Ousadia – Mudar a forma de se pensar o mundo exige muita coragem


Quatro especialistas falam sobre a importância de se adotar um olhar mais ousado

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Mudar a forma de se pensar o mundo exige muita coragem

Quatro especialistas falam sobre a importância de se adotar um olhar mais ousado
PUBLICADO EM 11/06/10 – 18h16

Muda o mundo ou mudamos nós, ou melhor, a maneira como contemplamos o mundo? Qual a importância do padrão dos pensamentos sobre a realidade?

É importante se desapegar de velhas e ultrapassadas perspectivas.

O problema, a situação, a dúvida estão ali, não vão mudar, mas a forma como os encaramos pode fazer total diferença. Tem gente que fica esperando uma vida inteira a situação ideal. “Quando eu tiver um bom emprego, vou fazer aquele curso. Quando tiver um companheiro, vou fazer a viagem dos meus sonhos”. Por que postergar a felicidade? Por que colocar nas mãos do outro a sua felicidade, suas conquistas? Para debater esse assunto, O TEMPO fez as mesmas perguntas para uma psicanalista, um filósofo, uma artista plástica e uma iogue. Confira abaixo o resultado.

Sandra Bianchi
Artista plástica

Onde estamos errando na nossa forma de pensar sobre nós e os outros? Quando não nos damos conta de que o individualismo exacerbado tão presente nos tempos atuais é um fator capaz de nos levar ao desamor, a não compaixão pelo outro e a não percepção real de nós mesmos.
Por que é tão difícil mudar o pensamento? Penso que o “viver o dia a dia” é tarefa árdua. O grau de exigência – quanto ao trabalho, à família, aos compromissos sociais – nos consome e nos tira o tempo para o “olhar para dentro”. São poucos os que, nos dias de hoje, conseguem momentos para realizar uma reflexão sobre si mesmo.
Quais os ganhos de pensar de forma diferente enquanto os problemas e as pessoas não mudam? O importante é tentar sempre fazer o melhor para nós mesmos e para o outro, no melhor modo possível. Se cada um de nós se responsabilizar pelo bem-realizar de uma tarefa, por menor que ela seja, é claro que, consequentemente, os problemas serão menores num âmbito geral. O ideal seria que todos nós tivéssemos como um princípio de vida a conhecida frase: “Não faça aos outros aquilo que não quer que façam a si mesmo”. Acredito muito na eficiência dessa máxima.

 

Lilian de Braga Almeida
Psicanalista

Onde estamos errando na nossa forma de pensar sobre nós e os outros? Poderia dizer que o “nosso pensamento” não é nosso. Como diz Lacan: “O discurso é o discurso do outro”. Para Lacan, este outro é o campo do significante no qual, seres falantes que somos, estamos inseridos desde nossa constituição. Nos estruturamos e somos seres inseridos, mergulhados no oceano da linguagem, desde o momento em que somos concebidos. Nascemos e recebemos todas as marcas de nossos pais, de seus desejos e do universo falante à nossa volta. Precisamos então questionar, sim, o discurso da nossa época, esse discurso essencialmente capitalista e “coisificante” que ressoa em nossas cabeças.

Por que é tão difícil mudar o pensamento? Mudar o pensamento exige trabalho. É preciso escutar o que está em nosso pensamento, em nosso discurso, e que nem ao menos nos damos conta, “atuando” apenas no registro do “desejo do outro” via inconsciente. Mudar o pensamento, encontrar e inventar o próprio significante ali onde há a falta de um, constituindo o próprio desejo é trabalho de análise (psicanálise). Precisa de uma escuta regida pela ética do desejo, a ética da falta e não da constante busca de completude que a cultura incentiva e até demanda.

Quais os ganhos de pensar de forma diferente enquanto os problemas e as pessoas não mudam? Encontrar e desenvolver um pensamento próprio é constituir-se sujeito desejante, saindo da alienação narcísica no desejo do outro. É mudar de posição na vida e se criar sujeito. Aí, então, não é preciso que as pessoas mudem. Você já mudou, e só então poderá mudar alguma coisa à sua volta.

