CENOBITAS OU ANACORETAS?


Séculos atrás os costumes rudimentares incentivavam uma vida no isolamento, privilegiando o individualismo que até então era muito admirado e desejado. Todo o conhecimento da época era oriundo do exercício da contemplação, da sensibilidade da observação e da capacidade de encontrar sentido nas ações da natureza, proveniente da “bondade” de Deus.

Os homens, por falta de opção, ficavam noites e noites admirando o céu e as estrelas, filosofando em pensamentos…

A vida religiosa era uma das poucas opções que permitia o desenvolvimento intelectual. Até que em uma determinada fase da história sugiram duas grandes vertentes de mosteiros:

Os Anacoretas, que defendiam a solidão radical, a vida individual extrema, aqueles que militavam sob uma regra e um abade. (Anacoreta foi um monge eremita que viveu em retiro, solitariamente, especialmente nos primórdios do cristianismo se dedicando a oração, produção de textos litúrgicos a fim de alcançar um estado de graça e pureza de alma pela contemplação) e;

Os Cenobitas, cristãos também eremitas, que através de provação diuturna no mosteiro, aprenderam a lutar contra o demônio. Eram adestrados e estavam seguros para as lutas isoladas do deserto, sem a consolação de outrem. Aptos para combater com as próprias mãos e braços, ajudando-os apenas a fé em Deus, contra os vícios da carne e dos pensamentos, mas que se permitam algumas práticas em comum.

Em tese durante o dia ambos viviam da mesma forma, porém os Cenobitas se diferenciavam dos Anacoretas, pois faziam a noite a refeição em grupo, quebrando assim o isolamento absoluto, permitindo-se poucos momentos de contato e a troca de algumas poucas palavras.

Na verdade o ato de fazer a refeição noturna em comunidade chamava-se “communicatio”, ou seja, atividade realizada conjuntamente com intuito de romper o isolamento, ação em comum, evoluiu para “comum + ação”, e depois para comunicação, que evoluiu um pouco mais e passou a significar: participar, compartilhar, interagir (primeiro sentido do termo), aplicando-se aos meios e/ou vias de comunicação através de mares, rios que colocavam o homem em contato com outros grupos.

Hoje na nossa sociedade encontramos traços de ambos. Graças aos anacoretas temos um exercito de jovens com seus fones de ouvido, procurando sua individualidade, e reservando-se a possibilidade do isolamento mental no meio do caos e da multidão. Dos Cenobitas herdamos a paixão das redes sociais e da necessidade inexplicável de sentirmos pertencentes e acolhidos dentro de um grupo de estranhos desconhecidos, mesmo que para isso tenhamos que nos expor, às vezes, ao ridículo.

Vivemos em um mundo projetado para a arquitetura dos desejos, almejando o bem estar absoluto, a inclusão indiscriminada e a expansão constante do nosso campo de atuação. Nossa sociedade incentiva a construção de personalidades excêntricas onde a realidade não nos basta e nossas aspirações são as infinitas possibilidades.

Hoje todos nós pertencemos a um único mosteiro onde o prazer é refém do tempo, e o tempo vítima da tecnologia.

https://molnar09.wordpress.com/

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