Teoria da Complexidade e as múltiplas abordagens para compreender a realidade social


The complexity theory and the multiple approaches to understanding the social reality
Luis Miguel Luzio dos Santos
Edna Marta Pelosi
Bernardo Carlos Spaulonci Chiachia Matos de Oliveira
Resumo:
Este ensaio é produto de uma reflexão sobre as múltiplas abordagens, que se
contrapõe ao reducionismo e ao determinismo positivista hegemônico. Propõe-se
a auxiliar na compreensão de como a Teoria da Complexidade apresenta-se como
um modelo epistêmico mais frutífero para as ciências sociais à medida que
apresenta uma visão mais complexa e ampliada da realidade. Parte-se, no
entanto, num primeiro momento, da premissa de que a teoria geral dos sistemas,
antes mesmo que o pensamento complexo, propõe-se a romper com o
reducionismo, o mecanicismo e o determinismo clássico, mas falha justamente
onde o primeiro é mais avassalador para a prática sócia l– na capacidade que este
demonstrou durante longos anos de manter a regulação e a ordem vigente.
Contudo, sem intencionar apresentar a Teoria da Complexidade como uma
alternativa definitiva ao pensamento ortodoxo, faz-se um paralelo entre esta e a
dialética marxista, com a qual, ao mesmo tempo em que parece dialogar, diverge
num aspecto fundamental – a forma de conceber a mudança social – e a partir
disto adentra-se na discussão sobre seu possível relativismo.
Palavras-Chave: Paradigma positivista. Teoria geral dos sistemas. Teoria da
complexidade.
Abstract:


Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP; Mestre em
Administração pela Universidade Estadual de Londrina – UEL; Graduado em Economia e Administração, ambos
pela Universidade Estadual de Londrina-UEL. Atualmente é Professor Adjunto do Departamento de
Administração da Universidade Estadual de Londrina – UEL. Atua principalmente nos seguintes temas:
Socioeconomia, Economia Solidária, Políticas Públicas, Terceiro Setor e solidariedade. Integrante do Projeto
Rede de Apoio à Comercialização de Produtos e Serviços de Socioeconomia Solidária (PROSOL), financiado pelo
programa “Universidade Sem Fronteiras”: Extensão Tecnológica Empresarial da Fundação Araucária.
Organizador do livro Economia Solidária em Londrina: aspectos conceituais e a experiência institucional. E-mail:
lmig@uol.com.br

Graduada em Adminsitração pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Mestranda de Administração do
PPGA-UEL. Atualmente é servidora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, onde ocupa o cargo de
Administradora. E-mail: ednapelosi@gmail.com

Graduado em Administração pela Universidade Estadual de Londrina (2007); mestre em Administração
(2012) (Programa de Pós-Graduação em Administração – PPGA-UEL), bolsista CAPES. E-mail:
oliveira.bernardo@gmail.com
Luis Miguel Luzio dos Santos; Edna Marta Pelosi; Bernardo Carlos S. Chiachia Matos de Oliveira
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This essay is a product of a reflection about the multiple approaches that opposes
the reductionism and determinism hegemonic positivist. It is proposed to assist in
the understanding how the Complexity Theory is presented as an epistemic model
more fruitful to social sciences as it presents as more complex and extended view
of the reality. It begins, however, at first, understanding that either general
systems theory even before the complex thought it is proposed to break away
from reductionism, mechanism, and classical determinism, but fails precisely
where the first is more devastating to the social practice as it has demonstrated,
for many years, the ability to maintain the existing order and regulation. However,
without intending to introduce the Complexity Theory as a ultimate alternative to
orthodox thinking, it is shown as a parallel between this and the Marxist dialectic,
in which, while it seems to talk, and it differs in one fundamental aspect- the way
of conceiving social change – hence enters into the discussion about its own
possible relativism.
Keywords: Positivist paradigm. The general systems theory. The complexity
theory.
Introdução
Para Thomas Kuhn (2005), o termo paradigma (do grego parádeigma: modelo,
padrão, exemplo) é a visão de mundo que assegura a uma comunidade científica suas
abordagens de investigação científica. São, portanto, realizações científicas
universalmente reconhecidas que, durante certo período de tempo, fornecem modelos
de problemas e soluções para uma comunidade de praticantes da ciência. Neste sentido,
pesquisadores que compartilham do mesmo paradigma foram submetidos à mesma
iniciação profissional e educacional similares, absorvendo a mesma literatura técnica e
absorvendo delas as mesmas lições.
Segundo Serva, Dias e Aperstedt (2010), as ideias de Kuhn são especialmente
importantes, porque permitem a compreensão das forças impulsionadoras e restritivas
de novas teorias e ideias. Ao questionar o enfoque tradicional do progresso científico,
este autor revela que a ciência está em constante estado de evolução, que ocorre de
forma descontínua quando um paradigma é substituído por outro. A revolução científica
ocorre quando o paradigma instaurado se vê total ou parcialmente superado por outro
que desponta como um veículo mais apropriado para a teoria e a prática científicas, ou
seja, trata-se de uma transformação dos princípios organizadores do conhecimento.
Nesse sentido, o paradigma funcionalista que representou a hegemonia absoluta
nos estudos sociais e organizacionais até meados do século passado (SERVA; DIAS;
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APERSTEDT, 2010), dada a sua capacidade de fazer predições, estabelecer relações
lineares de causa e efeito e, principalmente, de parecer exercer controle sobre as
questões sociais, apresenta sinais de desgaste. Isso porque, ao transpor os modelos da
ciência natural para a esfera social, excluiu desta análise dimensões humanas e subjetivas
que não podiam ter sido renegadas, criando sérios obstáculos à compreensão das
mudanças que estão hoje ocorrendo no mundo, fruto de sua própria racionalidade. Como
asseveram Morin e Le Moigne (2000), a crise de responsabilidade e de consciência pela
qual passa o racionalismo mecanicista postula a reintrodução do sujeito, de um sujeito
que reflete sobre si mesmo, discute sobre ele mesmo, e contesta a própria ação.
Assim, reconhecendo a possibilidade de uma crise que se assenta principalmente
nas características determinísticas e reducionistas do racionalismo científico, este ensaio
perpassa por duas propostas que apontam para uma epistemologia mais ampliada da
realidade: a teoria geral dos sistemas e a teoria da complexidade. A teoria geral dos
sistemas por meio do conceito de sistemas abertos apresenta uma análise mais complexa
da realidade social e aponta para uma reorientação da visão do observador para a
diversidade, as inter-relações e os mecanismos de adaptação que ocorrem no sistema e
entre ele e o ambiente (MORIN, 2005a). Contudo, segundo o entendimento neste ensaio,
a TGS não se constitui uma evolução muito profícua, já que, ao buscar o equilíbrio
constante, não consegue ver o conflito como potencial de transformação e, portanto, não
consegue romper com os preceitos epistemológicos e teóricos vigentes.
