Felicidade


Apresentação
“Que a felicidade não dependa do tempo, nem da paisagem,
nem da sorte, nem do dinheiro.
Que ela possa vir com toda a simplicidade, de dentro para fora, de cada um para todos.”
Carlos Drummond de Andrade
Sim. Com certeza conheço a felicidade, mas admito que ela teimou em ser efêmera em minha vida. Digo isso porque passei praticamente a vida toda em estado de euforia e, para mim, essa alegria extrema seria o mesmo que felicidade – enfim um imenso equívoco, causador de enormes perdas.
A poderosa e incontrolável euforia permanente recheava minha cabeça
com planos fantásticos… incontáveis projetos fabulosos que nunca se realizavam.
A propósito, foi justamente minha aventura em direção ao meu verdadeiro eu – resultado das voltas da minha vida, dos estudos, das análises e das terapias – que me propiciou um razoável equilíbrio e que me levou a identificar o real sentido da minha vida: escrever.
Depois de muitos anos em poltronas e divãs de psicólogos, psiquiatras e psicanalistas de todas as linhas e, após estudar assiduamente a filosofia ou
ciência da felicidade, hoje estou certo de que, além de ter encontrado um
caminho, posso e devo passar adiante os ensinamentos que acumulei.
Mas, se o leitor me perguntasse se minha história de vida é de superação, certamente eu afirmaria que sim. Além de tudo o que passei – de
maravilhoso e de terrível – a esta altura e sendo advogado -, ter conseguido
reajustar-me e conferido outra finalidade à minha vida, só posso considerar
isso como superação.
Recentemente saí de casa a pé para comprar um livro. Por sorte consegui o último exemplar da livraria, sendo esse um livro muito importante
para mim. Portanto, fiquei contente.
Voltando para casa uma chuva forte me pegou. Tomei um banho como
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não tomava há muitos anos. Era uma tarde de muito calor e deixar-se ensopar na chuva foi uma delícia. Mas o detalhe que importa é que eu olhava
para o céu enegrecido, respirava bem fundo e ia curtindo cada gota daquela
chuva grossa. Felizmente o livro estava bem embrulhado e não se molhou.
Um dos elementos citados pelos estudiosos do tema é o exercício da
“Presença”. Aceitar a chuva, senti-la tridimensionalmente, foi saborear o
presente, coisa que eu não sabia fazer enquanto imerso no estado de euforia. Estudar sobre a felicidade foi decorrência natural dessas experiências
pessoais. Procurei abordar todos os aspectos, tentando ter uma visão 360
graus do tema.
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Introdução
“Quase sempre a maior ou menor felicidade depende do grau de decisão de
ser feliz.”
Abraham Lincoln
Em UMA TEORIA DA FELICIDADE articulo ideias sobre a felicidade,
incluindo desde os ensinamentos dos pensadores clássicos até os modernos
estudos da Genética, da Psicologia Positiva, da Neurociência e da História.
A partir da intersecção de todas essas ideias, muitas vezes convergentes
e, outras divergentes, é que encaminho minhas reflexões, buscando a essência do que seja a felicidade.
Conhecer verdadeiramente nossa individualidade (Sócrates) e a luta
para que nosso jardim floresça (Voltaire), dependerá do próprio modo de
agir de cada um. A felicidade deve ser sentida naturalmente, mas sem nos
esquecermos de que também deve ser compreendida e praticada – afinal,
a felicidade uma vez tornada consciente, pode propiciar uma vida melhor.
Existem muitas abordagens extremamente marcantes, criativas e úteis
sobre a Felicidade humana. Entre tantas outras, são as óticas de Platão,
Aristóteles, Epicuro, Sêneca, Descartes, Maquiavel, Roterdã, More, Voltaire, Rousseau, Freud, Jung, Dostoiévski, Frankl, Chopra, Seligman, Diener,
Dolan, Mihaly, Gilbert, Bauman, Harari, Schoch, Marinoff, Shinyashiki,
Olavo de Carvalho, Pondé, A. Cury, Gikovate, Cortella, Barros Filho, Karnal.
Nesse sentido, o texto passa uma visão panorâmica encadeando o pensar filosófico, a Genética, a Psicologia, a História em relação a Felicidade.
Inicio este livro com o conceito que os filósofos deram à felicidade desde
Thales de Mileto até os dias atuais. A concepção dos filósofos sobre a felicidade ao longo da história é fundamental para se ter uma ideia geral sobre
o tema.
A seguir vêm as proposições ordenadas num grande tripé: A Força da
Genética; A Força do Comportamento (Psicologia Positiva e Comporta-
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mento Humano) e A Força da História (Bifurcação Pós-Iluminista e Outras
Forças Históricas).
Com esse formato, meu objetivo é expor a intensidade e a maneira como
essas três forças interagem e influenciam a configuração da felicidade.
A Genética é o momento divisor de águas entre a “História do Universo”
e o surgimento da vida complexa na Terra e do Homo Sapiens na borda
de uma galáxia localizada numa borda do cosmos. Sob o plano científico,
a genética atualmente é considerada a influência preponderante na felicidade humana e também por isso é o tema que vem logo após os conceitos
básicos.
