A MAIOR DE TODAS AS ILUSÕES É O EU | ALEX CASTRO


Trechos do capítulo 18 “Desapegar do Eu” do livro “Atenção” de Alex Castro

Dentre as muitas armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos e escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas, poucas podem ser mais unânimes (especialmente no Ocidente) do que a ilusão de que, dentro de cada uma de nós, existiria uma essência maior do que a soma de nossas partes: o Eu. A 18 a prática de atenção não é “abandonar o Eu” — porque o Eu não existe e não temos como abandonar algo que não existe —, mas sim desapegar dessa ilusão que criamos para buscar o prazer e evitar a dor, dessa ilusão que nos venderam para poderem vender a ela automóveis e pasta de dente.

Não existe essência

Eu, se perder um braço, continuaria sendo eu, só que sem um braço. Mas, e se tivesse estudado engenharia ou ido morar na Austrália, eu teria sido eu, apenas com uma vida diferente? Se meus pais tivessem feito sexo cinco minutos depois, eu teria sido eu? Se tivesse nascido na década seguinte, em Manaus, loiro e geminiano, ou na década anterior, em Porto Alegre, ruivo e leonino, eu teria sido eu? Em que momento haveria tantas e mais tantas condições fortuitas e circunstâncias contingentes nas quais eu deixaria de ser eu?

Uma caneta Bic, se tiro a tampa, é uma caneta sem tampa, de um lado, e uma tampa, do outro. Mas, se abro o corpo da caneta e tiro a carga, a caneta ainda é uma caneta? Agora, tenho três objetos: (1) uma tampa (2) uma carga, com ponta, e (3) um tubo transparente e oco. Qual desses três objetos é a caneta? Nenhum deles? Todos eles? Em que momento passaram a ser uma caneta? Em que momento deixaram de ser? Onde está a essência da caneta?

 

Eu, se perder um braço, continuaria sendo eu, só que sem um braço. Mas, e se tivesse estudado engenharia ou ido morar na Austrália, eu teria sido eu, apenas com uma vida diferente? Se meus pais tivessem feito sexo cinco minutos depois, eu teria sido eu? Se tivesse nascido na década seguinte, em Manaus, loiro e geminiano, ou na década anterior, em Porto Alegre, ruivo e leonino, eu teria sido eu? Em que momento haveria tantas e mais tantas condições fortuitas e circunstâncias contingentes nas quais eu deixaria de ser eu?

Uma caneta Bic, se tiro a tampa, é uma caneta sem tampa, de um lado, e uma tampa, do outro. Mas, se abro o corpo da caneta e tiro a carga, a caneta ainda é uma caneta? Agora, tenho três objetos: (1) uma tampa (2) uma carga, com ponta, e (3) um tubo transparente e oco. Qual desses três objetos é a caneta? Nenhum deles? Todos eles? Em que momento passaram a ser uma caneta? Em que momento deixaram de ser? Onde está a essência da caneta?

Se digo que uma mesa existe concretamente, mas não tem essência, o que quero dizer é que sua existência enquanto objeto não depende de si mesma. Se não tivéssemos desenvolvido o conceito de “móvel” e, dentro dele, de “mesa”, aquilo que nos parece um único objeto poderia igualmente e corretamente ser descrito como quatro pedaços de pau espetados numa tábua de madeira. Sem a ideia prévia de “mesa”, nem faria sentido descrever esse ajuntamento temporário de pedaços de madeira como um “objeto” uno, em vez de apenas um breve instantâneo na história de alguns fragmentos de árvore, antes arrumadas assim, depois organizadas assado.

Para a mesa existir enquanto “mesa”, ela depende das partes que a compõem (pés, tábua etc.), de suas causas imediatas e distantes (alguém decidiu fazê-la, alguém a fez etc.), de seu material físico (madeira, metal etc.), de sua idealização enquanto conceito (a ideia de mesa) etc. Sem essas condições contingentes (ou seja, fortuitas e dependentes de outras condições), não poderia existir o objeto “mesa”. Ou seja, a mesa não é uma entidade dotada de existência própria e intrínseca, mas apenas uma fatia arbitrária do espaço-tempo que escolhemos chamar por um termo convencionado (“mesa”).

