindo seu físico revigorado pelos exercícios, e que
sua voz, já bem formada, aliava a doçura à fôrça, correspondendo, assim, satisfatóriamente, à compleição
do seu corpo; instado pelos seus amigos nas cartas que lhe vinham de Roma e levado pelos repetidos
conselhos de Antíoco, decidiu-se a tomar parte nos negócios públicos. Antes, porém, quis formar, com
mais cuidado do que o havia feito, a sua eloqüência, como um instrumento necessário, e, ao mesmo
tempo, desenvolver a sua consciência política. Exercitava-se na composição e frequentava os retóricos
mais reputados. Foi por isso que passou algum tempo na Ásia e em Rodes. Acompanhou as lições dos
retóricos asiáticos Xenocles de Adramite, Denis de Magnésia e Menipo da Cária. Em Rodes, frequentou
o retórico Apolônio, filho de Molon, e o filósofo Posidônio. Apolônio não compreendia a língua romana:
pediu a Cícero que falasse em grego. Cícero concordou de boa vontade, crente de que assim os seus erros
seriam mais fàcilmente corrigidos. Ao declamar, o auditório, tomado de admiração, não se cansou de
louvá-lo. Apolônio, porém, ao ouvi-lo, não fez nenhum sinal de aprovação. E quando Cicero terminou o
discurso, ficou durante muito tempo a pensar, sem nada dizer. Como Cícero se ressentisse com seu
silêncio, Apolônio assim lhe falou:
– Cícero, eu te louvo e te admiro. Choro, -porém, sorte da Grecia, ao ver que as únicas vantagens que
no restavam, o saber e a eloqüência, vão, por teu intermédio passar para as mãos dos romanos.
V. Cícero, cheio de esperanças, preparou-se para ingressar nos negócios públicos. Um oráculo, porém,
abateu-lhe o entusiasmo. Ele havia perguntado ao deus de Delfos de que maneira poderia conquistar a
glória:
– Tomando por guia da tua vida – respondeu a pitonisa – o teu próprio sentimento e não a opinião dos
demais.
Chegado a Roma, aí se conduziu, nos primeiros tempos, com extrema reserva. Mostrava pouca vontade
de assumir imediatamente qualquer encargo. Por isso, todos se isolavam dele e motejavam dele com os
nomes injuriosos de grego e de escolar 12, termos habituais e familiares à mais vil populaça de Roma.
Mas a sua ambição natural e as exortações de seu pai e dos amigos o impeliram para o Foro.
Rapidamente colocou-se na primeira fileira, não por progressos lentos e necessários, mas por lances
brilhantes e rápidos, ultrapassando, em curto prazo, todos os seus rivais na advocacia.
Ao que se afirma, possuía ele os mesmos defeitos que Demóstenes apresentava na pronúncia e no
gesto. Mas as lições de Róscio, o comediante, e de Esopo, o ator trágico, o ajudaram a corrigí-los.
Conta-se que este Esopo representava o papel de Atreu, na cena em que este delibera a maneira de
vingar-se de Tieste, e como passasse diante dele, casualmente, um contínuo do teatro, no momento justo
em que a violência da paixão o pusera fora de si, assestou-lhe tal golpe com o cetro que o estendeu morto
ali mesmo. A graça da declamação emprestava à eloqüência de Cícero uma força persuasiva. Assim, ele
se ria dos oradores que não sabiam senão soltar tremendos gritos:
– É por fraqueza que eles gritam, – dizia ele – como os coxos montam a cavalo.
Essas finas anedotas, essas réplicas vivas, que lhe vinham amiúde, espontâneamente, davam muita
graça ao discurso e são próprias de um homem de espírito. Mas o uso excessivo que Cícero fazia delas
acabou por ferir muitas pessoas e dar ao orador uma reputação de malignidade.
VI. Nomeado questor numa época de crise, o destino apontou-lhe a Sicília. De inicio, começou a
desgostar os sicilianos, exigindo-lhes contribuições de trigo para enviar a Roma. Mais tarde, porém, ao
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terem ocasião de pôr à prova o seu zelo, a sua justiça e a sua bondade, deram-lhe testemunhos tais de
consideração, de estima e de respeito como nenhum magistrado romano em época alguma jámais os
conheceu. Vários rapazes das melhores famílias de Roma, havendo sido acusados de insubordinação e de
fraqueza no serviço militar, foram enviados à presença do pretor da Sicilia. Cícero advogou a sua causa
com grande brilho e conseguiu-lhes a absolvição.
Cheio de confiança em si próprio, após estes sucessos, regressava a Roma, quando lhe sucedeu em
caminho uma aventura interessante por ele mesmo referida. Ao atravessar a Campânia, encontrou um
distinto romano que tratava como amigo. Persuadido de que Roma estava cheia do seu nome,
perguntou-lhe o que lá se pensava dele e o que se dizia dos seus feitos.
– Oh! Cícero! Onde estiveste durante todo este tempo? – perguntou-lhe a personagem.
Cícero, no primeiro momento, perdeu toda a calma, ao constatar que a sua reputação em Roma ainda
estava escondida, como mergulhada num mar imenso, sem lhe ter proporcionado ainda uma sólida glória.
A sua reflexão diminuiu com a ambição. Percebeu que essa glória a que aspirava era um campo sem
limite, sem meta. Entretanto, o prazer de ouvir o elogio e o amor da glória foram, em toda a sua vida, a
sua paixão dominante e o impediram muitas vêzes de seguir, no seu modo de proceder, os sábios
conselhos da razão.
VII. Decidido a vencer, ao assumir os negocios do governo, achou vergonhoso que um homem de
Estado, cujas funções públicas não se exercem senão pelo conhecimento das pessoas, não se apressasse a
conhecer os seus concidadãos, tal como o artesão procura saber e conhecer minuciosamente o nome e o
emprego dos ferros e dos instrumentos de que deve utilizar-se no seu ofício. Acostumou-se, não somente
a reter os nomes das mais importantes figuras, mas ainda a saber os seus endereços na cidade, suas casas
no campo, seus amigos, seus vizinhos. Não existia na Itália uma só região da qual Cícero não pudesse
falar com conhecimento e mostrar, visitando-a, as terras e as casas dos seus amigos.
Suas posses eram modestas, mas suficientes para as despesas. Todos se admiravam de que não
cobrasse um vintém pelas causas que advogava. Esse desinteresse ele focalizou-o por ocasião da
acusação que produziu contra Verres 13. Verres havia sido pretor na Sicília e, no exercício do cargo,
cometera excessos revoltantes. Os sicilianos levaram-no à barra do tribunal. E Cícero fê-lo condenar, não
por falar contra ele mas, por assim dizer, por deixar de falar. Os pretores queriam salvar Verres:
procuraram protelar o processo, conseguindo adiamentos contínuos até ao último dia das audiências. Era
evidente que um dia não era bastante para o debate e que a sentença não poderia ser conseguida. Cícero
se levanta e diz que não se fazem necessários os debates: ouve as testemunhas, tira as conclusões e
obriga os juízes a se pronunciarem.
Recordam-se, entretanto, vários trechos que ele pronunciou no decorrer do processo. Os romanos
chamam verres (varão) ao porco que não é castrado. E, como um liberto chamado Cecílio, que passava
por ser um adepto da religião dos judeus 14, quisesse desviar a atenção dos sicilianos da marcha do
processo, Cícero perguntou:
– Que há de comum entre um judeu e um varão? 15
Verres tinha um filho moço, que passava por usar desonestamente da sua beleza física. Tendo Verres
classificado Cícero de efeminado, este respondeu:
– É essa uma censura que ele precisa fazer aos seus filhos, a portas fechadas.
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O orador Hortênsio 16 não teve coragem de defender Verres pessoalmente. Obteve-se dele, porém,
que estivesse presente no momento da fixação da multa. Como recompensa desta condescendência,
Hortênsia recebeu uma esfinge de marfim. Como Cícero lhe dirigisse algumas palavras, cujo sentido não
fosse bem claro, respondeu Hortênsio:
– Não sei adivinhar enigmas.
Ao que Cícero replicou:
– Entretanto, a esfinge está em teu poder.
VIII. Verres foi condenado e Cícero fixou a multa em 750 mil dracmas. Acusam-no de haver recebido
dinheiro para limitar a multa a essa módica quantia. Entretanto, quando foi nomeado edil, os sicilianos,
querendo testemunhar-lhe o seu reconhecimento, levaram-lhe da ilha vários ricos presentes. Cícero,
porém, não fez uso de nenhum desses presentes e não se aproveitou da boa vontade dos sicilianos a não
ser para conseguir a baixa no preço dos cereais. Cícero possuía em Arpinum uma bela casa de campo,
uma propriedade nos arredores de Nápoles e outra, do mesmo tamanho, perto de Pompéia. O dote de
Terência, sua mulher, era de 120 mil dinheiros e recebeu urna herança orçada em 90 mil. Com esta
fortuna, vivia honrada e sabiamente no meio dos elementos mais instruídos da sociedade grega e romana.
Era raro sentar-se à mesa antes do pôr-do-sol, menos em virtude das suas ocupações do que da debilidade
do seu estômago. Para a sua saúde, usava de precauções extremas. Fazia diariamente um número certo da
fricções e caminhadas. Conseguiu, com este regime, fortalecer seu temperamento, tornando-se são e
vigoroso, capaz de suportar as penosas e rudes lutas do trabalho.
Entregou a seu irmão a casa paterna e se alojou no Palatino 17, a fim de que seus clientes não tivessem
o incômodo de procurá-lo longe. Todas as manhãs batia à sua porta tanta gente como à porta de Crasso e
Pompeu, os mais honrados romanos e os de maior renome: um, por causa das suas riquezas; o outro, pela
autoridade de que gozava no exercito. O próprio Pompeu procurava Cícero, e o apoio que lhe emprestou
o orador foi-lhe utilíssimo para aumentar o podar e a glória.
IX. Quando Cícero pleiteava a pretoria, várias pessoas de prestígio se encontravam na sua frente:
todavia, foi ele o nomeado em primeiro lugar. As sentenças que proferiu durante a sua magistratura
granjearam-lhe uma sólida reputação de justiça e probidade. Licínio Mácer, homem de valor próprio e,
além disso, sustentado inteiramente por Crasso, foi acusado de crime de peculato diante de Cícero.
Estribado na confiança que lhe dava a sua riqueza e no prestígio dos amigos, era tal a convicção de que
triunfaria daquela situação que, quando os juízes começaram a proceder à votação, correu à sua casa,
mandou cortar o cabelo, vestiu uma toga branca, disposto a retornar ao Fórum. Foi quando Crasso se
dirigiu ao seu encontro e lhe avisou que havia sido condenado por unanimidade de votos. O choque
sofrido por Licínio foi tão forte que morreu subitamente. Essa sentença despertou muita simpatia por
Cícero, em virtude da firmeza com que se conduzira durante os debates. Vatinio, homem rude, que nos
seus discursos tratava muito friamente os juízes, tinha o pescoço cheio de escrófulas. Aproximou-se um
dia da tribuna de Cícero e perguntou-lhe alguma coisa. Como o pretor custasse a lhe responder,
necessitando de tempo para refletir, assim falou Vatinio:
– Se eu fosse pretor, não trepidaria em responder.
Ao que Cícero retrucou, voltando-se para o seu interlocutor:
– Também, não possuo um pescoço tão grande como tu. 18
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Dois ou três dias antes de expirar o seu cargo, levou-se Manílio à sua presença, acusado de peculato.
Manílio tinha a seu favor a simpatia do povo, que acreditava estar ele disposto a defender a causa de
Pompeu, de quem era amigo. O acusado perguntou se lhe podiam conceder alguns dias de prazo para
responder aos quesitos. Cícero notificou-o para o dia seguinte. Esse fato irritou bastante o povo, pois a
tradição estabelecia, entre os pretores 19, o prazo de dez dias pelo menos aos acusados. Os tribunos
levaram Cícero, por isso, diante da assembléia do povo e o acusaram de ter cometido um ato arbitrário.
Cícero pediu que o ouvissem.
– Tendo sempre tratado os réus – disse – com toda a equidade e humanidade, de acordo com a lei, eu
me julgaria culpado se não houvesse tratado Manílio da mesma forma que os outros. Dei-lhe
propositadamente o último dia de que ainda podia dispor, do meu cargo. Efetivamente, se tivesse enviado
a outro pretor o julgamento desse processo, não lhe poderia ter prestado nenhum serviço.
Essa justificação produziu no animo do povo uma transformação profunda. Cícero foi alvo de elogios
e, ao mesmo tempo, convidado a defender ele próprio a causa de Manílio. Aceitou-a de boa vontade,
sobretudo em atenção a Pompeu, que se achava ausente.
