12 LIÇÕES DA ÍNDIA


Por que um país com problemas tão semelhantes aos nossos consegue
crescer 8% ao ano e o Brasil, não
Ela é mais parecida com o Brasil do que se imagina. Tem
impostos indecentes e um ambiente hostil para os negócios. Tem uma
legislação trabalhista anacrônica e uma infra-estrutura sofrível.
Lá, como aqui, o governo gasta muito – e mal. E o Fundo Monetário
Internacional (FMI) vive cobrando – sem sucesso – a realização das
reformas tributária e fiscal, para o país entrar na rota do
crescimento sustentado. Acredite, é isso mesmo. A Índia, a
queridinha da hora dos investidores internacionais, padece
basicamente dos mesmos males que o Brasil. Por que, então, ela
cresce 8% ao ano, enquanto não chegamos nem a 3%?.
É provável que nem mesmo os maiores especialistas saibam
responder a essa questão. Para tentar esclarecê-la, ÉPOCA foi ver
de perto o que a Índia tem que o Brasil não tem. Foi investigar como o exemplo indiano pode ajudar o país a voltar a crescer com vigor e atender a suas enormes demandas sociais. Conversamos com
empresários, executivos, economistas e políticos do governo e da
oposição. Visitamos empresas de tecnologia, indústrias pesadas e
órgãos governamentais. Sentimos o pulso das ruas de grandes
cidades, como Mumbai (a antiga Bombaim), a capital Nova Délhi e
Hyderabad (novo pólo indiano de tecnologia). De tudo o que vimos,
extraímos 12 lições da Índia para o Brasil.
Hoje, é consenso entre os especialistas que a principal missão
do novo governo brasileiro será fazer a economia crescer. Depois
de termos conquistado a estabilidade econômica, nosso próximo
desafio será elevar as taxas de crescimento. Só assim a economia
pode ganhar o dinamismo necessário para gerar empregos e atrair
investimentos. É justamente na questão do crescimento que a Índia
nos oferece um exemplo.
Curiosamente, a Índia ostenta alguns números que são até piores
do que os do Brasil em diversos quesitos básicos, considerados
essenciais pelos especialistas para qualquer país atingir o
Nirvana do crescimento econômico. Do ponto de vista dos gastos
públicos, por exemplo, um dos indicadores mais usados pelos
analistas para avaliar a saúde financeira de um país, a Índia não
apenas gasta mais que o Brasil em relação ao Produto Interno Bruto
(PIB). Sua dívida pública é maior, muito maior do que a nossa.
Equivale a 79,5% do PIB. No Brasil, é de 51,5%.
De acordo com uma pesquisa realizada pelo Banco Mundial com
empresários de diversos países, o Estado é considerado tão
ineficiente e burocrático na Índia quanto aqui. E, embora muita
gente imagine que a Índia seja um país de monges budistas e
hinduístas, a corrupção, segundo o estudo, é hoje a principal
preocupação dos empresários indianos para o desenvolvimento dos
negócios.
Da sua independência, em 1947, até a abertura econômica
implementada a partir dos anos 90 pelo atual primeiro-ministro,
Manmohan Singh, então ministro das Finanças, a Índia foi um país
quase socialista. Restringia a iniciativa privada e era
praticamente fechada às importações. Proibia até a entrada de
Coca-Cola. Hoje, embora os tempos sejam outros, os resquícios do
Estado-que-pode-tudo ainda são marcantes na economia.
A Índia, é certo, não tem os problemas dramáticos do Brasil com
segurança. Mas, ao contrário do Brasil, que vive em clima pacífico
com seus vizinhos há um século, têm problemas sérios de fronteira,
com o Paquistão e com a China. Isso sem falar do sistema odioso de
castas, que ainda impede a ascensão social de boa parte da
população; das disputas religiosas, que atingem o país desde a
independência; e do terrorismo fundamentalista, uma ameaça
permanente. Não por acaso a Índia é um dos poucos países que têm a
bomba atômica. Seus gastos militares chegaram a 4% do PIB em 2005
contra 1,5% destinados à área no Brasil.
