[resenha 02/2018] A sutil arte de ligar o fod#-se. Livro de Mark Manson


Ou “o dia em que Bukowski virou o melhor exemplo do que ser não sendo”

Poli Lopes

Poli Lopes

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Feb 2, 2018 · 10 min read

Olhaí, gente, fechei janeiro com dois-quase-três livros lidos. Tô bem impactada com isso. Por isso hoje saiu mais uma resenha. A do terceiro livro, bem, a ideia é fazer em vídeo porque é livro técnico e merece ir pro canal da firma no Youtube. Falando nisso, clica aí e se inscreve lá pra ver sempre que eu publicar vídeo novo.

Antes de falar sobre o livro A sutil arte de ligar o fod#-se (ed. Intrínseca) é importante dar uma olhada em quem é o autor, principalmente quando não é um nome que a gente ouve falar com frequência, que a gente já conhece o trabalho em uma primeira olhada.

Mark Manson se define como um autor, um pensador e um entusiasta da vida. Esse nome ainda parece estranho, mas tenho certeza que você se lembra da treta nacional com ele.

Quem não lembra dessa imagem?

Em 2016 Mark Manson publicou uma carta aberta ao Brasil,texto em que fala sobre sua visita ao Brasil (teve até vídeo da Bel Pesce lendo esse texto e uma resposta que viralizou). Ele diz que nesse período as pessoas perguntavam para ele por que o Brasil é ferrado (e olha que era 2016, imagina o conceito de ferrado hoje), diferente de outros países do mundo.

Ele diz que inicialmente tinha teorias que envolviam o sistema de governo, o colonialismo, mas que estando no Brasil percebeu que a culpa é do brasileiro.

Para ele, nós somos parte do problema; que isso não é proposital e que, além de fazer parte, a gente perpetua o problema. Quando ele falou sobre isso (remetendo a nossa cultura, crenças e mentalidade, forma de vida e ideologias que temos sobre o que é ser brasileiro), mexeu com um sentimento muito forte, o que resultou em muitas críticas ao texto.

Afinal, como vamos deixar um gringo, uma pessoa de fora falar e julgar desse jeito o nosso comportamento, a forma como a gente vive, a forma como a gente enfrenta as todas essas questões que acontecem no país?

Pra fechar essa parte do “quem fala?”, fui dar uma olhada no site dele. Mark diz que escreve sobre grandes assuntos e que dá conselhos de vida que normalmente não importam. Que algumas pessoas dizem que ele é um idiota e que outras pessoas dizem que ele mudou suas vidas. Além dos textos, no site encontramos alguns e-books para download sobre felicidade, auto-conhecimento, hábitos e relacionamento.

Agora sim, ligando o foda-se

Tá, mas e o livro? Ok, ele traz temas que são interessantes em termos de reflexão. Precisamos falar sobre eles e Mark dá algumas cutucadas em questões como “você não é especial”, “o valor do sofrimento”, “você está sempre fazendo escolhas”, “você está errado em tudo (e eu também)”, “fracassar é seguir em frente” e, inclusive, que “a felicidade é um problema”. São pontos que mexem #RealOficial com sentimentos muito nossos. Porque, claro, todo mundo acha que é especial e que veio ao mundo para fazer a diferença.

Usei foto bonita de terceiro (Foto: Hadassah Sorvillo) porque não tinha foto bonita minha pra inserir aqui.

Um exemplo que ele dá logo no começo do livro, no capítulo “Nem tente” é a história do Charles Bukowski: alcoólatra, mulherengo, viciado em jogo (e outros defeitos mais) e também poeta. Ele trabalhava nos Correios mas queria ser escritor, escreveu por décadas e foi rejeitado trocentas vezes, até que um dia recebeu a proposta de um contrato. Nesse momento ele viu que poderia ficar nos Correios ou correr o risco de morrer de fome sendo escritor. Em três semanas ele entregou Cartas na Rua, seu primeiro livro.

Resultado de imagem para bukowski

Hoje é um escritor super reconhecido, tem seis romances publicados e centenas de poemas, tendo vendido mais de 2 milhões de exemplares. Mas a grande questão levantada por Mark é: apesar das vendas e do sucesso, Bukowski era um fracassado. Seu sucesso não veio de uma grande vontade de vencer na vida mas da consciência do contrário. Ele sabia que era um fracassado, aceitava isso e escrevia com honestidade sobre isso. Nunca fingiu ser alguém que não era e sua obra não vende a ideia de que devemos superar obstáculos impensáveis para chegar lá. E quem já leu o Buk sabe, seus livros são uma desgraça em cima da outra, é uma tristeza em cima da outra, um mundo sombrio e pesado, o personagem começa na merda e termina na merda. Mas o sucesso vem dessa honestidade com ele mesmo e da capacidade de falar sobre isso.