X. Contudo, o partido dos nobres não se mostrou menos entusiasmado do que o povo para elevá-lo ao
consulado. O interesse publico reuniu, nessa ocasião, todos os elementos de que dispunha e pela seguinte
razão. As modificações operadas por Sila no governo, que a princípio foram encaradas como audaciosas,
pareciam, por efeito do tempo e do hábito, ter tomado um aspecto de estabilidade, sem desagradar à
massa popular. Homens, porém, movidos por um espírito de cupidez notável, cegos quanto ao bem geral,
procuravam agitar e subverter tal estado de coisas. Pompeu se achava ocupado com a guerra contra os
reis do Ponto e da Armênia. Ninguém em Roma possuía força bastante para deter os faciosos. Seu chefe
era Lúcio Catilina, tipo audacioso e empreendedor, de um caráter que sabia se adaptar a todas as
circunstâncias. A todas as culpas que lhe imputavam, acrescia o incesto com sua própria filha e o
assassínio do seu irmão. Temendo que fosse levado à barra da justiça em virtude deste ultimo crime, ele
se empenhara com Sila para incluir o irmão no número dos proscritos, como se ainda fosse vivo. Os
celerados de Roma cerraram fileiras em torno do chefe. E, não contentes em comprometer mutuamente a
sua fé com os juramentos ordinários, degolaram um homem e lhe comeram toda a carne. 20
Catilina havia corrompido grande parte da juventude romana, prodigalizando-lhe todos os prazeres,
banquetes, mulheres, nada poupando para que tudo saísse a seu contento. Já toda a Etrúria e a maior parte
dos povos da Gália Cisalpina estavam dispostos à revolta. E Roma se encontrava ameaçada de um
movimento subversivo, em virtude da desigualdade reinante entre as fortunas, causa da ruína dos
cidadãos mais distintos por seu nascimento e pela sua coragem. Estes, consumindo suas riquezas em
espetáculos, festins, brigas pelos cargos, construções de edifícios, tinham visto passar seus bens para as
mãos de homens abjetos e desprezíveis. Tudo havia chegado a tal ponto que, para derrubar o governo,
não seria preciso mais do que um leve impulso dado pelo primeiro aventureiro que aparecesse.
XI. Seja como for, Catilina, a fim de assegurar à sua empresa um sólido e firme ponto de apoio,
enfileirou-se entre os candidatos ao Consulado. Fundava ele suas grandes esperanças em um colega: Caio
Antônio 21, homem por si só incapaz de chefiar um bom ou mau partido, mas que se tornaria um forte
ponto de apoio para um colega enérgico. Os bons cidadãos, prevendo o perigo que ameaçava a
República, levaram Cícero ao consulado, quase por unânimidade. O povo escolheu Cícero. Catilina foi
rejeitado e Cícero nomeado cônsul com Antônio. De todos os candidatos, Cícero era, portanto, o único
nascido de um pai simples cavaleiro e não senador.
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XII. O povo ignorava ainda as conspirações de Catilina. Cícero, desde a sua entrada no Consulado 22,
viu-se assoberbado de negócios difíceis: era o prelúdio dos combates que iria travar em seguida. De um
lado, os que haviam sido excluídos da magistratura pelas leis de Sila e que, sem serem pouco poderosos
nem pouco númerosos, se apresentaram para disputar os cargos: nos seus discursos ao povo eles se
levantavam – tão cheios de verdade quanto de justiça – contra os atos tirânicos de Sila; mas empregavam
mal seu tempo para realizar mudanças na República. De outro lado, os tribunos do povo propunham leis
que seguramente subverteriam a ordem : reivindicavam o estabelecimento de dez comissários revestidos
de um poder absoluto e que, dispondo como senhores da Itália, da Siria e das novas conquistas de
Pompeu, tivessem o poder de vender as terras públicas, de instaurar os processos que desejassem, de
banir à vontade, de fundar colônias, de usar dos dinheiros do Tesouro Público, de conservar e levantar
tropas a seu talante. Essas leis eram apoiadas pelas pessoas mais consideradas de Roma e, à frente delas,
Caio Antônio, o colega de Cícero que esperava vir a ser um dos decênviros. Acredita-se que ele não
ignorasse os planos sediciosos de Catilina e não desgostaria de vê-los vitoriosos, pois se encontrava
crivado de dívidas. É isso, sobretudo, o que horroriza os bons cidadãos. Cícero, para prevenir este perigo,
fez dar a Antônio o governo da Macedônia e recusou para ele próprio o das Gálias, que lhe haviam
destinado. Tendo prestado esse importante serviço a Antônio, Cícero esperou ter nele uma espécie de
ator assalariado, que representaria, de acordo com ele o segundo papel num drama em que se tratasse da
salvação da pátria. Conquistado ou domesticado Antônio, Cícero sentiu mais valentia e força para se
erguer contra os que propunham inovações. Combateu no Senado a nova lei 23 e soube amedrontar tão
bem os que a queriam votar, que estes não tiveram uma única palavra para lhe responder. Os tribunos da
plebe fizeram novas tentativas e notificaram os cônsules para comparecerem perante o povo. Mas Cícero
não se deixou assustar: fêz-se seguir pelo Senado ao Fórum e, subindo à tribuna, falou com tanto poder e
brilho que a lei foi rejeitada. Além do mais, tirou aos tribunos toda esperança de sucesso nos outros
projetos, tão completamente os havia vencido pela eloqüência!
XIII. Cícero foi, de todos os oradores, o que soube fazer sentir melhor aos romanos como o encanto da
eloqüência amplifica o bem e como o direito é invencível, quando sustentado pelo talento e pela palavra!
Mostrou-lhes como o homem de Estado que quer governar bem deve, na sua conduta pública, preferir
sempre o que é honesto ao que engana; mas que deve também, nos seus discursos, temperar a doçura da
linguagem com o rigor dos atos que propõe. Nada prova melhor a graça da sua eloqüência do que o que
fez no consulado, em relação aos espetáculos. Até então, os cavaleiros romanos haviam sido confundidos
nos teatros com a multidão dos espectadores e se sentavam misturados com o povo. Marco Oton 24,
porém, pretor, separou, como prova de distinção, os cavaleiros da multidão e lhes determinou lugares
próprios que eles conservam ainda hoje. O povo sentiu-se ofendido com essa medida. E, quando Oton
apareceu no teatro foi acolhido com uma vaia e assobios. Os cavaleiros, pelo contrário, o receberam com
os mais vivos aplausos. O povo redobrou a assuada e os cavaleiros as ovações. Daí, a reciprocidade das
injúrias e o teatro cheio de confusão. Cícero, informado da desordem, transportou-se imediatamente ao
teatro e se fez seguir do povo ao templo de Belona: aí dirigiu aos amotinados severas e persuasivas
admoestações, e o povo, retornando ao teatro, aplaudiu vivamente Oton e disputou com os cavaleiros
quem lhe rendia mais honras e homenagens.
XIV. Entretanto, a conspiração de Catilina, que a princípio havia sido dominada, retomou sua audácia.
Os conjurados reuniram-se e decidiram meter mãos à obra ainda mais arrojadamente, antes que Pompeu –
que se dizia a caminho, seguido do seu exercito – voltasse a Roma. Os que mais insuflavam Catilina eram
os antigos soldados de Sila, espalhados por toda a Itália e disseminados entre as cidades etruscas: esses
homens sonhavam, uma vez ainda, com o roubo e a pilhagem das riquezas que tinham sob os olhos.
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Tendo tomado Málio por chefe, um dos generais que haviam servido com honra sob Sila, entraram na
conjuração de Catilina e se concentraram em Roma para o apoiar nas eleições, pois Catilina se fizera
pretendente, pela segunda vez, ao Consulado, resolvido a matar Cícero no tumulto dos comícios.
Tremores de terra, raios, aparições de fantasmas, pareciam ser advertências do céu a respeito das
conspirações que se tramavam. Recebiam-se também, da parte dos homens, indícios verdadeiros, mas
que não bastavam ainda para abater uma personagem tão considerável pelo poder e pela nobreza como o
era Catilina. Eis por que Cícero, tendo adiado o dia dos comícios, intimou Catilina a comparecer perante
o Senado para interrogá-lo a respeito dos rumores que corriam. Catilina, persuadido de que havia no
Senado mais do que um que desejava a revolução, e querendo também elevar-se aos olhos dos seus
cúmplices, respondeu a Cícero com extrema arrogância:
– Que mal faço eu se, ao ver dois corpos, um com cabeça, mas magro e esgotado, e outro sem cabeça,
mas robusto e grande, quero pôr uma cabeça neste último? 25
Cícero compreendeu que esse enigma era referente ao Senado e ao povo, e o seu pavor não fez mais do
que aumentar. Pôs uma couraça e se fez escoltar da sua casa ao Campo de Marte, pelos principais
cidadãos e por um grande número de moços. Entreabriu propositadamente sua túnica por debaixo das
espáduas e deixou à mostra a couraça, dando assim a entender aos presentes que havia grande perigo.
Vendo isso, o povo, indignado, acercou-se dele. Enfim, Catilina fracassou mais uma vez e a votação foi
favorável a Silano e Murena, que foram nomeados cônsules.
XV. Tendo os soldados da Etrúria, pouco tempo depois, se reunido para ficar às ordens de Catilina ao
primeiro sinal, e aproximando-se o dia fixado para a execução da conspiração, três das primeiras e mais
poderosas personagens de Roma, Marco Crasso, Marco Marcelo e Cipião Metelo, foram, na calada da
noite, à casa de Cícero e bateram-lhe à porta. Chamando o porteiro, pediram-lhe que fosse acordar Cícero
e anunciar-lhe a sua presença. Eis aqui do que se tratava. O porteiro de Crasso levara a seu senhor, ao
sair da mesa, cartas que haviam sido entregues por um desconhecido e dirigidas a diferentes pessoas:
entre elas havia uma para Crasso, mas sem assinatura. Crasso só leu a que trazia o seu endereço. Como
lhe houvessem dito que Catilina devia, em breve, realizar uma carnificina em Roma e que lhe pediam
que abandonasse a cidade, ele não teve tempo de abrir as demais. E, ou porque temesse o perigo que
ameaçava Roma, ou porque procurasse se limpar das suspeitas que fizeram nascer as suas ligações com
Catilina, o certo é que saiu a procurar Cícero imediatamente. O cônsul, após haver deliberado com eles,
convocou o Senado de manhã cedo, remeteu as cartas aos seus respectivos destinatários e os convidou a
lê-las em voz alta. Todas revelaram da mesma forma a existência da conspiração. Mas, depois que
Quinto Arrio, antigo pretor, denunciou os ajuntamentos tumultuosos que se faziam na Etrúria, e que se
soube, por outras denúncias, que Málio, à frente de um exército considerável, estava ao redor das cidades
dessa província, para aí esperar os acontecimentos que se desenrolariam em Roma, o Senado votou um
decreto pelo qual passava o govêrno às mãos dos cônsules e lhes ordenava que tomassem tôdas as
medidas que julgassem convenientes para o bem do Estado e a salvação da República. É uma medida que
o Senado raramente decide tomar e somente a toma quanto teme algum perigo.
XVI. Cícero, investido desse poder, confiou a Quinto Metelo os negocios exteriores e se encarregou
ele próprio dos da cidade. Em geral, só caminhava pelas ruas de Roma escoltado por grande número de
cidadãos e, quando ia ao Fórum, o seu lugar se enchia logo da multidão que o acompanhava. Catilina,
impaciente com uma espera tão longa, resolveu correr ao campo de Málio. Antes, porém, de deixar
Roma, encarregou Márcio e Cetego de irem, pela manhã, armados de punhais, à porta de Cícero e,
fingindo saudá-lo, atirar-se sobre ele e matá-lo. Uma mulher de nascimento ilustre, Fúlvia, passou a noite
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na casa de Cícero para inteirá-lo do que se forjava e recomendar-lhe que ficasse em guarda contra
Cetego. Os assassinos, de manhã cedo, para lá se dirigiram. E como lhes fosse recusada permissão para
entrar, lamentaram-se em altos brados e fizeram grande barulho à porta, o que veio aumentar mais ainda
as suspeitas. Assim que saiu, Cícero convocou o Senado no templo de Júpiter Stator, como chamam os
romanos a esse deus que se encontra à entrada da rua sagrada, na subida para o Palatino. Catilina aí
compareceu com os demais senadores, como se quisesse justificar-se das acusações que lhe faziam. Mas
nenhum senador quis colocar-se perto dele. Abandonaram por completo o banco em que Catilina se
sentava. Todavia, começou a falar. Sua voz, porém, não conseguiu dominar os clamores. Por fim, Cícero
se levanta e ordena-lhe que abandone a cidade.
– Uma vez que empregamos no govêrno, – disse Cícero, -, eu a palavra e tu as armas, é preciso que um
muro se erga entre nós.
Catilina saiu rapidamente de Roma, à frente de trezentos homens armados. Fazia-se preceder – como
se fora um comandante militar – de litores com seus feixes. Carregavam-se diante dele as insígnias.
Marchou, dessa maneira, para o campo de Málio. Aí após a realização de uma assembléia de vinte mil
homens mais ou menos, saiu pelo país, captando a simpatia das cidades e revoltando-as. Era uma fórmula
de declaração de guerra. Antônio foi enviado para combatê-lo.
XVII. Os cidadãos corrompidos por Catilina, que ficaram em Roma, foram convocados e encorajados
por Cornélio Lêntulo, apelidado Sura, homem de família distinta, mas cuja conduta infame e cujos
deboches provocaram a sua expulsão do Senado. Ocupava, então, a pretoria pela segunda vez, como é do
uso entre os que querem restabelecer a sua dignidade de senadores. Quanto ao apelido de Sura, conta-se
ter sido o seguinte o motivo pelo qual lhe foi dado. Sendo questor no tempo de Sila, consumiu ele, em
despesas loucas, grande parte dos dinheiros públicos. Sila, irritado, pediu-lhe contas da sua administração
em pleno Senado. Lêntulo, com um ar de indiferença e de desdém, disse que não tinha contas a prestar,
mas que apresentava a sua perna: é o que fazem as crianças quando cometem qualquer falta no jogo da
péla. Eis o fato que lhe acarretou o apelido Sura, que em latim quer dizer perna. De outra feita, citado em
juízo, e tendo corrompido alguns dos juízes, só foi absolvido pela maioria de dois votos.
