O mundo beta permanente


Um produto de alta tecnologia ainda em teste está na chamada fase beta. Daí surgiu a expressão “beta permanente”: o produto continua em teste mesmo depois de entrar no mercado, vivendo em constante renovação, como se o definitivo fosse o provisório, sempre aberto às mais diferentes colaborações e revisões.

Estar inacabado não é necessariamente um problema porque, na era da informação, se inova sempre e cada vez mais rapidamente.

Muitas empresas estão entregando seus produtos em fase “beta permanente”, o que, até há pouco tempo, seria visto como um descuido.

O mundo “beta permanente” já está moldando a forma como trabalhamos, ensinamos, aprendemos e produzimos: basta ver a velocidade com que os mais jovens se adaptam às novas tecnologias. Ou como cada vez mais rapidamente as empresas se desfazem.

É isso que torna ainda mais dramática a série de informações divulgadas, na quinta-feira passada, pelo Ministério da Educação sobre o ensino superior: formam-se muito menos engenheiros do que o necessário no país. Formam-se poucos professores para dar aulas de matemática, química, física ou biologia.

Para piorar, a qualidade dos cursos em geral, como sabemos, é baixa: apenas 1,39% das instituições de ensino superior atingiram a nota máxima. Uma imensa maioria está na categoria do sofrível.

Mesmo as melhores universidades têm dificuldades de se abrir à inovação, aceitando parcerias com a iniciativa privada em busca do patrocínio de pesquisas, num temor ideológico do capitalismo -o que é de um imenso obsoletismo mental.

Causou escândalo, na USP, um escritório de advocacia querer patrocinar uma sala na Faculdade de Direito. A universidade demorou até que, enfim, aceitassem a doação de um empresário (José Mindlin) de sua extraordinária biblioteca, que, depois dos debates, ganhou um espaço no campus.

Só agora está surgindo, em São Paulo, ainda engatinhando, um polo tecnológico ao lado da USP. Estamos falando daquela que é considerada a melhor universidade brasileira, na mais rica cidade do país, marcada pela economia de serviços.

A proposta do senador Cristovam Buarque é provocativa, mas tem base. Ele acha que as universidades não deveriam estar ligadas ao Ministério da Educação, o qual deveria centrar-se no ensino básico. Deveriam estar ligadas ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

A vantagem de uma nação está em sua capacidade de inovar ou seja, de refinar seus cérebros.

Não foi por outra razão que a China estipulou como meta nacional estar na ponta da inovação tecnológica, tentando criar faculdades que estejam no topo do ranking mundial. Estão atraindo professores de várias partes do mundo e mandando alunos estudar fora.

A China está consciente de que não basta apropriar-se de tecnologias de países com os quais faz negócios e aos quais pode impor, na marra, esse tipo de acordo.

Provocou espanto mundial o fato de a China aparecer em primeiro lugar no teste internacional de educação (Pisa) -o teste foi realizado por estudantes de escolas ricas e pobres de Xangai.

Somos um país em que o professor universitário se aposenta cedo, em que impera a lógica da isonomia, em que há dificuldades burocráticas de atrair mestres estrangeiros. Sindicatos, com apoio de alunos, param as atividades universitárias, motivados por questões corporativas. Falar em cobrar mensalidades para aumentar o orçamento das universidades, apesar de a maioria dos estudantes serem das classes mais abastadas, é visto como crime.

Cientistas brasileiros são, muitas vezes, obrigados a viver no exterior para tocar suas pesquisas.

O brasileiro é aberto a novidades e há no país uma visão empreendedora. Mas há pouco incentivo para abrir empresas e escassas linhas para empresas dispostas a inovar. Ainda engatinha o mercado de investidores que caçam talentos nas universidades. Muitas vezes, o dinheiro governamental para bancar inovadores e pesquisadores se perde na burocracia.

No mundo “beta permanente”, isso é mais ou menos como comparar a velocidade de uma máquina de escrever com a de um notebook.

PS- Uma das boas ideias da gestão Dilma é criar um ProUni para cursos profissionalizantes, o que pode garantir bons empregos e ajudar a aumentar a produtividade das empresas. Também é boa a proposta de disseminar o ensino médio em tempo integral, estabelecendo que um dos períodos, dentro ou fora da escola, seria profissionalizante. Desde que tirada do papel , a disseminação desse tipo de proposta é o melhor caminho para os mais pobres terem bons empregos e, ao mesmo tempo, contribuírem para a produtividade das empresas.

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