No que se refere à complexidade, busca-se delinear como este paradigma
reconhece a autonomia, a independência e o indeterminismo da parte perante o todo e,
portanto, do sujeito perante a sociedade. Para possibilitar esta compreensão, recorre-se à
reconceituação que Edgar Morin (2005a) apresenta em Ciência com Consciência acerca da
teoria sistêmica. Desse feito, reconhece-se na complexidade a possibilidade de uma
evolução metodológica no que se refere aos princípios deterministas cunhados pelo
pensamento dominante.
Contudo, não intencionando colocar esta alternativa como perfeita ou definitiva,
abre-se uma discussão sobre a forma como este paradigma concebe a mudança social,
que, diferentemente da dialética (com a qual parece dialogar), não pressupõe a
superação de um modelo de sociabilidade por outro, seja em termos econômicos ou
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outro qualquer. Discute-se, então, sobre o que pode parecer um possível relativismo por
parte desta abordagem.
O racionalismo científico
O racionalismo científico que fundamenta a ciência moderna emergiu pela
superação do paradigma escolástico predominante ao final da Idade Média, época em
que os preceitos filosóficos Aristotélicos eram disseminados pelo clero, que buscava uma
conciliação entre razão e fé, e, portanto, subordinava todo o conhecimento ao
dogmatismo cristão. O Renascentismo e, posteriormente, o Iluminismo são considerados
pela história, o resgate da razão até então oprimida pelo obscurantismo do paradigma
escolástico.
Entre os pioneiros dessa revolução científica destacam-se Nicolau Copérnico, que
formulou a concepção heliocêntrica do universo; Galileu Galilei, considerado o fundador
da física moderna, tendo comprovado, por meio do uso do telescópio, a teoria de
Copérnico de que a terra gira em torno do sol; e Francis Bacon, criador do método
empírico e propositor da metodologia indutiva. De Francis Bacon também deriva a ideia
de que o bem-estar do homem depende do controle científico obtido por ele sobre a
natureza. O homem, ministro e intérprete da natureza, faz e entende tanto quanto
constata, pela observação dos fatos e pelo trabalho da mente, sobre a ordem da
natureza; não sabe nem pode mais (BACON; CIVITA, 1999 ).
Contudo, é a René Descartes (1596-1650) e a Isaac Newton (1642-1727) que se
atribui as maiores honras pela formulação da ciência moderna, ou ciência positivista
como passou a ser chamada depois destes pensadores (BAUER, 2009). A visão de mundo
que se disseminou depois desta época é denominada paradigma positivista ou, em
reverência aos seus dois maiores artífices, “paradigma cartesiano-newtoniano”.
Considerado o pai do racionalismo moderno, Descartes postulou serem as leis do
pensamento regidas pelas leis da matéria. Consolidou as metodologias analítica (que
representa o processo lógico de decomposição do objeto em seus componentes básicos)
e dedutiva (que do geral apreende o particular, com base num rigoroso uso da
matemática), também foi o principal mentor do princípio da causalidade, pelo qual os
efeitos decorrem necessariamente das causas. Na busca de uma matemática universal,
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capaz de unificar os díspares campos do conhecimento, argumentava pela progressão de
termos superiores por meio da informação dos anteriores, como se tudo pudesse ser
derivado de causas primeiras (BAETA NEVES; NEVES, 2006).
Descartes foi também o autor do célebre postulado “Penso, logo existo”, que levou
à cristalização dos dualismos matéria-espírito e corpo-alma nas ciências e na filosofia,
como bem ressalta Bauer (2009). A este respeito, Andery et al. (2007) explicam que, ao
distinguir corpo e alma, Descartes atribui um valor diferente para cada um deles. O corpo
humano identifica-se com os demais corpos do universo: é extenso, movimenta-se e pode
ser explicado mecanicamente. Já a alma é a essência do ser humano e, diferentemente
dos outros corpos, é inextensa e indivisível. No entanto, à alma cabe pensar, o que
envolve entendimento (responsável pelo conhecimento) e vontade (à qual estão ligados o
desejar, o negar, o duvidar). Cabe então à alma, a principal função na produção de
conhecimento: desvendar o que as coisas são. Todavia, para Descartes isto só será
possível por meio da razão, único elemento que, pelo método cartesiano, é capaz de
chegar a leis ou princípios gerais acerca das coisas.
Assim, toda a natureza, poderia ser dividida em dois domínios exclusivos – o da
mente (res cogitans) e o da matéria (res extensa) o que iria resultar no progressivo
afastamento entre as ciências humanas, concentradas na “coisa pensante”, e as naturais,
voltadas à “coisa extensa” (BAUER, 2009, p. 23).
Isaac Newton, propositor de uma mecânica racional, postulou ser possível
demonstrar, por meio das forças dos movimentos, todos os demais fenômenos da
natureza. Newton também trouxe para seu modelo de universo a noção de espaço
tridimensional da geometria euclidiana, da qual deriva as noções de espaço e tempo
absolutos. O universo é ordenado e harmônico, existe uma ideia de totalidade que pode,
após Newton, ser descrita por leis elegantes e simples (BAETA NEVES; NEVES, 2006, p.
184). Segundo a mecânica newtoniana, o mundo da matéria é uma máquina cujas
operações podem se determinar exatamente por meio de leis físicas e matemáticas, um
mundo estático e eterno a flutuar num espaço vazio, um mundo onde o racionalismo
cartesiano se torna cognoscível por meio da decomposição das partes.
Assim, o que se configurou após estas ideias e empreendimentos foi uma visão de
mundo sustentada em premissas tais como a ordem das coisas, a legislação universal, a
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sistematização do real, o absoluto, o determinismo mecanicista, a dualidade sujeitoobjeto, o rigor metodológico, a razão e a máquina. A concepção metafórica do universo
como uma máquina leva à crença de que ele pode ser regido por leis perfeitas e
imutáveis. Esta compreensão de mundo vai exercer influências em outros campos do
saber, principalmente em decorrência das conquistas da revolução científica que se
finalizam no século XVIII, reforçando a ideia de que a ordem e a estabilidade originárias
deste pensamento são a precondição para a transformação tecnológica do mundo. A
partir daí estão criadas as condições para a emergência das ciências sociais no século XIX
(SANTOS, 2002).
Dessa forma, a confiança e a euforia em relação ao progresso científico fornece a
base para a formulação da sociologia positiva de Auguste Comte (1798-1857) propositor
da lei dos três estados, pela qual o desenvolvimento do conhecimento humano havia
percorrido três fases distintas: a teológica; a metafísica e a científica – sendo que, apenas
na terceira fase, ou seja, com a ciência positivista a humanidade encontrava a maturidade
definitiva. Apresentando os fundamentos de uma teorização sociológica característica do
modelo “positivo” das ciências naturais e utilizando analogias mecânicas e orgânicas,
Comte distingue entre estático (ordem – a causa) e dinâmico (progresso – o efeito),
segundo a crença de que a civilização ruma sempre numa direção “positiva” (o ideal do
progresso científico-tecnológico), apoiada numa ordem, enquanto lei causal,
determinante para a existência social (BAUER, 2009). Dessa feita, ao extrapolar a
metodologia das ciências naturais para o estudo da sociedade, Comte inaugura o
pensamento positivista que por muito tempo iria predominar quase que absoluto nos
estudos sociais.
