Olhe nos meus olhos – Minha vida com Asperger


Prólogo
Olhe nos meus olhos, rapaz!”
Não posso dizer quantas vezes ouvi essa frase agressiva e dolorosa. Tudo
começou quando entrei no primeiro grau. Ouvi esse comando de pais,
parentes, professores, diretores e de todo o tipo de pessoas. Ouvi tantas
vezes que estranhava quando ninguém a proferia.
Às vezes, a frase vinha pontuada por uma reguada desferida pelo
professor. Ele diria, “Olhe para mim quando eu estou falando com você!” Eu
me contorceria e continuaria a olhar para o chão, o que o tomaria mais
furioso. Eu daria uma rápida espiada em sua face hostil, me contorceria
ainda mais, desconfortável naquela situação e incapaz de concatenar as
palavras, e rapidamente desviaria o olhar.
Meu pai diria, “Olhe para mim! O que você está escondendo?”
“Nada.”
Se o meu pai tivesse bebido, teria interpretado o “nada” como uma
resposta malcriada e teria ido atrás de mim. Nessa época, meu pai comprava
garrafões de vinho e bebia toda noite, antes e depois de eu ter ido para a
cama.
Ele diria, “Olhe para mim!” e eu ficaria contemplando a escultura
abstrata de garrafas vazias empilhadas atrás da cadeira e debaixo da mesa.
Eu olharia qualquer coisa, menos ele. Quando eu era menor, costumava
fugir enquanto ele me perseguia, sacudindo seu cinto, e minha mãe às vezes
me salvava, outras vezes, não. Quando, aos doze anos, cresci e fiquei mais
forte, dono de uma enorme coleção de canivetes, meu pai percebeu que
seria perigoso prosseguir com essa história de “Olhe para mim!” seguida de
uma cintada.
Todo mundo achava que entendia meu comportamento. Era
simples: eu não era boa coisa.
“Ninguém confia num cara que não olha você nos olhos.”
“Você tem jeito de marginal.”
“Você está aprontando alguma. Eu tenho certeza!”
Eu não conseguia entender porque eles ficavam tão agitados, nem
ao menos porque era tão importante olhar nos olhos dos outros. Avergonha
me dominava, porque eu sabia o que as pessoas esperavam que eu fizesse e,
mesmo assim, eu não fazia. O que havia de errado comigo?
“Sociopata” e “psicótico” eram dois dos mais comuns diagnósticos
para meu comportamento: “Eu li sobre pessoas como você. Elas não têm
expressão porque não têm sentimentos. Os piores assassinos da história eram
sociopatas.”
Passei a acreditar no que as pessoas diziam, porque eram tantos a
falar a mesma coisa que devia ser verdade, e a compreensão de que eu era
“defeituoso” realmente machucou. Tornei-me ainda mais tímido e
introvertido, e comecei a ler sobre pessoas com desvio de personalidade…
Será que eu cresceria como um assassino serial? Tinha lido que eles eram
sorrateiros e não olhavam as pessoas nos olhos.
Eu meditei sobre isso durante muito tempo. Eu não agredia as
pessoas. Não tacava fogo nas coisas. Não maltratava os animais. Não tinha
vontade de matar ninguém. Mas… Talvez isso começasse mais tarde. Será
que eu seria preso, um dia? Li sobre as prisões e concluí que as federais eram
as melhores. Se eu tivesse que ser encarcerado, que fosse numa prisão
federal, não em uma estadual corrupta como Attica.
Só na minha adolescência compreendi que eu não seria nada
daquilo e que não estava sendo negligente ou evasivo, se desviava o olhar
quando alguém me encarava. Ficava pensando porque os adultos
comparavam aquele comportamento com falta de sinceridade. Foi nessa
mesma época que conheci gente realmente baixa e suja, mas que olhava nos
olhos de todo mundo, o que me fez pensar o quão hipócritas eram as pessoas
que me criticavam.
Quando estou conversando com alguém, estímulos visuais podem
distrair a minha atenção. Na infância, se eu visse alguma coisa curiosa,
parava completamente de falar e ficava observando o que me interessara.
Hoje em dia, eu não interrompo a conversa totalmente, mas posso fazer
longas pausas entre as frases. Por isso, procuro focar meus olhos em algo
neutro, como o horizonte ou o chão. Então, para mim e outros portadores de
Asperger, é perfeitamente normal conversar sem encarar o interlocutor.
Foi um grande alívio quando descobri isso e, se eu soubesse antes,
teria evitado muito sofrimento.
SESSENTA ANOS ATRÁS, o psiquiatra austríaco Hans Asperger escreveu sobre
crianças que eram muito inteligentes, com vocabulário acima da média, mas
que apresentavam uma série de comportamentos comuns em pessoas com
Autismo, como deficiências marcantes no relacionamento social e na
habilidade de comunicação. Esta condição foi chamada de Síndrome de
Asperger em 1981. Em 1984, foi incluída na Classificação Internacional de
Doenças (CID.10), pela OMS, manual utilizado pelos profissionais da saúde
mental. A síndrome está classificada sob o registro número F84.5.
Quando eu era criança, os psiquiatras diagnosticavam os
portadores de Asperger como depressivos, esquizofrênicos ou sofrendo de
muitas outras doenças mentais.
A Síndrome de Asperger não é tão prejudicial assim. Pode até
conceder alguns dons raros. Alguns Aspergers têm extraordinária aptidão
para compreender problemas complexos e podem se tornar brilhantes
engenheiros ou cientistas. Outros parecem possuir dons musicais
sobrenaturais. Mas não se deixe enganar — muitas crianças com Asperger
não se tornam grandes professores ou cientistas excepcionais. Crescer é
muito difícil.
A Síndrome de Asperger existe de maneira continuada — algumas
pessoas apresentam os sintomas em tal grau que a sua capacidade para
viver sozinha na sociedade fica gravemente comprometida. Outros, como
eu, são afetados levemente, o suficiente para que possam levar a vida à sua
própria maneira, depois de uma certa adaptação. Alguns Aspergers tiveram
notável sucesso em encontrar um trabalho no qual pudessem demonstrar
suas habilidades únicas.
E a síndrome é surpreendentemente comum: um relatório de fevereiro de 2007 do Center for Disease Control and Prevention constatou que 1 pessoa em 150 tem Asperger, ou algum outro transtorno autista. Isso
significa quase dois milhões de pessoas, nos Estados Unidos.
Asperger é algo com o qual você nasce, não acontece mais tarde na
vida. Era evidente em mim desde uma idade muito precoce, mas,
infelizmente, ninguém sabia o quê diagnosticar. Meus pais percebiam que eu
era diferente das outras crianças. Eu andava de um jeito mecânico, robótico,
desajeitado. Minhas expressões faciais eram rígidas, raramente sorria e não
conseguia interagir com os outros… E quando o fazia, era em geral de uma
maneira complicada. Na maioria das vezes, ficava sozinho em meu pequeno
mundo, separado de meus colegas, totalmente absorvido com uma pilha de
varetas e Legos.
Além disso, nunca ficava quieto: pulava, saltava e rolava no chão.
Mas, mesmo com toda essa movimentação, eu não conseguia agarrar uma
bola ou fazer nada atlético. Meu avô tinha sido uma estrela na faculdade, e
foi corredor da equipe olímpica do meu país. Mas eu, não!
Se fosse uma criança, hoje, é possível que eu tivesse sido levado
para uma avaliação, e, assim, estaria a salvo das piores experiências descritas
neste livro.
Crescer foi um solitário e doloroso caminho.
A Síndrome de Asperger não é uma doença, é uma maneira de ser.
Não há nenhuma cura, nem é preciso. Há, no entanto, a necessidade de
conhecimento e de adaptação por parte das crianças com Asperger, de suas
famílias e de seus amigos. Espero que os leitores — especialmente aqueles
que estão lutando para crescer ou viver com Asperger – percebam que as
reviravoltas que ocorreram e as escolhas incomuns que fiz acabaram me
levando a uma vida muito boa, e possam aprender com a minha história.
Levou bastante tempo para que eu chegasse a este ponto, para
saber quem eu sou. Meus dias de clandestinidade acabaram. Orgulho-me de
ser um Asperger.

1 Uma criança desajustada
Era inconcebível para mim que poderia haver mais de uma maneira de
brincar, mas o pior é que havia! Doug não conseguia fazer as coisas direito.
Por isso, eu tinha que bater nele. BAM! Um tapa na orelha, como tinha visto
os Três Patetas fazerem. O fato de ter apenas três anos não era desculpa
para ele brincar de modo tão bagunçado.
Por exemplo, eu usava a colher de cozinha da minha mãe para
escavar a terra. Então, cuidadosamente, montava uma linha de blocos azuis.
Eu nunca misturava meus blocos. Blocos azuis com blocos azuis, vermelhos
com vermelhos. Mas Doug chegava e colocava um bloco vermelho em cima
dos azuis.
Ele não percebia que estava errado?
Depois que batia nele, eu voltava a brincar. Do jeito correto. Minha
mãe vinha gritar comigo. Não acho que ela tenha, alguma vez, percebido as
coisas terríveis que Doug fazia. Deixava minha mãe gritar, eu não dava
muita bola, mas se fosse o meu pai, ele teria ficado louco da vida, teria me
sacudido no ar e eu teria chorado.
Eu gostava de Doug, ele foi o primeiro amigo que tive. Mas havia
certas coisas que eu realmente não suportava nele. Eu estacionava meu
caminhãozinho bem ao lado de uma pedra, e lá vinha ele e jogava terra
dentro. Doug montava seus blocos numa pilha mal feita e depois ficava
rindo de alegria. Isso me deixava louco!
Mas nossos dias de brincadeira terminaram abruptamente. O pai
de Doug se formou em medicina e a família mudou-se para uma cidade
distante. Não conseguia compreender porque Doug partira, apesar de meus
pedidos para que ficasse. Mesmo que ele não soubesse brincar do modo
correto, Doug era meu único amigo. Aquilo realmente me entristeceu.
Toda vez que ia ao parque com minha mãe, eu perguntava sobre
meu amigo. “Tenho certeza de que ele irá mandar um cartão-postal”, minha
mãe respondia, com um olhar esquisito, que eu também não conseguia
entender. Aquilo era perturbador.
Eu ouvia as outras mães sussurrando, mas não sabia o que
significava.
“… afogado numa vala de irrigação…”
“… a água não era profunda…”
“… deve ter caído…”
“… sua mãe saiu e o encontrou lá…”
O que é uma vala de irrigação? Gostaria de saber. Tudo o que eu pude
descobrir foi que não estavam falando de mim. Só fui entender que Doug
tinha morrido alguns anos mais tarde.
Mas, pelo menos, eu parei de bater nas outras crianças. De alguma
forma, percebi que isso não ajudava a fomentar uma amizade duradoura.
Naquele ano, minha mãe me matriculou no jardim de infância. Era
um prédio pequeno, cheio de desenhos infantis pregados nas paredes e um
pátio cercado por uma cerca de arame. Foi a primeira vez em que fui
colocado junto a crianças que eu não conhecia. Mas nem tudo correu bem.
Inicialmente, eu estava animado. Assim que vi as outras crianças,
quis brincar com elas. Eu queria que elas gostassem de mim, mas elas não
gostaram. O que tinha de errado comigo? Havia uma menina, Chuckie, que
também se interessava por caminhões e trens, como eu, e achei que
devíamos ter muita coisa em comum.