– Perdi – exclamou Sura – o dinheiro que dei a um dos que me absolveram, pois me bastava a maioria
de um voto.
Um homem de tal caráter foi logo convencido por Catilina; e os falsos adivinhos, os charlatães
acabaram de corrompê-lo com as vãs esperanças com que o embalavam. Anunciaram-lhe predições e
oráculos à sua maneira, tirados falsamente dos livros sibilinos 26 e que afirmavam que era dos destinos
de Roma possuir três Cornélios por chefes.
– Dois, – asseguraram-lhe, – já preencheram os seus destinos: Cina e Sila: tu és o terceiro que a Fortuna
chama à monarquia. Põe, pois, a tua alma na empresa e não deixes escapar, como Catilina pelos seus
adiamentos, a ocasião favorável.
XVIII. Lêntulo só formulava vastos e temerosos projetos. Resolvera massacrar o Senado inteiro e
tantos cidadãos quantos pudesse. Atearia fogo na cidade e só pouparia os filhos de Pompeu. Propunha-se
roubá-los e retê-los na sua companhia, como dois reféns que pudessem facilitar as negociações de paz
com seu pai. Corria já um rumor por toda parte, com visos de verdade, de que Pompeu regressava da sua
expedição. A execução da conspiração estava marcada para a noite das Saturnais 27. Haviam já
amontoado e escondido, na casa de Cetego, espadas, estopas, enxofre. Designaram cem homens e alguns
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quarteirões da cidade, atribuídos pela sorte a cada um desses homens, a fim de que, atiçado o fogo ao
mesmo tempo em vários pontos, a cidade fosse em um instante presa das chamas. Outros deviam cortar
os condutos d’água, colocar-se ao pé das fontes e matar os que delas quisessem se acercar.
Enquanto tomavam tais disposições, encontravam-se em Roma dois deputados dos Alóbrogos 28 ,
povo duramente tratado pelos romanos e que suportava impacientemente a sua dominação. Lêntulo,
persuadido de que estes dois homens podiam ser-lhe úteis para agitar a Gália e fomentar a revolta, fê-los
entrar na conspiração e lhes deu cartas para o Senado do seu país, nas quais prometia a liberdade aos
gauleses. Deram-lhes outras para Catilina pedindo-lhe que se apressasse em libertar os escravos e
marchasse sobre Roma. Fizeram partir, com os Alóbrogos, um certo Tito, o Crotoniata, a quem fizeram
portador de cartas para Catilina. Todas essas diligências, porém, desses homens levianos, que não
falavam nunca sobre os seus negócios, a não ser quando embriagados e entre mulheres, Cícero as seguia
com uma vigilância, um sangue-frio e uma prudência extremos. Ele havia, entretanto, espalhado pela
cidade, grande número de pessoas fiéis, para espiar com cuidado e despistar em seu proveito tudo quanto
se passava. Cícero chegava até a conferenciar secretamente com várias pessoas que os conjurados
acreditavam ser seus cúmplices e que o informavam das relações que estes mantinham com os
estrangeiros. De acordo com esses dados, Cícero colocou pessoas da sua confiança em emboscada
durante a noite. Entrevistou-se secretamente com os dois Alóbrogos e fez prender o Crotoniata e
apreender as cartas de que era portador.
XIX. Cícero, desde cedo, convocou o Senado no templo da Concórdia e leu as cartas apreendidas e
ouviu as testemunhas. Júnio Silano declarou que ouvira Cetego dizer que já degolara três cônsules e
quatro pretores. Pison, personagem consular, prestou um depoimento parecido, e Caio Sulpício, um dos
pretores, enviado à casa de Cetego, aí encontrou grande quantidade de dardos e de armas, sobretudo
espadas e punhais recentemente aguçados. Enfim, falou o Crotoniata, sob a promessa de impunidade que
lhe fez o Senado se quisesse tudo confessar. E Lêntulo, convencido por Cícero, demitiu-se
imediatamente do seu cargo de pretor, deixou no próprio Senado a sua toga de púrpura e tomou outra
mais conforme com a sua presente situação. Ele e seus cúmplices foram confiados à guarda dos pretores,
cujas casas lhes serviram de prisão. Como já fosse tarde e o povo esperasse em massa à porta, Cícero
saiu e comunicou aos cidadãos o que se passara. O povo o conduziu até a casa de um dos seus amigos,
seu vizinho, porque a sua estava ocupada pelas mulheres romanas que aí celebravam os sagrados
mistérios da deusa que se chamava, em Roma, a Boa-Deusa, e, na Grécia, Ginecia. Todos os anos a
mulher, ou a mãe do cônsul efetua, em sua casa, um sacrifício a essa divindade, em presença das vestais
29.
Cícero, ao entrar nessa casa, só tendo consigo muito poucas pessoas, refletiu sobre a conduta que devia
ter para com os conjurados. A doçura do seu caráter e o temor de que o acusassem de haver abusado do
poder que lhe outorgaram, punindo com o máximo rigor homens de tão nobre nascimento e que tinham
em Roma amigos poderosos, levavam-no a vacilar quanto à pena que merecia a enormidade das suas
culpas. Por outro lado, se os tratasse com doçura, fremia lembrando-se do perigo a que estaria exposta a
cidade, pois os conjurados, longe de se acalmarem se se lhes infligisse qualquer pena mais branda que a
morte, não fariam senão atirar-se com mais audácia ainda do que nunca a todos os crimes, aliando à sua
antiga perversidade o ressentimento novo por essa injúria. E ele próprio passaria por um covarde, aos
olhos do povo, que já não possuía uma bela idéia da sua valentia.
XX. Enquanto Cícero flutuava nessa incerteza, as mulheres que realizavam o sacrifício são
testemunhas de um prodígio. Do fogo do altar que parecia quase extinto lançou-se, de repente, do meio
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das cinzas e das cascas queimadas, uma flama brilhante. O clarão dessa flama assustou os presentes. As
virgens sagradas, porém, aconselharam Terência, mulher de Cícero, a ir procurar seu marido
imediatamente e forçá-lo a apressar a execução, sem perda de tempo, das resoluções tomadas para a
salvação da pátria, assegurando-lhe que a deusa havia feito flamejar aquela luz como um presságio de
segurança e de glória para Cícero. Terência, que, de resto, não era de caráter fraco nem tímido; que
possuía mesmo ambição e, como disse o próprio Cícero, partilhava mais com o marido o zelo pelos
negócios públicos do que lhe comunicava os negócios domésticos, foi levar-lhe as palavras das vestais e
o incitou vivamente contra os conjurados. A mesma coisa fizeram Quinto, irmão de Cícero e Públio
Nigídio, seu companheiro de estudos de filosofia, homem cujos conselhos ele escutava, muitas vezes,
sobre os mais importantes negócios do governo.
No dia seguinte, deliberou-se, no Senado, sobre a punição dos conspiradores. Silano foi convidado a
falar em primeiro lugar e propôs que eles fossem conduzidos à prisão pública, para aí serem punidos com
a pena capital. Todos os que falaram depois adotaram a sua opinião, até que chegou a vez de Caio César
30, o que depois foi ditador. César era ainda jovem e começava, naquele tempo, a lançar os fundamentos
do seu grande futuro. Já mesmo, por suas astúcias políticas e por suas esperanças, abria o caminho que o
conduziu enfim a trocar por uma monarquia o governo de Roma. Ninguém se apercebia disso. Só Cícero
mantinha grandes suspeitas contra ele mas nenhuma prova suficiente para convencê-lo. Afirmam alguns
que Cícero atingia o momento de confundi-lo, mas que César teve a habilidade de escapar-se. Pretendem
outros que Cícero negligenciou e rejeitou mesmo, de propósito, as provas que possuía da sua
cumplicidade, porque temia o seu poder e o grande número de amigos que o sustentavam. Todos estavam
persuadidos de que os acusados seriam envolvidos na absolvição de César, bem antes do que César no
seu castigo.
XXI. Quando chegou a sua vez de opinar, César levantou-se e declarou que não estava de acordo em
que se punissem os conjurados com a pena de morte.
– É preciso – afirmou – confiscar seus bens e colocar suas pessoas nas cidades da Itália que Cícero
deverá escolher, para os ter a ferros até a inteira derrota de Catilina.
Esse voto, mais suave que o primeiro, e sustentado com toda a eloqüência por César, recebeu ainda um
grande peso do próprio Cícero, que, estando de pé, discutiu os dois votos e alegou fortes razões, primeiro
em favor do de Silano, depois em favor do de César. Seus amigos, que encontraram na opinião de César
o interesse de Cícero, porque, se deixasse viver os culpados, teria que temer menos censuras, adotaram o
último voto, de preferência ao primeiro. O próprio Silano voltou ao seu primitivo pensamento e explicou
que não pretendera a pena de morte porque encarava a prisão como o máximo suplício para um senador
romano.
O primeiro que combateu o voto de César foi Lutácio Catulo; Catão 31 falou depois de Lutácio, e,
insistindo com força sobre as suspeitas que havia contra César, encheu o Senado de tanta indignação e
ousadia, que a sentença de morte foi, afinal, pronunciada contra os conjurados. Quanto à confiscação dos
bens, César a ela se opôs, alegando que não era justo rejeitar o que seu voto continha de humano para só
adotar a sua disposição mais rigorosa. Como a maioria se declarasse abertamente contra o seu voto,
apelou para os tribunos, que recusaram interceder. Cícero, porém, tomou o partido mais brando e
abandonou a questão do confisco dos bens.
XXII. À frente dos senadores, Cícero foi à prisão dos condenados, pois não tinham sido encarcerados
em uma mesma casa: estavam confiados à guarda dos pretores. Cícero se dirigiu primeiro ao Palatino,
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onde estava Lêntulo, que ele mandou conduzir pela rua sagrada e através do Fórum. As principais figuras
da cidade cerravam-se em torno do cônsul e lhe serviam de guarda. O povo, numa imensa multidão,
seguia em silêncio, trêmulo de horror ao pensar que se preparava a execução. Os moços, sobretudo,
assistiam a esse espetáculo com uma admiração misturada de terror, como nos mistérios sagrados que
celebrava a nobreza pela salvação da pátria. Quando Cícero atravessou a praça e chegou à prisão,
entregou Lêntulo ao carrasco e ordenou que fosse executado. Conduziu em seguida Cetego e cada um
dos outros sucessivamente, fazendo-os executar. Cícero via, entretanto, na praça, vários cúmplices da
conspiração que se haviam reunido e que, ignorando o que se passava, esperavam a chegada da noite
para arrebatá-los à prisão, julgando-os ainda com vida. Cícero gritou-lhes:
– Eles viveram!
E a maneira de falar de que se servem os romanos que querem evitar palavras funestas, para não dizer:
Eles morreram.
A noite tombava. Cícero atravessou o Fórum para retornar à casa, não mais em meio de um povo
silencioso e que o escoltava na melhor ordem possível, mas rodeado de uma multidão de cidadãos que o
cobriam de aclamações e de aplausos e que o chamavam de salvador, de fundador de Roma. As ruas
estavam iluminadas de lâmpadas e tochas colocadas diante de cada porta. As mulheres iluminaram
também o alto dos tetos em homenagem a Cícero e para contemplá-lo subindo com o seu majestoso
cortejo de patrícios, cuja maioria havia tomado parte em guerras importantes, entrado em Roma em
carros de triunfo, ou conquistado para o império uma vasta extensão de terras e de mares. Marchavam,
confessando entre si que, se o povo romano devia às vitorias dos generais contemporâneos ouro e
dinheiro, ricos despojos e a condição de grande potência, Cícero fôra o único que lhe dera a segurança e
a salvação, afastando da pátria um perigo espantoso. O admirável, em tudo isso, não foi que tivesse
prevenido a execução da conspiração e mandado punir os culpados, mas que tivesse sabido sufocar, pelos
meios menos violentos, a mais vasta conspiração que jamais se formara em Roma, extinguindo-a sem
sedições e sem perturbações. Com efeito, a maioria dos que se haviam agrupado em torno de Catilina, ao
saberem do suplício de Lêntulo e de Cetego, abandonaram seu chefe, e este mesmo, tendo combatido
contra Antônio com os que lhe ficaram fiéis, foi derrotado e pereceu, assim como todo o seu exército.
XXIII. Não obstante, havia pessoas que criticavam a conduta de Cícero e se preparavam para fazê-lo
arrepender-se. À sua frente estavam César, Metelo e Béstia, – um, pretor, e os outros dois tributos,
designados para o ano seguinte. Quando entraram em ação, restavam ainda alguns dias a Cícero de
permanência no consulado. Não lhe permitiram, pois, falar ao povo e puseram bancos na tribuna a fim de
impedir que ele assomasse nela. Deixaram-lhe apenas a liberdade de comparecer, se assim o quisesse,
para se demitir do cargo e abandoná-lo em seguida. Cícero acedeu e subiu à tribuna como se fôra para só
pronunciar o juramento. Fez-se um profundo silêncio. Mas, em lugar do juramento da praxe, Cícero
pronunciou outro em tom completamente novo e que não convinha senão a si próprio. Jurou que salvaria
a pátria e conservaria o império. Todo o povo repetiu, após ele o mesmo juramento. César e os tribunos,
irritados com esse gesto, maquinaram contra Cícero outras intrigas. Propuseram, principalmente, uma lei
que chamava Pompeu com as suas tropas, contando destruir assim o poder quase absoluto de Cícero.