Tudo é relação: nada existe por si e para si. O que vale para objetos manufaturados, como a mesa, vale igualmente para seres vivos, tanto a árvore de onde veio sua madeira, quanto eu e você.

Não existe o Eu

Não é que eu, aqui, pessoa concreta, de carne e osso, escrevendo essas linhas nesse exato minuto, e você aí, lendo essas linhas nesse exato minuto, não tenhamos existência física, concreta, real. (Afinal, eu sinto , eu sei que estou aqui e você sente, você sabe que está aí.) Mas essa entidade que chamo de Eu — que me parece tão maior e mais transcendental do que apenas a mera soma de “meus” membros, “meu” corpo, “minha” consciência, “meu” nome — é apenas um conceito que não possui existência permanente e autônoma, uma coleção de características contingentes e fortuitas sem nenhum tipo de essência intrínseca. Assim como a mesa, assim como a caneta.

Nossa consciência é formada por um contínuo de experiências ao qual damos um nome. Por razões práticas, faz sentido distinguir uma pessoa da outra — sou o Alex Castro porque não sou nem o Chico Buarque nem a Joana D’Arc. Da mesma maneira, distinguimos um rio do outro: o rio Amazonas e o rio Paraíba do Sul são dois rios diferentes porque nascem em pontos diferentes, correm por trajetos diferentes, contêm águas de composições químicas diferentes, deságuam em pontos diferentes. Entretanto, por mais reais e concretos que sejam esses caudalosos rios, eles não possuem qualquer essência: como até os gregos antigos sabiam, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.  Suas águas literalmente nunca são as mesmas.

Tudo é contingente: somos pessoas únicas não porque temos uma pretensa essência metafísica (o Eu!) qualitativamente diferente da essência metafísica das outras entidades que não-são-o-meu-Eu, mas sim porque surgimos a partir de condições únicas e de circunstâncias irrepetíveis.

Se o nosso Eu tivesse uma essência, então nossa natureza nunca poderia mudar: o fato de o nosso Eu ser vazio de existência intrínseca é justamente o que nos permite a liberdade de nos reconstruir, recriar, reinventar.

(…)

Síndrome da pessoa alheia

Se temos uma ferida sangrando na perna ou se nosso estômago está roncando, nossa mão não se comporta como se esses problemas lhe fossem alheios: ela estanca o sangue e coloca alimentos na boca. As diferentes partes do todo que é o meu corpo simplesmente, naturalmente se comportam como se fossem um só.

As mãos de algumas pessoas, porém, agem à revelia de sua vontade: pegam objetos que não deveriam pegar, fazem gestos que não deveriam fazer e, em casos extremos, até mesmo atacam outros membros do corpo. Só uma parte doente se comporta como se fosse uma entidade separada da totalidade à qual pertence. Por isso, essa doença, chamada de Síndrome da Mão Alheia, é considerada uma desordem neurológica devastadora.

Nossa mão não é alheia à fome do nosso estômago, porque ambos reconhecem fazer parte do mesmo todo, mas somos alheias à fome da pessoa que está ali na calçada, porque não nos reconhecemos como parte do mesmo todo que ela. A desordem existencial devastadora de nossa civilização é ver na fome, no sofrimento, na angústia da outra pessoa um problema alheio a nós. Todas sofremos de Síndrome da Pessoa Alheia.

Quando finalmente enxergamos a miragem do Eu, cuidar das outras pessoas se torna tão natural quanto a mão que automaticamente estanca o sangue da perna que pertence ao mesmo corpo que ela.