No recreio, fui até ela e dei uns tapinhas em sua cabeça. Minha
mãe havia me mostrado como afagar meu poodle na cabeça, para fazer
amizade com ele. Às vezes, ela fazia isso comigo, especialmente quando eu
não conseguia dormir. Portanto, tanto quanto eu sabia, afagar a cabeça era
uma coisa que funcionava. Todos os cães em quem eu tinha feito isso
abanavam suas caudas quando eu chegava perto. Eles gostavam disso.
Chuckie gostaria, também.
Plaft! Ela me acertou!
Surpreso, eu fugi. Não deu certo, disse a mim mesmo. Acho que devo
afagar ela mais um pouco. Vou usar um pedaço de pau, assim ela não poderá me
acertar de novo, porque vou ficar mais longe. Mas a professora interveio.
“John, deixe a Chuckie em paz. A gente não machuca as pessoas
com um pedaço de pau.”
“Mas eu não vou machucar ela. Eu vou afagar ela, como faço com
meu poodle.”
“Pessoas não são cães. Não faça isso, e deixe esse pau aí.”
Chuckie ficou afastada o resto do dia, me olhando com cautela.
Mas não desisti. Ela deve gostar de mim, mas não sabe, pensei comigo. Minha
mãe sempre dizia que eu ia gostar de coisas que achava que não gostaria, e
de vez em quando ela estava certa.
No dia seguinte, Chuckie estava brincando na areia com um
caminhão de madeira. Eu entendia um bocado de caminhões. Logo percebi
que ela não estava brincando do jeito certo e decidi ensiná-la como fazer. Ela
vai ficar admirada com o que eu sei e seremos amigos, pensei. Fui até lá, peguei o
caminhão e me sentei.
“Fessora, o John pegou meu caminhão!”
Mas, já chamou a professora? Nem expliquei como se brinca…
“Eu tava ensinando ela a brincar do jeito certo, ela tava fazendo
tudo errado!” Mas a professora não acreditou em mim. Ela me levou dali e
me deu um caminhão pra brincar, longe de Chuckie. Bem, amanhã seria
outro dia, uma nova chance de fazer amigos.
Bolei um novo plano. Iria conversar com Chuckie sobre
dinossauros, um assunto que eu dominava, porque tinha ido ao museu com
meu pai. Havia noites em que eu tinha pesadelos com dinossauros, mas pelo
menos era o tema mais interessante que eu conhecia.
No dia seguinte, fui até Chuckie e me sentei.
“Eu gosto de dinossauros. Meu favorito é o brontossauro, ele é
muito grande.”
Ela não respondeu.
“Ele é grandão, mas só come plantas, come grama e folha de
árvores. Ele tem um pescoço comprido e uma cauda mais comprida ainda.”
Silêncio.
“Ele é do tamanho de um ônibus. Mas o alossauro come ele.”
Chuckie ainda não tinha dito nada. Ela olhava atentamente o solo,
enquanto fazia desenhos na areia.
“Fui ver os dinossauros no museu com o meu pai. Lá tem
dinossauros pequenos, também. Eles são muito legais.”
Chuckie se levantou e foi para dentro. Ela havia me ignorado
completamente!
Olhei para baixo, para ver o que ela estava observando com tanta
atenção. Não havia nada, a não ser a areia remexida.
Todas as tentativas para fazer amizade haviam falhado. Eu era um
fiasco. Comecei a chorar, sozinho num canto do pátio, e bati o
caminhãozinho no solo, seguidas vezes. Só parei quando minha mão doía
demais para continuar fazendo isso. O caminhão estava despedaçado.
No final do recreio eu continuava lá, olhando para o chão,
humilhado demais para encarar as outras crianças. Por que eles não gostam de
mim, o que eu fiz de errado? A professora veio me buscar e me levou para
dentro, eu queria desaparecer.
RECENTEMENTE, UM DE meus amigos leu esta passagem e comentou: “Putz,
John, você ainda é assim.” Ele tem razão, sou mesmo. Mas hoje eu aprendi o
que as pessoas esperam numa situação social como essa e ajo de um modo
mais normal, com menos chance de ofender alguém. Mas as diferenças
ainda existem, e sempre existirão.
As pessoas com Autismo ou Asperger muitas vezes não têm o
sentimento de empatia que orienta a maioria das pessoas em suas interações
com os outros. É por isso que nunca me ocorreu que Chuckie poderia não
responder aos afagos da mesma forma que um cão. Não estava clara para
mim qual seria a diferença entre uma menina e um cãozinho, nesse aspecto.
E também nunca me ocorreu que podia haver mais de uma maneira de
brincar com um caminhão de brinquedo, então eu não poderia
compreender por qual motivo Chuckie se opunha às minhas tentativas de
explicar o “modo correto”.
O pior é que todo mundo viu meu comportamento como sendo
uma coisa ruim, quando eu tentava apenas ser gentil. Arejeição de Chuckie
às minhas boas intenções deixou tudo mais doloroso. Por ter observado meus
pais conversando com outros adultos, achei que poderia conversar com ela.
Mas eu tinha esquecido de uma coisa fundamental: uma conversa bem
sucedida depende do dar-e-receber. Tendo a Síndrome de Asperger, deixei
escapar isso. Totalmente.
Eu nunca interagi com Chuckie novamente.
E desisti de tentar me relacionar com as outras crianças. Quanto
mais me rejeitavam, mas me sentia machucado por dentro e mais me
afastava.
Tive melhor sorte com os adultos. Minhas respostas incoerentes não
interrompiam as conversas e eu os ouvia mais, porque assumia que eles
entendiam das coisas. Os adultos faziam coisas de adultos. Já que não
brincavam com trens ou caminhões, não precisava ensiná-los como brincar.
Se eu tentasse afagar um adulto com um pedaço de pau, ele
apenas o tiraria de mim, não iria chorar e chamar a professora. Os adultos
me explicavam coisas, eu aprendia com eles. As crianças não me ensinavam
nada.
Na maior parte do tempo, ficava com meus brinquedos,
construindo fortes e torres. Adorava construir coisas, especialmente
máquinas. Elas não eram maldosas comigo, ao contrário, era desafiador
tentar entendê-las. Nunca me magoavam, então me sentia seguro com elas
por perto. Assim como me sentia seguro com os animais.
“Veja o que seu avô mandou para você, John.” Meu pai tinha
trazido um cãozinho peludo e mal-humorado, provavelmente um refugo de
algum canil. Fiquei fascinado. O cãozinho rosnou para mim e fez xixi no
tapete quando meu pai o colocou no chão. Não fiquei com medo, talvez
porque ele fosse menor que eu. Ainda não havia aprendido que dentes
afiados também veem em embalagens pequenas.
Meu pai disse, “Os poodles são cachorros muito inteligentes”.
Talvez ele fosse inteligente, mas não era muito amistoso. Dei a ele o
nome de Poodle, começando uma longa tradição de chamar os cães pela
raça, porque era mais funcional. Eu não sabia exatamente o que fazer com
um cão, estava sempre apertando, puxando sua cauda e tudo o mais, num
esforço para descobrir sua função. Ele me mordia toda vez que o apertava
demais, às vezes tão profundamente que meu braço sangrava. Quando
contei à minha mãe, ela disse: “John, Poodle nunca morde tão fundo a
ponto de tirar sangue do braço. Mas se ele fez isso, deverá ir embora desta
casa.” Eu só pude dizer: “Mordidas pequenas são um grande problema para
pessoas pequenas”.
Um dia, eu tranquei Poodle no meu quarto. Ele fez um buraco de
seu tamanho na porta e foi tomar sol no quintal. Tentei fazer a mesma coisa
e não consegui nem riscar a pintura com meus dentes. Foi aí que descobri
que Poodle tinha dentes afiados de verdade e passei a esconder meus
brinquedos antes de dormir. Se eu esquecesse algum, Poodle iria mastigá-lo.
Meus pais não gostavam dele porque roía todos os móveis da casa,
mas eu e ele acabamos ficando amigos. Embora eu nunca soubesse o que ele
iria fazer em seguida.
Minha casa não era um lugar muito feliz. Além de o cão comer
meus brinquedos, meus pais estavam sempre brigando, geralmente à noite,
quando achavam que eu estivesse dormindo. Uma noite, acordei com os
gritos, mas alguma coisa estava diferente. Minha mãe estava chorando,
além de gritar, coisa que ela não costumava fazer.
“Mamãe!”, chamei bem alto, para ter certeza de que me ouviria.
“Está tudo bem, volte a dormir”, disse ela, entrando no meu
quarto, afagando minha cabeça e saindo imediatamente. Tinha algo errado,
mamãe sempre ficava um pouco mais, cantando baixinho até que eu
adormecesse. Aonde ela foi? O que está acontecendo?
Fingi que estava dormindo, porque sabia que era isso que eles
esperavam que eu fizesse.
“Ele está dormindo”, minha mãe disse baixinho.
“Não está, não. Ele vai se lembrar disso tudo quando estiver com 40
anos”, gritou meu pai, e começou a soluçar. Seja o que for que estivesse
acontecendo, devia ser muito grave, a ponto de fazer os dois chorarem.
“Papai, não faça mamãe chorar!” não consegui me conter. Eu
queria me esconder debaixo da cama, mas sabia que eles me encontrariam.
Estava apavorado. Mamãe entrou no quarto e cantou de um jeito estranho,
até que eu caísse num sono agitado.
Muito tempo depois, eu soube que meu pai estava tendo um caso
com uma secretária da faculdade onde ele estudava. Ela se parecia muito
com minha mãe. Eu acho que o caso teve seu desenlace naquela noite, e o
casamento de meus pais começou a ruir naquele momento, também. Foi a
partir daí que meu pai ficou pior.
No dia seguinte, quando acordei, ele ainda estava na cama. Fui até
seu quarto e ele estava roncando. “Ele está cansado”, disse mamãe, e me
levou até a escola. Quando voltei, ele não estava e não veio à noite para
casa. Minha mãe explicou que meu pai estava no hospital, descansando,
porque estava exausto de tanto estudar, mas que no dia seguinte iríamos
visitá-lo.
Aquilo me deixou aflito, porque eu costumava tirar sonecas quando
ficava cansado. E se eu acordar no hospital? Fiquei com medo de tirar sonecas,
e fiquei com medo de dormir naquela noite, também.
No dia seguinte, a visita foi perturbadora, porque meu pai cheirava
estranho e agia de modo mais estranho ainda. Ele sorriu ao me ver, me
abraçou e disse que tudo ficaria bem, que estaria de volta em breve. Ficou
“descansando” no hospital ainda por um mês e, quando voltou para casa,
continuava parecendo cansado.
Assim que meu pai voltou, mamãe me levou para visitar seus
parentes por algum tempo. Quando cheguei da viagem, não encontrei mais
o meu Poodle.
“Ele fugiu”, meu pai explicou.
Mas isso não me soava bem. Queria saber o que realmente tinha
acontecido.
“O que você fez com Poodle?”
“Já disse, seu cão fugiu!” meu pai gritou. Isso me assustou.
Eu sabia que ele tinha feito alguma coisa com Poodle, mas tinha
medo de perguntar. Desde esse dia, passei a ficar com muito mais medo de
meu pai, temor que durou até minha adolescência, quando me tornei capaz
de me defender.
Quanto mais meus pais brigavam, pior meu pai ficava.
Especialmente à noite, porque começara a beber. Quando perdia o controle,
ele me espancava para valer. Ou então, ele me pegava e me sacudia. Parecia
que minha cabeça ia sair voando.
Logo que ele se formou, arrumou um emprego em Seattle, num
outro Estado, e levamos um mês inteiro para chegarmos até lá em nosso
fusca preto. Eu adorava aquele carro. Costumava me esconder no espaço
atrás do banco traseiro e ficar olhando para o céu, fingindo que estava
voando.