Aí vem o pulo do gato: Mark Manson associa essa nossa necessidade de reconhecer o fracasso ao que nós fazemos, nossos hábitos. A cultura de consumo e do exibicionismo que vivemos nos entregam vidas incríveis nas redes e faz com que nós enxerguemos sentimentos negativos como a ansiedade, medo e culpa como um problema.

A gente abre o Instagram e vê todo mundo ali “chafurdando em felicidade” enquanto a gente tá aqui, fazendo a mesma coisa, repetindo um trabalho chato — ou então apenas não fazendo essas coisas legais — e é quando a gente pensa que a nossa vida é pior do que a gente imaginava porque “somos bombardeados com essas imagens de gente absurdamente feliz com uma vida maravilhosa da porra” e é impossível não sentir que há algo coisa errada com a nossa vida.

O desejo de ter mais experiências positivas é em si uma experiência negativa e, paradoxalmente, a aceitação da experiência negativa é em si uma experiência positiva.

Essa frase reflete os estudos do filósofo Alan Watts, que fala sobre a “lei do reforço invertido”. Watts entende que quanto mais nós buscamos uma coisa mais nós entendemos que não a temos. Assim, quanto mais eu me desespero ser a mais inteligente, mais burra eu vou me considerar, independente do meu conhecimento. Nunca saberei o suficiente e o que eu tenho não vai servir. Fica claro que buscar o positivo (ser inteligente) é negativo (porque eu sou burra/não sou inteligente).

Daí a gente olha em volta e vê na vida dos outros que quanto menos a gente se importa com alguma coisa, melhor a gente se sai, e que normalmente é a pessoa menos empenhada que se dá bem. É assim porque quando tu para de te importar com aquilo quando tudo começa a entrar nos eixos. Quando a gente busca o negativo e sabe que ele estará ali, a gente enfrenta (porque não tem o que fazer). Então, se eu aceitar que eu não sei o suficiente (ou que sou burra sobre algo), eu vou me dedicar a mudar isso e tudo que eu aprender (cada conquista) vai me fazer menos ignorante — e eu vou ficar feliz com isso. Não adianta tentar escapar do negativo, fazer com que ele não aconteça, porque é tentar evitar o sofrimento — e nesse caso evitar o sofrimento é uma forma de sofrimento. Evitar as dificuldades acaba se tornando uma dificuldade também; negar o fracasso não deixa de ser fracassar.

A minha foto da capa é assim porque eu li no celular. :-*

Mas e o tal de ligar o foda-se da capa do livro, cade? Bem, na vida a gente precisa se importar com alguma coisa, é da nossa natureza. Aí precisamos escolher com o que que a gente vai se importar, escolher o que importa para minha vida e como é que eu vou ligar o foda-se para o resto. Precisamos definir como abrir mão de coisas que são dispensáveis e guardar a preocupação para aquilo que realmente importa. Pode ser meus amigos, minha família, meus objetivos e pode ser pizza. Pode ser o que eu quiser.

A ideia não é fugir das merdas que acontecem, é descobrir com qual merda a gente vai querer lidar.

Frequentemente a gente dá importância demais para coisas pequenas tipo a foto que a falsiane postou, a promoção de cerveja que eu perdi no final de semana passado. O que o livro defende é que a gente se dê conta de que quando começa a se apegar a essas coisas pequenas, o problema está na gente, o problema é que a nossa vida tá chata e não temos um objetivo legítimo pra se preocupar, não fizemos escolhas para saber com o que a gente tem que se importar e por isso acaba se importando com coisas pequenas.

Saber escolher com o que se importar é maturidade: aquilo que acontece quando aprendemos a ligar só pro que vale a pena, a evitar a fadiga e reconhecer que não adianta eu me envolver em determinados problemas ou me irritar com determinadas situações porque eu não vou mudar as pessoas.

Ligar o foda-se é um jeito simples de reorientar nossas expectativas e descobrir o que é ou não importante na vida.