A questão é que, ainda assim, com tudo isso, a Índia cresce e
prospera – e o Brasil chafurda num estado de semi-estagnação
econômica. Lá, o lucro das empresas, de acordo com a Confederação
da Indústria da Índia (CII), aumentou 40% em 2005. Aqui, muitas
empresas ainda preferem aplicar a sobra de caixa na ciranda
financeira, que se mantém atraente, apesar do controle da
inflação, em vez de investir na produção. “Precisamos pensar
grande”, afirma o primeiro-ministro Manmohan Singh. “Nós temos que
ir além do crescimento vegetativo, para um paradigma de
crescimento exponencial que jamais foi visto antes.”
Afinal, qual é o mistério da Índia? Como ela consegue crescer
tanto, com problemas tão semelhantes aos do Brasil? Nas páginas
seguintes, você poderá conferir o que é que a Índia tem que o
Brasil não tem e em que ela pode contribuir para o país voltar a
crescer de verdade e atender às suas enormes demandas sociais. No
total, publicamos 12 lições preciosas da Índia para o Brasil em
diferentes aspectos sócio-econômicos e culturais – da mentalidade
global dos empresários ao investimento em pesquisa, dos baixos
juros praticados pelos bancos à oferta de serviços de qualidade de
Primeiro Mundo.
No momento, é difícil dizer se o crescimento da Índia é
sustentável ou não passa de uma bolha, que pode estourar a
qualquer momento. Mas eles sabem, como nós deveríamos saber, que
ao crescer 6% ao ano a renda da população dobra em 12 anos.
Crescendo 10% ao ano, dobra em 7. E, como o que está em jogo é a
redução da miséria e a melhoria da qualidade de vida da população,
quanto mais rápido se der o crescimento, sem colocar em risco a
estabilidade econômica, melhor. Como diz o economista brasileiro
José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade de Princeton,
uma das mais respeitadas dos Estados Unidos, “é preciso ter senso
de urgência”.
1. Mentalidade global
As principais empresas indianas não restringem a sua atuação no
mercado global às exportações. Elas querem mais do que isso.
Querem ser as melhores do mundo naquilo que fazem, para ganhar a
disputa pelo consumidor contra quem quer que seja. Seus
comandantes parecem acreditar seriamente que podem chegar lá, com
a oferta de produtos e serviços de classe mundial.
Hoje, muitas empresas estão expandindo os seus domínios alémmar, apesar de a Índia, com 1,1 bilhão de consumidores, ser o
segundo maior mercado do mundo, logo abaixo da China. “As empresas
indianas entraram na arena global de forma agressiva” diz o
empresário Yogesh Deveshwar, presidente da Confederação da
Indústria da Índia (CII). “Nos próximos anos, um número cada vez
maior de empresas indianas vai se globalizar”, disse a ÉPOCA o
economista Arindam Chauduri, autor do livro The Great Indian
Dream(O Grande Sonho Indiano, ainda sem tradução para o português)
e responsável pelo Centro de Pesquisa Econômica e Estudos
Avançados, de Nova Delhi.
Na área de tecnologia, por exemplo, os investimentos diretos
feitos por empresas indianas no exterior alcançaram US$ 5 bilhões
no primeiro semestre de 2006, dos quais US$ 200 milhões vieram
para o Brasil, segundo o Ministério das Relações Exteriores da
Índia. Hoje, os investimentos da Índia no Reino Unido, o todopoderoso colonizador de outrora, são maiores que os do Reino Unido
na Índia.
A expansão internacional está acontecendo em diversos campos da
economia, como aço, petróleo e indústria farmacêutica. O caso da
Mittal, maior produtora de aço do mundo, com bases em 60 países,
nenhuma delas na Índia, não é isolado. Há dezenas de outras
estrelas indianas brilhando por aí.
O Grupo Tata, por exemplo, que atua nas áreas de siderurgia,
eletricidade, telecomunicações, tecnologia, indústria
automobilística e produção de chá, seguiu o mesmo caminho. Com
receitas de US$ 21,9 bilhões em 2005, o Tata está presente em 40
países dos cinco continentes. A Infosys, da área de softwares,
também. Com um valor de mercado de US$ 22 bilhões e um faturamento
anual de US$ 1 bilhão, tem nove centros de desenvolvimento na
Índia e 30 em outros países. A Dr.Reddy’s, segunda maior empresa
indiana da área farmacêutica, idem. Com um valor de mercado de US$
2,5 bilhões, controla plantas industriais na China e no México. No
ano passado, comprou uma das maiores empresas alemãs do ramo por
US$ 570 milhões. Agora, segundo informações dadas a ÉPOCA por seu
presidente, Satish Reddy, prepara-se para reforçar a sua base no
Brasil. Deve construir uma fábrica própria de genéricos no país,
com o objetivo de faturar US$ 50 milhões por ano a partir de 2012.