Felizmente, para Cícero e para Roma, Catão era então tribuno, e, como possuísse uma autoridade igual à
de seus colegas, com uma maior consideração, fez oposição aos decretos de César. Catão viu facilmente
o momento de satisfazer os seus desejos e de tal forma exaltou em seus discursos ao povo o consulado de
Cícero, que a este se concederam as maiores honras jamais concedidas a nenhum romano, dando-se-lhe o
nome de pai da pátria, título honorífico que teve a glória de haver sido o primeiro a possuir, e que Catão
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lhe conferiu em presença de todo o povo.
XXIV. Cícero gozou da maior autoridade em Roma. Tornou-se, porém, odioso para muita gente, não
que praticasse alguma ação má, mas porque geralmente chocava o fato de elogiar-se ele próprio, exaltar a
glória do seu consulado. Não ia nunca ao Senado, às assembléias populares e aos tribunais que não
tivesse na boca os nomes de Catilina e de Lêntulo. Chegou mesmo a encher com os seus próprios elogios
todos os livros e escritos que compunha. E a sua eloqüência, tão cheia de doçura e de graça, tornava-se
enfadonha e fatigante para o auditório. Essa afetação importuna era como uma doença fatal inoculada na
sua pessoa. Todavia, permaneceu puro, apesar dessa ambição desmedida, de todo sentimento de inveja a
respeito dos outros. Prodigalizava louvores não só aos grandes homens que o haviam precedido, mas
também aos seus contemporâneos, como se vê nos seus escritos. Lembram-se também dele várias
palavras caraterísticas. Ele dizia, por exemplo, de Aristóteles, que era um rio em que rolava ouro em
fortes ondas, e, dos diálogos de Platão, que, se Júpiter quisesse falar, seria aquele o seu estilo.
Costumavam chamar a Teofrasto “a sua delícia”. Como lhe perguntassem; certa vez, qual era dentre os
discursos de Demóstenes o que achava mais belo, respondeu: “O mais longo”. Entretanto, alguns dos que
se dizem fiéis zeladores da memória de Demóstenes, lhe censuraram por haver escrito, numa carta a um
dos seus amigos, que Demóstenes, nos seus discursos, provoca algumas vezes o sono. Esses censores,
entretanto, parecem não se lembrarem dos admiráveis elogios que ele fez a Demóstenes em várias
passagens das suas obras, e de que aos discursos em que trabalhou com mais cuidado, os que pronunciou
contra Antônio, deu-lhes Cícero o nome de Filípicas. 32
Dentre todos os oradores e filósofos célebres do seu tempo, não houve um só que não tivesse a sua
fama acrescida pelos louvores que Cícero espalhava em seus discursos e escritos. Apoiou com sucesso,
junto a César já ditador, a Cratipo, o peripatético, com o fim de lhe conseguir o direito de cidadania
romana. Obteve também, do Areópago, um decreto pelo qual se lhe pedia que ficasse em Atenas, para aí
instruir os moços, sendo ele como era um dos ornamentos da sua cidade. Há cartas de Cícero a Herodo e
outras a seu filho, em que o exorta a tomar as lições de Cratipo. Censura no retórico Górgias o haver
inspirado a seu filho o gosto pelos prazeres, inclusive os da mesa, e recomenda que se abstenha de
qualquer relação com ele É essa, talvez, a única carta de Cícero, além de uma outra a Pelops de Bizâncio,
que foi escrita em tom amargo. Mas ele tinha razão de se queixar de Górgias, se, de fato, este era
realmente tão vicioso e tão corrompido como parecia ser. Quanto à carta dirigida a Pelops, com estreiteza
de ânimo e com ambição pueril, queixava-se da sua negligência em não lhe haver conseguido, da parte
dos bizantinos, certos títulos honoríficos.
XXV. É sem dúvida à sua ambição que se devem atribuir essas misérias, assim como a falta que
cometeu, muitas vezes, de sacrificar toda a conveniência à reputação do bem-dizer. Munácio 33, que
Cícero defendera e conseguira absolver, começou a perseguir Sabino, um dos amigos do orador. Cícero
ficou tão irritado que chegou ao ponto de dizer
– Pensas, então, Munácio, que é à tua inocência que deves o fato de teres sido absolvido, e não a mim,
que, com a minha eloqüência, ofusquei a luz aos olhos dos juízes?
Cícero fez, certa vez, da tribuna, um elogio a Marco Crasso, tendo sido muito ovacionado e, pouco
tempo depois, fez, ao mesmo uma censura amarga.
– Não foi neste mesmo lugar, – lhe disse Crasso, que me elogiaste há poucos dias?
– Sim, – respondeu-lhe Cícero, – eu queria experimentar o meu talento num tema ingrato.
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De outra vez, Crasso dissera que nenhum dos Crasso em Roma tinha vivido mais de sessenta anos. Em
seguida porém, se retratou
– Em quem pensava eu – disse – quando fiz tal afirmação?
– Tu sabias, – respondeu Cícero, – que os romanos ouviriam isso com prazer e quiseste fazer-lhes a
corte.
Tendo dito Crasso que apoiava a máxima dos estóicos “o sábio é rico”, respondeu Cícero:
– Cuidado, para que não adotes antes esta outra máxima estóica: “tudo pertence ao sábio”.
É que Crasso estava muito desacreditado em razão da sua avareza. Um dos dois filhos de Crasso
parecia-se perfeitamente com um certo Áxio, contra cuja mãe se levantavam suspeitas desairosas. Tendo
sido esse moço aplaudido num discurso que fizera no Senado, pediu-se a Cícero a sua opinião a respeito
dele. Cícero respondeu, em grego:
– É digno (é filho) de Crasso. 34
XXVI. Crasso, no momento da sua partida para a Síria, pensou que lhe seria mais útil reconciliar-se
com Cícero do que o ter como inimigo: fez-lhe uma porção de presentes e mandou dizer-lhe que ia jantar
com ele 35. Cícero o recebeu com prazer. Poucos dias após, alguns dos seus amigos foram dizer a Cícero
que Vatinio, com quem ele brigara, desejava fazer as pazes.
– Vatinio, – disse Cícero, – quererá mesmo jantar comigo?
Era assim que ele fazia com Crasso. Esse Vatinio tinha o pescoço cheio de escrófulas. Um dia, em que
havia atuado em um processo, Cícero comentou:
– Eis aí um orador bem empolado.
Foram dizer-lhe, um dia, que Vatinio morrera, mas como se soube, algum tempo depois, com toda a
certeza, que Vatinio vivia, Cícero teve estas palavras:
– Maldito o que mentiu tão mal a propósito!
César ordenara se distribuíssem aos soldados terras da Campania e essa lei descontentou vários
senadores. Lúcio Gélio, que era já muito velho, declarou que a partilha não se realizaria enquanto ele
vivesse.
– Esperemos, – falou Cícero, – pois Gélio não pede longo prazo.
Um certo Otávio, de quem se lamentava a origem africana, disse um dia a Cícero que não o ouvia.
– Tu tens a orelha furada, replicou Cícero. 36
– Fizeste perecer mais cidadãos, – dizia-lhe Metelo Nepote, – prestando testemunho contra eles, do que
os que salvaste com tua eloqüência.
– Concordo, – replicou Cícero, – que haja em mim ainda mais crédito e fé do que eloqüência.
Um rapaz, acusado de ter envenenado o próprio pai com um bolo, enfureceu-se contra Cícero e o
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ameaçou de liquidá-lo com injúrias.
– Prefiro tuas injúrias ao teu bolo – foi a resposta.
Públio Sextio, envolvido num processo criminal, pediu a Cícero e a outros amigos que o defendessem;
mas falava tanto que não dava lugar a que seus defensores pronunciassem uma só palavra. Como os
juízes iniciassem a votação e parecessem favoráveis ao acusado, disse Cícero:
– Aproveita a ocasião, Sextio, porque amanhã serás um homem particular.
Públio Cota, que se tinha na conta de um jurisconsulto, se bem que fosse homem sem conhecimentos e
sem espírito, invocado certa feita por Cícero como testemunha, respondeu que não sabia nada.
– Crês, talvez, – obtemperou Cícero, – que te interrogo sobre direito?
Metelo Nepote, disputando contra ele, repetiu-lhe várias vezes:
– Cícero, quem é teu pai?
– Graças à tua mãe, – redarguiu Cícero, – ficas mais embaraçado do que eu para responder a semelhante
pergunta.
Ora, a mãe de Nepote não possuía boa reputação. Quanto a Nepote, era de caráter leviano: enquanto
foi tribuno, abandonou, de repente, suas funções para ir encontrar Pompeu na Síria. Depois, retornou a
Roma, mais loucamente ainda. Quando morreu Filagro, seu preceptor, ele, fez-lhe um magnífico enterro
e colocou sobre seu túmulo um corvo de mármore.
– Não podias fazer melhor, – comentou Cícero, pois teu preceptor te ensinou mais a voar do que a falar.
Marco Ápio, havendo dito, no exórdio de um discurso, que o amigo que ele defendia o tinha conjurado
a trazer à causa exatidão, raciocínio e boa fé, disse Cícero:
– Como tens o coração tão duro para nada fazeres de tudo quanto te pediu teu amigo?
XXVII. Sem dúvida, é uma das qualidades do orador saber lançar, contra inimigos ou contra a parte
adversa, brocardos amargos e mordazes. Cícero, porém, que os prodigalizava ao acaso, unicamente para
fazer rir, tornou-se odiado, por isso, de uma porção de gente. Citarei alguns exemplos. Marco Aquílio
tinha dois dos seus genros banidos. Cícero lhe chamava Adrasto 37. Lúcio Cota, que amava com vigor o
vinho, era censor, quando Cícero se candidatou ao consulado. Tendo sentido sede no dia da eleição,
Cícero, de pé, entre os amigos que o rodeavam, falou:
– Fazeis bem em ter medo que o censor se volte contra mim ao me ver bebendo água.
Encontrando-se na rua com Voconio, que levava três filhas em sua companhia, todas extremamente
feias, gritou em voz alta:
– Esse homem ficou pai a despeito de Febo! 38
Marco Gélio, que passava por ter nascido em condição servil, certa vez lia cartas diante do Senado,
com uma voz muito forte e muito clara.
– Não vos maravilheis, – bradou Cícero, – pois ele outrora foi apregoador.
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Fausto, filho de Sila, o que havia possuído em Roma a autoridade soberana e havia levado à proscrição
grande número de cidadãos, tendo dissipado a maior parte da sua fortuna e encontrando-se cheio de
dívidas, anunciou a cessão de todos os seus bens aos seus credores.
– Prefiro os seus anúncios, – disse Cícero, – aos do seu pai.
XXVIII. Atraiu, assim, muitos ódios. Quanto à inimizade que lhe votaram Clódio e seus partidários,
eis aqui o motivo que a gerou.
Clódio, jovem romano de nobre nascimento, mas insolente e audacioso, amava Pompéia, mulher de
César. Certa vez, introduziu-se secretamente na casa de César, disfarçado em músico, pois as mulheres aí
celebravam um sacrifício misterioso do qual são excluídos os homens. Não havia um só homem na casa,
mas Clódio, adolescente ainda, e completamente imberbe, esperou que pudesse se misturar com as
mulheres até chegar ao pé de Pompéia, sem ser reconhecido. Tendo entrado de noite em uma casa assim
tão grande, perdeu-se. E caminhava de um lado para outro, quando foi encontrado por uma das escravas
de Aurélia, mãe de César, que lhe perguntou seu nome. Forçado a responder, disse que procurava uma
das aias de Pompéia chamada Abra. Reconhecendo a escrava que tal voz não era uma voz feminina,
chamou aos gritos as mulheres: estas fecharam as portas, revistaram tudo e encontraram Clódio no quarto
da moça com a qual entrara. O ruído que causou esse acontecimento obrigou César a repudiar Pompéia e
a intentar contra Clódio um processo por impiedade.
XXIX. Cícero era amigo de Clódio e, no processo de Catilina, Clódio o auxiliara com grande
dedicação e havia sido como uma espécie de guarda da sua pessoa. Clódio, em resposta à acusação,
asseverou que naquele dia não se encontrava em Roma, estivera no campo, bem longe da cidade. Mas
Cícero depôs dizendo que Clódio tinha ido naquele dia à sua casa tratar de um negócio, o que era
verdade. De resto, Cícero prestou esse depoimento menos para atestar a verdade do que para curar as
suspeitas de Terência, sua mulher. Terência odiava Clódio, por causa de sua irmã Clódia, que ela
supunha ter querido desposar Cícero e se servir, para negociar esse casamento, de um certo Túlio, íntimo
amigo e familiar de Cícero. Túlio ia todos os dias à casa de Clódia e lhe fazia assiduamente a corte,
sendo a casa de Clódia vizinha da de Cícero. Terência suspeitava, pois, dos seus desígnios. Era, aliás,
uma mulher de um caráter complicado. E, como dominasse Cícero, animou-o a pôr-se em oposição a
Clódio e a depor contra ele. Vários cidadãos distintos depuseram também contra Clódio e o acusaram de
perjuro, de ter cometido gatunices, de ter corrompido o povo a peso de dinheiro e de haver seduzido
várias mulheres. Lúcido levou escravas que atestaram haver Clódio mantido comércio incestuoso com a
mais jovem das suas irmãs, sendo ela mulher de Lúculo. Era crença geral, aliás, que Clódio havia
desonrado suas duas outras irmãs, das quais uma, Terência 39, havia desposado Márcio Rex e a outra,
Clódia, Metelo Celer. Davam a Clódia o apelido de Quadrantaria, porque um dos seus amantes lhe
enviava, numa bolsa, pequenas moedas de cobre, em lugar de moedas de prata. Ora, os romanos chamam
quadrans à menor das suas moedas de cobre. O que mais difamou Clódio em Roma foi o incesto com
Clódia. Entretanto, o povo não se mostrou satisfeito com os que se haviam ligado contra Clódio, na carga
dos seus depoimentos. Os juízes temeram que se usasse de violência e guarneceram o tribunal de gente
armada. Quase todos, ao escreverem a sua opinião nos caderninhos, só traçavam letras confusas 40.