Não existe verdade

Uma objeção a esse texto:

— No meio de tanto dogmatismo místico, vejo várias contradições. Por exemplo, como você pode ter tanta certeza de que não existe? Não poderíamos parafrasear Descartes e dizer: “Penso ‘não existo’, logo existo?” Quem é esse Eu que escreve textos dizendo que o Eu não existe? Além disso, como posso me autoconstruir, ou escolher o meu mundo… se não existo?

Quando passo debaixo da lâmpada, vejo minha sombra no chão; quando entro na banheira, o nível da água sobe na exata proporção do volume do meu corpo; quando assino um contrato, tenho que reconhecer firma no cartório. (Uma das poucas vantagens comprovadas de não existir é nunca precisar reconhecer firma.) Então, se desloco água e abro firma, também posso autoconstruir minha identidade e escolher meu trabalho.

A questão não é se eu existo (é claro que eu existo), mas sim que o meu Eu não existe dessa maneira essencial e transcendental como sinto que ele existe, no centro de um universo que gira ao seu redor, observando tudo sempre a partir de sua própria perspectiva.

No século XVII, quando Galileu Galilei ousou sugerir que era a Terra que girava em torno do Sol (e não vice-versa), um cardeal retrucou:

— Eu não sou uma coisa qualquer, numa estrelazinha qualquer, girando por aí, ninguém sabe até quando. Eu sinto a terra firme debaixo dos meus pés, em repouso, no centro do universo. Eu estou no centro do universo, e o olho do Criador repousa em mim , somente em mim. Os astros e o Sol majestoso giram em torno de mim, fixados em oito esferas de cristal; foram criados para iluminar a minha cercania, e também para me iluminar a mim, para que Deus me veja.

Mas o pobre do Galileu não estava dizendo que a Terra e o Sol não existiam, assim como não estou dizendo que o Eu não existe. Galileu dizia apenas que a Terra e o Sol não eram o centro do universo, que eram somente mais um planeta e mais uma estrela, como infinitos outros, sem nada de intrinsecamente especial — a não ser o especialíssimo fato, para nós , de ser o planeta onde nós vivemos, e a estrela que nós orbitamos.

Tirando o fato de, para mim, Eu ser Eu (que é mais uma questão de perspectiva do que de essência), o que há de tão importante, transcendental nesse meu Eu? Nada.

Quando digo que encaro o meu Eu como se ele não tivesse essência intrínseca, o que estou compartilhando é uma perspectiva, não uma verdade: um método, não uma doutrina; uma prática, não um dogma. A afirmação de uma fé nos convida a acreditar ou des-acreditar: a proposta de um método, se acharmos que faz sentido e que pode nos trazer benefícios, nos convida a investigá-lo e vivenciá-lo, testá-lo e corporificá-lo.

Em minha experiência pessoal, tem valido a pena viver como se o meu Eu fosse desprovido de essência intrínseca. Algumas pessoas também decidiram viver assim. Outras, não. No fim das contas, independentemente de como escolhemos pensar sobre nós mesmas, todas deslocamos água quando entramos na banheira.

Desapegar do Eu não é deixar de se amar

O nosso Eu só sabe amar a si próprio: ele foi criado e treinado para premiar quem lhe pode ser útil e punir quem lhe pode ser incômodo. Por isso, não existe como servir e ajudar as outras pessoas a partir de uma perspectiva egoica: o Eu não consegue ser desinteressado, porque nós o inventamos para perseguir nossos (pretensos) interesses a todo custo. É só isso que ele sabe fazer. Quando o Eu ajuda, ele ajuda para parecer uma pessoa boa, para conseguir reconhecimento, para aumentar seu cacife, para ser feliz. Tudo sempre girando em torno de si mesmo, de seus interesses e de suas necessidades. Um Eu não tem como ajudar ninguém, não tem como ser útil à sua comunidade: mas, se nos desapegamos da ilusão do Eu e percebemos que estamos juntas, então, podemos nos ajudar a nós todas, de igual para igual, no mesmo nível.