2. Foco no desenvolvimento
Ao contrário do Brasil, que viveu um processo de superinflação
que durou duas décadas por baixo, a Índia nunca passou por nada
semelhante. Talvez, por isso mesmo, o foco da política econômica
indiana seja o crescimento. Ou, em outras palavras, a geração de
riqueza para melhorar a qualidade de vida da população, hoje
estimada em 1,1 bilhão de pessoas, 300 milhões das quais vivem
abaixo da linha de pobreza, com menos de um dólar por dia. E, numa
situação dessas nem poderia ser diferente. O crescimento tem que
ser mesmo a prioridade nº1.
Formalmente, a Índia não adota o modelo de metas de inflação
seguido no Brasil. Ainda assim, as estimativas de inflação sofrem
uma atualização trimestral. “O principal objetivo é promover o
crescimento econômico com estabilidade de preços”, afirma Muneesh
Kapur, diretor do Reserve Bank of Índia (RBI), o banco central do
país, que atua de forma independente do governo.
A julgar pelos resultados, a estratégia indiana funciona bem
melhor do que a nossa. Nos últimos 10 anos, a Índia foi o segundo
país que mais cresceu no mundo, com uma média em média 6% ao ano,
atrás apenas da China, sem perder o controle da inflação. Se
continuar a crescer no mesmo ritmo, poderá reduzir de forma
significativa a miséria em 20 ou 30 anos. Mas, se a questão do
crescimento econômico não estiver no topo da lista de prioridades
do governo e da sociedade, isso dificilmente vai acontecer.
Na Índia, parece estar claro para todo mundo que, em condições
normais, é o crescimento que faz a diferença entre um bom governo
e um governo medíocre. A política monetária e a inflação são
importantes, é claro. Cuidar das despesas do setor público,
também. Seria leviano dizer o contrário. Mas não se pode perder de
vista, como acontece hoje no Brasil, a razão de todas as coisas –
o crescimento econômico e a prosperidade da população.
3.Produção para o povão
Num país que tem 1,1 bilhão de habitantes, como é o caso da
Índia, onde quem ganha mais de US$ 2.000 por ano (é isso mesmo!)
já é considerado classe média, é difícil deixar de lado o povão. A
Tata Motors, maior montadora indiana, com faturamento de US$ 5,5
bilhões em 2005, por exemplo, desenvolve um projeto pioneiro para
fabricar um carro popular com preço final de US$ 2.000. É uma
iniciativa que pode revolucionar o mercado de transporte pessoal
na Índia e em todo o mundo.
O empresário Renan Tata, presidente do grupo que controla a
empresa, disse ao jornal Financial Times que o projeto prevê o uso
de peças produzidas por fabricantes indianos de motocicletas. A
idéia é lançar um carro de para quatro pessoas, com quatro portas,
que seja acessível a milhões de donos de motocicletas e das
típicas lambretas indianas de três rodas. “Meu sonho é transformar
esse carro em realidade durante o período em que eu ainda estiver
à frente do grupo, nos próximos cinco anos”, afirmou Tata numa
entrevista concedida ao jornal britânico em 2003. Faltam,
portanto, mais dois anos para ele alcançar seu objetivo.
Credenciais para tanto ele tem. Ao menos se propôs a tentar, o que
já é uma grande coisa.
Outro exemplo que ilustra bem a preocupação dos empresários
indianos com as demandas do povão é o cinema. Ao contrário do que
acontece no Brasil, a indústria cinematográfica, mais conhecida
por Bollywood (uma mistura de Bombaim com Hollywood), concentra-se
na produção de filmes populares. O chamado “cinema de arte”,
representa uma pequena parcela do total e, em geral, é um fracasso
de bilheteria.