Quando chegamos ao destino, fomos morar num apartamento num
prédio em que havia mais crianças do que eu jamais tinha visto antes. Logo
fui me juntar a eles, para fazer parte da turma. Mas as coisas não correram
tão bem quanto eu desejava. O líder da turma era o Ronnie, quase dois anos
mais velho que eu.
Eles brincavam de caubóis e índios, correndo para cima e para
baixo do pátio gramado, gritando e rindo. Aquilo parecia muito divertido e
eu queria brincar com eles. E corri para cima e para baixo, junto com a
turma.
“O que você está fazendo? Você não é um caubói!” Como? Olhei
para Ronnie e depois olhei para mim mesmo. Como ele pode ser um caubói e eu,
não?
“Eu também sou um caubói!”
“É nada! Você é um cara de macaco!” e saiu correndo. Eu fiquei ali
e os amigos de Ronnie passavam correndo por mim e gritavam: “Cara de
macaco!”.
Eles nunca iriam me deixar ser um caubói. Por que eu estava vivo?
Eu não conseguia fazer amigos! Voltei correndo para nosso apartamento e
desabei a chorar. Mamãe me acalmou, fui à janela para olhar os meninos
correndo lá embaixo e voltei a brincar com meu trator.
O período em Seattle foi talvez a melhor época da minha infância.
Nós íamos sempre acampar nos finais de semana e adorava passar parte do
tempo no bosque, atrás de nosso prédio de apartamentos. Havia outras
crianças que não faziam parte da turma de Ronnie e um deles era Jeff, um
ano e meio mais novo que eu. Sua mãe ficara amiga da minha, então nós
íamos sempre visitá-los.
Como eu era mais velho, ensinava coisas a Jeff, coisas que um
garoto de cinco anos acha que um de três gostaria de aprender. Fazendo isso,
percebi que as crianças mais novas me olhavam como se eu fosse um
professor e eu gostava disso. Claro, as crianças sempre acham que sabem
todas as respostas. A diferença é que, no meu caso, eu as sabia de verdade,
pelo menos a maioria delas.
Quando tivemos que nos mudar de Seattle, dei meu trator a Jeff.
Esse trator foi a primeira coisa de valor que dei para alguém, mas achava
que Jeff merecia. Apesar de ser mais novo que eu, ele era um garoto esperto
e não zombava de mim, como as crianças mais velhas faziam.
Além disso, meus pais me prometeram uma bicicleta, assim que
chegássemos à nova cidade. Isso era sinal de que eu estava crescendo, e
sendo um garoto mais velho, achava que seria mais respeitado e que os
outros garotos passariam a gostar de mim.

3 Obomcompanheiro
ohn, vamos nos mudar.”
Meu pai anunciou esta novidade assim que chegou em casa, mas eu estava
mais interessado nas moedas de prata que encontrara na gaveta. Elas eram
antigas e pesadas, algumas de 1880. Ele insistia em me dar a notícia e tirou as
moedas de minha mão.
“Vamos nos mudar em breve.”
“Vamos voltar pra mesma casa onde a gente morava antes?”
Não, era para outra cidade, meu pai achava que tinha conseguido
um emprego permanente. Fiquei chateado em deixar meu amigo Jeff, mas
como não estava muito feliz naquele lugar, essa notícia não foi tão
desagradável assim.
Eu havia aprendido com as humilhações sofridas de crianças como
Ronnie e Chuckie. Sabia que era diferente dos outros, de algum modo que
não entendia, mas ainda assim olhava isso de um jeito positivo. Faria o
possível para ser uma criança legal, mesmo tendo algum problema.
Em Pittsburgh, aprendi a me relacionar, a entender as diferenças
entre cães e pessoas… E, aos nove anos, tive uma revelação: aprendi a
conversar com outras crianças. Quando alguém me dissesse: “Olha meu
caminhão”, ele esperava que eu respondesse algo que fizesse sentido dentro
do contexto daquela frase. Antes dessa revelação, eu teria respondido:
a) Eu tenho um helicóptero.
b) Quero alguns biscoitos.
c) Minha mãe está brava comigo.
d) Andei a cavalo no parque.
Estava tão acostumado a viver em meu próprio mundo que
responderia aquilo que estivesse pensando. Se me lembrasse de ter passeado
de cavalo, não importa se a outra criança dissesse “Olha meu caminhão” ou
“Minha mãe está no hospital” eu teria respondido “Andei a cavalo no
parque” Do mesmo jeito. As palavras dos outros não interrompiam o curso
de meus pensamentos, é como se não ouvisse o que tinham dito. Mas, de
algum modo, eu tinha ouvido, porque responderia. Mesmo que a resposta
não fizesse nenhum sentido para o interlocutor.
De repente, tudo isso mudou. Eu entendi que a resposta que o
outro garoto estava esperando era algo do tipo:
e) “Mas que legal! Posso segurar um pouco?”
E o mais importante é que eu, agora, sabia que as outras respostas
iriam irritar o menino. Finalmente, podia compreender porque a turma do
Ronnie não queria conversar comigo, ou a própria Chucky. (embora ela
pudesse ser “defeituosa” como eu, afinal também gostava de caminhões e
olhava para o chão quando eu falava com ela…) Minhas respostas, então,
passaram a ser mais coerentes. Claro que eu não era a alma da festa, mas
pelo menos agora podia participar das coisas… Tudo estava melhorando.
Logo que nos mudamos, já fiz amizade com as crianças da
vizinhança. Nós brincávamos juntos e explorávamos várias coisas novas na
região, sem a supervisão de adultos. Nós éramos livres e eu gostava dessa
sensação, porque não me sentia mais tão solitário quanto antes. Então, veio
uma outra surpresa.
“Vou ter um bebê!” mamãe me contou.
Eu não sabia o que dizer. Uma irmã? Esperava que não. Que graça
havia em ter uma irmã? Um irmão seria melhor. Ele seria meu melhor
companheiro de brincadeiras.
No dia em que o bebê nasceu, meu tio me levou para vê-lo na
maternidade. Ele era bem menor do que eu esperava, mas os adultos
garantiram que eu era desse tamanho quando tinha nascido, então ele
deveria crescer como eu… Quando foi para casa, passei a tomar conta de
meu irmão, mas ele não fazia nada. Passava a maior parte do tempo
dormindo.
Levei meus amigos para vê-lo e eles ficaram impressionados,
porque nenhum deles tinha um irmão bebê. Claro que eu ainda não
conseguira ensinar nenhum truque para ele, meu irmão só ficava olhando e
babando, mas um dia ele cresceria…
Um ano se passou e eu pude lhe ensinar algumas coisas, mas na
verdade meu irmão não tinha muita utilidade para mim. Mas eu conseguia
enxergar seu potencial; não via a hora de que ele aprendesse a falar, para
conversarmos. Enquanto isso, meus pais brigavam como nunca e
começaram a falar em mudar-se, novamente.
Meu pai passara a beber algo chamado xerez. Um dia, experimentei
e cuspi imediatamente, não conseguia imaginar alguém bebendo copos e
copos daquele negócio. Quanto mais ele bebia, sentado na cozinha, mais
maldoso ficava. Aprendi a manter distância dele, nesses momentos.
Um dia, nos mudamos de novo, desta vez para uma velha casa
alugada numa fazenda, construída em 1743. A fazenda ficava perto da
universidade onde meu pai iria trabalhar. Havia vacas e plantações para
todo lado e, o melhor, na fazenda vizinha, de propriedade do irmão de
nosso locador, moravam quatro crianças! Logo fiz amizade com elas e,
quando as aulas começaram, tinha até amigos com os quais podia sentar no
ônibus escolar. Eu nunca havia andado de ônibus antes, mas não contei isso
a ninguém: tinha aprendido a não revelar coisas que me deixassem em
situação ridícula frente aos demais.
Meu irmão tinha crescido e já engatinhava pela casa. Decidi
ensiná-lo a andar numa quadra ao lado da casa. Lá havia terra fofa, assim
ele não se machucaria quando caísse; e mesmo que caísse, ele era muito
baixinho, então a queda não seria muito violenta, de qualquer modo.
Demorou um bocado, tive que me esforçar bastante, mas até que ele
conseguiu dar uns passos. Fiquei imaginando se meu irmão não seria tão
“defeituoso” quanto eu, porque não demonstrava nenhum interesse em
leitura, embora eu tivesse mostrado todos os meus livros e lido algumas
histórias.
Logo, ele começou a andar sozinho. Claro que ele preferia
engatinhar a andar, mas quando eu o via de quatro, pulava em suas costas e
ele se esborrachava no chão. Ou eu o virava no chão de costas, como se faz
com uma tartaruga. Ele não gostava e começava a chorar quando eu fazia
isso, mas queria que ele aprendesse que devia andar, não engatinhar.
No inverno, meu irmão já estava cambaleando pela casa toda,
embora não falasse nada, ainda. Minha mãe havia assegurado que ele falaria
bastante, embora eu tivesse minhas dúvidas. Eu esperava mais dele.
“Ele não tem problemas, é apenas um bebê. Ele estará conversando
com você daqui a alguns anos!” Minha mãe continuava protegendo o bebê,
mesmo contra todas as evidências. Ele não falava, nem sabia ler!
Eu tentava ensinar, mas meu irmão não estudava nada do que eu
mostrava. Invariavelmente, acabava colocando tudo na boca. Um dia,
acabei temperando essas coisas com Tabasco e ele chorou. Ter um irmão mais
novo acabou por me ensinar a ter um relacionamento melhor com as
pessoas. E sendo um irmão menor, ele acabou aprendendo a olhar o que
colocava na boca…
Por alguma razão, apesar do que eu fizesse, meu irmão me
idolatrava. Eu era mais velho, eu sabia mais que ele. Gostava de ter um
irmão, ele me fazia sentir mais maduro. “Tome conta de seu irmão,” minha
mãe dizia, quando íamos brincar lá fora. Eu caminhava e ele vinha atrás de
mim, como um animal de estimação. Sentia prazer em tomar conta dele. Ao
contrário de alguns irmãos mais velhos, nunca pus fogo nele, ou cortei seu
braço ou sua perna, ou o afoguei na banheira.
Gradualmente, ele cresceu e deixou de babar ou resfolegar.
Começou a pegar meus brinquedos e brincar com eles sozinho. Logo, se
tornou um incômodo e resolvi batizá-lo com um novo nome:
“Venha cá, você está crescendo, então está na hora de receber um
nome. Decidi chamá-lo de Verme. Entendeu?”
“Verme?”
Ele pronunciou a nova palavra algumas vezes e, depois, foi contar
à mamãe a novidade.
A esmagadora solidão que eu sentira aos cinco anos tinha
desaparecido quase que totalmente. Agora, eu só me sentia sozinho em
momentos especiais, quando era lembrado de minha inferioridade. Por
ocasião de meus aniversários, mamãe fazia um bolo, eu ganhava alguns
presentes e todos festejavam. Mas, de tempos em tempos, era convidado
para a festa de aniversário de outras crianças, e nelas sempre havia dez ou
vinte meninos e meninas correndo para lá e para cá, rindo e brincando.
Essas é que eram as festas legais, as minhas eram uma droga.
Eu era raramente visto rindo ou feliz, ou cercado por outras
crianças. Nunca fui capaz de compreender a razão, mas sabia o que estava
perdendo e isso me machucava demais.
Já que vivi os anos escolares como um garoto marginalizado, o meu
pai e os meus professores começaram a fazer previsões sobre meu futuro.
Disseram-me que eu nunca teria capacidade para ser nada na vida. Quando
muito, poderia trabalhar num posto de gasolina, ou acabaria na prisão, ou no
Exército — isso, se eles me aceitassem (eu jamais me alistaria).