As práticas de atenção se reforçam umas às outras. Na 17 a prática, Estar presente, aprendemos que tudo passa: nossa dor e nossa alegria, nosso êxtase e nosso luto, nossa vida e o nosso Sol. Mas, se não tivermos nos desapegado do nosso Eu (a 18 a prática), essa percepção pode nos tornar ainda mais egoístas:

— A Sâmara está sofrendo, mas pra que vou me dar ao trabalho de acolhê-la e abraçá-la? Essa dor vai passar mesmo! Deixa ela sofrer um pouco, faz bem pra alma!

Entretanto, se temos confiança de que tudo passa ao mesmo tempo em que conseguimos nos desapegar do nosso Eu, então podemos estar presentes na alegria e no sofrimento do mundo sem medo nem egoísmo, de forma plena e destemida, nos abrindo à dor de Sâmara, recebendo-a e acolhendo-a, e também deixando-a partir, permitindo que sua dor passe por nós como trens passando por uma estação. Se não somos a nossa dor, também não precisamos ser a dor de Sâmara.

Desapegar do Eu não significa nos odiarmos, ou não nos amarmos, mas amarmos a nós mesmas com o mesmo amor com o qual amamos a outra pessoa, porque somos todas partes do mesmo todo. Nós nos amamos e nos cuidamos não para nós mesmas, mas para as outras pessoas, para podermos amá-las e cuidar delas.

Quando um avião despressuriza, temos cerca de quinze segundos para colocar a máscara de oxigênio antes de perdermos a consciência. Assim, colocamos a máscara primeiro em nós mesmas não porque somos mais importantes do que as outras passageiras, mas porque, se estivermos desacordadas, não teremos como ajudar mais ninguém com suas máscaras.

Desapegar do Eu é engajar-se no mundo

O vazio que sentimos dentro de nós (que tentamos desesperadamente preencher com dinheiro ou fama, sexo ou família, ou qualquer outra coisa que nos pareça factível) só é um problema enquanto tentamos preenchê-lo.

Se conseguimos desapegar do Eu, entretanto, o mesmo vazio que antes nos angustiava passa a nos fortalecer: livres da obrigação absorvente de proteger essa frágil entidade dentro de nós e cuidar dela (“será que construí o suficiente em vinte e cinco anos de vida?”, “será que as pessoas gostam mesmo dos meus textos?” etc. etc.), podemos finalmente levantar os olhos, perceber as pessoas à nossa volta e nos dar conta de que elas também estão sofrendo.

Desapegar do nosso Eu não nos impede de militar em causas sociais ou de lutar para transformar a realidade. Pelo contrário, ao eliminar a importância excessiva que damos a nós mesmas em relação às outras pessoas, o nosso potencial de engajamento político é finalmente desbloqueado, realizado, magnificado.

Nós não estamos dentro do nosso corpo olhando para fora: nós somos o universo olhando para si mesmo. Nós não estamos aqui e o universo ali: nós somos o que o universo está fazendo agora. 


Atenção é o grande commodity da contemporaneidade. Ela é constantemente disputada pelas grandes empresas, que espalham todo o tipo possível de publicidade à nossa vista e contabilizam – e comercializam – os números de likes, compartilhamentos e pageviews de sites ou perfis em redes sociais. Há uma grande quantidade de informação e estímulos destinada a dividir a nossa atenção de nós mesmos e, principalmente, do outro. Mas, contraditoriamente, vivemos na era da desatenção, sempre fazendo tudo de maneira superficial, com falta de cuidado e de zelo. Neste livro, o zen-budista Alex Castro analisa as diferentes maneiras pelas quais podemos exercitar a atenção, não em busca do próprio autodesenvolvimento, mas para convertê-la em um instrumento de ação política. Mais do que olhar para si em busca de aprimoramento, o autor defende a necessidade de enxergar e aceitar o outro, acolher e cuidar do próximo. Para saber mais e ler o livro acesse este site.

Saiba mais e acompanhe o Alex via alexcastro.com.br.

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