Resultado: a Índia é o maior produtor de cinema do mundo, com
quase 900 filmes lançados por ano e uma receita de US$ 2,1 bilhões
com a venda de ingressos em 2005. Na maioria das 15.000 salas de
exibição existentes no país (muitas delas mal conservadas), um
bilhete custa apenas US$ 0,20. Não é à toa que 12 milhões de
indianos vão ao cinema todos os dias, segundo as estatísticas
oficiais. Só em 2005, foram vendidos 3,8 bilhões de ingressos.
Isso é que é cultura de massa.
4.Planejamento econômico
Numa civilização tão antiga quanto a indiana, com 5.000 anos de
história, não é de espantar que o tempo seja visto de forma
diferente do que no Brasil. Apesar de seu processo descontrolado
de urbanização, muito semelhante ao que aconteceu aqui até alguns
anos atrás, a Índia tem uma tradição de planejamento econômico que
vem dos tempos em que era um país quase socialista, até o final
dos anos 80. Algumas de suas figuras mais ilustres, como o atual
primeiro-ministro, Manmohan Singh, trabalharam em órgãos públicos
de planejamento econômico antes de entrarem na política.
Na Índia, qualquer estatística vem sempre acompanhada de
projeções para o futuro. As exportações, hoje de US$ 80 bilhões,
serão de US$ 150 bilhões em 2009. Os US$ 34 milhões aplicados
pelas empresas indianas em publicidade na internet deverão chegar
a US$ 100 milhões em 2010. E por aí vai. É algo importante para a
economia. E, se isso for feito com alguma participação dos
envolvidos, como parece ser o caso da Índia, melhor ainda. Só não
pode é transformar o processo de definição de uma política pública
numa assembléia estudantil. Ou sindical.
5. Pequenas mudanças
No Brasil, os economistas nos fazem acreditar que o país é uma
espécie de patinho feio do mundo. Dizem que, enquanto não fizermos
a lição de casa, nada de bom vai acontecer. Talvez, por isso
mesmo, uma das principais lições da Índia para o Brasil seja a de
que, enquanto isso não acontece, a vida não precisa parar. Embora
tenha problemas muito parecidos com os do Brasil, como a gastança
do governo, um ambiente hostil para os negócios e uma burocracia
paralisante, a Índia é um exemplo emblemático de que dá para fazer
muita coisa, enquanto os assuntos mais complicados não se
resolvem.
Em geral, as questões mais complexas exigem delicadas
negociações políticas, que podem durar anos, talvez décadas. Não
faz sentido ficar à espera da solução dos grandes problemas para
só então cuidar da vida, como acontece por aqui. Até porque, se
tudo acontecesse como querem os economistas, com a urgência que
eles cobram, o Brasil seria um país perfeito, como nenhum outro na
face da Terra – e isso, como se sabe, tem pouco a ver com a
realidade.
É fundamental ter uma agenda de longo prazo. Isso ninguém
contesta. Mas tão ou mais importante é trabalhar para que o curto
prazo seja o melhor possível. A idéia de que a agenda de longo
prazo pode ser implementada num passe de mágica é ingênua. E a de
que não haverá curto prazo se as grandes mudanças não forem feitas
de imediato não passa de uma falácia.
Na Índia, o governo e a sociedade procuram resolver também os
pequenos gargalos, que atrapalham a vida das empresas e dos
indivíduos no dia-a-dia. Muita coisa que entrava o desenvolvimento
pode ser removida no âmbito administrativo, sem a aprovação do
Parlamento. São medidas que costumam afetar apenas um determinado
setor. Mas, muitas vezes, são suficientes para colocá-lo na rota
do crescimento.
Há dezenas, talvez centenas, de pequenas soluções do gênero que
poderiam ser adotadas para estimular o crescimento. E a Índia
trata de lhes dar o devido valor, enquanto não alcança o paraíso.
O governo sabe também que sua base no Congresso é ainda mais
frágil do que a do Brasil. É fruto de uma coligação que reúne o
Partido do Congresso, do primeiro-ministro Manmohan Singh, e uma
série de pequenos partidos sem relevância nacional. Na Índia, é
tão ou mais difícil para o governo indiano aprovar projetos de seu
interesse no Parlamento quanto para o governo brasileiro. Nem por
isso, tudo fica parado à espera do dia da redenção.
6.Empresários pró-ativos
Qualquer empresário que se preza adora reclamar da política
econômica. Isso acontece aqui, na Índia, em qualquer lugar do
mundo. Faz parte do jogo. Mas lá eles parecem mais dispostos a
tocar a vida, apesar das dificuldades estruturais do país, como um
sistema tributário perverso e o descontrole dos gastos do governo.