Pareceu, contudo, que os votos absolutórios estavam em maioria. Correu o boato de que os juízes haviam
sido corrompido a peso de dinheiro. Também Catulo, ao encontrá-los assim, falou:
– Tivestes razão de pedir guardas para vossa segurança, com medo de que arrebatassem o vosso
dinheiro.
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Clódio vangloriou-se com Cícero de que o seu testemunho não havia merecido a fé dos juízes.
– Ao contrário, – respondeu Cícero, – vinte e cinco deles acreditaram em mim, e este é o número dos
que te condenaram; e trinta não te quiseram crer, e estes só te absolveram depois de terem recebido o teu
dinheiro.
César, chamado como testemunha contra Clódio, negou-se a depor.
– Minha mulher, – asseverou, – não cometeu adultério. Eu a repudiei porque a mulher de César deve
estar isenta não somente das ações vergonhosas, mas ainda de toda e qualquer suspeita.
XXX. Clódio escapou a esse perigo e, nomeado tribuno do povo, começou logo a perseguir Cícero.
Opôs-lhe tantos embaraços quantos lhe foi possível e levantou contra ele toda espécie de gente. Por meio
de leis populares, ganhou o favor da multidão e conseguiu outorgar a cada um dos dois cônsules
províncias consideráveis: Pison teve a Macedônia e Gabínio a Síria. Fazia passar medidas políticas com a
ajuda de uma multidão de indigentes e tinha sempre ao pé da sua pessoa um contingente de escravos
armados. Dos três homens que gozavam, então, de mais autoridade em Roma, Crasso era o inimigo
declarado de Cícero; Pompeu fazia valer seu prestígio com um e com outro; e César estava a ponto de
partir para a Gália com o seu exército. Cícero procurou insinuar-se junto a César, se bem que César
nunca tivesse sido seu amigo e o houvesse considerado suspeito desde a conspiração de Catilina.
Rogou-lhe, pois, que o levasse consigo, na qualidade de seu lugar-tenente. César aceitou o seu pedido e
Clódio, vendo que Cícero ia escapar ao seu poder de tribuno, aparentou querer reconciliar-se com ele.
Era de Terência, dizia ele de quem se queixava quase que unicamente; quanto a Cícero, não falava mais
dele senão com as palavras mais doces e mais honestas. Afirmava que não lhe queria mal absolutamente
e não alimentava contra ele nenhum rancor. Não lhe fazia senão leves censuras e, assim mesmo, num tom
todo amigável. Conseguiu, dessa forma, dissipar todos os receios de Cícero, que agradeceu a César a
nomeação de lugar-tenente e voltou a se ocupar com a gestão dos negócios públicos.
César, ofendido com essa atitude, apoiou Clódio nos seus desejos e apartou completamente de Cícero
o espírito de Pompeu e declarou, diante do povo, que Cícero lhe parecia haver ferido a justiça e as leis,
fazendo executar Lêntulo e Cetego sem nenhuma formalidade legal. Era, sob esse aspecto, que intentava
a acusação contra Cícero e era a respeito desse fato que o intimava a responder. Cícero, para conjurar o
perigo e escapar à perseguição dos seus inimigos, tomou a toga de luto, deixou crescer os cabelos e a
barba e saiu por toda parte a suplicar ao povo o voto em seu favor. Clódio saiu no seu encalço, seguido
de um grupo de homens violentos e audaciosos, que troçaram de Cícero pela sua mudança de traje e pelo
seu ar abatido. Fizeram-lhe mil ultrajes, chegando mesmo ao ponto de lhe atirarem lama e pedras, com o
fim de impedir que fizesse as suas solicitações ao povo.
XXXI. Entretanto, a ordem equestre quase toda tomou luto, como Cícero, e mais de vinte mil jovens o
acompanharam, de cabelos crescidos, solicitando, com ele o favor do povo. O Senado reuniu-se para
decretar que o povo mudasse de trajes, como num luto público. Os cônsules, porém, se opuseram a esse
decreto, e Clódio, foi sitiar o lugar do conselho com seus homens armados, e maior parte dos senadores
saiu soltando fortes gritos e rasgando suas togas. Mas, esse triste espetáculo não inspirava nem
compaixão nem vergonha na alma dos inimigos de Cícero. Era necessário que Cícero se exilasse ou que
decidisse pelas armas a sua querela com Clódio. Cícero pediu ajuda de Pompeu, que se afastara
propositadamente e se encontrava no campo, na sua casa de Alba. Cícero lhe enviou primeiramente
Pison, seu genro, depois foi ele próprio. Prevenido da sua chegada, Pompeu não quis o encontro. Estava
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envergonhado da sua conduta para com um homem que se havia empenhado por ele em tão grandes lutas
e lhe tinha prestado tão notáveis serviços políticos. Mas Pompeu era genro de César. Sacrificou às
exigências de seu sogro uma velhíssima amizade e saiu da sua casa por uma porta dos fundos. Evitou,
assim, a entrevista.
Cícero, sentindo-se traído por Pompeu e abandonado de todo mundo, recorreu aos cônsules. Gabínio
sempre se mostrou seu desafeto, mas Pison falou com mansidão e o aconselhou a retirar-se, a ceder por
algum tempo aos impulsos de Clódio, a suportar pacientemente esse revés da fortuna e se considerar
ainda, pela segunda vez, o salvador da sua pátria agitada, a esse tempo, por sedições funestas. Cícero
procurou seus amigos para orientar-se nesse sentido. Lúculo foi de opinião que ele ficasse,
assegurando-lhe que triunfaria dos seus inimigos. Os outros, porém, o aconselharam a que se exilasse
voluntariamente por algum tempo, crentes como estavam de que o povo, uma vez satisfeito dos furores e
das loucuras de Clódio, não tardaria a lastimá-lo. Cícero aceitou este último alvitre. Possuía, desde muito
tempo, em sua casa, uma estátua de Minerva, que ele cultuava com especial devoção. Tomou-a e a levou
ao Capitólio 41, onde consagrou-lhe esta inscrição: A Minerva, protetora de Roma. Depois, fez-se
acompanhar de alguns amigos, saiu da cidade por volta da meia-noite e seguiu por terra a estrada de
Lucânia, procurando o rumo da Sicília.
XXXII. Assim que se espalhou a notícia da fuga de Cícero, Clódio baixou contra ele um decreto de
banimento, e mandou afixar uma ordem em que era proibido dar-lhe água e fogo, e recebê-lo em casa a
uma distância de quinhentas milhas da Itália. O respeito, porém, que Cícero infundia foi bastante para
que esta última medida fosse desprezada. Por toda parte, teve ele uma acolhida solícita e era
acompanhado com demonstração da mais viva consideração. Somente em Hiponium, cidade da Lucânia,
chamada hoje Vibone, o siciliano Víbio, a quem Cícero havia dado várias provas de amizade, e que tinha
sido, durante o seu consulado, o intendente dos operários, não o recebeu em sua casa e lhe pediu que se
retirasse da sua terra. E Caio Virgílio, pretor da Sicília, que devia grandes obrigações a Cícero,
escreveu-lhe, pedindolhe que não fosse à Sicília. Lacerado com essa ingratidão, seguiu para Brindis,
onde embarcou para Dirráquium, levando vento favorável. Como, porém, durante o dia, soprasse um
vento contrário, Cícero aportou de novo à Itália. Imediatamente retomou a rota marítima; e, ao chegar a
Dirráquium, quase prestes a desembarcar, registrou-se, afirma-se, um tremor de terra e ao mesmo tempo
um súbito refluxo das aguas. Os áugures conjeturaram sobre esse prodígio, assegurando que o seu exílio
não seria de longa duração; que essas espécies de sinais pressagiavam uma mudança favorável.
Em Dirráquium, ele foi visitado por uma multidão que lhe testemunhou vivo interesse, e as cidades
gregas disputavam entre si qual prestaria a Cícero maiores homenagens. Ninguém, porém, conseguiu
insuflar-lhe coragem nem dissipar-lhe a tristeza. Semelhante a um amante infeliz, voltava, sem cessar, os
seus olhares para a Itália. Humilhado, abatido pelo seu infortúnio, mostrou várias vezes fraqueza e
pusilanimidade, o que não se podia esperar de um homem que passara a sua vida mergulhado no estudo.
Assim, por mais de uma vez, pedira aos seus amigos que não lhe chamassem orador, mas filósofo.
– Eu me acho ligado à filosofia, – costumava dizer, – como ao fim de todas as minhas ações, e a
eloqüência não é para mim senão o instrumento da minha política.
A opinião não tem senão o poder bastante para apagar da nossa alma as impressões da razão, como
uma tintura que não penetrou profundamente, e os homens de Estado, à força de lidar com o povo,
acabam por se impregnar das paixões vulgares, a menos que velem por si próprios com uma atenção
ininterrupta. É preciso estar, exteriormente, em contacto com os negócios, mas não com as paixões que
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determinam os negócios.
XXXIII. Clódio, depois de ter banido Cícero, incendiou as suas casas de campo e a sua habitação em
Roma, em cujo local mandou edificar o templo da Liberdade. Pôs em leilão os seus bens e todos os dias
os fazia apregoar, sem que se apresentasse um só comprador. Tornando-se, pelas suas violências, temível
a todos os nobres, pois dispunha do povo, que ele deixava abandonar-se a todos os excessos da licença e
da audácia, ameaçou levantar-se contra Pompeu e censurou algumas medidas que tomara quando no
comando dos exércitos. Pompeu, cuja reputação era alvo de ataques, lamentou-se de haver abandonado
Cícero. E mudou de idéia. Ligou-se com seus amigos para conseguir a volta do orador. Clódio resistiu a
esses esforços, mas o Senado decretou que ficaria suspensa a ação de todos os negócios públicos, até que
fosse decretada a volta de Cícero. Sob o consulado de Lêntulo, a sedição avançara tanto, que houve
tribunos do povo feridos em praça pública. Quinto, irmão de Cícero, foi abandonado como morto entre
muitos outros. A lembrança desses excessos começou a sossegar o povo; e o tribuno Ânio Milon foi o
primeiro a arrastar Clódio à barra do tribunal, para responder por violências cometidas. A maioria do
povo e dos habitantes das cidades vizinhas se aliou a Pompeu que, seguro de tal ajuda, expulsou Clódio
da praça pública e convocou os cidadãos para nova eleição. Jamais, afirma-se, decreto algum foi baixado
pelo povo com tanta unanimidade. O Senado rivalizou em zelo com o povo e deliberou que se enviassem
agradecimentos a todas as cidades que haviam acolhido Cícero no seu exílio e que a sua casa de Roma,
com as suas habitações de campo incendiadas por Clódio, fossem reconstruídas a expensas do tesouro
público.
Cícero voltou a Roma depois de 16 meses de exílio. Todas as cidades e todas as populações
demonstraram tanta alegria e tanta ânsia em ir ao seu encontro, que Cícero dizia a verdade quando
afirmava que a Itália inteira o conduzira a Roma sobre os seus ombros. O próprio Crasso, que já era seu
inimigo antes do exílio, saiu também ao seu encontro e se reconciliou com ele querendo assim causar
prazer a seu filho Públio, que era um dos mais ardentes admiradores de Cícero.
XXXIV. Aproveitando-se da ausência de Clódio, pouco tempo depois, Cícero foi ao Capitólio,
acompanhado de vários cidadãos, arrancou as tábuas tribunícias em que se inscreveram os atos do
tribunato de Clódio e as desfez em pedaços. Clódio quis, por isso, acusá-lo como criminoso.
Respondeu-lhe Cícero que foi desprezando a lei que Clódio, patrício de nascimento, chegara ao
tribunato. Portanto, nada do que havia decretado, durante o exercício do seu cargo, era legal. Catão ficou
descontente com essa violência e combateu o motivo invocado por Cícero. Não que ele aprovasse os atos
de Clódio: pelo contrário, reprovava a sua administração, mas o Senado não podia, na sua opinião, sem
injustiça, e sem abuso de autoridade, anular decretos e atos tão importantes, dos quais um, entre outros,
era a comissão para a qual ele havia sido nomeado e que devia desempenhar em Chipre e Bizâncio.
Reinou, depois dessa questão, certa frieza entre Catão e Cícero, não que chegasse à ruptura decisiva, mas
viveram daí por diante com menos intimidade.
XXXV. Pouco tempo depois, Milon matou Clódio e, processado por esse assassínio, encarregou
Cícero de sua defesa. O Senado, temeroso de que o perigo em que se encontrava um homem considerado
e violento como Milon causasse alguma perturbação em Roma, encarregou Pompeu de presidir não só a
esse julgamento mas também aos outros processos e de velar pela segurança na cidade e nos tribunais.