Quando começamos a nos preocupar com isso e a escolher as coisas com as quais vamos nos importar, também percebemos que felicidade é resolver problemas e que sempre vai ter um problema para resolver. Então, é cumprindo pequenas metas e resolvendo pequenos problemas (que surgem do nada, tipo mato no rejunte) que temos a felicidade . Para ser feliz a gente tem que ter algo para resolver, porque a felicidade é uma ação, é uma atividade.

Eu não serei feliz simplesmente por ser feliz. Eu vou ser feliz porque eu atingi a meta de venda e para conseguir essa meta de venda eu tive pequenas felicidades (as metas menores que fui cumprindo no dia-a-dia). Então, as pequenas metas são os problemas que eu tive que resolver, como vender para aquela pessoa chata ou abordar aquele cliente novo. Resolver esses problemas é um exercício constante.

E essa coisa estranha que é a leitura no Play Livros?

Já que vamos sofrer de qualquer jeito e que os nossos problemas nunca vão acabar, devemos pensar na pergunta certa a responder. Ao invés de “como eu paro de sofrer?” precisamos entender “pelo que eu estou sofrendo?” para ter um propósito e objetivos definidos de onde queremos chegar ou quem queremos ser e tacar o foda-se no resto.

É assim que a gente cresce enquanto pessoa, enfrentando o processo repetitivo de aprender sempre, em sequência, o tempo todo. Quando aprendemos uma coisa nova, não viramos a chave e mudamos o status de errado para certo. Vamos de errado para um pouco um pouco menos errado porque o conhecimento vive de complementos, é um processo constante. Porque se estamos nos aproximando de uma verdade — embora eu entenda que A verdade absoluta não existe, mas podemos nos aproximar de algo que acreditamos ser meio que uma verdade — vemos que as incertezas estão na raiz do progresso e do desenvolvimento da história do mundo: no momento em que alguém tinha alguma dúvida, essa pessoa tentou responder essa dúvida e vieram as descobertas que nos levaram a onde estamos hoje.

O homem que acha que sabe tudo não aprende nada novo.

É por isso que se eu achar que sou dona da verdade ou que aquilo que eu sei tudo é tudo, que eu cheguei no limite e o assunto se esgotou, eu não vou buscar novas informações nem outros pontos de vista e, com isso, vou simplesmente impor essa minha verdade. E não me parece que viver de certezas seja o melhor caminho.

E dentro desse processo de crescimento ainda temos as cagadas. Eu já sei que quero crescer como profissional. E que eu preciso entender melhor o processo, o mundo e as coisas que fazemos. E eu preciso aceitar que haverá fracassos no meio disso e que, na verdade, o meu resultado vai ter como base a quantidade de vezes que eu não consegui fazer determinada coisa. Isso não quer dizer que temos que sair errando, ficar fazendo cagada o tempo todo sem dar bola pra isso. É entender que, no momento que eu me esforcei para fazer certo mas eu fiz errado, que esse errado significa alguma coisa. Não é simplesmente ficar sofrendo porque eu errei e ser a vítima da história “Nossa, ninguém me entende” mas sim usar esse fracasso para modificar o projeto em andamento e fazer com que ele evolua.

Porque a gente se envolve em projetos, define objetivos e trabalha por eles, busca tornar uma pessoa melhor e “e aí, você morre…” Sim, a morte faz parte da vida, é certa, mas a gente evita falar e pensar, reconhecer que tudo vai ter um fim.

Mas é essa mesma morte que dá significado para nossa vida, porque nos preocupamos em, no final, ser lembrado por alguém.

Sabemos que o físico corpo físico vai morrer e por isso construímos um eu conceitual, que vai viver para sempre. Isso pode acontecer de forma inconsciente — ou não — e é para esse legado que definimos nossos valores, ou seja, nossos projetos de imortalidade. Aristóteles, os Beatles e os psicólogos de Harvard concordam em uma coisa: a felicidade advém de uma coisa maior, precisamos acreditar que somos um componente que contribui para um contexto muito maior que a vida, que somos parte do processo de uma grande produção ininteligível. É isso que a gente busca: que, no final, a gente não simplesmente pereça, que o que fizemos fique.


Curtiu? Dá umas palminhas aí! 😉

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Poli Lopes

WRITTEN BY

Criadora de Conteúdo para Web ⏺️ Professora de #mktdigital ⏺️ Doutora em Processos e Manifestações Culturais ⏺ Pesquiso SMM e cultura de massa ⏺ + em @polilopes

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