Eles não perderiam por esperar.
A
3
Empatia
os doze anos, eu tinha conseguido evoluir de “Se ele não melhorar, vai ser
internado” para “Ele é um moleque estranho e atrapalhado”. Embora minha
capacidade de comunicação tivesse melhorado, não importa se aos trancos e
barrancos, as pessoas mantinham altas expectativas em relação a mim, e
comecei a ter problemas com aquilo que o terapeuta chamava de
“expressões inapropriadas”.
Um dia, minha mãe conversava com uma amiga e eu estava por
perto.
“Você ouviu sobre o filho da Eleanor?”, perguntou a amiga, “Ele foi
atropelado e morto por um trem no último sábado. Estava brincando nos
trilhos.”
Eu sorri ao ouvir isso. Amulher olhou para mim com uma expressão
de choque: “Você acha engraçado?”.
“Não, acho que não.” Não sabia o quê dizer. Apesar de perceber o
que elas estavam pensando, não conseguia evitar o sorriso. Eu não estava
feliz, nem sabia por que estava sorrindo. Quando saí da sala, ouvi a amiga
dizer à minha mãe: “Qual o problema desse rapaz?”.
Fui encaminhado à terapia, e isso só me fez sentir pior. Eles
focavam apenas naquilo que consideravam ser pensamentos sociopatas e
nenhum deles conseguiu descobrir porque eu sorri, quando ouvi a história
do filho de Eleanor ter sido atropelado e morto por um trem.
Mas hoje eu sei a razão, e descobri isso sozinho.
Eu não conhecia Eleanor, muito menos seu filho. Por isso, não
havia nenhuma razão para que eu ficasse triste ou feliz em relação a
qualquer coisa que tivesse acontecido com eles. Aqui está o que eu pensava
naquela tarde:
Alguém morreu!
Dane-se! Ainda bem que não fui eu!
Ainda bem que não foi meu irmão, nem meus pais.
Acho que meus amigos estão todos bem.
Esse cara devia ser um idiota, brincar nos trilhos do trem?
Eu nunca seria atropelado desse jeito.
Ainda bem que estou legal.
Na verdade, eu sorri de alívio porque não tinha sido comigo, nem
com alguém que eu conhecesse ou me importasse. Hoje, meus sentimentos
seriam exatamente os mesmos, numa situação dessas. Só que, agora, tenho
melhor controle de minhas expressões faciais.
O fato é que, a partir de uma perspectiva evolutiva, as pessoas
têm uma tendência inerente a se preocupar e proteger sua família imediata.
Não nos preocupamos com as pessoas que não conhecemos. Se eu receber a
notícia de que dez pessoas morreram num acidente de ônibus na China, não
sentirei absolutamente nada. Entendo que, intelectualmente, é triste, mas
não me sinto triste. Então, eu vejo as pessoas fazendo um grande
estardalhaço com isso e fico desconcertado por não estar reagindo da mesma
maneira. Na maior parte da minha vida, ser diferente foi equiparado a ser
uma má pessoa, embora nunca tenha me considerado assim. “Isso é
horrível!” Algumas pessoas vão chorar e se descabelar, e eu fico pensando…
Será que eles realmente se sentem assim, ou é apenas uma forma de chamar a
atenção? Essa resposta é difícil. As pessoas morrem a cada minuto, no mundo
inteiro. Se a gente lamentar cada uma dessas mortes, nossos pequenos
corações irão explodir.
À medida que ficava mais velho, eu me ensinei a me comportar de
um modo mais “normal.” Eu posso fazê-lo bem o suficiente para enganar
uma pessoa durante toda uma noite, talvez até mais. Mas tudo cai por terra
se eu ouvir algo que traga à tona uma forte reação emocional, que é
diferente do que as pessoas esperam. Em um instante, a seus olhos, eu viro o
assassino sociopata que diziam que eu era, há quarenta anos.
Há dez anos, eu recebi uma chamada da polícia. “Seu pai sofreu
um acidente de carro. Ele está sendo levado para o hospital”.
”Merda, isso é terrível”, eu disse.
Eu senti náuseas imediatamente. Fiquei preocupado. Ele vai morrer?
Dentro de instantes, larguei o que estava fazendo e acelerei em direção ao
hospital.
Meu pai não morreu. Ele e minha madrasta se recuperaram desse
acidente. Mas esse sentimento doentio não me abandonou até que cheguei
ao hospital, falei com os médicos e compreendi que eles ficariam bem.
Eu comparo esse evento com a notícia de que um avião caiu no
Uzbequistão. Cinquenta e seis pessoas morreram. “Merda, isso é terrível”, eu
digo. Para um observador, a minha reação a estes dois acontecimentos foi a
mesma. Mas, para mim, existe uma grande diferença, como a do dia para a
noite. Preocupar-se — ou fingir ter preocupação — com outras pessoas é um
comportamento aprendido. É um dos vários tipos de empatia, eu suponho.
Tenho verdadeira empatia para com minha família e meus amigos íntimos.
Se eu ouvir que algo de ruim aconteceu a um deles, sinto-me tenso, ou com
náuseas. Meus músculos do pescoço passam a ter câimbras, fico apreensivo.
Para mim, é o tipo de empatia “real”.
Quando as más notícias não envolvem perigo, o meu pensamento
imediato é: O que posso fazer para corrigir as coisas?
Quando eu estava com catorze anos, minha mãe chegou um dia e
disse, “John, o carro está pegando fogo!” Eu desci as escadas e fui até o
carro. O interior estava cheio de fumaça. Tenho que arrumar isso para ela,
pensei. E tenho de fazê-lo antes de o meu pai chegar em casa.
Abri as janelas do carro, depois o capô e desconectei a bateria.
Quando a fumaça diminuiu, olhei sob o painel e encontrei um fio do
acendedor de cigarros pegando fogo e derretendo. Cortei-o e removi a
moeda que minha mãe tinha deixado cair no acendedor. Eu fiz tudo isso,
apesar de o carro estar imundo e cheio de bitucas de cigarro e papel
amassado, as coisas mais revoltantes do mundo para mim. Fiz isso pela
minha mãe.
É outro tipo de empatia. Eu não precisaria ter arrumado o carro. Eu
poderia ter fingido não ter percebido nada e ela nunca teria notado. Jamais
teria feito isso por qualquer outra pessoa. Mas eu senti a necessidade de
ajudar, porque era um membro da família em apuros.
Eu tenho o que poderíamos chamar de “empatia lógica” pelas
pessoas que não conheço. Ou seja, eu posso compreender que é triste que
essas pessoas tenham morrido na queda do avião. E eu compreendo que têm
famílias, e elas estão infelizes. Mas não tenho qualquer reação física à notícia.
E não há nenhuma razão para que eu a tenha. Não conheço essas pessoas e
as notícias não têm efeito sobre a minha vida. Sim, é triste, mas no mesmo
dia milhares de pessoas morreram por homicídios, acidentes, doenças,
desastres naturais, e muitas outras causas. Sinto que devo colocar as coisas
em perspectiva e guardar minhas aflições para coisas que realmente
importam para mim.
Como um pensador lógico, não posso deixar de considerar, com
base nas evidências, que muitas pessoas que apresentam reações dramáticas
para más notícias envolvendo estranhos são hipócritas. Isso me perturba. As
pessoas desse tipo ouvem más notícias de um lugar distante, e explodem em
lágrimas como se os próprios filhos tivessem sido atropelados por um ônibus.
Para mim, elas não são muito diferentes dos atores e atrizes — são capazes
de verter lágrimas sob um comando, mas isso realmente significa alguma
coisa?
Essas mesmas pessoas me diriam: “O que há de errado com você?
Você não se importa por essas pessoas terem morrido? Elas também tinham
famílias!”.
Quanto mais velho eu fico, mais e mais me vejo com problemas por
falar coisas que são verdadeiras, mas que as pessoas não gostam de ouvir.
Não compreendo o que é ter tato. Consegui desenvolver certa habilidade
em evitar dizer as coisas que estava pensando. Mas ainda penso nelas. É que
não deixo esses pensamentos de lado com tanta frequência, como fazia
antes.
N
4
Nasceummalandro
esta altura da vida, eu aprendera a capitalizar minhas diferenças quanto
ao resto da humanidade. Na escola, me tornara o palhaço da classe.
Naqueles tempos, tinha visitado a sala do diretor da escola incontáveis
vezes, mas valera a pena.
Eu era bom em pregar peças e, quando eu aprontava uma, os
garotos riam comigo, não de mim. Ríamos juntos das vítimas, sejam quem
fossem, e enquanto conseguisse bolar novas travessuras, continuaria sendo
popular. Eu adorava ser admirado por isso. O melhor é que eu nem
precisava chamá-los para participar, eles vinham porque tinham vontade
de fazer isso.
Vivia lendo o tempo todo, e os volumes mais interessantes da
Enciclopédia Britânica ficavam na minha mesinha de cabeceira. As pessoas
passaram a me ouvir como se eu fosse um prodígio, especialmente minha
família e meus amigos. Eu os considerava uma ótima plateia, porque
pareciam gostar de mim, ao contrário de outras pessoas. Eles sabiam que
estudava com afinco e tinham confirmado, muitas vezes, que eu estava
certo em minhas afirmações.

Certa vez, tive uma ideia: talvez pudesse criar minha própria
realidade. A minha primeira experiência nesse sentido foi relativamente
simples. Estava uma noite mostrando as estrelas e constelações aos meus
avós, quando inventei uma:
“Lá está a Grande Concha, parte da Ursa Maior”, eu disse. “Veja,
ali. Do outro lado, está Órion.”
“Você sabe tudo sobre as estrelas, John!” Minha avó estava
impressionada. “Aquela brilhante ali é Sirius, na constelação Cão Maior. E a
outra é Bovinius, na Vaca Menor”.
“Que história é essa? Eu nunca ouvi falar dessa tal de Vaca
Menor” Meus avós estavam em dúvida.
“Eu li sobre isso no meu livro de mitologia. O que você comprou pra
mim. As vacas são sagradas na Índia, por isso essa é a sua estrela. Quer que
eu vá pegar o livro?”
“Não, filho, eu tenho certeza que você está certo.”
O truque foi incluir afirmações verdadeiras na história para tornála plausível. Citei estrelas e constelações que eles conheciam e, em seguida,
incluí a minha. Todos os elementos se completavam e faziam sentido. Talvez
houvesse mesmo uma constelação da Vaca Menor, sei lá…
E assim Bovinius começou a brilhar no céu da Georgia. Meu avô
continuou a propagar a lenda.
“Ei, Jeb, olha lá. Você vê aquela estrela? É a tal da Bovinius, da
Vaca Menor. Meu neto me contou sobre isso.”
“Vaca Menor, é?”
“É. Foram os índios. Deram o nome de vaca para uma estrela.”
“índios?”
“É, índios, mesmo, índios de verdade. Da Índia.”
“Vaca Menor, quem diria…”
Minhas peças foram se tornando mais sofisticadas à medida que eu
ficava mais velho e mais experiente. Muitas dessas histórias acabaram
criando vida própria.
Comecei aprontando com minha família: meu avô achava
engraçado, de início, e me encorajava a continuar. Com meu pai, do jeito
que ele era, não podia correr riscos, seria perigoso pregar uma peça nele. Mas
minha mãe e meu irmão caíam todas as vezes e a brincadeira do garoto
desaparecido se tornou um marco, acabei criando variações sobre ela
durante muito tempo.