Pompeu distribuiu, na véspera, soldados pelo Fórum e pelos lugares que o dominam. Milon, de medo que
Cícero, perturbado por esse espetáculo incomum, não falasse com a sua eloqüência habitual,
convenceu-o de que se devia transportar ao Fórum em liteira e conservar-se em repouso até que os juízes
chegassem e que o tribunal começasse a funcionar. Cícero era tímido, ao que parece, não só quando se
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tratava de guerra, mas até quando se tratava de ir à tribuna. Jamais começava um discurso sem
experimentar certo temor, embora uma longa prática tivesse fortalecido e aperfeiçoado a sua eloqüência,
o que devia impedilo de tremer e comover-se. Advogado de Lúcio Murena 42, acusado por Catão,
mostrou-se tão fatigado por esse trabalho extenuante e pela longa vigília, que pareceu inferior a si
próprio. No dia do julgamento de Milon, quando, ao sair da, sua liteira, viu Pompeu sentado no alto do
tribunal, como num campo e, em torno dele, soldados com armas reluzentes, ficou completamente
emocionado e não começou seu discurso senão com grande dificuldade, o corpo todo tremendo e falando
com uma voz entrecortada, ao passo que Milon assistia aos debates com um ar confiante e corajoso,
desdenhando deixar crescer os cabelos e tomar uma roupa de luto. Foi isso, creio eu, o que mais
contribuiu para a sua condenação. De resto, o terror de Cícero em tais circunstâncias parecia devido
menos à sua timidez do que à sua afeição pelos amigos.
XXXVI. O colégio dos sacerdotes, a que os romanos chamam áugures, recebeu-o, em substituição a
Crasso, o jovem, que fôra morto pelos Partos. Tendo-lhe cabido por sorte a Cilicia 43, na partilha das
províncias, com um exército de doze mil homens de infantaria e dois mil e seiscentos de cavalaria, para
lá embarcou. Levava, também, a missão de reconciliar os capadócios 44com o rei Ariobarzanes e de
reconduzi-los à obediência. Conseguiu-o, sem dar lugar a nenhuma queixa e sem recorrer às armas. Os
desastres experimentados pelos romanos no país dos Partos 45 e os movimentos da Síria que
contaminaram os Cilicianos do espírito de revolta, ele os remediou e conteve pela brandura do seu
governo. Recusava presentes, mesmo os que lhe eram oferecidos pelos reis, e repunha nos cofres da
província as despesas da sua mesa. Recebia, à própria custa, pessoas cuja convivência lhe era agradável.
Tratava-as sem magnificência, porém com muita liberalidade. Não havia porteiro em sua casa e jamais
alguém o encontrou na cama. Levantava-se de manhã cedo, passeava pelo quarto, acolhendo gentilmente
os que iam saudá-lo. Nunca ninguém, com o seu consentimento, apanhou com varas e teve a sua roupa
rasgada. Jamais, mesmo em estado de cólera, pronunciou uma palavra ofensiva ou impôs alguma multa
que pudesse parecer injuriosa. Os fundos públicos tinham sido dilapidados: ele enriqueceu as cidades,
fazendo-as recobrar o que haviam perdido. E, sem ferir ignominiosamente os prevaricadores,
contentou-se em fazê-los devolver aquilo de que se tinham apossado. Teve de fazer uma guerra: pôs em
fuga os bandidos que habitavam o Amanus 46. Essa vitória levou os soldados a dar-lhe o título de
imperator 47 . O orador Célio pediu-lhe que enviasse panteras da Cilicia para as diversões que estava
organizando em Roma. Cícero respondeu-lhe, algo envaidecido com as suas façanhas, que não havia
mais panteras na Cilicia: tinham todas fugido para a Cária, furiosas de serem elas as únicas contra as
quais se fez a guerra, enquanto que o resto da província vivia em paz.
Ao voltar da Cilicia, passou primeiramente em Rodes, depois em Atenas, onde se demorou
prazerosamente algum tempo, pela lembrança que lhe trazia a estada que aí fizera outrora. Conversou em
Atenas com os homens mais eminentes pelo saber e visitou os seus amigos e familiares que aí se
encontravam então. Após haver recebido da Grécia um justo tributo de admiração, retornou a Roma,
onde encontrou os negócios públicos em combustão, por assim dizer, e a guerra civil a ponto de rebentar.
XXXVII. O Senado quis lhe conceder o triunfo. Respondeu Cícero que seguiria com mais satisfação o
carro triunfal de César, depois de feita a paz com ele. Não cessava, em particular, de aconselhar essa paz.
Escrevia frequentemente a César, da mesma maneira que a Pompeu, não poupando esforços no sentido
de abrandar os seus dissentimentos. O mal, porém, era irremediável e, quando César avançou sobre
Roma, Pompeu, em lugar de o esperar, abandonou a cidade seguido de um número considerável de
cidadãos ilustres. Cícero não o acompanhou nessa fuga. Acreditava-se que ele se fosse juntar a César. É
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verdade que oscilou durante muito tempo entre os dois partidos em vésperas de violenta agitação. Ele
próprio escreveu nas suas Cartas: “De que lado devo me colocar? Pompeu tem, para fazer a guerra, um
motivo glorioso e honesto. César, porém, se há de conduzir melhor nesta terrível crise e há de saber fazer
melhor pela sua salvação e pela dos seus amigos. Sei muito bem que devo fugir, mas não vejo quem me
dará refúgio”.
Trebácio, um dos amigos de César, escreveu a Cícero dizendo-lhe que era pensamento de César que
ele se devia juntar ao general e partilhar das suas esperanças, ou que, se sua idade não permitisse esse
caminho ativo, devia retirar-se para a Grécia e aí viver tranquilamente, livre de compromissos com um e
outro partido. Cícero, admirado de que César não lhe tivesse escrito diretamente, respondeu a Trebácio
cheio de cólera, afirmando que não tomaria nenhuma atitude indigna dos atos políticos da sua vida. Eis o
que se encontra, com os próprios termos seus, nas suas Cartas.
XXXVIII. Havendo César partido para a Espanha, Cícero embarcou imediatamente, a fim de se reunir
a Pompeu. Todos viram com prazer essa resolução, exceto Catão, que, à sua chegada, o chamou em
particular e reprovou-lhe o haver abraçado o partido de Pompeu.
– Quanto a mim – disse-lhe Catão – não posso, sem me causar prejuízo, abandonar uma causa a que
estou ligado desde a minha estréia nos negócios públicos. Mas tu, porventura, não terias sido mais útil à
tua pátria e aos teus amigos ficando neutro em Roma e adaptando a tua conduta aos acontecimentos, em
lugar de vires aqui, sem razão e sem necessidade, declarar-te inimigo de César e empenhar-te em tão
grande perigo?
Essas observações foram o bastante para que Cícero mudasse de opinião, tanto assim que Pompeu não
o designou para nenhum cargo de importância. É verdade que Cícero não devia queixar-se senão de si
próprio, pois não negava que se havia arrependido. Pilheriava francamente dos prepa rativos de Pompeu,
desaprovava intimamente os seus projetos e não deixava de atirar contra os aliados os seus brocardos e
ditos espirituosos. Passeava durante todo o dia pelo campo com um ar sério e morno, mas não deixava
escapar nenhuma ocasião de fazer rir aos que não tinham vontade de divertir-se. Talvez não seja mau
examinar aqui o seu aspecto de humorista.
Domício queria conferir um posto superior a um homem pouco afeito à guerra e louvava a pacatez e a
honestidade dos seus costumes.
– Por que não o guardas, – replicou Cícero, – para educador dos teus filhos?
Teofano de Lesbos era, no exército, prefeito dos operários do acampamento. Como lhe louvassem a
maneira pela qual ele consolava os ródios da perda da sua armada, observou Cícero:
– Como se é feliz quando se tem um grego por capitão!
César saía vitorioso em quase todos os combates e considerava Pompeu como sitiado.
– Afirma-se, – comentou Lêntulo, – que os amigos de César estão muito tristes.
– Queres dizer, – replicou Cícero, – que estão de má vontada com César?
Um certo Márcio, recentemente chegado da Itália, dizia que o boato corrente em Roma era de que
Pompeu se encontrava sitiado.
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– E embarcaste repentinamente, – disse Cícero, para vires te certificar disso com os teus próprios
olhos?
Após a derrota de Pompeu, Nônio dizia:
– Tenhamos esperança! ainda restam sete águias no campo de Pompeu. 48
– Terias razão, – respondeu Cícero, – se fizéssemos guerra às gralhas.
Labieno, cheio de confiança em certas predições, sustentava que Pompeu acabaria como vencedor.
– No entanto, – assegurou Cícero, – foi com essa tática que acabamos perdendo o nosso campo.
XXXIX. Retido, no leito por uma doença, Cícero não havia podido ir à batalha de Farsália. Quando
Pompeu fugiu, Catão, que possuía em Dirráquium um exército númeroso e uma frota considerável, quis
que Cícero assumisse o comando das forças militares, em virtude da lei, pois estava revestido da
dignidade de cônsul. Cícero, porém, recusou em absoluto essa prebenda, declarando que não tomaria
parte nenhuma na guerra. Essa recusa quase lhe foi fatal: o jovem Pompeu e seus amigos apontaram-no
como traidor, e atravessá-lo-iam com suas espadas, se Catão não o tivesse impedido. Ainda por
interferência de Catão, Cícero abandonou o acampamento e se dirigiu a Brindis, onde se demorou por
algum tempo à espera de César, retido fora da Itália, pelos negócios da Ásia e do Egito. Ao saber que
César desembarcara em Tarento e que viria de lá, por terra, a Brindis, Cícero correu a esperá-lo, não
desesperançado de obter o seu perdão, mas, entretanto, cheio de vergonha por ter de fazer, à vista de
tanta gente, a prova das disposições de um inimigo vitorioso. Não lhe foi necessário, porém, tomar
nenhuma atitude incompatível com a sua dignidade. César, ao perceber que Cícero, adiantando-se
bastante dos demais, ia ao seu encontro, desceu do cavalo e o saudou, caminhando ao seu lado alguns
estádios 49, numa palestra animada. Daí por diante, não cessou de testemunhar-lhe a sua estima e
amizade. Tendo Cícero composto mais tarde um elogio de Catão, César, na resposta que lhe deu, elogiou
a eloqüência e a vida de Cícero, que ele comparou às de Péricles e de Teramene. O discurso de Cícero
intitula-se Catão e o de César AntiCatão.
Tendo sido Quinto Ligario acusado como um dos que tinham usado dás armas contra César, Cícero
encarregou-se da defesa. César, ao que se conta, disse, então, a um dos seus amigos:
– Que impede que deixemos Cícero falar? Há muito tempo já que não o ouvimos. Quanto ao cliente, é
homem mau, é meu inimigo: está julgado.
Cícero, porém, desde as primeiras palavras do seu discurso, comoveu singularmente César. E, à
medida que avançava, empregando todos os recursos do patético, tudo quanto possuía a sua eloqüência
de sedução, viu-se muitas vezes César mudar de cor e tornar sensíveis os diversos afetos que lhe
agitavam a alma. Enfim, quando o orador tocou na batalha de Farsália, César, fora de si, estremeceu todo
o corpo e deixou cair os papéis que tinha na mão. Cícero, vencedor do ódio de César, conseguiu a
absolvição de Ligário.
XL. Substituído o antigo governo pelo poder de um só homem, Cícero abandonou desde então a vida
pública e empregou todo o seu tempo no trato com os moços que desejavam aplicar-se à filosofia.
Pertenciam eles às principais famílias de Roma. Cícero reconquistou, por suas freqüentes relações com
eles, um grande prestígio na cidade. Sua ocupação era compor e traduzir diálogos filosóficos e fazer
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passar para o latim os termos da física e da dialética. Foi ele afirma-se, quem naturalizou primeiramente,
ou pelo menos com maior sucesso entre os romanos, as palavras gregas que significavam imaginação
(fantasia), assentimento (catatesis), suspensão de julgamento (epoché), átomo, invisível, vazio (cenon) e
várias outras semelhantes, explicando, ou por metáforas ou por termos conhecidos e vulgares, as que se
aproximavam delas pelo sentido. Servia-se, no seu divertimento, da facilidade que possuía para a poesia:
quando se abandonava à sua veia poética, fazia, conta-se, quinhentos versos numa noite.
Cícero passava a maior parte do seu tempo em Tusculum, domínio seu, de onde escrevia aos amigos
dizendo que levava a vida de Laerte. Dizia-o, ou por troça, como era seu costume, ou porque a ambição
lhe fizesse almejar o retorno à vida política. O certo é que estava descontente da situação em que se
encontrava. Raramente ia a Roma e somente para fazer a corte a César. Era o primeiro a aplaudir as
honras que se conferiam a César e encontrava sempre alguma coisa de novo e lisonjeiro para dizer sobre
a sua pessoa ou suas ações. Tais são as palavras sobre as estátuas de Pompeu que haviam sido derrubadas
e que César reergueu de novo.
– César, – disse Cícero, – levanta as estátuas de Pompeu, mas essa generosidade firma as suas próprias
estátuas.
XLI. Sonhava Cícero escrever a história de seu país, enriquecendo-a com muitas tradições gregas e
narrações das primeiras idades. Foi, porém, desviado do seu intento por uma série de ocupações públicas
e particulares, por acontecimentos desagradáveis e outros que o atribularam, ao que parece, quase todos
por sua própria culpa. Primeiro que tudo, repudiou sua mulher Terência, porque, durante a guerra, se
ocupara muito pouco com ele e, quando ele partiu, deixara que faltassem as coisas mais necessárias para
a viagem, e também porque, à sua volta à Itália, dela não recebera nenhuma prova de afeição.