Contudo, é a Émile Durkheim (1858-1917) que se atribui o mérito de fundador da
sociologia acadêmica moderna, que respaldado no positivismo comteano, constrói as
bases da sociologia funcionalista que se manteve hegemônica no campo dos estudos
sociais até a metade do século passado. Um exemplo claro da transposição da
metodologia das ciências naturais para o campo do social é o tratamento dos fatos sociais
como “coisas”, ou seja, como uma realidade que é dada e que se impõe externamente ao
observador. Assim, a própria sociologia deveria, segundo Durkheim (2009), ao analisar o
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fato social, partir de suas dimensões externas, regulares, observáveis e mensuráveis e não
de aspectos internos ao indivíduo.
Nesse contexto, a sociedade precede o indivíduo e se sobrepõe a ele, justamente
mediante os fatos sociais que, revestido pelas leis, pelas instituições da sociedade e pela
educação, tem o papel de conformar o indivíduo a um determinado padrão de
comportamento social. Ao indivíduo, cabe se conformar a estes padrões sob pena de ser
excluído do sistema.
Contudo, é o conceito de divisão social do trabalho e de coesão social que mais
expressa o caráter funcionalista do trabalho de Durkheim. Para ele, a divisão social do
trabalho pode ser comparada a um organismo, em que as diferentes funções e
especificações são complementares e, portanto, geradoras da integração social,
integração esta que ele chama de solidariedade orgânica. Assim, diferentemente das
sociedades primitivas, em que a integração social era dada por meio da crença, da língua
e das leis e costumes, nas sociedades modernas, esta coesão se daria por meio do
trabalho, ou seja, da divisão social do trabalho, único meio, a partir de então, de
conformação das relações sociais.
Entretanto, é importante ressaltar que, mesmo antes do positivismo de Comte e
Durkheim, é possível constatar a influência positivista na formulação de algumas teorias e
conceitos que ainda perduram em nossa sociedade. Para Bauer (2009) dois exemplos
podem se destacar: A metáfora da “mão invisível” (natural) de Adam Smith, segundo a
qual o comércio e a indústria são guiados por uma lei (também natural) de oferta e
demanda, e que se constitui no principal fundamento do liberalismo econômico; e o
conceito de “darwinismo social”, que extremou o conceito de “mão invisível” numa
relação entre a teoria da seleção natural de Darwin e o universo social que, desde Darwin,
principalmente por meio da obra de Herbert Spencer, vem sendo utilizada para dirimir a
compaixão e esclarecer serem os pobres os inadaptados na seleção natural do
capitalismo.
Daí se depreende que a transposição dos preceitos da nova racionalidade para o
plano do social não aconteceu de forma despropositada, mas sim porque favorecia a elite
dominante, que precisava justificar as desigualdades que começavam a brotar desde
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muito cedo na economia capitalista em plena ascensão. Como descreve Santos (2002, p.
64-65):
O determinismo mecanicista é o horizonte certo de uma forma de
conhecimento que se pretende utilitário e funcional, reconhecido menos pela
capacidade de compreender profundamente o real do que pela capacidade de o
dominar e transformar. No plano social, é esse também o horizonte cognitivo
mais adequado aos interesses da burguesia ascendente, que via na sociedade,
em que começava a dominar, o estágio final da evolução da humanidade (o
estado positivo de Comte, a sociedade industrial de Spencer, a solidariedade
orgânica de Durkheim). Daí que o prestígio de Newton e das leis simples a que
reduzia toda a complexidade da ordem cósmica tenham convertido a ciência
moderna no modelo de racionalidade hegemônica que pouco a pouco
transbordou do estudo da natureza para o estudo da sociedade. Tal como foi
possível descobrir as leis da natureza, seria possível descobrir as leis da
sociedade.
Para Campos (1997) este paradigma mecanicista, que deu o tom do progresso
científico e tecnológico, que conformou as relações sociais na sociedade moderna e que
ainda hoje é dominante, tem como concepção fundamental o universo como sistema
mecânico, externo ao indivíduo, formado por partes estanques, ordenado segundo leis
estáticas desvendáveis pela ciência, por meio do desenvolvimento de teorias. Para a
autora tal concepção suportou a crença na possibilidade de fazê-lo melhor conhecido
pela via da subdivisão progressiva das partes, sem prejuízo da essência do todo. O
reducionismo, a fragmentação e o determinismo, típicos do método científico desta
concepção de mundo, desdobraram-se na era moderna na ilusão da neutralidade, na
dificuldade de se aceitar e lidar com opostos, no paroquialismo e na arrogância.
A fragmentação progressiva foi deixando suas marcas ao estabelecer a divisão
entre mente e corpo, e mais tarde a separação da mente humana em racional e intuitiva.
Dado que o próprio método impedia a apreciação entre os opostos, a ciência favoreceu o
pensamento racional, em prejuízo do pensamento intuitivo; favoreceu o objetivo em
detrimento do subjetivo. Dessa feita, a concepção fragmentada reproduz-se nos modelos
organizacionais nos quais se supõe a política separada da administração; o planejamento
da execução e a separação entre os que pensam e os que fazem, em que é tributária a
epistemologia da administração, preconizada por Fayol e Taylor, e bastante viva ainda
hoje.
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O pensamento linear revela-se nas tentativas de aplicar aos problemas divergentes
suposições simplistas de causa e efeito; na crença de que tudo se desdobra numa
sequência mandatória de fases; na fé cega no progresso, no desenvolvimento, na
globalização, traduzida na certeza de que tudo que está por vir será melhor do que o que
já passou (SANTOS, 2002). Estas relações simplistas de causa e efeito podem explicar o
determinismo com o qual se revestem muitas das abordagens nos estudos sociais e
organizacionais: sempre haverá uma “melhor maneira” de resolver um problema,
proveniente sempre de uma determinada causa (the one best way de Taylor).
Exemplos claros de reducionismo podem ser percebidos na literatura
organizacional, quando se percebe a racionalidade instrumental tomada como a razão
humana; a lógica econômica como a lógica da vida; o ser humano reduzido ao recurso
humano; o trabalho ao emprego formal na organização econômica; o sucesso no
emprego e no cargo como sinônimo de autorrealização; o lucro como principal quando
não o único parâmetro de desempenho organizacional; e o crescimento econômico como
a única forma de progresso humano (CAMPOS, 1997).
Estas considerações nos remetem à Dialética do Esclarecimento de Adorno e
Horkheimer, publicada pela primeira vez em 1947, nos quais tais autores defendem que o
esclarecimento que tomou o ocidente no século das luzes converte-se novamente em
mito quando, ao colocar todo o conhecimento e toda a ciência a serviço da dominação da
natureza, da tecnologia e do capital, acaba por exercer a mesma dominação e controle
que as figuras mitológicas outrora exerciam na humanidade, isto porque como
representações da essência da realidade e da verdade, as figuras mitológicas e também
agora o progresso, o mercado e o capital não deixam nenhuma brecha para a esperança,
já que em ambos os casos a realidade é dada como fato acabado (ADORNO;
HORKHEIMER, 2011).