Note-se que o Projeto Genoma Humano (2003) conseguiu mapear os
25 mil genes formadores do ser humano. Veja-se que o Projeto Genoma
Humano se for comparado aos primeiros passos do homem na crosta lunar
(que em 1969 de forma colossal trouxeram conhecimentos incomensuráveis particularmente para a física, a química, a biologia, a astronomia, a
cosmologia, as telecomunicações, a engenharia espacial), o Genoma Humano parece se revelar ainda mais revolucionário.
Resta agora a tarefa – já iniciada -, de decifrar a razão e a função de cada
um desses milhares de genes. Uma vez concluída, o resultado mudará o
entendimento do homem sobre si mesmo, talvez de uma forma bem mais
profunda do que Freud e outros alcançaram.
Considero o Comportamento (tanto a cabeça de cada indivíduo quanto
a abordagem que se faz sobre a vida) como assuntos fundamentais e que
devem ser analisados conjuntamente, por isso vêm logo após os capítulos
que tratam da genética. A base inicial vem da recente ciência chamada Psicologia Positiva. Há pouco mais de vinte anos, Martin Seligman e outros
entusiastas começaram a pesquisar a felicidade. Desses estudos, atualmente, derivam muitas abordagens afinadas relacionadas a esse campo. Dessa
forma, trato inúmeros prismas da psicologia tradicional, da psicologia contemporânea, concatenadas com a Psicologia Positiva.
Optei por ordenar as partes como as apresento, por um critério subjetivo, ainda que fundamentado, conforme minha compreensão da temática.
Senão vejamos.
Antes de o homem e de sua consciência existirem, já haviam registros
arqueológicos com os quais pudemos deduzir a história da Terra e, consequentemente, a evolução do ser humano. Entre 80.000 e 50.000 anos, como
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resultado da Revolução Cognitiva, o homem adquire sua própria consciência. Portanto, confere coexistência entre o mundo real e o mundo idealizado. É a partir daí que surgem seus comportamentos típicos. E somente
na era pós-revolução cognitiva, quando o ser humano passa a abstrair e a
idealizar imagens, é que o homem começa a fazer e a escrever sua história.
A Genética é abordada logo a seguir porque é a responsável pelo surgimento da vida na Terra e do Homo Sapiens em particular.
Por fim, depois do Comportamento, a História também deve ser ponderada como um elemento importante e impactante sobre a Felicidade. Na
abordagem histórica discuto até que ponto as enormes mudanças políticas,
geopolíticas, etc. influenciam a felicidade geral de um povo e consequentemente o bem estar subjetivo e objetivo (felicidade) de cada indivíduo.
Busquei escrever o texto de maneira coloquial, sendo claro que existem
pontos que são mais complexos e requerem uma linguagem mais técnica
e outros, mais simples, que merecem uma redação mais corrente. O leitor
ainda irá notar, a presença de alguns neologismos a que me vi obrigado a
criar, para poder explanar determinados conceitos unitários (geralmente
uso hífen para unir duas ou mais palavras). Em nossa língua, esse é um
padrão mais raro, diferente por exemplo, das línguas germânicas.
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PRÓLOGO
“Quando o espírito inerente ao humanismo é extendido a tudo, animado e
inanimado, neste universo, eu chamo a isto Neo-Humanismo. Este Neo-Humanismo vai elevar o humanismo ao universalismo: amor por todos os seres
criados deste universo”
P. R. Sarkar
“A adrenalina da ilusão faz sonhar;
A loucura da razão faz sorrir;
A efemeridade da paixão faz chorar.”
João Vitor Rocha
Milhões de pessoas, hoje em dia, buscam freneticamente a adrenalina.
Essa procura insana, iniciada em meados do século XX e típica do XXI,
tornou-se uma epidemia mundial.
O fato é que as pessoas precisam preencher seus vazios psíquicos e espirituais e acreditam que vivendo a base de adrenalina vão solucionar essas
carências como num passe de mágica. É evidente que as razões dessas frustrações, entre tantas outras, estão na desconcertante ideologia consumista,
na hiper-comunicabilidade e na alta velocidade da vida superficial contemporânea criada artificialmente para alienar o indivíduo.
Assim, uma enorme parcela do vazio interior das pessoas é simplesmente fabricada pela civilização que desenvolvemos.
Mais de 2 mil anos atrás, quando os antigos gregos começaram a refletir
sobre o que constitui a ‘boa vida’, a felicidade era uma virtude cívica que
exigia ser cultivada constantemente. Agora, tornou-se direito nato de todos: engula um comprimido e fique feliz! Faça yoga e encontre a verdadeira
paz! Contrate um consultor de vida e reconquiste sua autoestima!
Perdemos o contato com as antigas tradições da felicidade e perdemos a
habilidade de compreender sua natureza essencialmente moral. Entre Platão e Prozac, a felicidade deixou de ser uma realização superior e tornou-se
um direito.