Encontrando-se ele em Brindis durante muito tempo, Terência não procurou vê-lo e quando sua filha,
que era extremamente jovem, aí foi juntar-se a ele sua mulher não lhe deu nem um séquito conveniente
para um percurso tão longo, nem com que prover aos seus gastos, como era necessário. Terência, enfim,
abandonara a casa de Cícero, deixando-a vazia e desprovida, carregada de dívidas consideráveis. Tais são
os pretextos mais honestos que apresentou para o seu divórcio. Terência negava que houvesse verdade
nessas acusações e o próprio Cícero – é preciso confessar – deu-lhe um excelente meio de justificação,
desposando, pouco tempo depois, uma moça cuja beleza o havia seduzido, ao que dizia Terência. Tiron,
porém, liberto de Cícero, afirma que ele se casara em virtude da riqueza da noiva, pois precisava pagar as
suas dívidas. Essa moça era, com efeito, muito rica, e Cícero possuía seus bens em fideicomisso, por
testamento do pai, até à sua maioridade. Como, porém, ele devesse somas consideráveis, deixou-se
persuadir por seus amigos e parentes de que devia desposá-la, apesar da desproporção da idade, a fim de
que, com sua fortuna, se livrasse dos credores. Antônio, no seu discurso em resposta às Filípicas, fala
desse casamento, asseverando que Cícero repudiara uma mulher ao lado da qual envelhecera, dizendo
com graça que ele tinha sido um homem pássaro, que jamais se havia afastado de sua casa, nem tinha
estado na guerra para servir à causa pública.
Algum tempo depois do seu casamento, Cícero perdeu a sua filha Túlia, morta de parto na casa de
Lêntulo, que ela desposara após a morte de Pison, seu primeiro marido. Os filósofos acorreram, de todos
os lados, à casa de Cícero, a fim de consolá-lo. Essa infelicidade, porém, afetou-o tão profundamente,
que foi até ao repúdio da sua nova mulher, pois estava convencido de que ela se alegrara com a morte de
Túlia.
XLII. Eis aí a vida doméstica de Cícero.
Cícero, por Plutarco
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Ele não tomou parte, absolutamente, na conjuração contra César, se bem que fosse um dos mais
devotados amigos de Bruto e, descontente com o estado presente dos negócios do Estado, desejasse,
como nenhum outro, o retorno de Roma à antiga ordem de coisas. Mas os conjurados não ousaram fiar-se
num caráter tímido como o seu nem num homem já na idade em que tinham desaparecido a audácia e a
firmeza próprias das almas vigorosas. Executado o plano de Bruto e Cássio, os amigos de César se
prepararam para a vingança. Temia-se ver Roma mergulhada nas guerras civis. Antônio, que era cônsul,
convocou o senado e falou, em poucas palavras, sobre a necessidade da concórdia. Cícero fez um longo
discurso, de acordo com as circunstâncias, e convenceu os senadores de que deviam decretar, a exemplo
de Atenas, uma anistia geral para tudo quanto se havia feito sob a ditadura de César, e distribuir
províncias a Cássio e Bruto. Essas medidas, porém, ficaram sem efeito. O povo se deixou arrastar por
uma paixão natural em frente ao corpo de César, que era conduzido através do Fórum. Quando Antônio
tirou a túnica de César toda ensangüentada e furada pelos golpes de espada, esse espetáculo encheu a
multidão de tal furor que procurou os assassinos na própria praça e correu, de tochas na mão, a incendiar
as suas casas. Prevendo esse perigo, furtaram-se às perseguições. E, como temessem outras e maiores
ainda, tomaram a resolução de abandonar Roma.
XLIII. Também Antônio levantou logo a cabeça e todos se assustaram, sobretudo Cícero, à idéia de
que ia comandar Roma sozinho. Antônio, que via o crédito político de Cícero fortificar-se dia para dia, e
o sabia amigo de Bruto, suportava sua presença impacientemente. Havia entre eles, desde muito já, um
começo de desconfiança mútua, nascida da diferença absoluta dos seus costumes. Cícero, que temia a má
vontade de Antônio, quis primeiramente ir à Síria, como lugar-tenente de Dolabela, mas Hírtio e Parsa,
dois homens de bem e amigos de Cícero, que deviam suceder a Antônio no consulado, suplicaram a
Cícero que não os abandonasse, prometendo, com a sua ajuda, destruir o poder de Antônio. Cícero, sem
recusar acreditá-los, mas sem dar muita fé às suas palavras, deixou partir Dolabela. E, após ter
combinado com Hírtio que iria passar o verão em Atenas 50 e que retornaria a Roma desde que seu
colega e ele tivessem tomado posse do consulado – embarcou para a Grécia. Como a sua viagem por mar
sofresse várias interrupções, conseguia todos os dias, como de costume, notícias de Roma:
asseguravam-lhe que se operara em Antônio mudança extraordinária: que Antônio não tomava uma só
resolução a não ser de acordo com o Senado e que não faltava mais do que a presença de Cícero para dar
aos negócios públicos uma situação mais favorável. Cícero lamentou, então, a sua excessiva previdência
e voltou a Roma. Ele não se enganou, desde logo, nas suas esperanças: saiu à sua frente uma multidão tão
considerável que lhe foi necessário despender quase todo o dia em apertos de mãos e abraços, desde as
portas da cidade até à sua casa.
No dia seguinte, Antônio convocou o Senado e chamou Cícero, que se absteve de aí comparecer,
ficando de cama sob o pretexto de que a viagem o havia fatigado. Seu verdadeiro motivo, porém, era
evidentemente o temor de alguma cilada, da qual tivera conhecimento durante a viagem. Antônio,
ofendido com uma suspeita que classificava de caluniosa, mandou soldados para conduzi-lo à força, ou,
então, incendiar sua casa, se se obstinasse a recusar sua presença no Senado. Em virtude da insistência de
vários senadores, porém, Antônio revogou a sua ordem e se contentou com penhorar aperias alguns bens
de Cícero. Desde esse dia, eles deixaram de se cumprimentar quando passavam um ao lado do outro na
rua. Viviam nessa desconfiança, quando o jovem César 51 chegou da Apolônia, apresentando-se como
herdeiro do antigo César e reclamando uma soma de 25 milhões de dracmas, de que Antônio se apossara.
É nesse momento que começa a ruptura franca de Cícero com Antônio.
XLIV. Filipe, que havia desposado a mãe do jovem César, e Marcelo, o marido da sua irmã, foram
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com ele à casa de Cícero. Aí, combinou-se que Cícero apoiaria César com a sua eloqüência e com o seu
prestígio no Senado e diante do povo. Por seu turno, o jovem César empregaria seu dinheiro e suas armas
na proteção à vida de Cícero, pois o rapaz dispunha de grande número de soldados que haviam servidor
às ordens do ditador.
Parece, porém, que Cícero se viu obrigado, por motivos mais poderosos, a receber com alegria os
oferecimentos de César. No tempo em que Pompeu e César viviam ainda, Cícero teve um sonho, no qual
lhe pareceu que eram chamados ao Capitólio os filhos dos senadores. Júpiter devia, dentre eles, eleger o
soberano de Roma. Os cidadãos acorriam em multidão e acercavam-se do templo. Os meninos, vestidos
de túnica pretexta, mantinham-se sentados em silêncio. De repente, as portas se abrem, os meninos se
levantam e passam, cada um na sua fila, diante do deus, que, após havê-los observado atentamente, os faz
retornar a seus lugares cheios de aflição. Quando, porém, o jovem César se aproxima, Júpiter estende-lhe
a mão e diz: “Romanos, eis aqui o chefe que porá termo às vossas guerras civis”. Esse sonho, conta-se,
gravou tão vivamente no espírito de Cícero a imagem do menino, que ele jamais a esqueceu. Ele não o
conhecia, mas, no dia seguinte, quando descia o Campo de Marte, à hora em que os meninos voltavam
dos seus exercícios, o primeiro que notou foi o jovem César, tal qual o vira em sonho. Impressionado
com o encontro, perguntou-lhe o nome de seus pais. Seu pai chamava-se Otávio, homem de nascimento
pouco ilustre; mas sua mãe, Átia era sobrinha de César 52, o qual, não tendo filhos, o instituíra, por
testamento, herdeiro da sua casa e dos seus bens. Afirma-se que, depois dessa aventura, Cícero não
encontrou nunca o menino sem lhe falar cordialmente e sem deixar de fazer-lhe carícias, que o jovem
César aceitava com prazer. Aliás, o acaso determinara o seu nascimento sob o consulado de Cícero.
XLV. Eis ai as versões a respeito do fato. O que, porém, ligou Cícero a César foi, antes de tudo, seu
ódio contra Antônio, e, depois, seu caráter, que não sabia resistir à ambição. Ele esperava pôr a serviço
da República a atividade desse rapaz que, aliás, procurava por todos os meios insinuar-se na amizade de
Cícero, chegando até a chamá-lo de pai. Bruto, indignado com essa fraqueza, censurou Cícero
energicamente nas cartas a Ático. Cícero, segundo ele, adulando César pelo medo que lhe inspirava
Antônio, não deixa lugar para dúvida: procura, não tornar livre a sua pátria, mas dar-se a si próprio um
senhor doce e humano. Todavia, Bruto levou consigo o filho de Cícero, que se encontrava em Atenas
ouvindo lições de filosofia.
Encarregou-o de uma tarefa, que desempenhou com excelente êxito. O poder de Cícero em Roma
atingia, então, o seu apogeu: dispondo de tudo como senhor, expulsou Antônio, sublevou os espíritos
contra este e enviou os dois cônsules Hírtio e Parsa para declarar-lhe guerra. Enfim, Cícero convenceu o
Senado de que, por um decreto, devia conceder a César litores armados de feixes e todas as honras
militares, como ao defensor da pátria. Como, porém, Antônio houvesse sido derrotado, e mortos, no
campo de batalha, os dois cônsules, e como os dois exércitos que comandavam se tivessem ido reunir aos
de César, o Senado, que temia esse rapaz, cujo futuro devia ser brilhante, fez todos os esforços no sentido
de lhe arrebatar os soldados, conferindo-lhes honras e recompensas, e para lhe desorganizar as forças,
sob o pretexto de que, com a derrota de Antônio, a República não mais tinha necessidade de defender-se
pelas armas. César, alarmado com essas medidas, mandou secretamente algumas pessoas falar a Cícero,
exortando-o, com suas súplicas, a disputar o consulado para si e para César. Cícero, afirmavam eles,
dispunha da coisa pública a seu talante e, assim, governaria o rapaz, que não ambicionava outra coisa
senão títulos honoríficos. O próprio César confessava que, temendo ver-se abandonado por todos em
vista do licenciamento da sua tropa, jogou com a ambição de Cícero, pedindo-lhe se candidatasse ao
consulado, prometendo-lhe ajudá-lo com o seu prestigio e os pedidos de votos nos comícios.
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XLVI. Cícero, não obstante a sua idade, deixou-se fascinar e enganar nesse momento por um rapaz:
apoiou a pretensão de César e conseguiu o favor do Senado para tais pretensões. Seus amigos mais que
depressa o censuraram e não tardou que ele próprio reconhecesse que estava perdido, sacrificando, dessa
maneira, a liberdade do povo. O jovem César, uma vez no poder, não quis mais saber de Cícero: ligou-se
com Antônio e Lépido. Reunindo suas forças, todos três, partilharam o império entre si, como se se
tratasse de uma simples herança. Organizaram uma lista de duzentos cidadãos, cuja morte lhes parecia
necessária. A proscrição que deu lugar à mais viva disputa foi a de Cícero. Antônio não queria ouvir falar
em acomodações, se Cícero não fosse o primeiro a perecer. Lépido apoiava os pedidos de Antônio. César
resistia a um e outro. Passaram três dias perto da cidade de Bolonha 53em conferências secretas. Era
numa ilha o lugar onde se reuniam, situada no meio do rio que separava os dois campos. César lutou
vivamente, conta-se, os dois primeiros dias, para salvar Cícero. Ao terceiro dia, porém, cedeu, e o
abandonou. Fizeram-se todos os três concessões recíprocas. César sacrificou Cícero; Lépido, o seu
próprio irmão Paulo; e Antônio, o seu tio materno Lúcio César – tanto a cólera e a raiva haviam afogado
neles todo e qualquer sentimento de humanidade! Que digo eu? Provaram que não há monstro mais
selvagem do que o homem quando possui o poder de saciar a sua paixão.
XLVII. Enquanto isso acontecia, Cícero vivia na sua casa de campo de Tusculum, com seu irmão.
Logo que correu a primeira notícia das proscrições, resolveram ambos vir à Astira, outra casa de campo
de Cícero, situada à beira-mar. Queriam embarcar aí para , a Macedônia, onde ficariam ao lado de Bruto,
cujas forças, segundo boatos já correntes, estavam consideravelmente acrescidas. Puseram-se, cada um
numa liteira, e partiram, tristes e abatidos e sem mais esperanças. Interromperam a viagem, aproximaram
as liteiras e deploraram mutuamente a sua sorte. Quinto era o mais acabrunhado. Lamentava-se,
sobretudo, da falta de recursos em que iria se encontrar: “Não trago nada comigo”, queixava-se ele.
Cícero não levava mais do que poucas provisões para a viagem. Convieram em que era mais justo que
Cícero continuasse a viagem e apressasse a fuga, enquanto Quinto correria até sua casa, a fim de
prover-se de tudo quanto fosse necessário. Tomada essa resolução, abraçaram-se ternamente e
separaram-se com os olhos banhados em lágrimas.
