O que é hiperfoco em pessoas do espectro autista?


 

Wendy é fascinada pela saga Star Trek. No filme Tudo o que eu quero, que estreou nos cinemas no final de abril, a personagem interpretada por Dakota Fanning tem um conhecimento aprofundado de todos os filmes e séries da saga de ficção científica e até seu cachorro usa uniforma da tropa intergaláctica.

Isso porque Star Trek é alvo do hiperfoco da personagem, que tem autismo. Já o Kaio Cézar é uma criança com autismo da vida real. Ele tem uma fixação em logomarcas e no nadador Gustavo Borges. Por conta dele, aprendeu a nadar, perdeu o medo da água e agora se alimenta bem.

Os casos da Wendy e do Kaio são dois exemplos bem diferentes de uma das características mais famosas do autismo: o hiperfoco. No caso do Kaio, os benefícios desta condição são indescritíveis em alimentação e qualidade de vida.

No de Wendy, seu hiperfoco fez com que ela ao mesmo tempo desenvolvesse a habilidade de escrever para compor um roteiro para um concurso de Star Trek, mas ao mesmo tempo colocou a vida da personagem em risco quando ela viaja sozinha para uma cidade distante para entregar o roteiro.

Super Spectro conversou com a psicóloga Nathalia Manoni, que é psicopedagoga especialista em ABA, mestranda em Psicologia pela UFSCAR e atual presidente do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento (CAD) de São Carlos (SP). Ela falou um pouco sobre o hiperfoco, sobre como ele pode se manifestar e sobre como melhor utilizar essa característica frequente entre pessoas com autismo. Confira!

Super Spectro: O que é e quais são as características do hiperfoco ou interesse específico em crianças com TEA?

Psicóloga Nathalia Manoni: Basicamente, o hiperfoco é uma forma intensa de concentração em um mesmo tema, tópico ou tarefa. Em pessoas com TEA, o hiperfoco acaba fazendo parte da categoria de padrões comportamentais restritos e repetitivos e está presente nos critérios diagnóstico do transtorno.

Sabemos que o cérebro de um autista funciona de maneira diferente por ser um cérebro hiperexcitado. Um padrão repetitivo de comportamento de uma pessoa com TEA é, na verdade, uma tentativa de organizar o seu funcionamento cerebral.

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Super Spectro: Crianças típicas ou com outras condições também possuem hiperfoco?

Psicóloga Nathalia Manoni: Todas as pessoas possuem assuntos e temas pelos quais demonstram mais interesse e, por consequência, tendem a se aprofundar na temática e buscar profissões que contemplem suas preferências. No entanto, existe uma maior flexibilidade para ampliar a rede de conhecimento e agregar informações de inúmeras áreas.

Crianças com diagnóstico de TDAH [Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade], apesar da extrema dificuldade em concentrar-se, também podem apresentar hiperfoco. Porém, no autismo o hiperfoco é muito mais intenso e restrito

A pessoa com TEA muda de hiperfoco com o tempo? Ela pode ter mais do que um ponto de foco ao mesmo tempo?

Psicóloga Nathalia Manoni: Podemos responder positivamente às duas questões acima. À medida em que o cérebro amadurece e os padrões cognitivos se alteram, os comportamentos repetitivos motores (estereotipias) ou sensoriais (desordens sensoriais – hipo ou hipersensibilidades táteis, auditivas, visuais, gustativas e olfativas) evoluem para padrões comportamentais repetitivos de ordem superior, que passam a ser manifestados através de rituais, rotinas, fixações, obsessões e habilidades específicas em um determinado tema.

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Muitos profissionais de terapia ocupacional e de fonoaudiologia utilizam o tema do hiperfoco da criança a favor da sua educação. como ele pode ser utilizado?

Psicóloga Nathalia Manoni: Ao usarmos o tema de interesse da criança, podemos pensar em duas maneiras eficazes que podem proporcionar maior desempenho e motivação para realizar atividades pedagógicas, terapêuticas e para ampliar repertório comportamental.

No autismo, redes neuronais de preferências são formadas. Desta forma, faz-se necessário agregar a estas redes novas informações com intuito de ampliar o conhecimento e os interesses da criança. Primeiramente, devemos tornar as atividades reforçadoras e interessantes por si só, ou seja, devemos confeccioná-las utilizando os temas preferidos da criança. Assim, é possível atrelar novas informações aos assuntos prediletos.

Por exemplo, se a criança tem como foco dinossauros, podemos ensinar os numerais solicitando que conte a quantidade deles, ou então, ensinar expressões faciais através de dinossauros com diferentes carinhas que represente as emoções.

Nas intervenções baseadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), o ensino de uma nova habilidade é programado e, portanto, reforçado. Sendo assim, uma segunda maneira de aproveitar o hiperfoco é utilizar o acesso ao tema preferido como consequência de um comportamento/resposta adequado, ou seja, usar o tema como item reforçador.

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Existem casos em que o hiperfoco pode ser um problema?

Psicóloga Nathalia Manoni: Sim. É muito comum encontrarmos famílias e escolas que permitem que a criança fique engajada por horas em comportamentos repetitivos (estereotipias, gibis, tablets, videogames, desenhos animados ou brinquedos de sua preferência) com o objetivo de não irritá-la ou então para mantê-la quieta.

É comum também, quando os pais e familiares descobrem algum interesse do filho, começarem a comprar e sempre o presentear apenas com objetos e brinquedos ligados ao tema preferido. Fazem isso na tentativa de interagir e de aproveitar que criança finalmente começou a brincar com algo, mas não percebem o quão prejudicial pode ser, pois acabam restringindo ainda mais o repertório de interesse por anular oportunidades de contato com outros temas, outros tipos de brinquedo e atividades.

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