A primeira vez ocorreu quando mamãe nos levou a um parque
perto de casa, supostamente seguro. Acerta altura, mamãe foi ao banheiro e
deixou a mim, com catorze anos, encarregado de tomar conta de meu irmão
Verme, que estava com seis. Nessa hora, tive uma inspiração súbita:
“Rápido, Verme, se esconda ali”, apontei para um pequeno galpão
onde guardavam ferramentas, “vamos pregar uma peça na mamãe”.
Meu irmão correu até lá e fechou a porta, deixando um vão por
onde pudesse espiar. Quando minha mãe voltou, eu estava afagando um
cervo.
“John, cadê seu irmão?”
Sem nem mesmo virar a cabeça, respondi, “Foi procurar você”.
Ela voltou pelo mesmo caminho; até agora, tudo estava correndo
bem. Sorri para Verme.
“John, não o encontrei.”
“Ele vai aparecer.”
Comecei a caminhar lentamente, parecendo despreocupado.
Minha mãe me seguiu, cada vez mais agitada.
“John, onde está Cris?”
“Ele está bem. Não se preocupe, afinal ele é apenas um Verme.”
“Gostaria que você parasse de se referir a seu irmão desse jeito.”
Já haviam se passado dez minutos, e nenhum sinal de Verme. Eu
estava realmente orgulhoso dele, em silêncio todo esse tempo e trancado no
galpão. Já estava na hora de dar mais um passo:
“John, estou preocupada com Cris!”
“Bobeira, ele está bem, foi com seu amigo Paul.”
Minha mãe não tinha nenhum amigo Paul. Ela ficou branca.
“Mas… do que você está falando?”
“Verme foi com Paul procurar você, depois iam dar uma volta de
trem.”
Ela estava em pânico. Nós a tínhamos capturado na armadilha.
“Não conheço nenhum Paul, quem é esse homem?”
“Como vou saber? Ele é seu amigo!”
Eu estava ficando bom nessa brincadeira.
“Meu Deus! Não saia daqui!” Ela foi correndo, atrás dos policiais.
Achei que era melhor o Verme sair do esconderijo antes que a
polícia aparecesse. Ele estava orgulhoso de ter cumprido seu papel, embora
sua parte fosse apenas ficar quietinho.
Quando mamãe voltou com dois policiais e viu meu irmão, correu
para abraçá-lo: “Onde você estava, Christopher?”
Antes que ele pudesse responder, fui logo dizendo:
“Paul o trouxe de volta, como tinha dito que faria.”
Os policiais foram embora, enquanto Verme entrou na brincadeira:
“Andamos de trem, comi sorvete…” Ele tinha inventado isso sozinho. Acho
que, um dia, ele seria tão bom quanto eu para criar histórias…
Mamãe suspeitava de alguma coisa, mas não sabia que estávamos
juntos naquela brincadeira… Nem mesmo sabia que aquilo tudo fora uma
peça, nem tinha ideia de onde meu irmão estivera. Mas como ele parecia
estar bem, ela achou melhor esquecer tudo.
Não parei aí, eu aprontava com os vizinhos e os professores,
especialmente um professor de biologia muito desagradável. Sua ideia de
como eu devia fazer os trabalhos, e quando devia fazê-los, eram bem
diferentes das minhas. Ele me atormentava durante as aulas no laboratório,
erguendo meu sapo dissecado e mostrando como estava mal feito, para toda
a classe me ridicularizar. Ele também me fazia perguntas, sabendo que não
teria como respondê-las. “O que é isso?” diria, apontando para algum órgão
do sapo. Como vou saber?, eu pensava, mas não dizia nada. Isso era muito
humilhante, e comecei a imaginar um jeito de distrair o professor com outras
coisas e fazê-lo esquecer de mim.
Então, concluí que a melhor saída seria lhe fornecer material de
leitura. Fui até a banca mais próxima, que eu sabia estar repleta de revistas
pornô. Eles vendiam Playboy e Penthouse, mas o material mais pesado ficava
sob a caixa registradora. Minha ideia era pegar os cupons de assinatura que
ficavam dentro das revistas, mas não sabia como obtê-los. Aúnica saída seria
comprar essas revistas, mas eu não tinha dinheiro.
No sábado seguinte, montei uma barraquinha em frente a um
restaurante, no centro da cidade, e coloquei uma placa que eu fiz:
AJUDE OS ÓRFÃOS
AJUDE-NOS A AJUDÁ-LOS QUALQUER QUANTIA SERVE
SALVE UMA CRIANÇA

Foi muito fácil. Em algumas horas, tinha juntado 30 dólares em
moedas e 16 dólares em notas. Para minha surpresa, ninguém me perguntou
nada, ou duvidou do que estava escrito, apenas passavam e jogavam o
dinheiro, sem mesmo olhar em minha direção. Por sorte, nenhum de meus
conhecidos apareceu; teria sido constrangedor para mim, mas inspirador
para eles: se algum de meus amigos me tivesse visto fazendo isso, tenho
certeza de que estariam no mesmo lugar, no dia seguinte, fazendo a mesma
coisa.
Eu conhecia muitos dos mendigos da cidade: Rug, Stimp, Fatso…
Fui falar com Rug:
“Ei, você pode ir comprar algumas revistas pornô para mim, umas
5 está bom? Se você topar, pode ficar com uma delas.”
Ele hesitou.
“E ainda te dou uma cerveja.”
Isso bastou.
Naquela noite, com o endereço do professor em mãos, preenchi os
formulários de assinatura em nome dele. Depois, coloquei uma das revistas
na gaveta da mesa de meu pai e outra na estante com seus livros, assim,
caso minha mãe as encontrasse, não faria nenhuma conexão comigo. A
terceira revista, deixei na sala de espera da diretoria da escola e a última,
num dos bancos da igreja.
Antes de distribuir as revistas, dei uma folheada para ver a
qualidade de meu presente e encontrei, numa delas, o anúncio de Ursula,
uma boneca inflável — o presente ideal para um solitário professor de
biologia. Fiz a encomenda, usando 17 dólares de minhas reservas e esperei.
Nada aconteceu durante algumas semanas, até que um dia ele me
chamou no corredor.
“Ei, John, o que você sabe sobre a Ursula?”
“Quem? Não conheço nenhuma Ursula…”
“É, foi o que pensei.”
Foi aí que confirmei que meu plano tinha dado certo. O professor
me deu um F no final do semestre, mas isso não importava mais: eu tirava F
em todas as matérias. Só não sei se ele me deu F porque não gostou de meus
trabalhos, se foi porque faltei em todas as suas aulas ou porque suspeitou que
fosse o responsável por colocar Ursula em sua vida.
Mas eu ri por último, e ri melhor. Depois que as aulas acabaram,
encomendei dois carregamentos de cascalho e dei o endereço da casa do
professor:
“Podem descarregar na calçada e colocar a conta na caixa de
correio. Os pedreiros vão colocar tudo pra dentro amanhã.”
Foram depositadas mais de 45 toneladas de cascalho na entrada de
carro da casa do professor e, o melhor de tudo, a conta estava em nome dele.
Quem sabe Ursula pudesse ajudá-lo a tirar tudo aquilo da calçada

5
AcheiumPorsche
uando eu estava com onze anos, meu pai obteve estabilidade no emprego
e finalmente pôde comprar uma casa. Ela se localizava numa pequena
cidade chamada Shutesbury, que era realmente pequena: procurei no Atlas
que meu avô tinha me dado e vi que a cidade tinha apenas 273 habitantes…
Anossa casa parecia muito distante. Havia cinco casas enfileiradas
na rua em que morávamos, mas eram todas separadas por árvores, de modo
que nenhum de nós conseguia ver os nossos vizinhos. Após a fileira de casas,
a rua continuava indefinidamente, sem nenhuma outra construção. Só
havia matas e colinas. Todas as casas eram novinhas em folha e os pais que
viviam nelas lecionavam na universidade, com exceção de uns poucos que
ensinavam nas outras escolas, e logo descobri que alguns deles tinham filhos
da minha idade.
Era a primavera de 1968 quando nos mudamos, e meus pais me
tiraram da enorme escola onde estudava antes e me matricularam numa
bem menor, com apenas duas salas. Lá, pude conhecer meus novos vizinhos
e, dentre eles, Ken, da mesma idade que eu e que também tinha acabado de
chegar. Logo nos tornamos grandes amigos e passávamos as tardes
explorando as matas próximas.
Depois de ter morado em grandes cidades e nos descampados da
fazenda, aquele lugarejo representava uma grande mudança. Vivíamos a
pouca distância de uma movimentada cidade, que abrigava uma grande
universidade, e todo o tipo de coisas interessantes ocorria por lá. Mas havia
também quilômetros de matas e estradas para conhecer.
Um belo dia, vi marcas recentes numa das estradas abandonadas
que costumávamos explorar. Eu caminhava por ali todos os dias, mas nunca
tinha visto carros passarem. As estradas eram estreitas, com árvores e pedras
e arbustos pendendo dos lados. Fazia muito tempo que não eram utilizadas e
muitas delas não levavam a lugar nenhum. Ou, se levaram algum dia, agora
terminavam num buraco no chão, com uma pedra fincada onde se podiam
amarrar os cavalos.
Cautelosamente, segui as marcas no chão e, alguns metros à frente,
cheguei até uma clareira. E ali, bem no meio dela, estava um Porsche
novinho. Azul, com bancos marrons. E um “90” cromado na traseira.
Alguém o havia deixado lá. Eu sabia o que era. Costumava ler
revistas sobre automóveis e conhecia todos os modelos de carros que
existiam. Conhecia tudo sobre Porsches, mas nunca tinha visto um tão de
perto.
Aproximei-me devagar e percebi que o capô estava aberto, mas não
havia nenhum motor. Será que tinha quebrado e o dono o tinha levado para
consertar? Mas, de repente, outro pensamento passou pela minha mente: e
se o carro fosse roubado? Tinha lido sobre isso em meus livros de aventuras e
fiquei com medo de que os bandidos estivessem escondidos por ali. Não
queria ser amarrado numa árvore, com a boca fechada com fita adesiva.
Olhei em volta e não ouvi nada, a não serem os passarinhos e o
vento balançando as folhagens. Fechei o capô e fui embora lentamente.
Quando cheguei à casa de Ken, contei sobre minha descoberta e voltamos
ao Porsche. Ken logo percebeu o que acontecera:
“Foi a polícia que deixou aqui, é uma armadilha. Já vi na TV eles
fazendo isso. Eles deixam o carro e ficam esperando alguém vir roubá-lo.
Daí, eles pulam em cima e prendem o cara. Acho que eles estão nos vigiando
agora mesmo.”
“Mas está sem motor!”
“Por isso mesmo, quem roubar o carro não vai poder fugir!”
Olhei em volta, imaginando os policiais em roupas de camuflagem.
Ou escondidos em buracos, como vi os fuzileiros navais fazendo na National
Geographic. Resolvemos fugir.
Voltamos no dia seguinte, espreitando a clareira, em busca de
evidências da armadilha da polícia. Não havia nenhum sinal, o carro estava
do mesmo jeito que o dia anterior.
“Vou entrar nele”, disse ao Ken.
“Seu burro, eles vão pegar suas digitais e vão prender você quando
chegar na escola!”
Estaquei. Será que podiam fazer isso? Mas aí, as coisas ficaram
claras:
“Eles não podem me prender, sou muito criança para roubar um
carro”.
Abri a porta do Porsche e sentei-me no banco. Ainda me lembro do
cheiro do couro. Olhei no painel e vi o velocímetro, que marcava 190, mas
eu sabia que o carro era mais rápido que isso. Também tinha um tacômetro,
um relógio e outros botões. E vi o rádio.
