G1 – Covid-19 – Por que as crianças infectadas têm se saído melhor que os adultos?


A resposta a essa pergunta ainda não é conhecida, porque o vírus é muito novo, afirma Graham Roberts.

Mesmo se assintomáticas, crianças podem ser um grupo com papel significativo na transmissão do vírus — Foto: Getty Images via BBCMesmo se assintomáticas, crianças podem ser um grupo com papel significativo na transmissão do vírus — Foto: Getty Images via BBC

Mesmo se assintomáticas, crianças podem ser um grupo com papel significativo na transmissão do vírus — Foto: Getty Images via BBC

“Uma das possibilidades é de que o vírus dependa de uma proteína na superfície da célula (o chamado receptor) para entrar na célula e começar a causar problemas”, diz ele.

“O coronavírus parece usar o receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA-2) para esse propósito. Pode ser que as crianças tenham menos receptores de ECA-2 em suas vias inferiores (pulmão) do que nas vias superiores, e por isso as vias superiores (nariz, boca e garganta) serem mais afetadas.”

Essa hipótese, se confirmada, explicaria por que crianças infectadas com o coronavírus parecem desenvolver mais sintomas de resfriado do que de pneumonia.

A afinidade do coronavírus pelo receptor de ECA-2 já havia sido demonstrado em linhas de células e em roedores em estudos de laboratório de 2003, bem como em estudos de genoma dos coronavírus RsSHC014 e Rs3367 (relacionados, mas não idênticos ao coronavírus da SARS) isolados a partir de morcegos chineses em 2013.

Pollard, por sua vez, afirma que pode haver uma outra explicação. “Não é tanto que as crianças não estejam sendo afetadas, mas que algo muda na pessoa que, quando ela envelhece, aumenta a probabilidade de ela ser afetada”, opina.

Ele atribui isso ao envelhecimento do sistema imunológico (imunossenescência), que torna o corpo menos capaz para enfrentar novas infecções. “No entanto, não vemos imunossenescência em jovens adultos, e está claro que até mesmo jovens adultos têm um risco maior do que as crianças de desenvolver graus severos (da covid-19), então essa provavelmente não é a resposta completa”, acrescenta Pollard.

Há muitas formas em que o sistema imunológico de uma criança difere do de um adulto, inclusive pelo fato de que a imunidade dos pequenos ainda está em construção: crianças, especialmente as que frequentam creche ou escola, são expostas a uma grande quantidade de novas infecções respiratórias, e isso pode fazer com que elas tenham uma base maior de níveis de anticorpos contra vírus, em comparação com adultos.

“Crianças parecem acumular mais respostas (a infecções virais) do que os adultos, como febres altas, que não são tão frequentes nos adultos”, explica Roberts. “É bem possível que o sistema imune infantil seja mais bem equipado para controlar o vírus, restringi-lo às vias aéreas superiores sem causar grandes problemas adicionais e eliminá-lo.”

Impacto do vírus pode variar também conforme a faixa etária infantil, mas isso ainda não está totalmente claro até agora — Foto: Getty Images via BBCImpacto do vírus pode variar também conforme a faixa etária infantil, mas isso ainda não está totalmente claro até agora — Foto: Getty Images via BBC

Impacto do vírus pode variar também conforme a faixa etária infantil, mas isso ainda não está totalmente claro até agora — Foto: Getty Images via BBC

“Também pode ser que crianças previamente infectadas com os demais quatro tipos (conhecidos) de coronavírus possam desenvolver uma proteção cruzada”, acrescenta Patel.

Além disso, os autores do estudo de casos infantis na China sugerem que, como as crianças têm menor incidência de problemas respiratórios e cardiovasculares crônicos, elas são mais resilientes à infecção grave pelo coronavírus do que idosos.

“Muito poucas crianças têm infecção severa de covid-19”, afirma Pollard. “Isso de fato sugere que há algo fundamentalmente diferente sobre a forma como elas estão lidando com o vírus.”

Há uma terceira razão pela qual crianças parecem não estar ficando duramente adoecidas na pandemia. Em adultos em estado grave, uma resposta imune exagerada do corpo no combate ao vírus – em termos médicos, uma tempestade de citocina – parece causar mais danos do que benefícios, provocando uma falência múltipla de órgãos.

Crianças, com sistema imunológico mais imaturo, parecem ser menos capazes de criar tempestades de citocina no combate a infecções virais.

Embora essa hipótese tampouco ainda tenha confirmação na atual pandemia, respostas de crianças durante a epidemia de Sars, em 2003, provaram que, ao contrário de adultos, crianças não desenvolviam respostas de citocina muito elevadas.

As crianças, mesmo com sintomas leves ou inexistentes, podem transmitir o vírus?

Sim, podem.

“Essa é a grande questão”, afirma Roberts. “Muitos acham que as crianças são de baixo risco e por isso não precisamos nos preocupar com elas. Sim, isso pode ser verdade para crianças que não tem problemas médicos crônicos, como imunodeficiências. Mas as pessoas esquecem que as crianças são provavelmente uma das principais rotas pelas quais a infecção está se espalhando pelas comunidades.”

O coronavírus é transmitido de uma pessoa infectada a uma não infectada por meio do contato direto com gotículas respiratórias (pela tosse e espirro, por exemplo) e por superfícies que estejam contaminadas. Isso significa que as crianças infectadas, mesmo que assintomáticas ou com sintomas leves, podem estar passando a doença adiante – até mesmo para parentes idosos.

“Crianças com sintomas leves provavelmente serão uns dos maiores contribuintes para espalhar o vírus”, prossegue Roberts. “É por isso que o fechamento das escolas é crucial, para reduzir o ritmo de contaminação.”

Houve padrão similar com outros vírus – em que as crianças têm sintomas leves, mas são potencialmente grandes transmissoras?

Sim, e um dos casos se refere ao vírus da influenza (gripe).

“A influenza em uma criança com frequência se restringe a um nariz escorrendo, (mas) na população mais velha ela pode levar à hospitalização, à UTI e ser fatal”, afirma Roberts, explicando que um dos objetivos de campanhas de vacinação contra gripe em crianças é justamente evitar que elas passem o vírus adiante aos mais velhos.

A covid-19 afeta de modo diferente crianças de diferentes idades?

Parece que sim. Dados chineses sugerem que crianças pequenas, bebês em particular, são mais vulneráveis à covid-19 do que outros grupos etários infantis. Enquanto casos graves foram identificados entre 1 a cada 10 bebês do grupo estudado, essa taxa caía dramaticamente entre crianças com mais de cinco anos (3 ou 4 a cada 100 desenvolviam sintomas graves).

“(A doença) parece ter uma predileção para crianças em idade pré-escolar”, diz Roberts. “Elas têm vias aéreas menores. Elas são menos robustas que as mais velhas em combater a infecção. Também têm maior probabilidade de serem hospitalizadas, por serem tão novas.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s