Apesar da tradição de planejamento econômico que a Índia tem, o
sucesso atual do país é, antes de tudo, uma vitória da iniciativa
privada. Não aconteceu por causa do governo, mas apesar dele. De
alguma forma, os empreendedores indianos parecem encontrar uma
maneira de ultrapassar os obstáculos e contornar a burocracia.
Segundo um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), o
crescimento do setor de tecnologia na Índia é, basicamente, o
resultado da ação da iniciativa privada e da não intervenção do
governo. “Na Índia, quando o governo dorme, a economia cresce”,
disse Gurcharan Das, ex-presidente da subsidiária indiana da
Procter & Gamble, a gigante americana do setor de higiene e
limpeza, em entrevista recente à revista Newsweek.
Lá, os empresários parecem ter as suas próprias agendas de
crescimento. Procuram implementá-las independentemente do partido
que esteja no poder. O primeiro-ministro, Manmohan Singh,
considerado o pai da abertura econômica do país, nem é do partido
preferido dos empresários. Está ligado ao Partido do Congresso,
que governou a Índia durante quase todo o período que se seguiu à
sua independência, em 1947, e que foi o responsável pela criação
de boa parte dos obstáculos à iniciativa privada que agora se quer
destruir. Mesmo assim, como bons vendedores que são, os
empresários atuam em parceria com o governo, em nome do
desenvolvimento do país. Ao falar com investidores estrangeiros e
fornecedores externos, por exemplo, procuram realçar os aspectos
positivos do país e minimizar os negativos. É bom para os
negócios.
7.Marketing eficiente
A Índia é um país que sabe se vender bem e tem muito a nos
ensinar neste quesito. O melhor exemplo disso foi o que aconteceu
em Davos, na Suíça, no começo de 2006, durante o Fórum Econômico
Mundial, um evento que reúne líderes políticos e empresariais do
mundo todo. Com o objetivo de divulgar o país e reforçar o seu
novo perfil desenvolvimentista, a Índia fez uma campanha
publicitária de altíssimo nível, intitulada India Everywhere (em
todo o lugar, em português), no evento. “O Fórum Econômico foi a
plataforma ideal para atingir a comunidade global de negócios”,
diz Ajay Khana, diretor geral da Confederação de Indústrias da
Índia (CII).
A iniciativa, coordenada pela India Brand Equity Foundation
(IBEF), uma entidade criada em parceria por empresários e órgãos
governamentais para promover o país no exterior, foi um tremendo
sucesso. Durante o encontro, Davos foi tomada por uma legião de
autoridades e empresários indianos. Havia out-doors que exaltavam
a Índia em todo lugar. Até o aeroporto da cidade tinha pôsters do
gênero. Um deles dizia, de forma emblemática: “India: o sonho dos
investidores… livre mercado”.
Diversas palestras e eventos paralelos ao encontro oficial,
quase todos muito concorridos, trataram dos mais diferentes temas
ligados à Índia na atualidade. Para encerrar, houve uma noite
dançante, com música típica ao vivo, na qual vetustos homens de
negócios ferveram na pista até altas horas. “A imagem da Índia
está mudando” diz o porta-voz do ministério das Relações
Exteriores da Índia, Navtej Sarna. “Hoje, há uma percepção global
positiva da Índia.”
No discurso de empresários e autoridades, o baixo custo de
produção que existe na Índia, em razão da abundância de mão de
obra desqualificada e dos baixos salários dos técnicos, na faixa
de US$ 5.000 por ano, torna-se “vantagem competitiva”. Para o país
se mostrar mais atraente do que a China, onde o velho Partido
Comunista ainda dá as cartas políticas, a Índia se diz “o país
democrático que mais cresce no mundo”.
Ainda assim a Índia não é, aparentemente, um pastel de vento,
fruto dos delírios criativos dos marqueteiros. “Nós precisamos
atender às expectativas que criamos”, afirma o secretário de
Comércio da Índia, Shivshanka Menon. “Embora a criação de
percepções seja algo importante, precisamos melhorar o resultado
em benefício da economia indiana e do ambiente de negócios.”