A Teoria Geral dos Sistemas nas Ciências Sociais
Num capítulo de seu livro Gestão da Mudança: Caos e Complexidade nas
Organizações, Bauer (2009) apresenta a física quântica como o início do fim do
reducionismo, seguido das primeiras descobertas da física quântica, diversas outras
teorias que despontaram em meados do século passado tentam demonstrar a
Luis Miguel Luzio dos Santos; Edna Marta Pelosi; Bernardo Carlos S. Chiachia Matos de Oliveira
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complexidade dos sistemas, os princípios de incerteza, de indeterminismo e de não
linearidade. É nesse contexto que situamos a teoria geral dos sistemas, que, como
apregoa este autor, também é fruto da necessidade de se procurar alternativas para o
reducionismo até então vigente.
Assim, a teoria geral dos sistemas surge nos estudos sociais e organizacionais com o
intuito de sanar o reducionismo e o mecanicismo que permeava o funcionalismo clássico.
Como sugere Demo (1989, p. 209), “a metodologia sistêmica esconde atrás de si, entre
outros elementos, também certa decepção com o especialista demasiado, que sabe até a
idiotice tudo sobre apenas certa coisa”. Busca-se então por meio da descoberta de
propriedades comuns a todos os sistemas o que o referido autor chama de o “especialista
em generalidades”, ou seja, o homem capaz de conservar a supervisão do sistema global
entravada pelo intento voraz de decomposição analítica.
A teoria dos sistemas, ainda que herdeira do Positivismo inicia uma crítica ao
mecanicismo até então incontestável, que divide organismos em agregados de células,
células em agregados de moléculas, moléculas em agregados de átomos, e o
comportamento humano num agregado de reflexos condicionados e incondicionados
(BAUER, 2009, p. 44).
Parece, contudo, haver certa tendência, por parte de alguns autores, de considerar
a teoria dos sistemas como um simples desdobramento das teorias funcionalistas, como é
o caso de Souza (2001). Defende-se aqui a ideia de que se o funcionalismo está
fortemente influenciado pelo conceito de “causalidade social”, que liga a teoria social,
conceitualmente à física, como é o caso do “fato social” de Durkheim (CAPRA, 2002); e
que a compreensão sistêmica baseia-se no pressuposto de que a organização social é
análoga aos sistemas vivos, biológicos, apresentando padrões de organização
semelhantes a estes sistemas.
[…] biologicamente a vida não é manutenção e restauração do equilíbrio, mas
essencialmente manutenção de desequilíbrios, como revela a doutrina do
organismo como sistema aberto. Nestes termos assume-se não só o ponto de
vista da funcionalidade das partes, mas também, e até certo ponto, sobretudo,
a convivência normal com a disfuncionalidade, dentro, porém de um contexto
de organização (DEMO, 1989, p. 215)
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Assim, se antes a unificação das ciências tinha sido vista como redução de todas as
ciências à física, a resolução final de todos os fenômenos em acontecimentos físicos, do
ponto de vista da teoria geral dos sistemas, a unidade da ciência ganha um aspecto mais
realista, porque considera a isomorfia das leis em diferentes campos. A função
integradora desta teoria se resume na consideração das uniformidades estruturais que se
manifestam por traços isomórficos de ordem nos diferentes níveis e domínios
(BERTALANFFY, 2008).
Vale ressaltar, entretanto, que essa postura é derivada de sua base positivista, que
vê a ciência como um empreendimento nomotético, isto é, que estabelece leis baseadas
no fato de os acontecimentos na natureza serem repetitivos e recorrentes, e daí a base
para o estudo das relações isomórficas que acabam por torná-la uma teoria que busca
entender o mundo como organização, como relação (DEMO, 1989). Originalmente, um
sistema é um conjunto de elementos em interação. Mas, inúmeras outras definições mais
detalhadas foram elaboradas, tais como: a) um sistema é um todo organizado e
complexo; b) sistema é um conjunto de elementos interdependentes, cujo resultado final
é superior ao somatório dos resultados que esses elementos teriam caso operassem de
forma isolada; e c) sistema é qualquer conjunto de partes reunidas, desde que
caracterizado pelas relações entre partes e pelo comportamento do todo (BAUER, 2009).
De forma sintética, o sistema dá primazia a duas dimensões importantes: a) um todo
inter-relacionado e b) o todo organiza as partes.
No entanto, foi a redescoberta do fenômeno cibernético que superou o conceito
exposto acima trazendo para a teoria dos sistemas a noção de dinamismo e
autorregulação. Sistema é autorregulação. Por meio dos conceitos advindos da teoria da
informação (input, conversão, output, feedback), a cibernética levou à constatação de que
o sistema não se atém mais apenas ao fenômeno da inter-relação das partes e de sua
organização interna, mas centra-se, sobretudo no discernimento da propriedade da
organização autossuficiente, com regulação própria. A capacidade de absorver
informação e de responder a ela deu origem ao conceito de realimentação sistêmica, que
passou a ser considerada o ponto essencial da definição de sistema, porque é a alma da
autorregulação. A retroalimentação do sistema é o que o torna um todo, dá-lhe contorno
Luis Miguel Luzio dos Santos; Edna Marta Pelosi; Bernardo Carlos S. Chiachia Matos de Oliveira
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delineável e explica sua razão de persistência, ou seja, que o torna sistêmico (DEMO,
1989).
Assim, o sistemismo se revela bem mais dinâmico do que o funcionalismo e o
estruturalismo, com os quais muitas vezes é comparado e até mesmo confundido. Este
dinamismo, segundo Demo (1989, p. 217-218), depreende-se, sobretudo, de três
conceitos básicos:
a) o conceito de contingência que denota que todo sistema tem organização
contingente e, portanto não rígida; b) o conceito de coerções que ao
representar o reverso da contingência, implica que a capacidade de coadunação
do todo é significada pela coerção – por aquilo que mantém o todo unido, que
mantém de maneira homogênea um todo heterogêneo; e c) retoma-se ao
primeiro conceito, acrescentando-se apenas o caráter probabilístico de toda a
organização. Por mais organizado que seja um sistema, a possibilidade de
desorganização não poder ser eliminada, mesmo porque já faz parte da visão
dinâmica de sistema.
Tais conceitos permitem, segundo o autor, a colocação tão cara ao sistemismo de
“sistema aberto”. Assim, o sistema é aberto se não se basta a si mesmo, se não há só
dinamismo interno, isolado em si, mas convivência com mundos externos, com o qual
convive por vezes, conflituosamente. Não se parte de um equilíbrio funcionalista, mas da
sobrevivência em ambiente adverso.
