Um estudo sobre o dilema moral na obra de Milan Kundera – A insustentável leveza do ser


A insustentável leveza moral de Thomas[1]

Um estudo sobre o dilema moral na obra de Milan Kundera

 

A ausência de um julgamento moral no espaço romanesco além de ampliar o alcance conotativo da obra propõe uma alegoria, ora discreta ora audaz, acerca da complexidade inerente ao mundo real. Uma vez que  toda a conjuntura ficcional parece tomar existência própria e assim conduzir seus leitores a entendimentos múltiplos e diversos. No entanto, essa aproximação entre ficção e realidade não deve ser entendida em um sentido exclusivamente empírico (a obra literária não é um apanhado de dados comprováveis) nem sob um viés restritamente sentimental, pois tal como parafraseia Barroso[2] (2013, p.62) sobre o raciocínio do escritor Milan Kundera: “[..]o romance é uma grande hipótese, uma grande questão, e, sendo assim, não dispõe de um sistema para comprovar, para chegar a uma verdade. ” E partindo dessa premissa da “amoralidade” na obra literária como meio epistemológico para situar o recorte ficcional (o romance) como um espaço abrangente e legítimo para “fruição”[3], será analisado o filme A Insustentável Leveza do Ser[4] com o foco na dicotômica e conflitosa relação entre a “leveza” e o “peso”.

Baseado no livro best-seller de mesmo nome do escritor Milan Kundera, o filme A insustentável leveza do ser possuí três personagens principais sendo eles: Thomas, um médico bem-sucedido que coleciona conquistas sexuais, Tereza, moça romântica que almeja ser fotógrafa e por fim Sabina, artista plástica e amiga/amante de Thomas que compactua com a visão dele sobre o sexo e a vida.

A trama se modela através das interações entre o trio e os impactos dos desdobramentos históricos sobre a dinâmica entre eles. A maioria das análises, a respeito tanto do filme quanto do livro, tendem a dar demasiada significância ao contexto histórico vivenciado tanto pelo os personagens quanto pelo o autor.

Adoção, exclusiva, de tal linha interpretativa acaba por reduzir o campo de análise da obra, pois prende a história e seus personagens a condição de produtos de um só tempo histórico. E como asseverava Giorgio Agambem: “[…]aquele que adere plenamente a sua época, não consegue vê-la nitidamente, portanto, não é capaz de executar relações fora desse tempo com outras épocas e culturas.” (AGAMBEM apud BARROSO, p.77). E o próprio autor da obra em análise já dizia:

Hoje os exploradores da atualidade, depois de longo tempo, esqueceram a Primavera de Praga assim como a invasão russa. Graças a esse esquecimento, paradoxalmente, A brincadeira poderá voltar enfim, a ser aquilo que sempre quis ser: romance et [e] nada senão um romance. (KUNDERA apud BARROSO, 2013, p.60)

Então, deslocada do fator histórico-político, a obra de Kundera pode ser vista sob a permanente, universal e atemporal perspectiva da condição humana. E enviesando tal óptica para o campo da moralidade temos a relação entre os opostos “leve” e “pesado” respectivamente representados por Thomas e Tereza. Cada um dos personagens vive de acordo com seus próprios princípios. Na primeira parte da película Thomas nos é apresentado como um homem que vive livremente e satisfaz seus desejos sem nenhum tipo de complicação, e consequentemente sem compromissos. Ele conduz sua vida com “leveza” em um eterno carpe diem[5]. Enquanto que Tereza não consegue viver com tal desprendimento, ela precisa se engajar e se entregar à algo, alguém ou algum ideal. E por isso no decorrer da história sua vida vai ficando carregada pelo “peso” das responsabilidades, mágoas e dos atritos em seguir um caminho retilíneo. Essas personalidades, valores e estilos distintos se chocam quando os personagens inconvenientemente se apaixonam e vão tentando, penosamente, se adaptar ao mundo um do outro. O tão almejado equilíbrio se mostra uma promessa inatingível pois exige concessões e sacrifícios que ultrapassam a capacidade dos envolvidos, e se tomarmos o empasse amoroso como uma metáfora à angústia humana de viver imerso (a) em constante contradição, perdido (a) nos labirintos da existência sem ter qualquer orientação, podemos ver  quão profunda reflexão os protagonistas nos levam.

Obedecendo os ditames do “romance que pensa” a história da A insustentável leveza do ser não se atreve a dar nenhuma resposta ou formular qualquer sistema ético. Embora diferentemente do livro, o filme se abstenha de um narrador reflexivo[6], tal ausência chega a ser um diferencial benéfico pois deixa a obra aberta para variadas interpretações e atende as propostas epistemológicas da análise romanesca.

Nota-se na própria estrutura formal e interna do texto a perseguição dessa desarmonia do sujeito que lê, é como se a consciência organizadora da obra intencionalmente, quisesse, desejasse diretamente interferir na leitura e compreensão do leitor. Por isso, essa modalidade romanesca instiga constante e diretamente por meio de perguntas, as quais nem sempre estão interessadas em respostas. As interpelações são, na verdade, provocações ao leitor, aos seus valores e paradigmas, enfim, às verdades construídas enquanto sujeito próprio da modernidade. Aquele sujeito que pensa e que carrega consigo não o princípio inabalável da fé, mas sim o princípio da dúvida reconhecido e alimentado pelo racionalismo que inaugurou o pensamento moderno com René Descartes. (BARROSO FILHO, 2015, p.32)

Por fim, é possível concluir que a falta do julgamento moral é a pedra angular na construção de uma obra que convide os leitores à uma leitura crítica e reflexiva oferecendo lhes apenas incógnitas. “O romance é uma grande questão, mas não há quem vá responder a essa grande questão e a sabedoria do romance, diz ele, é exatamente sua ignorância” (KUNDERA apud BARROSO, 2013, p.62). E dessa maneira instigando os leitores ao mais primevo ímpeto filosófico: a busca pelo o conhecimento.

[1] Autora: Gabriella Cardoso Paiva. Texto avaliativo elaborado para a disciplina Ideias Filosóficas em Forma Literária ministrada pelo Dr. Wilton Barroso Filho em 2º/2016.

[2] BARROSO, Maria Veralice. A obra romanesca de Milan Kundera: Um projeto estético conduzido pela ação de Don Juan. Brasília: 2013. Disponível em: http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UNB_9e90a2a6f13e73361eea1e9123ffb552

 

[3] BARROSO FILHO, Wilton; BARROSO, Maria Veralice. Epistemologia do Romance: uma proposta metodológica possível para a análise do romance literário. Disponível em: http://epistemologiadoromance.blogspot.com.br/p/artigos.html

 

[4] A INSUSTENTÁVEL leveza do ser. Dirigindo por Philip Kaufman. Roteiro de Jean-Claude Carrière Produzindo por Saul Zaentz. 1988.

 

[5] Expressão em latim que significa “aproveite o dia”.

[6] BARROSO FILHO, Wilton.A questão do narrador e as duas insustentáveis levezas do ser: no romance e no filme. In: Dossiê. v.14, n. 2, 2012

 

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