Tinha um botão com AM e outro para Ondas Curtas. Os carros
americanos não tinham isso… Meu pai tinha um rádio em casa com ondas
curtas, mas nunca havia visto um carro com esse botão. Logo imaginei estar
ouvindo a BBC de Londres, ou a HCJB de Quito, no Equador, a Voz dos
Andes. De vez em quando, as ouvíamos em casa.
Esse rádio apenas confirmou o quão especial era um Porsche.
Mamãe tinha comprado um carro novo, um Newport, mas ela bem que
podia ter comprado um desses. Logo, fingi estar guiando em Le Mans a mais
de 120 por hora, tomando cuidado para não sair de traseira (eu tinha lido
que alguns modelos apresentavam essa tendência, então precisava tomar
cuidado). Dirigi por horas e, quando estava escurecendo, voltei para casa
para o jantar.
No dia seguinte, um guincho levou o Porsche embora.
“Acho que a emboscada não funcionou e eles vão colocar o carro
noutro lugar”, afirmou Ken. Aquele guincho era contratado pela polícia
local, então achei que Ken devia estar certo sobre aquela história de
armadilhas e emboscadas. Só não consegui descobrir de onde a polícia estava
nos vigiando.
Quando cresci mais um pouco e pude andar para mais distante,
descobri que as pessoas roubavam carros, retiravam as peças mais valiosas e
abandonavam as carcaças pelas matas. Encontrei várias delas nos lugares
mais estranhos, com árvores nascendo pelas janelas onde antes havia vidros:
Buicks, Chevys, Studebakers… De vez em quando, achava um caminhão ou
um carro esporte.
Meu próximo encontro com um Porsche se deu apenas 3 anos mais
tarde, quando eu já sabia dirigir. Tinha amigos que possuíam carros e eu os
ajudava a consertá-los e a fazer test-drives.
Eu estava na casa de meu avô, que era vendedor de produtos
veterinários e viajava por todos os Estados do Sul.
“John, acabo de comprar um Porsche em um leilão, é um 9141”.
Era o modelo mais possante, com um motor de dois litros. Abri o
capô e imediatamente reconheci a estrutura do motor traseiro VW. Meu
amigo Mark tinha um Volks com motor igual e eu tinha ajudado a
reconstruí-lo há pouco. Meu avô me deixou dirigir e se enfiou no banco de
passageiros:
“Droga, esses carrinhos europeus são apertados!” Meu avô só dirigia
Cadillacs, provavelmente porque era gordo demais para caber em carros
menores.
Peguei a rodovia e logo estava pisando fundo, sem perceber.
Quando voltamos, lavei e encerei o carro cuidadosamente. Tentei
impressionar meus avós com todo esse cuidado, porque, se tivesse sorte,
quando meu avô perdesse o interesse pelo Porsche, ele seria meu. Afinal de
contas, o que mais ele poderia me dar, a não ser esse carro?
Mas ele não me deu. Ao invés disso, emprestou-o para o meu tio,
que o esborrachou numa árvore.
Só consegui meu próprio Porsche aos vinte e um anos, quando
comprei um 912 bege. Passei inúmeras horas restaurando aquele velho carro.
Remontei o motor e, depois, refiz a lataria. Provavelmente, devo ter retirado
e recolocado todas as peças daquele Porsche, uma de cada vez. Raspei a
velha pintura bege e dei o acabamento final em um bonito verde-água.
Depois, me cansei dessa cor e repintei-o de vermelho metálico. Parecia
perfeito. Então, um dia, percebi que havia um problema fundamental com o
meu Porsche: não havia mais nada para refazer.
Então, vendi meu 912 e comprei um 911E cinza.
Desde então, já possuí 17 Porsches, e reconstruí ou consertei cada
um deles. Mesmo com dinheiro, nunca comprei um carro novo. Qualquer um
que tenha dinheiro pode comprar um Porsche novo, eu pensava. Mas apenas um
artesão é capaz de restaurar um Porsche velho. E foi isso que sonhei ser, um
artesão, um artista trabalhando em aço automotivo.
U
6 Anos de pesadelo

U
6
Anosdepesadelo
ma nuvem escura deslocou-se sobre nossa família durante o tempo em
que moramos naquela pequena cidade no meio do bosque. Houve alguns
bons momentos — as explorações pelas matas e os meus Porsche, por
exemplo, mas as coisas se tornaram fora de controle com os meus pais.
Meu pai já vinha bebendo antes, mas agora ele havia acelerado o
ritmo. As garrafas vazias começaram a se acumular sob a mesa da cozinha.
Quando íamos levar o lixo, as garrafas enchiam a traseira do carro. Na
verdade, eram mais que garrafas, eram enormes garrafões de vinho. Meu
pai emanava o cheiro de bebida por todos os poros.
Ele tinha sido sempre rápido em me espancar, mas agora, que bebia
demais, ficara mais maldoso e repelente. Ele se tornara perigoso. Certa vez,
meu pai estava sentado na mesa de jantar, bebendo. Eu passei ao lado e
suponho que tenha feito algum barulho do desagrado dele, porque em
seguida me agarrou, balançou-me violentamente e, na sequência, atirou-me
contra a parede com tanta força que o reboco rachou. Fiquei atordoado, e
minha mãe correu, gritando: “Deixe John em paz!” Escorreguei até o chão,
incapaz de me mover, e ele correu para fora, entrou em seu carro e saiu em
disparada. “Tomara que bata o carro e morra!”, gritei.
Com onze anos de idade, eu era capaz de me defender, de alguma
forma. Mas é um milagre que meu irmão tenha conseguido crescer e tornarse um adulto. Com cerca de três anos, ele poderia facilmente ter sido atirado
em um forno ou enterrado num buraco. Tenho certeza de que crianças
pequenas e indesejadas tenham terminado seus dias dessa forma. Afinal,
quando se vive no meio da floresta, quem vai perceber se um dia um bebê
passa engatinhando por aí e, no outro dia, não aparece mais? Já que o meu
pai não gostava muito de meu irmão, naquela época, acontecer isso com
meu irmão seria perfeitamente possível.
Meu pai sentava-se toda noite à mesa na cozinha, em frente da pia
e da TV em preto-e-branco. Seu cabelo era desgrenhado, os seus olhos
fundos, circundados por olheiras escuras. Ele se espalhava no assento
daquela cadeira, com o copo bem à sua frente e um garrafão até a metade,
no chão. O cigarro queimava esquecido no cinzeiro, o maço ficava aberto em
cima da mesa. Às vezes, no torpor da embriaguez, sua mão escorregava e
espalhava tocos de cigarro por todo lado. Em outras ocasiões, minha mãe se
juntava a ele e as bitucas dos cigarros dos dois podiam ser encontradas em
qualquer lugar. Na louça, dentro dos copos. Ate na comida que nos serviam.
Com o passar do tempo, parecia que minha mãe se desligava, e seus
pensamentos vagavam sem rumo. Quando voltava desses devaneios,
insultava meu pai, o que o deixava mais furioso. Nesses momentos, eu
precisava ter ainda muito mais cuidado com ele.
Às vezes ele me chamava.
“John, venha aqui, filho.” Ele vinha em minha direção e me
agarrava.
Isso era horrível.
Ele dizia: “Eu te amo, filho”, e raspava seu queixo barbado em mim,
babando e mantendo-me dolorosamente apertado.
Eu era geralmente capaz de escapar depois de alguns instantes,
quando ele esticava o braço em busca de outro copo. “Volte aqui!”, ele
berrava, mas a esta altura eu já estava trancado em meu quarto.
Algumas vezes eu reclamava, e ele me batia com seu cinto. Se
minha mãe estivesse por perto, ela tentava me salvar. Não me lembro se ele
se voltava para bater nela, mas era nesse momento que eu conseguia fugir.
Em outras ocasiões, eu me escondia em meu quarto, rezando para
que ele tivesse ido embora, mas meu pai aparecia na porta. Eu enterrava o
rosto no travesseiro, mas ainda assim podia ver sua sombra recortada contra
a luz do corredor. E sentia seu cheiro quando se aproximava da minha cama.
Então, conseguia perceber quando ele tirava o cinto da calça, torcendo para
que tivesse uma boa pilha de cobertores sobre mim.
Paf! O cinto começava a estalar.
Ele batia o mais forte que conseguia. Eu achava, na época, que meu
pai era muito forte, mas na verdade era apenas um professor alcoólatra e
fora de forma… Se fosse diferente, ele teria me matado.
Podia soluçar, ou apenas ficar quieto, dependendo de quanto eu
tivesse apanhado. E, nessas horas, me lembrava do canivete que meu avô
me dera no Natal. Afiado, de aço inox. Seria a melhor ocasião para atirar-me
sobre ele e enterrar o canivete em sua barriga até o cabo. Mas eu tinha
medo. E se eu errasse? E se ele não morresse? Tinha visto nos filmes que esses
monstros não morrem, eles continuam vindo. Aí, sim, ele poderia me matar,
mesmo.
No dia seguinte, eu costumava ir até o quintal e esmagar o
caminhão de meu irmão com pedras. As maiores que encontrasse. Era tudo
o que eu podia fazer.
Uma noite, ele chamou meu irmão, em vez de mim.
“Venha cá, Cris.” Sua voz estava pastosa. Verme era muito
pequeno para desconfiar dele. Moleque idiota. Meu irmão chegou mais
perto e meu pai o agarrou, colocando-o sobre os joelhos.
Nada aconteceu durante alguns minutos e eu relaxei, Verme
estava sorrindo, afinal das contas. Então, meu pai se inclinou e apagou o
cigarro na testa do menino. Meu irmão gritou de dor e ainda hoje, quarenta
anos depois, não consigo me lembrar de como ele escapou.
Tal como os cães que tinham sido espancados, ficamos desconfiados
dele. Mas nós nunca admitimos nada disso a qualquer outra pessoa. Ser
espancado ou intimidado é humilhante, ainda mais quando acontece em
casa. Levei muitos anos reunindo forças para contar essas histórias neste
livro.
Ainda assim, por alguma razão inexplicável, eu fui bem na escola,
melhor do que eu já tinha ido, e como nunca mais voltei a fazê-lo depois.
Quando me formei na sexta série, a nossa turma tinha recebido sete prêmios
e ganhei seis deles. Eu estava acostumado a ouvir meu pai prever que meu
futuro seria o de frentista de posto de gasolina. Naquela noite, porém, ele
disse: “Filho, estou muito orgulhoso do que você fez” Mas, então, fomos para
casa, onde ele procurou a sua garrafa de xerez, sozinho na cozinha. Lá pelas
nove da noite, aquele orgulho já havia desaparecido há muito tempo.
Nenhum dos meus professores sabia ou sequer adivinhava que os
meus pais brigavam todos os dias. Brigas feias e barulhentas. E então, meu
pai começou a desmoronar. Primeiro, ele teve psoríase: desagradáveis crostas
brancas por todo o seu corpo. Se eu achava os cigarros repugnantes, essas
escamas eram piores. Elas caíam constantemente, entupindo o dreno da
banheira. Meu pai deixava uma trilha de flocos brancos por onde passava.
No chão. Sobre os tapetes. Em suas roupas. As piores concentrações eram no
seu banheiro e no seu quarto. Eu ficava bem longe desses lugares.
Aminha mãe teve de lavar nossa roupa separadamente, porque se
fossem lavadas juntas, viriam com pequenas pintas brancas de pele e eu não
as usaria. Ela precisava lavar três ou quatro vezes para que ficassem limpas o
suficiente para serem vestidas.