Ao se considerar os conceitos de inputs, outputs, transformação e feedback,
entende-se que a estabilidade do sistema é mantida por uma cadeia causal de
estímulo/resposta. O conceito de feedback quando utilizado nos sistemas sociais funciona
basicamente para diminuir as dissonâncias entre o sistema e o entorno, preservando a
estabilidade. É possível, contudo, como ressalta Ribeiro e Neves (2005) a partir da
descoberta de sistemas instáveis, caóticos e indeterminados, em que avulta a ideia de
que a ordem pode emergir do caos, falar em transformação, embora o novo sistema,
tanto quanto o anterior, há de desenvolver procedimentos capazes de superar qualquer
ameaça de extinção. Isto porque a teoria do sistema trata da sobrevida da sociedade, da
sua reprodução.
Isto posto, ao ressaltar a diversidade e a complexidade dos sistemas, a inter-relação
e sinergia que existe entre os seus diferentes elementos e sua interação dinâmica com o
ambiente, a abordagem sistêmica adverte para a fragilidade das explicações reducionistas
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e mecanicistas da realidade, que, ao separar a parte do todo, negligenciam as inúmeras
inter-relações que existem entre as diferentes partes, e delas com o ambiente. Assim, a
abordagem sistêmica aponta para uma reorientação da visão do observador para a
diversidade, as inter-relações e os mecanismos de adaptação que ocorrem no sistema e
entre ele e o ambiente, o que deveria, conforme observa Souza (2001), conduzir para
uma posição de maior humildade do homem perante o mundo, o que de fato quase
nunca ocorre.
Crítica ao método sistêmico
A principal crítica à teoria geral dos sistemas parece ser proveniente de seu
biologismo, ou seja, da tentativa de explicar os fatos sociais por meio de conceitos
advindos das ciências naturais. Se o funcionalismo parte da matemática e da física para
formular suas teorias acerca do universo, o sistemismo parte das ciências biológicas e por
isso não supera a tendência que condiciona as ciências sociais à racionalidade das ciências
da natureza, em que não se leva em conta o papel da cultura e da intencionalidade
emancipada sobre a realidade.
Ao analisar a realidade social e as organizações utilizando-se instrumentos
importados da biologia, a TGS pressupõe que o objeto de sua análise tende a tornar-se
tão previsível quanto os sistemas biológicos, e por isso constrói uma teorização baseada
na predição, no controle e na intenção de manter um equilíbrio constante, o que é
incompatível com a natureza complexa das ciências sociais (DEMO, 1989). Assim, a
despeito de toda a utilidade que esta teoria teve para a prática organizacional, pode-se
inferir dela aspectos bastante perversos quando analisada de um ponto de vista crítico,
isto porque, ao ser aplicada na esfera social, com base nos seus pressupostos de controle
e regulação, ela cria mecanismos que, a despeito de todos os problemas vigentes na
esfera social, buscam manter constantemente a ordem vigente. No contexto particular da
análise social e organizacional a epistemologia dominante permanece irredutível.
Afinado com esta crítica, Souza (2001) observa que por enfatizarem tanto os
aspectos de integração, organização, funcionalidade, propósito, evolução e interrelacionamento sistêmico, as teorias sistêmicas deixam de fora da análise social toda e
qualquer noção de poder, conflito e dominação que permeia toda a organização social. A
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análise sistêmica subtrai a ideia de que uma organização social não é um sistema
simétrico, no qual todos têm o mesmo papel na realização dos fins, mas sim um sistema
em que existem disputas de poder, e alguns membros, mais do que outros, são os
responsáveis pela determinação dos propósitos, e alguns são cooptados e controlados
pela organização social. Da mesma forma, o sistemismo, sobretudo a partir da TGS, passa
a desconsiderar que cada elemento que participa da organização social é um sujeito
político, possui livre arbítrio e pode arcar com as consequências de suas decisões e,
portanto, que as relações que permeiam a sociedade de uma maneira geral não podem
ser resumidas à condição biológica.
Nesta mesma linha de pensamento, recorremos às opiniões de Demo (1989), que
caracteriza as relações de conflito consideradas pela teoria sistêmica como uma “dialética
não antagônica”, já que, em se partindo da definição de que um sistema é um todo que
se autorregula, todo o conflito que ocorre dentro do sistema é, portanto, regulável. O
autor explica que esta noção é derivada da característica metodológica central de
circularidade sistêmica que se funda no processo de retroalimentação, que religa output
ao input, e que se choca com a dialética porque tende a considerar mudança dentro do
sistema mas nunca do sistema.
Isso significa que, mesmo sendo depositária dos méritos de ter avançado neste
campo em relação às teorias funcionalistas que consideram o conflito como mera
disfunção, a TGS ainda que o admita o percebe como possivelmente domesticável e
regulável e, portanto, em nada avança no sentido de conduzir a superações históricas;
mas de forma idêntica ao funcionalismo conduz apenas para reformas incrementais, com
o intento de manter a ordem e a integração.
Ao discorrer sobre os aspectos relacionais da TGS, Demo (1989) tece críticas ainda
mais incisivas ao seu organicismo quando afirma que a concepção científica do mundo
tem se apartado do interesse pela substância, pelas qualidades e propriedades inerentes,
voltando-se para a focalização central dos princípios da organização em si, dos princípios
relacionais, sem levar em conta o que é que está organizado.
Talvez isto constitua até certo ponto o componente terrificante lançado sobre o
sistemismo e todas as metodologias que privilegiam o aspecto relacional da
realidade, fomentando visão estática e desumana, por prejudicar o tratamento
Teoria da Complexidade e as múltiplas abordagens para compreender a realidade social
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de conteúdos históricos. O computador não capta o homem, mas aspectos
relacionais que cabem num cartão perfurado de acordo com um código frio. O
homem reduz-se a feixe de variáveis. No campo relacional, ademais, não
entram horizontes éticos, pelo que o homem tende a aparecer como peça
perdida na imensa maquinaria da organização social e física (DEMO, 1989, p.
213).
Ainda nos termos deste autor, ao aplicar o modelo cibernético à política, a teoria
sistêmica torna-se bastante conveniente aos olhos dos que dominam a cena do poder. A
capacidade de desenvolver expedientes de controle social por meio da coleta e
sofisticação de dados, previsão de conflitos, manejo de riscos políticos e etc., torna as
ciências sociais um instrumento formidável de domesticação das massas.
Para Morin (2005a), a cibernética ao mesmo tempo em que enriquece as ciências
sociais, restaurando o principio de totalidade complexa, transpõe por meio de sua base
paradigmática e epistemológica o princípio de racionalidade e funcionalidade para o
campo social e reduz tudo aquilo que é social, humano e biológico à lógica
unidimensional das máquinas artificiais.