8.Auto-estima positiva
Um dos aspectos em que a Índia pode dar uma boa contribuição ao
Brasil está relacionado à auto-estima nacional. Ao contrário do
que acontece aqui, a Índia parece cultivar uma imagem positiva de
si mesma, apesar de todos os problemas que tem e das dificuldades
que enfrenta para resolvê-los. Isso ajuda a criar um clima
positivo. É difícil imaginar que um país possa atrair o interesse
alheio se a sua auto-estima estiver lá embaixo. “Os indianos,
hoje, não consideram a si mesmos e a seus produtos como
inferiores”, disse a ÉPOCA Arindam Chauduri, do Centro de Pesquisa
Econômica e Estudos Avançados, com sede em Nova Delhi. “As
aquisições que as empresas indianas estão fazendo no exterior
mostram que elas não têm complexo de inferioridade.”
É claro que é algo subjetivo, que dá margem a diferentes
interpretações. Além disso, também se deve levar em conta que a
Índia tem uma cultura milenar. Isso ajuda a estimular a autoestima nacional – e muito. Afinal, foi lá que surgiu o zero, o
sistema decimal e a Yoga, só para ficar no básico. Nada mais
natural, portanto, que os indianos sintam-se orgulhosos das
contribuições que deram ao mundo. Mas, seja qual for a explicação
para a elevada auto-estima de seu povo, o mais importante é para
nós é a mensagem de que existe vida além do catastrofismo que
assola o país.
9.Crédito barato
No Brasil, fizeram a gente acreditar que o juro alto é uma
espécie de purgatório pelo qual qualquer país tem que passar se
tiver problemas nas contas públicas. Mas a Índia mostra que não é
bem assim. Embora o governo seja tão gastador quanto aqui, os
juros lá são civilizados. Ou seja, é possível, sim, um país de
Terceiro Mundo, cheio de problemas, ter juros de Primeiro Mundo
(ainda que tentem lhe provar o contrário).
Na Índia, a inflação, que serve de base para o cálculo dos
juros, é até maior do que a do Brasil – 5% contra 2% em 2006, de
acordo com as estimativas dos economistas. Mas lá, mesmo assim, a
taxa básica de juro está na faixa de 6% ao ano, enquanto no Brasil
ela atinge 14,25% ao ano, mais que o dobro. Na Índia, uma operação
de financiamento de capital de giro para as empresas custa hoje em
torno de 14% ao ano. Aqui, sai por 60% ao ano. Lá, o crédito
pessoal custa em média 26% ao ano. No Brasil, 90%. O crédito
funciona como uma poderosa alavanca da economia e não como uma
ferramenta mortal para as empresas e os consumidores, como
acontece no Brasil. Para os padrões internacionais, o volume total
de crédito bancário na Índia ainda é baixo, na faixa de 48% do
Produto Interno Bruto (PIB). Mas é muito mais alto do que no
Brasil, onde o volume está em 31% do PIB.
Os banqueiros, provavelmente, vão dizer que aqui precisam
recolher ao Banco Central um tal de depósito compulsório sobre os
depósitos à vista e a prazo dos clientes. Vão falar que o dinheiro
que fica parado no Banco Central não tem qualquer rendimento e que
e que isso aumenta o custo do dinheiro. Mas a Índia também tem os
seus compulsórios. Os bancos são obrigados a manter no mínimo 25%
e no máximo de 40% de seus depósitos em títulos públicos, cujo
rendimento é baixo por serem considerados papéis de baixo risco.
No momento, a aliquota do compulsório lá está em 25%. Portanto,
nada justifica os juros indecentes praticados no Brasil.

10. Microcrédito para a massa
Destinado à população de baixa renda desprezada pelos bancos
tradicionais, o microcrédito representa um capítulo à parte na
Índia. Com operações médias de US$ 28,61 , ele permitiu que um
contingente estimado em 32 milhões de pessoas, segundo a Sa-Dhan,
entidade que congrega as instituições da área na Índia, tivesse
acesso ao crédito, para o povão reforçar o orçamento doméstico ou
investir em alguma ferramenta ou mercadoria para a sua
microempresa.
No total, de acordo com a Sa-Dhan, o volume de microcrédito
alcança US$ 1,5 bilhão de dólares. “Se quisermos ter sucesso em
estimular o empreendedorismo, é fundamental oferecer serviços
financeiros para os mais pobres”, afirma Mathew Titus, presidente
da entidade. “O microcrédito pode desempenhar um papel importante
para estimular o crescimento econômico pela criação de atividades
produtivas, geração de emprego e redução do custo dos serviços
financeiros.”