E, em seguida, veio a artrite. E a gota nos joelhos, e injeções de
cortisona, e as dores e sei lá mais o quê. Ele estava com trinta e cinco anos,
apenas, e já estava se desmanchando. Ninguém sabia a razão, ou pelo
menos foi o que disseram. Mas agora eu sei. Ele era desprezível além da
conta. Meus pais saíram de uma infância terrível para um casamento ainda
pior e, agora, eu estava vivendo o resultado disso.
Um pai como o nosso já teria sido o suficiente para qualquer
família, mas ainda tínhamos a minha mãe. Foi por essa época que ela
começou a ter os sinais da doença mental que, mais tarde, a levou a ser
internada num sanatório. Ela via demônios, pessoas, fantasmas. Nos cantos,
na luz, no teto.
“Ali, você não está vendo?” e eu nunca vi nada.
Algumas das coisas que ela dizia eram tão chocantes que ficaram
bloqueadas em minha memória e não consigo mais repeti-las. São dolorosas
demais para serem lembradas novamente.
Meus pais levaram um ao outro à loucura, e quase fizeram o
mesmo comigo. Por sorte, o Asperger me isolou da pior parte dessa
insanidade, até que eu tivesse idade suficiente para escapar.
Minha mãe costumava dizer, “John, seu pai é uma pessoa muito
inteligente, mas muito perigosa. Ele é mais esperto que os médicos, eles
pensam que ele é normal, mas não sabem que estão sendo enganados. Eu
tenho medo de que seu pai vá tentar nos matar. Precisamos achar um lugar
pra gente se esconder. Precisamos nos afastar dele até que os médicos
consigam controlá-lo.”
Acreditei nela por muito tempo, mas hoje entendo que tudo isso
não era mais que loucura. Da parte de ambos.
Quando fiz treze anos e meu irmão completou cinco, minha mãe
conheceu o Dr. Finch. A primeira vez que o encontrei estava com toda a
família, e eu estava indeciso, porque já tinha ido a grupos de ajuda,
terapeutas, conselheiros, todos tentando descobrir o que havia de errado
comigo. Mas ninguém havia descoberto nada. Só que, naquela época, eu já
sabia qual era o problema.
“Nós temos os pais errados, Verme. Observei os pais de meus
amigos e eles não têm nada a ver com os nossos.” Mas Verme não sabia de
nada. Ele era muito pequeno.
Eu sempre ficava cuidando de Verme quando meus pais saíam,
mas desta vez eu ia ter que ir junto. Então, fui falar com ele.
“Verme, nós todos estamos indo falar com um psiquiatra sobre
você. E não vou poder ficar porque eles querem perguntar pra mim o que
fazer. Então, vou amarrar você aqui, assim ficará em segurança até a gente
voltar.”
“John, pare de assustar o Cris desse jeito. Ababá já chegou.”
Fomos até o consultório do Dr. Finch. Ficava atrás de uma porta de
madeira e com o nome dele pintado com tinta dourada num vidro
esfumaçado, igualzinho aos escritórios de detetives dos filmes. O aquecedor
ficava chiando o tempo todo, e o consultório cheirava tapetes velhos e
pessoas cansadas.
“Boa tarde, sou o Dr. Finch”
Ele era velho e gorducho, com cabelos brancos e um sotaque
vagamente estrangeiro. Parece que meus pais já o tinham consultado antes,
e haviam falado dele para meu avô.
“Cuidado com esse Finch,” meu avô me disse, quando contei a ele
que iríamos vê-lo. “Mandei investigar esse homem.”
Porque ele tinha mandado investigar o Dr. Finch era um mistério
para mim. Mas fiquei de olho nele, como vovô pedira.
Um de cada vez, primeiro a minha mãe, depois meu pai e eu fomos
falar como médico e, em seguida, no final, fomos todos em conjunto. Não
me lembro sobre o que conversamos na primeira visita, mas logo depois que
passamos a vê-lo com frequência, Dr. Finch fez duas coisas que moldaram
minha vida: ele me disse que eu poderia chamar meus pais de qualquer
coisa que eu quisesse, e ele disse a meu pai que deveria parar de me bater. E,
ao contrário do que ocorrera com os outros médicos, as sugestões foram
seguidas. Meu pai nunca me bateu novamente. Por isso, vou ser sempre
grato a Dr. Finch, não obstante o seu comportamento bizarro mais tarde.
“John escolheu seus novos nomes”, disse ele, chamando-os depois
de ter conversado comigo sozinho. “Tenho encorajado ele nesta direção,
como sinal de sua livre expressão. John…?” Ele virou-se para mim e esperou.
“Você vai se chamar Escrava”, disse, olhando para a minha mãe.
“E o seu nome será Estúpido”, disse ao meu pai.
“Sim, John”, disse minha mãe. Ela fazia tudo para me agradar.
“Eu não gostei disso”, disse o meu pai.
“Bem, você tem que respeitar as opções de John”, disse o médico.
Dr. Finch podia não saber nada sobre a Síndrome de Asperger
naquela época, mas ele foi a primeira pessoa a apoiar e incentivar a minha
vontade de dar nomes às coisas da minha maneira.
“Não importa o que diga, você não pode bater nele.” Isso era
sempre repetido, para benefício de meu próprio pai. Minha mãe nunca me
bateu e, daquele dia em diante, meu pai também parou de fazer isso.
Comecei a sair com sua filha Hope e um outro paciente, Neil. Não
havia dúvidas de que o médico era excêntrico. Ele vivia numa enorme casa
vitoriana no centro da cidade, sempre apinhada de amigos e pacientes, que
pareciam adorá-lo. Sempre tive dúvidas em relação a ele, mas como tinha
conseguido resultados comigo, deixei quieto.
Vovô nunca parou de me dizer, “Cuidado com esse Finch…” e eu
ouvia rumores sobre ele na cidade, mas o fato é que o Dr. Finch me fez muito
bem naqueles primeiros anos.
É uma pena que as coisas tenham corrido tão mal nos anos
seguintes.
A
7 Fácil de montar

A
7
Fácildemontar
té meus 13 anos, eu havia estudado tudo sobre pedras e minerais,
dinossauros, planetas, navios, tanques e aviões. Mas, naquele Natal, ganhei
algo diferente: um kit de eletrônica!
Meus pais deram-me um kit de computador, com quarenta e dois
componentes, incluindo três transistores, três marcadores e um medidor.
Tudo isso numa caixa de plástico preto. Fácil de montar. Pilhas não incluídas.
A palavra computador significava algo muito diferente no final dos
anos 60. Meu novo computador era, na verdade, uma régua de cálculo
eletrônica, para quem se lembra de réguas de cálculo. Para usá-lo, você
colocava os marcadores sobre os dois números que você queria multiplicar.
Então, virava o terceiro marcador até o contador zero. Então, quando isso
acontecia, ele mostrava o resultado da multiplicação.
Mas antes de chegar a esses cálculos, no entanto, eu precisava
montar o computador. Eu tinha um saco de resistores, transistores,
potenciômetros, o suporte das pilhas e um medidor.
“Como se monta isso?” perguntei.
“Não sei, filho. O que eles falam nas instruções?”
“Aqui diz apenas fácil de montar, e que precisamos de alicates,
arames e solda.”
“Bem, eu tenho uma solda no porão”, disse meu pai.
A versão noturna de meu pai era realmente amedrontadora, mas
durante o dia ele era bem legal, às vezes. Antes de escurecer, ele quase
nunca me agredia, chegando por vezes até a ajudar em meus projetos.
Como me debati com esse computador! Ele provavelmente não
tinha mais de vinte peças, o resto dos “quarenta e dois componentes” sendo
as porcas, parafusos, escalas e a caixa onde tudo isso fora montado. Era
muito simples, mas eu demorei duas semanas antes de fazê-lo funcionar.
Meus pais me compraram livros sobre eletrônica que, esperavam,
iriam ajudar. Foi com eles que aprendi a soldar e comecei a perceber o que os
diferentes componentes eletrônicos eram, e como eles trabalhavam.
Resistores, capacitores, transistores, diodos e tudo o mais se tornaram reais
para mim — não apenas palavras impressas em uma página. Eu estava
orgulhoso de mim mesmo, e estava pronto para mais.
Decidi me inscrever para as aulas de eletrônica no ensino médio.
Talvez eu me dê bem, pensei. Eu tinha obtido boas notas na sexta série, mas
depois minhas notas começaram a cair no ginásio, e eletrônica pareceu
muito mais interessante do que biologia, alemão ou ginástica.
Como esse curso era do ensino médio, tive que fazer um teste para
ver se estava apto a seguir as aulas. Foram 20 perguntas muito fáceis, e
descobri que sabia mais do que o curso básico. O escritório do prof. Gray era
repleto de fios, conectores, capacitores e muitas outras peças que me
deixavam fascinado. O professor achou que podia pular direto para o
próximo nível, e eu estava tão motivado que o completei em algumas
semanas. Logo a seguir, passei a pesquisar na universidade e tentei aprender
algumas coisas por conta própria.
Procurei o marido de uma amiga de minha mãe e ele abriu as
portas de um novo mundo para mim. Dr. Edwards me levou ao laboratório
de Eletrônica da universidade e me apresentou ao novíssimo centro de
pesquisa, onde havia um enorme “cérebro eletrônico” numa sala com arcondicionado. Os engenheiros me adotaram como uma mascote e comecei a
estudar lá depois da aula, quase todos os dias.
Passei a esmiuçar os equipamentos de casa. Eles eram antigos,
afinal das contas, e eu me coçava para abrir cada um deles e ver como
funcionavam. Convenci meus pais a me darem todos os rádios antigos e,
logo, as gavetas de meu quarto ficaram abarrotadas de diversas peças e
transistores.
Meu pai construiu uma mesa no porão, para que eu trabalhasse, e
foi lá que passei da fase de desmontar coisas para a fase de construir coisas.
De início, eram aparelhos simples e úteis, como um rádio. Depois, passei a
construir aparelhos para diversão, como quando soldei dois fios a um
capacitor e montei uma miniarma de dar choque.
Fui testar no cachorro, mas ele fugiu e se escondeu. Então, resolvi
usar meu irmão como cobaia — carreguei o capacitor na fonte de um antigo
televisor de meu pai e fui falar com ele.
“Ei, vamos brincar de Eletrocutar o Verme”, eu disse, disfarçando
com um sorriso e escondendo o aparelho nas costas, tentando não dar um
choque em mim mesmo.
“Do se trata?”, ele perguntou, com um ar de suspeita.
Antes que ele conseguisse escapar, eu o agarrei e dei um choque,
que o fez pular bem alto. Algumas vezes, meu irmão revidava meus ataques,
mas dessa vez ele fugiu rapidamente, sem saber que minha miniarma só
tinha carga para uma vez. Só muito mais tarde consegui aprender como
construir uma arma com várias cargas.
“Mãe, John fez um negócio para Eletrizar o Verme!”
Eu logo passei para experimentos mais sofisticados. Mas caí numa
encruzilhada: os livros da faculdade de engenharia usavam equações para
descrever o modo como as coisas funcionavam, mas eu não entendia a
matemática. Eu conseguia visualizar as equações na minha cabeça, mas elas
não pareciam ter nada em comum com aquelas dos livros. Era como se eu
pensasse em uma linguagem totalmente diferente. Quando via uma onda
sonora descrita em um livro, ela estava impressa ao lado de uma equação
com símbolos que eu não compreendia. O engraçado é que eu visualizava
uma onda e quase podia ouvir o som, ou seja, não era nada conectado com
símbolos. Foi nessa época que meu interesse por eletrônica convergiu com a
música.