Poucos dias depois, Quinto, traído por um dos seus domésticos, e entregue àqueles que o procuravam,
foi morto, juntamente com seu filho. Cícero, ao chegar a Astira, encontrou um barco preparado, no qual
embarcou. Viajou, com bom tempo, até o monte Circé. Os pilotos quiseram logo fazer vela e demandar
novo porto. Cícero, porém, ou porque temesse o mar, ou porque conservasse ainda alguma esperança na
fidelidade de César, saltou em terra e caminhou cerca de cem estádios em direção a Roma.
Caindo, porém, em novas aflições, mudou de pensamento, retomando o caminho do mar. Ficou em
Astira, onde passou a noite entregue a pensamentos terríveis, sem saber o que resolveria. Pensou, mesmo,
num momento, em penetrar secretamente na casa de César e se degolar junto ao fogão, a fim de expor a
pessoa de César à fúria vingadora do povo. O medo de ser torturado, caso lhe pusessem a mão em cima,
o desviou dessa resolução. Sempre oscilando entre resoluções igualmente perigosas, abandonou-se aos
seus domésticos, que o deveriam conduzir por mar a Caieté, onde possuía um domínio: era um retiro
agradável no verão, quando os ventos etésios 54 fazem sentir o seu doce hálito. Há, nesse lugar, um
pequeno templo dedicado a Apolo, situado ao, pé do mar. De repente, se ergueu do alto do templo um
bando de corvos que dirigiam seu vôo, crocitando fortemente, para o barco de Cícero, que procurava
alcançar a terra, e foram pousar nos dois lados da antena, enquanto os outros picavam as extremidades
das cordas. Todos olharam esse signo como mau presságio. Cícero desembarcou, entrou em casa e foi
deitar-se para descansar. A maior parte, porém, dos corvos, veio pousar na janela do seu quarto, soltando
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gritos aterradores. Houve um que desceu à cama de Cícero e tirou insensìvelmente, com o bico, a gola da
túnica com que ele cobrira o rosto. Em vista disso, seus criados censuraram-lhe a fraqueza. “Esperaremos
nós, – diziam eles, ser testemunhas aqui da morte do nosso senhor? E, quando até os animais acorrem em
seu auxílio e se inquietam com a sorte indigna que o ameaça, não faremos nada pela sua conservação?”.
Puseram-no, então, numa liteira, tanto com palavras como à força, e tomaram o caminho do mar.
XLVIII. Enquanto isso, chegaram seus assassinos. Eram um centurião, chamado Herênio, e Popílio,
tribuno dos soldados. Este ultimo havia sido outrora defendido por Cícero, num processo em que era
acusado de parricídio. Vinham seguidos de uma tropa de satélites. Encontrando as portas fechadas,
arrombaram-nas. Cícero não apareceu e o pessoal da casa assegurava não o ter visto. Um rapaz, porém,
chamado Filólogo, liberto de Quinto, a quem este havia instruído nas belas letras e na ciência, informou,
ao que se conta, ao tribuno, que a liteira estava sendo conduzida para o mar, pelas aléias cobertas. O
tribuno, levando consigo alguns soldados, lançou-se por um atalho, rumo à saída das aléias. Cícero, ao
perceber que a tropa conduzida por Herênio corria precipitadamente por sob o arvoredo, disse a seus
servos que parassem a liteira. E, levando a mão esquerda ao queixo, gesto êste que lhe era peculiar, atirou
sôbre os assassinos um olhar intrépido. Os cabelos eriçados e cheios de pó, o rosto desfigurado pelos
pesares, exerceram sobre os soldados uma tal impressão que a maioria cobriu o rosto, enquanto Herênio
o degolava. Cícero havia pôsto a cabeça fora da liteira, oferecendo assim o pescoço .ao carrasco. Morreu
com a idade de 64 anos 55. Herênio, de acôrdo com a ordem que lhe dera Antônio, cortou-lhe a cabeça
bem como as duas mãos com a qual havia escrito as Filípicas. Cícero intitulara Filípicas os seus discursos
contra Antônio. É esse o título que trazem ainda hoje os seus discursos.
XLIX. Quando essa cabeça e essas mãos foram conduzidas a Roma, Antônio realizava os comícios
para a eleição dos magistrados. “Agora, acabaram-se as proscrições”, disse ele, depois de ouvir a
informação sobre o assassínio e ao ver o aspecto sangrento dêsses despojos. Fê-los colocar nas bordas da
tribuna: espetáculo terrível para os romanos que, parecia, estavam vendo não o rosto de Cícero, mas a
própria imagem da alma de Antônio. Entretanto, em meio a tantas crueldades, Antônio fez seu ato de
justiça, entregando Filólogo a Pompônia, mulher de Quinto. Pompônia, de posse do corpo do traidor,
além dos vários suplícios terríveis a que o submeteu, forçou-o a cortar a própria carne, pouco a pouco,
fazê-la assar e comê-la em seguida. É pelo menos o que narram alguns historiadores. Porém, Tiron,
liberto de Cícero, não faz nenhuma referência à traição de Filólogo.
Ouvi dizer que César, longos anos após, entrando um dia em casa de um dos seus netos, este,
surpreendido com uma das obras de Cícero na mão, escondeu o livro na sua túnica. César, notando isso,
tomou do livro, leu de pé uma grande parte e entregando-o ao rapaz, disse-lhe:
– Foi um sábio, meu filho. Um sábio que amava a sua pátria.
De resto, logo que César derrotou Antônio em combate, tomou por colega no consulado o filho de
Cícero. 56 O Senado, sob a sua magistratura, derrubou as estátuas de Antônio, revogou as honras de que
gozava e proibiu, por decreto público, que qualquer pessoa da família dos Antônios trouxesse o prenome
de Marco. Parece que, por esse meio, a vingança divina reservou para a família de Cícero o fim do
castigo de Antônio.
Notas
1. O pai de Cícero se chamava como o filho Marco Túlio Cícero, e pertencia à ordem eqüestre.
Cícero, por Plutarco
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2. Na casa de quem Criolano se abrigou, no ano 263 de Roma.
3. Os Volscos eram um povo do Lácio, que nhabitava as margens do Líris . A frase a seguir, “e lutou sem
muita desvantagem contra os romanos” não está em algumas edições de Plutarco, mas é admitido
segundo vários manuscritos. Encontra-se em vários manuscritos, depois destas palavras ´en ouoloúskois,
estas outras: kai polemésanta Romáiois ouk´adunátos que foram admitidas por Amyot.
4. Scaurus, de calcanhar saliente; Catulus, cachorrinho.
5. Literalmente, um ex-voto, que podia ser também um quadro ou imagem que se colocaca em igreja ou
ermida. em cumprimento de um voto.
6. Isto é, 3 de janeiro. Cícero nasceu no ano 647 de Roma, 106 a.C.
7. Veja-se Platão, República, livros V e VI.
8. Versos latinos de quatro pés. Em poesia grega ou latina, os versos mediam-se por pés, e não por
sílabas. Os pés podiam ter duas, três ou quatro sílabas breves ou longas, e podiam ser dáctilos ou
espondeus. O verso heróico tinha a medida de seis pés.
9. Filósofo grego, de origem cartaginesa (187-110 a.C.). Escreveu cerca de quatrocentos livros.
Clitomaco, depois de Filon, foi sucessor de Carneades na direção da 3ª Academia.
10. Q. Múcio Cévola, áugure.
11 . Os marsos era um povo do Lácio, que, juntamente com os samnitas, se revoltou contra Roma.
12. Graecus, grego; scholasticus, declamador.
13. Caio Cornélio Verres.
14. É contra esta pretensão de Cecílio que é dirigido o discurso de Cícero intitulado Divinatio.
15. Os judeus não comem carne de porco.
16. Hortênsio foi um orador romano (114-50 a.C.). Era a princípio rival de Cícero, mas depois tornou-se
seu amigo.
17. Uma das Sete Colinas de Roma. Foi no Palatino que se levantaram os primeiros edifícios.
18. Parece que, entre os romanos. a grossura do pescoço era olhada como sinal de imprudência.
19. Em Roma, havia tribunos militares e tribunos da Peble. É a estes últimos que Plutarco se refere. A
eles competia a defesa das classes populares, contra os patrícios. Tinham grande poder. Usavam toga,
como os patrícios. Inicialmenter, haviam dois tribunos, mas o seu número ascendeu até dez.
20. Salústio diz somente que correra um boa neste sentido, mas não afirma a realidade deste terrível
crime.
21. Caio Antônio, segundo filho do célebre orador Marco Antônio.
22. No ano 691 de Roma, 63 a. C. .
23.Ainda se tem o discurso de Cícero contra Servílio Rulo que lhes estava à testa.
24. Segundo Amyot, outros o chamam de Lucio Roscio.
25. O grego diz, literalmente: “uma resposta que não era fraca”.
26. Pitonisa, ou profetisa; uma Sibila fizera profecias sobre o futuro de Roma, reunidas em livros
conservados no Capitólio.
27. As saturnais constituíam a festa dos escravos. Celebrava-se todos os anos no 16º dia das calendas de
janeiro. No tempo de Cícero, elas não duravam mais do que um dia. César dilatou a sua duração para três
dias, e Augusto para sete.
28. Povo da Gália Narbonense, que habitava uma parte do Delfinado e quase toda a Sabóia.
29. Sacerdotisas da deusa vesta, a qual simbolizava o fogo terrestre. As vestais eram obrigadas a manter a
virgindade, competindo-lhes conservar aceso, sem interrupção, o fogo sagrado, no altar de Vesta. Aquela
que deixasse apagar o fogo seria punida com açoites.
30. Tinha então 37 anos.
31. Trata-se de Catão, o Jovem (95-46 a.C.), inimigo de Caio Júlio César. Após a derrota de Trapso,
Cícero, por Plutarco
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suicidou-se em Útica.
32. Nome dos discursos de Demóstenes contra Filipe da Macedônia.
33. T. Munácio Planco Bursa, in imigo de Milon e de Cícero. Este, primeiro, o defendeu; mais tarde,
fê-lo condenar.
34. Em grego, “Áxios Krássou”. Actio é um nome próprio romano, e áxios em grego significa digno,
assim a graça está na ambiguidade da palavra.
35. Eram diversar as refeições dos romanos: jentaculum (pequeno-almoço, de manhã); prandium (jantar,
antes do meio-dia); merenda (refeição, depois do meio-dia); cena (ceia, ao anoitecer, ou seja, à hora
nona) e comonessatio ou comissatio (refeição noturna). A ceia era a mais abundantes das refeições,
constando de três partes: gustatio ou antecoenium (primeiro prato, destinado a excitar o apetite); caput
cena (constituída por iguarias fortes e substanciais); e, finalmente, secunda mesa (sobremesa de doces e
frutas).
36. Alusão aos costumes de povos da África de furar as duas orelhas.
37. Adrasto, rei de Argos, figura de tragédias gregas, obedecendo a um oráculo, casara as filhas com
Polinice e Tideu, dois exilados.
38. Verso de um autor desconhecido, que alude a Laio, rei de Tebas, a quem Apolo proibira a procriação.
39. Alguns textos antigos dizem Tércia, segundo Amyot.
40. Os juízes escreviam a letra A, a letra C, ou as duas letras N.L.: Absolvo, Condeno, ou Non liquet, isto
é, absolvição, condenação ou questão indecisa.
41. Outra das Sete Colinas de Roma.
42. Este discurso encontra-se nas obras de Cícero.
043. Antigo país da África Menor, na região montanhosa de Tauros. Isto foi ano 703 de Roma.
44. A Capadócia é uma região da Ásia Menor, situada a Oeste da Armênia.
45. Os partos, povo sita , que se fixou junto da Hircânia, Bactriana e Índia, eram valentíssimos,
principalmente no combate a cavalo.
46. Pequena cadeia de montanhas no Tauros.
47. Título de honra que os soldados vitoriosos davam antigamente por aclamação, num ímpeto de
entusiasmo, aos generais vitoriosos; podia portanto haver muitos imperadores ao mesmo tempo. Só
posteriormente veio corresponder à nossa palavra imperador. A carta de Célio de que se fala adiante está
no segundo livro das Epístolas familiares de Cícero e é endereçada a Célio, edil Curul.
48. Cada legião tinha uma águia, isto é, uma insígnia, um estandarte.
49. Medida itinerária dos antigos gregos, correspondendo cada estádio a 185 metros.
50. No ano 710 de Roma.
51. Apesar da confusão, Plutarco refere-se a Otávio, que Caio Júlio César instituíra, em testamento, seu
filho adotivo e herdeiro. Caio Otávio era sobrinho de César, e a partir de então adotou o nome do pai,
Caio Júlio César, acrescentando-lhe, como era usual, o seu próprio nome, agora transformado em
Otaviano.
52. Sobrinha de César, filha de Marco Acio Balbo e de Julia, irmã de César.
53. O rio é o Reno, e a ilha é a dos Triúnviros.
54. Diz-se dos ventos do norte, que sopram às vezes no Mediterrâneo, modificando calores do estio.
55. Tito Lívio aponta 63, mas ele estava de fato com 64, tendo nascido no ano 648 de Roma.
56. No ano 721 de Roma. Outros dão como cônsul nesse ano L. Volcacio Tullo; e o padre Pétau os
seguiu. Mas Plínio está de acordo com Plutarco.

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