Corroborando estas colocações, Bauer (2009) afirma que a principal deficiência que
se constata hoje na teoria dos sistemas é justamente a noção de equilíbrio, que esta
teoria forjou dos sistemas naturais, em que o ciclo ininterrupto de funcionamento de um
sistema cibernético tem como produto último justamente o equilíbrio. Ao contrário do
que se costumava acreditar, na natureza, as situações de equilíbrio são antes exceção do
que regra, e isso tem sido comprovado com a descoberta dos sistemas complexos. Com a
descoberta da não linearidade, as teorias do caos apelam a suspeitar da capacidade de
ação (controle das causas) e a capacidade de previsão (controle das consequências),
pondo em causa a ideia de transparência entre causa e efeito e, portanto, de equilíbrio
constante (SANTOS, 2002). Da mesma forma, nos tempos atuais, atributos como
permanência, estabilidade e equilíbrio são os que menos existem nas esferas sociais,
econômicas, culturais, políticas etc.
Nestes termos, dentro da perspectiva sistêmica não é possível conceber uma
mudança significativa nos pressupostos epistemológicos que conformam a teoria e a
prática organizacional no sentido de se transpor a racionalidade instrumental e substituí-
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la por uma racionalidade mais substantiva,
1
em que aspectos humanos, sociais,
ambientais e valorativos passem a ser também considerados no contexto organizacional,
que ainda hoje dá primazia total à eficiência, ao lucro e ao crescimento contínuo. Haja
vista sua limitação em romper com os pressupostos de controle e regulação do
paradigma hegemônico.
Uma reformulação do conceito de sistemas proposto pela Teoria da
Complexidade
Em sua obra, Ciência com Consciência, Morin (2005a) afirma que a teoria dos
sistemas resolveu aparentemente o problema do reducionismo ao incorporar o holismo
como novo princípio; aqui busca-se a explicação no nível da totalidade ao invés da
explicação no nível dos elementos de base como fazia o reducionismo. Contudo, para o
autor, o holismo proposto pela teoria dos sistemas depende do mesmo princípio
simplificador que o reducionismo ao qual se opõe (ideia simplificada do todo e redução
do todo), só abrangendo visão parcial, unidimensional e simplificadora do todo.
O autor propõe então uma reconceituação de sistemas e preconiza que um sistema
precisa passar a ser visto como sendo, a um só tempo, tanto mais como menos que a
soma de suas partes. Mais porque a reunião das partes permite o surgimento de novas
potencialidades para o conjunto, qualidades emergentes que também retroalimentam as
partes, estimulando-as a expressar suas potencialidades individuais, e menos porque o
conjunto acaba por determinar restrições às partes e as inibe de expressar aquelas
mesmas potencialidades individuais. “O homem, por exemplo, associado a outros
homens, é integrante de uma sociedade produtora de cultura, que ao mesmo tempo o
estimula e o constrange” (BAUER, 2009, p. 51). Essa definição de sistema inaugura uma
nova concepção de mundo e de realidade, apontando para um dinamismo organizacional
bastante contrário ao determinismo concebido pela ciência clássica.
Nesse sentido, o que Morin (2005a) propõe é, sobretudo, o reconhecimento da
circularidade nas explicações simultâneas do todo pelas partes e das partes pelo todo, ou

1
Ver Ramos (1981). A Razão Instrumental é baseada no cálculo das consequências utilitárias de cada ato
humano. A Razão Substantiva orienta o homem na ordenação de sua vida pessoal e social eticamente em
direção à autorrealização.
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seja, ambas essas explicações são complementares, sem que nenhuma possa anular as
características antagônicas e concorrentes da outra. Três circularidades são propostas
pelo autor, que constrói uma visão complexa da realidade: a circularidade todo – partes; a
circularidade unidade – diversidade; e a circularidade ordem – desordem.
No que se refere à primeira circularidade, “a visão simplificada diria: a parte está no
todo. A visão complexa diz: não só a parte está no todo; o todo está no interior da parte
que está no interior do todo!” (MORIN, 2007, p. 88). Isso é verdade para cada célula do
nosso organismo que contém a totalidade do código genético presente em nosso corpo.
Isso é verdade também para a sociedade que desde nossa infância se imprime como todo
em nossa mente, por meio da linguagem, da cultura, das crenças e saberes. O indivíduo
está na sociedade, que está no indivíduo. Daí surge o princípio hologramático, que
juntamente com os princípios recursivo e dialógico são utilizados por Edgar Morin para
explicar a trindade indivíduo/sociedade/espécie, ou seja, a relação entre estas três
instâncias que compõe a totalidade.
A circularidade unidade-diversidade implica que o todo existe enquanto uma única
unidade global, mas as partes têm dupla identidade, preservando suas identidades
próprias, não redutíveis ao todo e também constituindo uma identidade comum. Assim,
ao mesmo tempo em que a diversidade constrói a unidade, a unidade constrói a
diversidade. A relação sociedade – indivíduo, de acordo com o princípio recursivo, não se
realiza por um determinismo social que tolera margens de autonomia individual, mas
mediante um anel de produção mútua entre indivíduos e sociedade, no qual a sociedade
é produzida pelas interações entre indivíduos, mas, uma vez produzida, retroage sobre os
indivíduos e os produz. Assim, os indivíduos produzem a sociedade que produz os
indivíduos. “A emergência social depende da organização mental dos indivíduos, mas a
emergência mental depende da organização social” (MORIN, 2005b, p. 167).
Contudo, como bem ressalta Bauer (2009), a principal das circularidades, proposta
por Morin e a que exprime a essência do sentido de complexidade, dá-se entre as
instâncias da ordem e da desordem: circularidade ordem – desordem. “O que digo a
respeito da ordem e da desordem pode ser concebido em termos dialógicos” (MORIN,
2007, p. 74). Entre indivíduos e sociedade, que se complementam, também existem
antagonismos, que vêm da oposição entre egocentrismo e sociocentrismo; a sociedade
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reprime pulsões, desejos e aspirações individuais; essas pulsões, desejos e aspirações
tendem a transgredir as barreiras, normas e interdições da sociedade, colocadas
justamente para inibi-los e recalcá-los. A ordem e a desordem são dois inimigos: um
suprime o outro, mas ao mesmo tempo, em certos casos, eles colaboram e produzem
organização e complexidade. O princípio dialógico, desta forma, permite mesmo no seio
da unidade (sociedade) manter a dualidade (diversidade individual). Ele associa dois
termos ao mesmo tempo complementares e antagônicos.
Nesta reelaboração do conceito de sistemas, proposta por Morin (2005a), alguns
conceitos clássicos são superados: a) o reducionismo, que busca compreender o todo com
base nas descrições das partes; b) o holismo, que em sua vertente totalizante é também
simplificador já que reduz o que é por natureza complexo a uma única instância-chave (o
todo), terminando por negligenciar as partes; e c) o hierarquismo, que impõe uma
precedência unilateral do todo sobre as partes, por meio de sistemas que englobem
sistemas que englobem sistemas etc. A evolução rumo ao paradigma da complexidade
deve passar a considerar a circularidade e a recorrência de instâncias que são entre si
complementares, concorrentes e antagônicas. De uma relação linear de causa-efeito
determinista, passa-se a considerar relações recíprocas que condizem com a autoorganização e o dinamismo do sistema.