No Brasil, o volume total de empréstimos do gênero no país até
que não é muito diferente do da Índia. Está em torno de US$ 1,2
bilhão, de acordo com o Banco Central. Mas o microcrédito só
beneficiou até hoje cerca de três milhões de pessoas no país, o
equivalente a 10% do que se alcançou na Índia. O valor médio dos
empréstimos aqui também é bem maior, na faixa de 900 reais (US$
410), quase 15 vezes mais do que na Índia. No Brasil, existem 51
instituições de microcrédito. Na Índia, 250. Sem contar as
organizações não-governamentais (ONG), que atuam na área.
11.Investimento em pesquisa
Um país que tem pretensões de se tornar importante no mercado
global precisa investir em pesquisa. Todo mundo sabe disso. Só
que, no Brasil, pouca gente segue a cartilha. Aqui, há um grande
número de pesquisadores que pouco ou nada contribuem para o
desenvolvimento do país. Na Índia, é diferente. Cerca de 250
universidades têm o compromisso de desenvolver projetos que possam
ser efetivamente implementados pela sociedade. Muitas empresas
investem na área de pesquisa e algumas já colhem bons frutos com
isso. Só em 2004, segundo o Fundo Monetário Nacional (FMI), houve
o registro de 200 novas patentes da Índia, um recorde histórico.
“O número de patentes está explodindo e muitas empresas
estrangeiras estão se terceirizando a sua área de pesquisa na
Índia”, afirma o economista Arindam Chauduri, do Centro de
Pesquisa Econômica e Estudos Avançados. “As nossas maiores
vantagens são o nosso intelecto e a nossa habilidade de mergulhar
em pensamentos abstratos. É sempre o pensamento abstrato e lateral
que traz soluções para o amanhã.”
Na área química e farmacêutica, um mercado que gira 600 bilhões
de dólares por ano no mundo, a Dr. Reddys é um caso exemplo
perfeito. Segunda maior empresa privada do setor na Índia, com um
faturamento de US$ 500 milhões em 2005, investe cerca de 8% da
receita em pesquisa e desenvolvimento por ano, principalmente em
produtos para o câncer, de acordo com o presidente da empresa,
Satish Reddy. “Os resultados só virão – se vierem – dentro de uns
bons anos”, disse a ÉPOCA.
Segundo ele, a Dr. Reddys estuda a abertura de uma fábrica no
aqui. Forte na área de genéricos, a empresa desembarcou no país no
final da década de 90, mas formou uma parceria que não deu certo e
agora decidiu seguir vôo solo. “No Brasil, os genéricos são muito
caros”, afirma.

12.Força nos serviços
Em vez de ser forte na exportação de mercadorias, como o Brasil,
a Índia é uma potência emergente na exportação de serviços, um
item da balança de pagamentos brasileira que está sempre no
vermelho. Boa parte do bom desempenho da Índia neste quesito se
deve a serviços da área de tecnologia. Em vez de bater de frente
com os grandes fabricantes internacionais, a Índia encontrou o seu
próprio espaço no mercado.
Ao contrário do que muita gente imagina, o sucesso da Índia no
setor não está na produção de softwares para consumo de massa,
como o Windows, da Microsoft, e o Mac, da Apple, mas na produção
feita sob medida para as grandes e médias empresas do mundo todo.
A Infosys, por exemplo, uma das maiores empresas do ramo na índia,
atende clientes que compraram o sofisticado sistema da SAP, a
gigante alemã da tecnologia. A Infosys faz a instalação e a
adaptação do programa às necessidades de cada cliente. Ela também
presta consultoria na área de tecnologia, concorrendo com nomes de
peso no mercado global, como a IBM Consulting Services e a
Accenture.
De acordo com a Infosys, para cada dólar gasto na compra de
produtos pelas empresas, três dólares são gastos em serviços.
Com o objetivo de manter custos competitivos, ela procura
desenvolver 70% dos programas nas “fábricas de softwares” que tem
na Índia, onde a mão de obra é mais barata. Apenas 30% são
desenvolvidos no endereço do cliente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s