 

Alfeu Trancoso
Filósofo

Onde estamos errando na nossa forma de pensar sobre nós e os outros? O que falta – em uns menos, em outros mais e em muitos nada – é o hábito da reflexão filosófica. Filosofar é fazer pensar, deixar uns minutinhos diários para perguntar sobre nós mesmos. Só assim nosso sentimento e nosso pensamento podem andar de mãos dadas. O bem-pensar é a condição primeira do bem-viver. Cada pessoa é um mundo, uma maneira singular de ser e de agir. Pelo parentesco das almas, nos amores nos encontramos justamente com aquelas pessoas que irradiam iluminações semelhantes às nossas performances. Educar as pessoas não é fazê-las pensar igual a nós, mas motivá-las a pensar o bem, o belo, o justo e o bom dentro de cada pessoalidade que somos nós.

Por que é tão difícil mudar o pensamento? Mudar é difícil mesmo. Há coisas em nós que não mudam jamais, fazem parte do nosso ser, mesmo que doa, que nos limite, mas que nos permite. Aceitar nossas limitações faz parte do ideário de cada pessoa. Educar é muito mais adequar essas limitações ao nosso cotidiano, respeitando as diferenças do outro. Não podemos ser espelho para ninguém. O educador aponta direções, expectativas; o educando cria, muda e conserva, mesmo na dor, suas limitações. É o educando que se educa, que compreende suas qualidades, mas deve ter humildade para assumir suas limitações.

Quais os ganhos de pensar de forma diferente enquanto os problemas e as pessoas não mudam? Aristóteles já dizia que, quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas. O ser humano é muito igual e, extrema ironia, infinitamente diferente. Creio que o ser humano construiu maravilhas do ponto de vista instrumental e científico, mas subjetivamente ainda não saímos da caverna. Somos históricos racionalmente, mas pré-históricos emocionalmente. Não fizemos ainda uma revolução do coração, somente a da razão. Continuamos tão cruéis, intolerantes e radicais quanto o homem das cavernas. Nesse aspecto, que deveria ser o mais importante, não evoluímos em nada. Continuamos falando de amor, tolerância e afeto, mas nós mesmos somos carentes dessas qualidades. Quem não já escutou alguém falar de democracia, mas, na prática, se revelar um ditador, aquele que fala de mudança, mas nunca muda, aquele que fala de amor, mas é um mal-amado porque é mal-amante. O problema não são os outros, somos nós. A pergunta primeira que todos deveriam é essa: O que devo fazer para, ao compreender as minhas limitações, aceitar as dos outros.

Sister Mohini Panjabi
Pensadora e iogue

Onde estamos errando na nossa forma de pensar sobre nós e os outros? Nossos pensamentos, na maior parte das vezes, são apenas reações imediatas a situações que acontecem à nossa volta. Em vez de corrermos alucinadamente pelas situações que se descortinam à nossa volta, temos que encontrar um ou dois minutos para nos conectarmos com nossa fonte de paz.

Por que é tão difícil mudar o pensamento? Qualquer mudança parece sempre difícil, pois desafia nossos hábitos que, de tão arraigados, limitam nossa capacidade de compreender uma realidade diferente. A função da mente é pensar estimulada por situações, imagens e sons que vêm do meio externo ou por registros gravados no subconsciente. O intelecto faz uma análise desses pensamentos e muda-os, se assim decidir. Muitas vezes, as pessoas não conseguem discernir um pensamento de insatisfação, ou de irritação como maléfico, e permitem que esse fluxo se transforme em um sentimento mais intenso. Somos derrotados por nós.

Quais os ganhos de pensar de forma diferente enquanto os problemas e as pessoas não mudam? Temos que mudar a perspectiva Pollyana da vida. Situações desafiadoras e pessoas difíceis sempre existirão, mas, quando mudamos nossa forma de pensar e, em vez da crítica, procuramos a diferença; em vez da lamentação, procuramos a lição, tornamos-nos independentes. Quando somos livres das influências, podemos analisar a situação de uma perspectiva diferente e ter ganhos, mesmo em situações aparentes de perda.

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