Daí a definição que Morin (2007, p. 13) traz da complexidade: “a complexidade é
um tecido (complexus: o que é tecido junto) de constituintes heterogêneas
inseparavelmente associadas: ela coloca o paradoxo do uno e do múltiplo”.
Complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações,
determinações e acasos que constitui o universo fenomênico.
Ao reformular o conceito de sistemas, Morin (2005a) antecede seu pensamento
complexo. Dessa feita, dentro de sua visão complexa o ser humano é parte do que o
autor denomina trindade “indivíduo/sociedade/espécie” que de forma hologramática,
recursiva e dialógica funcionam numa engrenagem de dependência recíproca, umas
gerando as outras. Assim, a própria reprodução da espécie é ela mesma influenciada pela
sociedade que por meio de sua cultura estabelece as regras da vida em comum. “A
sociedade se autoproduz pela reprodução biológica, que se auto-reproduz de acordo com
a norma sociológica.” (MORIN, 2005b, p. 170).
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Dessa forma, contrariando a ciência tradicional em que tudo é determinismo, a
complexidade de Morin traz à tona a emergência do sujeito e, consequentemente, da
autonomia. Mundo e sujeito são colocados em situação de reciprocidade e
inseparabilidade, contudo, dada esta inseparabilidade, a própria autonomia é ela mesma
dependente. Surge então o conceito de autonomia dependente: não há sociedade sem
indivíduos e não há indivíduos propriamente humanos dotados de espírito, linguagem e
cultura sem sociedade. Ao mesmo tempo em que o indivíduo recebe influências do seu
meio cultural, também é dotado de autonomia inata, que inibe o total determinismo
cultural e social.
Então, ser sujeito é ser autônomo, sendo ao mesmo tempo dependente.
Dependente de seu patrimônio genético, do qual depende sua autonomia cerebral; de
seu meio ecológico, do qual depende sua autonomia biológica; das normas sociais, no
qual, por meio da cultura, adquire seu modo individual de conhecer, de comportar-se e
adquire sua autonomia mental (MORIN, 2005b). Portanto, a autonomia alimenta-se de
dependências; para ser quem somos dependemos de uma sociedade, de uma cultura, da
linguagem, de educação, mas também de nossos genes, estes últimos, nos permitem ter
um cérebro e uma mente e de poder assumir uma cultura e exercer autonomia sobre o
meio em que vivemos.
Para Morin, uma vez que a natureza humana é complexa, da mesma forma ela deve
ser vivenciada, e por isso a sociedade que mais favorece as autonomias individuais é a
sociedade complexa. “A alta complexidade está ligada ao desenvolvimento das
comunicações, das trocas econômicas e de idéias, ao jogo dos antagonismos entre
interesses, paixões e opiniões” (MORIN, 2005b, p. 274). Quanto maior os pluralismos no
campo econômico, político e cultural, maior são as possibilidades de liberdade e escolha
individual e menos nossa vida é programada em relação aos genes, à sociedade e à
cultura. Para o autor, é nestas condições que a submissão do indivíduo se torna
moderada, que a marca indelével dos determinismos culturais passam a conformar
algumas brechas, e que os desvios passam a desempenhar um papel inovador ao invés de
serem rechaçados. A complexidade social limita a exploração e a subjugação do indivíduo
ao aparelho do Estado e das normas sociais, permitindo autonomia física, mental e
espiritual.
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Dessa forma, ao conceber o indivíduo autônomo e capaz de influir no processo
social, a teoria da complexidade, assim como a dialética, afasta-se da concepção
metafísica hegemônica, da qual é tributário o funcionalismo e o sistemismo e que, como
salienta Konder (1998, p. 9), “prevaleceu ao longo do tempo porque correspondia, nas
sociedades divididas em classes, aos interesses das classes dominantes, sempre
preocupadas em organizar duradouramente o que já estava funcionando”. Contudo, uma
análise mais profunda da metodologia complexa aponta para um novo conceito de
transformação, se é que se pode falar assim, que, ao contrário da dialética, não prevê
necessariamente a transformação com base na superação de um modelo social pelo
outro, mas, sim, a possibilidade de convivência de diversas formas diferentes de
organização social no seio de uma mesma sociedade complexa.
A complexidade apresentada por Morin propõe uma nova lógica que se opõe à
visão polarizada e excludente entre princípios organizativos distintos, defendendo em seu
lugar a necessidade de modelos híbridos e complementares, considerando-se que a
realidade é multifacetada, constituída por uma infinidade de nuances que não podem ser
reduzidas ou aniquiladas, mas respeitadas como inerentes à realidade social em que
vivemos. Todavia essa posição tão genuína à teoria da complexidade encontra críticas em
distintos autores, como Harvey (2005) que entende essa posição como uma forma de
relativismo, que tenta acomodar forças e propostas distintas quando não contrárias, o
que tende a conduzir a um processo de cooptação, pertencendo ao plano imaginário a
possibilidade de convivência pacífica entre interesses declaradamente opostos.
Santos (2007) traz alguns avanços ao afirmar que a teoria crítica centra-se na
defesa do princípio da igualdade, mas foi incapaz de reconhecer as diferenças, o que se
opõe à própria realidade. Nesse sentido, o autor vê na teoria da complexidade uma outra
maneira de entender o mundo em termos políticos e epistemológicos, não numa
aderência ao relativismo, mas antes numa convivência entre movimentos que, mesmo
distintos, comungam em pontos fundamentais, nomeadamente nos ideais
emancipatórios e na defesa de propostas contra-hegemônicas, o que poderá sinalizar
avanços importantes.
Complexidade e Dialética
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Para melhor elucidarmos as afirmações anteriores, partiremos de uma comparação
entre aspectos fundamentais da relação sociedade-indivíduo do ponto de vista da
complexidade com a dialética histórico-estrutural marxista. Ambas parecem concordar
que o indivíduo pode influir na transformação social, porém, se para a dialética marxista o
ator político está condicionado pela estrutura objetiva da sociedade, ou seja, pelas
condições econômicas que se lhes impõe, para a complexidade ele é muito menos
dependente destas sanções, ou melhor, tanto menos dependente quanto maior for sua
participação na vida cultural, política e ideológica da sociedade, já que é nestes aspectos
da vida em sociedade que reside a formação da consciência crítica.
A dialética marxista subordina a vida intelectual à determinação material e por
conseguinte, a superestrutura (sistema jurídico, político, artístico, filosófico e ideológico)
à infraestrutura (produção econômica material). Estando a condição econômica como
determinante de todo o resto, só poderá haver mudança profunda com a superação do
modelo econômico, neste caso, superação do modo de produção capitalista por outro.
“Dificilmente se poderia admitir revolução na superestrutura, do tipo revolução na
educação, na cultura, na arte, na consciência, e mesmo na política” (DEMO, 1989, p. 111),
uma vez que a própria consciência, é ela mesma determinada pelo modo de produção.