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Na atualidade, existem centenas e centenas de ideias inovadoras pairando sobre o mundo. São ideias filosóficas, ambientais, humanistas, políticas,
psicológicas, sobre Geografia Humana, comportamentais, tecnológicas, teológicas, cosmológicas etc.
Imagine o som de uma música universal repleta de temas e melodias
variadas.
Então, lembre-se dos sons da ópera até poucas décadas atrás. Sua beleza
e sabedoria alcançava apenas poucas pessoas. Mas os “tenores-pop” Carreras, Plácido e Pavarotti souberam com maestria fazer chegar aos ouvidos de
milhões a mensagem mágica (e realista…) da ópera. Alguns outros exemplos desse processo de popularização da cultura, seriam as séries televisivas
baseadas em Nelson Rodrigues, Graciliano Ramos etc., na crítica musical
de Nelson Motta, na cosmologia de Carl Sagan, na História do Brasil de
Laurentino Gomes, na Língua Portuguesa de Cipriano Pasquale Neto, na
economia de Ricardo Amorim, na política de Joice Hasselman, Marco Antônio Villa, Boris Casoy, Reinaldo Azevedo, na medicina de Dráuzio Varella e muitos outros…
São milhares de ideias e de estudiosos ao redor do mundo trabalhando
nesse leque de sabedorias que conjugam um tipo de binômio Neo-Conhecimento (Neo-Sabedoria)/Neo-Humanismo. Mesmo dentro das questões
filosóficas e psicológicas diretamente ligadas à Felicidade, cientistas, filósofos, psicólogos, sociólogos, economistas, historiadores, linguistas, jornalistas, políticos etc. vêm contribuindo decisivamente tanto para o avanço
como para a difusão dessas ideias.
Somente no Brasil, temos muitos filósofos-pop que concorrem para a
difusão da Filosofia e dos estudos acerca da Felicidade. Apenas para lembrar alguns: Giannetti, Karnal, Cortella, Clovis de Barros Filho, Pondé,
Olavo de Carvalho e muitos outros…
A propósito, “Filósofo”, antes de ser quem traz um certificado enquadrado, é aquele que articula e traz ideias interessantes. Como exemplo disso, são os pensadores acima citados: Giannetti (economista), Karnal (historiador), Olavo de Carvalho (filósofo autodidata). Nos EUA e no mundo,
entre centenas, estão Paul Dolan (economista) e Daniel Kahneman (Israelense, prêmio Nobel de Economia sem ser economista, mas sim psicólogo) entre tantos. E ainda outros europeus como Luc Ferry, Alain de Botton
e Zygmunt Bauman.
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Guardadas as características e as proporções, é como se os novos filósofos-pop fossem como os novos-iluministas dos séculos XX e XXI. Sua missão é a de ‘iluminar’ as mentes de todas as gentes, não numa direção única,
mas ao contrário, marcadamente plurissignificativa, dialética – e sempre na
mão da história e no sentido de um mundo melhor.
Aliás, vale lembrar que a Filosofia é filha da dúvida, do questionamento,
da busca de sentido ser. Ela começa a surgir 700 a.C., em seguida é eclipsada pela era das trevas (Idade Média), somente vindo a ressurgir em razão de uma humanidade em crise que acaba recebendo uma convincente
promessa de redenção através da filosofia do Iluminismo (e passado esse
momento de agudíssimo pensamento racionalista, novamente a filosofia
deixa de estar no centro das preocupações humanas). Se bem observarmos,
é justamente após a Grande Guerra, depois da reconstrução dos países devastados e ainda, depois da queda do Muro, que o homem mais uma vez
volta a duvidar do sentido da realidade e passa a reavaliar um sem número
de valores. Ou seja, estamos vivendo uma “terceira onda filosófica”1
que
volta a ser a grande portadora para viabilizar uma civilização envolta em
sua mais complexa crise. Em síntese, a filosofia também é filha da crise.
Afinal, como se sabe, não é possível ensinar Filosofia, mas é possível
ensinar a filosofar!…
Entender, de maneira puramente entrópica, que o ser humano é uma
espécie condenada a auto aniquilação, ao sofrimento perpétuo ou à destruição planetária é, no mínimo, uma ideia inconsistente.
Enfim, o fato assombroso é que em apenas vinte e poucos anos de pesquisa acerca da Psicologia Positiva e ciências afins, os conceitos iniciais dessa nova ciência foram desenvolvidos e irradiados gigantescamente para milhares de centros acadêmicos e de estudos e, o mais relevante de tudo, é que
a quantidade e o valor das descobertas daí decorrentes foram vertiginosas
– essa é uma grande informação para a humanidade. Um conhecimento
verdadeiramente transformador.
No meu caso, aprofundar os estudos sobre a Felicidade me aproximou
bastante dela.
1 Na verdade, quando falamos da “terceira onda filosófica”, essa é uma nomenclatura
superficial, por assim dizer, existem três magnitudes para as chamadas ondas filosóficas: as micro-ondas, as ondas e as macro-ondas filosóficas. E esse tema será abordado no meu próximo
livro UMA TEORIA DA FELICIDADE – CONEXÕES FILOSÓFICAS.

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