Neste sentido, enquanto para a dialética marxista a transformação representa,
preliminarmente, transformação na forma de produção econômica, da qual deriva todos
os aspectos subjetivos da sociedade, para o paradigma da complexidade a transformação
se faz possível a partir do próprio indivíduo, que por meio da educação, da arte, da
cultura, da política e da participação numa sociedade livre pode desenvolver uma
consciência crítica capaz de questionar as bases da sociedade e, portanto, transformá-la
(MORIN, 2005b).
Deve-se, no entanto, antes de exaurir está análise levar em conta que enquanto na
dialética marxista o objeto de estudo foram as relações capitalistas e as contradições
inerentes a esta forma de produção, já que, desde Hegel, a superação dialética se dá por
meio do trabalho (KONDER, 1998); para a complexidade, o objeto de estudo é a
complexidade social, a complexidade do sujeito e as relações que brotam entre estas
duas instâncias. O capitalismo do ponto de vista da teoria da complexidade é apenas uma
forma de produção econômica que subordinou toda uma sociedade aos seus ditames e,
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por isso mesmo, reduziu toda a complexidade do sujeito e da vida a um único aspecto – a
dimensão econômica. Contudo, dentro de uma abordagem complexa, o que se busca não
é a superação deste modelo por outro, mas, sim, a possibilidade da convivência entre o
capitalismo e modelos alternativos.
Esta se constitui, inclusive, na principal crítica que a complexidade defere à
modernidade – a redução da vida social a um único elemento determinante sobre todos
os demais (o econômico); a um único modelo econômico sobre todos os demais (o
capitalista); a uma única racionalidade sobre todas as demais (a científica), e assim por
diante (MORIN, 2007).
O paradigma da complexidade, dentro da proposta de Edgar Morin, inaugura uma
nova forma de conceber o mundo e a sociedade, em que não há espaços para
determinismos, hierarquismos e reducionismos. Assim, não se pode conceber
determinismos sociais, como se toda a vida fosse determinada por algum fator social que
preponderasse sobre os outros; não se pode conceber que uma instância da vida do
indivíduo seja mais importante ou se sobreponha a outra e, principalmente, não se pode
reduzir a vida humana ao fator econômico, ao trabalho ou ao consumo, como
presenciamos em nosso dias. Dessa feita, a própria dialética, na forma como
compreendemos aqui, remete à racionalidade criticada pelo paradigma da complexidade
uma vez que supõe a revolução apenas por via do fator econômico, sobrepondo-o a todo
o resto.
Assim, o paradigma da complexidade rompe com várias posturas da modernidade,
principalmente no que se refere à busca de certezas e de uma verdade absoluta, como o
fez a dialética marxista ao propor o modelo socialista como ideal. No entanto, para nossas
mentes acostumadas a verdades e soluções definitivas, a proposta da complexidade
pode, num primeiro momento, parecer um tanto relativista, uma vez que não parte de
nenhuma ideia de “estado final das coisas”, ou mesmo de uma proposta concreta e de
fácil apreensão para superar as mazelas da sociedade contemporânea, como propunha a
dialética marxista.
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Considerações finais
No que se refere às propostas alternativas ao paradigma dominante, entende-se
aqui que a teoria sistêmica dá sua contribuição e supera o reducionismo clássico, quando
partindo do conceito de sistemas abertos, ressalta a diversidade e a complexidade dos
sistemas, a inter-relação e sinergia que existe entre os seus diferentes elementos e sua
interação dinâmica com o ambiente. Contudo, infere-se que, por acreditar na
possibilidade de um equilíbrio constante e, portanto, na possibilidade de regulação
permanente, essa abordagem não se constitui numa alternativa profícua ao pensamento
dominante.
O pensamento complexo de Morin, ao enaltecer a independência da parte perante
o todo, do indivíduo perante a sociedade e de outras circularidades que compõe a
constituição do universo e da vida apresenta um dinamismo maior no entendimento da
sociedade e, portanto, parece constituir-se numa alternativa mais concreta ao
determinismo e a estabilidade defendidos pela abordagem funcionalista. Parafraseando
Serva, Dias e Alperstedt (2010), apontamos para a possibilidade de uma epistemologia da
complexidade dar conta dos pontos cegos do paradigma dominante, trazendo uma
proposta de transformação no modo de conceber a sociedade, uma proposta que inclua
na análise dos sistemas sociais e organizacionais o conflito, as ambiguidades e os
paradoxos, por meio de uma lógica também paradoxal.
Do paralelo estabelecido entre teoria da complexidade e dialética marxista,
apontou-se para um novo conceito de transformação, se é que se pode falar assim, que,
ao contrário da dialética, com a qual parece dialogar em diversos aspectos, não prevê
necessariamente a transformação com base na superação de um modelo social pelo
outro, mas sim a possibilidade de convivência de diversas formas diferentes de
organização social no seio de uma mesma sociedade complexa.
Assim, se por um lado a epistemologia complexa parece ser bastante eficaz ao
demonstrar os pontos cegos do paradigma dominante, demonstra certo relativismo
quando defende a convivência entre forças distintas, o que nem sempre é fácil de
conciliar e pode conduzir a um processo de cooptação em que alguns interesses
particulares se sobrepõem e anulam os demais num processo assimétrico de forças
interagentes. De acordo com Bauman (2003), a fragmentação excessiva dos interesses
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pode incorrer num processo de individualização, no enfraquecimento do sentido de
comunidade e no arrefecimento da luta por uma sociedade economicamente mais justa e
socialmente mais consistente, pautada na construção do bem-comum.
Contudo, ainda que a fragmentação e a pluralidade de bandeiras que caracterizam
o nosso momento histórico possam fragilizar ou mesmo dificultar a construção de
projetos mais profundos e ambiciosos de transformação social, como se acreditava no
passado, parece que esta multiplicidade de expressões se sintoniza melhor com as
demandas e necessidades particulares de cada grupo social dentro da
contemporaneidade. Como alerta Santos (2007), essa variabilidade de propósitos não
exclui a existência de pontos de intercepção e convergência, principalmente quando se
identificam obstáculos comuns que impedem os avanços de diferentes movimentos
sociais, emergindo a necessidade de congregar forças, hoje dispersas, em torno de um
projeto contra-hegemônico comum, capaz de promover a emancipação social e a
construção do bem-comum sem negligenciar as particularidades inerentes a cada grupo
específico.
Assim, sem intencionar qualquer desfecho sobre o assunto, este ensaio buscou
auxiliar na compreensão de como o paradigma da complexidade pode se constituir numa
alternativa profícua ao entendimento da complexa realidade social contemporânea,
quando, diferentemente do paradigma dominante e de outras perspectivas críticas, como
a dialética, com a qual a comparamos neste trabalho, defende a necessidade de modelos
híbridos e complementares, uma vez que considera a realidade multifacetada e
constituída por uma infinidade de nuances que não podem ser reduzidas ou aniquiladas,
mas respeitadas como inerentes à realidade social em que vivemos.
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