Quando estava na quinta série, meu interesse em música
despertou. Ao ver meu primo tendo aulas de guitarra, decidi aprender a
tocar contrabaixo e minha avó me levou a uma loja de aparelhos musicais. O
vendedor me apresentou a um contrabaixo e quando toquei uma, corda, isso
me arrebatou. Meia hora depois, saímos de lá com um contrabaixo, um
amplificador, um microfone, algumas cordas e vários livros de música.
Pratiquei durante todas as férias, acompanhando as músicas no
rádio e estudando minhas partituras. Mas eu era um terrível baixista,
porque eu conseguia ler música, conseguia ouvir a música em minha mente,
mas não era capaz de traduzir tudo aquilo em movimentos coerentes de
meus dedos. Os sons que eu emitia eram horríveis.
Olhei o amplificador Fender que vovó tinha me dado. Leo Fender
havia criado os melhores amplificadores e guitarras do mundo, mas eu
achava que ainda havia espaço para melhorias. Já que não conseguia tocar
direito, quem sabe pudesse fazer alguma coisa com o amplificador. E decidi
integrar as peças de rádio e TV que eu tinha com aquele aparelho, para criar
alguma coisa nova.
Minhas ideias deram certo e meu amplificador ficou mais potente,
com um som muito melhor. Levei a alguns shows e pedi que os músicos o
comparassem com seus próprios equipamentos.
“Cara, esse som é demais!”, eu tinha finalmente acertado uma.
“Você consegue fazer isso com o meu?” essa passou a ser uma frase muito
comum, então comecei a modificar os equipamentos dos músicos, que
trouxeram outros músicos. E passei a consertar instrumentos, também.
Com a prática, fui capaz de entender quais efeitos no som as
minhas modificações causavam. E logo passei a criar novos efeitos sonoros —
naquela época, os disponíveis para a maioria dos músicos eram o tremolo e o
vibrato. E comecei a pesquisar também os circuitos transistorizados, porque
os amplificadores Fender usavam válvula, uma tecnologia dos anos 50. Ao
estudar os circuitos, descobri um meio de criar pequenas caixas de efeitos
sonoros alimentadas por pilhas.
Meu modo de trabalhar consistia em visualizar o projeto, depois
construí-lo e então comparar os resultados imaginados com os resultados
reais. Gradualmente, me tornei capaz de visualizar os resultados dos meus
desenhos com um bom grau de precisão.
Nesta altura, eu tinha conseguido vários avanços fundamentais.
Primeiro, era capaz de compreender os próprios componentes eletrônicos.
Eles eram a base de tudo que viria a seguir. Em seguida, eu tinha
conseguido, de alguma forma, visualizar os complexos cálculos das funções
que descrevem o comportamento dos circuitos eletrônicos. Por exemplo, eu
via os tons puros de uma guitarra ao entrar em um circuito, e via as ondas
sonoras modificadas — incomensuravelmente mais complexas — saindo.
Entendi como as mudanças no circuito ou nos valores dos componentes
iriam alterar as ondas. E, principalmente, desenvolvi a capacidade de
traduzir essas ondas que eu via na minha mente em sons que imaginava, e
esses sons imaginários eram quase os mesmos quando construía os circuitos.
Ninguém sabe por que uma pessoa tem um dom como este e outra
não, mas já encontrei várias pessoas com Asperger que apresentam as
mesmas habilidades que eu. Na minha opinião, parte dessa aptidão — que
acho ser de nascença — vem da minha extraordinária capacidade de
concentração.
Passava minhas noites livres nos shows. Os donos de clubes,
seguranças, e mesmo os barmen me reconheciam; os músicos vinham falar
comigo e todos pareciam me respeitar. Eu me sentia bem e finalmente tinha
encontrado um lugar onde me encaixava.
Isso foi um alívio, porque a situação em casa vinha se deteriorando.
Continuávamos indo ao Dr. Finch, e meu pai certamente me tratava
melhor, mas as brigas entre meus pais estavam ainda mais brutais. E ambos
estavam cada vez pior. Meu pai bebia mais do que nunca, e ele vivia
deprimido e retraído. Às vezes, ficava na cama o dia todo. E a minha mãe se
tornava cada dia mais maníaca, até que um dia pifou de vez. “Sua mãe teve
um surto psicótico”, o médico me disse. Minha mãe retornou poucos dias
mais tarde, drogada e fraca.
Em busca de distrações, comecei a visitar o centro audiovisual da
escola. A maioria dos alunos estava interessada nas câmeras e no estúdio de
TV, mas eu não. Eu queria saber como as coisas funcionavam, corrigi-las e
torná-las melhor. E os dois técnicos, John Fuller e Fred Smead, ensinaram-me
como fazê-lo. Eles realmente me ajudaram no meu caminho, e tenho com
eles dois uma dívida de gratidão.
“Você já consertou um desses?” John sinalizou para uma pilha de
toca-discos quebrados. A escola possuía dezenas deles, usados por quase
todos os departamentos. Eles eram frágeis e quebravam a toda hora. Então,
meu novo trabalho na escola passou a ser consertar esses aparelhos.
Cada item que eu consertava me ensinava algo novo. Eu aprendi
como soldar minúsculos fios e como funcionavam as agulhas; aprendi o que
podia acontecer de errado com os circuitos e como solucionar. Em breve,
consertava três ou quatro aparelhos numa tarde e a pilha de toca-discos
quebrados desapareceu.
“Você acha que podemos ensinar ao rapaz alguma coisa sobre
gravadores?” Fred perguntou, e logo os gravadores quebrados foram
adicionados ao meu trabalho. Dentro de uma semana, comecei a consertar
os gravadores do departamento de idiomas. Estas máquinas tinham uma
vida dura, indo para frente e para trás, com os alunos rebobinando a fita e
depois a ouvindo novamente. Em breve, eu estava usando o que eu tinha
aprendido na escola para criar ecos e toda uma nova geração de efeitos
sonoros — os músicos adoraram.
Pela primeira vez na minha vida, eu era capaz de fazer algo que os
adultos consideravam de utilidade. Podia ser rude, ou não saber o que dizer
ou como me comportar em ocasiões sociais, mas se eu conseguia consertar
cinco gravadores em uma tarde, eu era “magnífico”. Ninguém, exceto meus
avós, tinha me chamado assim antes.
Outra coisa que eu encontrei ali foi a garota que se tornou a minha
primeira esposa. Mary Trompke era outra criança tímida e com problemas,
como eu. Algo sobre ela me fascinou. Mary era muito inteligente, mas não
falava muito. Ainda assim, eu estava determinado a conhecê-la melhor. Ela
passou a se sentar comigo enquanto consertava gravadores e projetores e
logo começou a me ajudar nesse trabalho.
Passei a levá-la para casa depois da escola. Os seus pais eram
divorciados, e ela vivia com a mãe, seus três irmãos e sua irmã em uma
pequena casa num sítio. Seu pai era um alcoólatra violento, como o meu.
Sua mãe estava sobrecarregada, vivia distraída e não confiava em mim. Eu
era, para todos os efeitos, um rapaz cabeludo, sujo, vulgar e… um macho.
Portanto, ela não viu com bons olhos quando eu comecei a levar seu bebê
para casa.
Eu a chamava de Ursinho e a mãe a chamava de Mary Lee ou
Filhota, mas esses nomes nunca me fizeram sentido. Por alguma razão, eu
sempre tive um problema com nomes. Para as pessoas próximas a mim, por
exemplo, tenho de lhes dar um nome que eu tenha criado. Às vezes eu a
chamava de Filhota apenas para irritar, mas como ela ficava louca da vida,
eu parava.
Estava totalmente enamorado e a achava atraente, com aqueles
cabelos negros presos em trancinhas. Ela foi a primeira pessoa que eu
conheci que podia ler tão rápido quanto eu, às vezes até mais rápido. E
Ursinho lia livros muito empolgantes: Asimov, Bradbury e Heinlein. Logo,
passei a lê-los, também. Mas eu era tímido e inseguro demais para lhe dizer o
que sentia por ela. Então, continuamos a conversar e ler e a consertar
gravadores e a andar pela cidade todos os dias.
Esse era um namoro entre Aspergers, em 1972.
Q
8 – Até os cães tinham medo de mim

Q
8
Até os cães tinham medo de mim
ualquer criança irá confirmar que mesmo os cãezinhos mais gentis podem
morder, se você puxar suas orelhas e a sua cauda durante muito tempo.
Existe um lado obscuro no portador de Asperger que, na maioria dos casos,
tem a ver com as relações que mantivemos na infância com pessoas que não
nos tratavam da forma como gostaríamos de ser tratados.
À medida que eu ficava mais velho, tinha uma sensação de que
havia poucas pessoas que poderiam fazer com que eu me sentisse amado.
Ursinho era uma delas, e meus avós também, a quem sempre visitava nas
férias. Quando tinha 13 anos, fui passar as férias com eles, como de costume.
A primeira pessoa que vi ao sair do avião foi minha avó Carolyn:
“Oooooooooh, John! Olhe só como você cresceu, está tão grande! Você está
tão bonito!”
Ela me abraçou. Mesmo com todo o meu sarcasmo, eu me sentia
feliz em reconhecer como eles ficavam orgulhosos de mim e contentes em
me ver. Ninguém mais me fazia sentir assim:
“Seu tio Bob está vindo neste fim de semana e ele disse que ia
ensinar você a dirigir! Ooooooooh Deus, o meu bebê dirigindo um carro!” No
final de semana, meu tio e eu pegamos o carro da vovó. Era um Buick
Electra 225 vinho, de duas portas. Eu estava um pouco nervoso, dirigia
tratores na fazenda desde os 12 anos, mas agora estava prestes a conduzir
um carro. Em uma estrada!
“Se você já guiou um trator, será moleza dirigir o Buick. Ele tem
transmissão automática e direção hidráulica.”
Eu dirigia o grande trator na estrada a todo o momento, quando
vovó me pedia para ir comprar fertilizante no armazém da cidade. Ou ia
buscar sorvete: estacionava o grande trator junto dos carros, comprava o
sorvete e dirigia de volta o mais rápido que o trator conseguisse, para chegar
em casa antes que o sorvete derretesse.
Eu não tinha medo de tratores porque não iam muito rápido. Mas o
carro era diferente. Engatei a marcha e acelerei. O carro deu um pulo para
frente e pisei nos freios, o veículo derrapou na areia branca do acostamento
e parou. Ainda bem que não tinha ninguém por ali nos observando.
“Calma, rapaz”, disse meu tio.
Com muito cuidado, eu soltei o freio. O carro começou a andar.
Desta vez gentilmente, pisei no freio e o carro parou. Meu tio tinha razão.
Era fácil de guiar.
Pegamos a rodovia e dirigi até a casa de minha bisavó, que ficava
não muito distante da fazenda de meus avós. Ela era bem velhinha e não
saía mais. Quando eu era menor, achava que ela havia lutado na Guerra
Civil, o que não era verdade, mas ela nascera apenas um pouco depois.
Minha bisavó nunca tinha me visto guiando o trator e estava muito
impressionada:
“Oh Deus, John, mas deixe-me olhar para você! Como você
cresceu! E agora você está dirigindo!”
Putz, pensei, ela está tão entusiasmada quanto minha avó. Gozado, elas
falam do mesmo jeito. Fiquei satisfeito e orgulhoso, mas tive o cuidado de não
demonstrar porque eu sabia, a esta altura, que homens de verdade não
manifestavam suas emoções em ocasiões como estas.
Ela fuçou na cozinha durante um tempo, procurando por algum
lanchinho. Meus parentes sempre me davam comida quando ia visitá-los, e
ela me trouxe um pote de sorvete que havia comprado só para mim.
“Logo você será um homem adulto e terá seu próprio carro! Você
sabia que meu pai teve o primeiro carro da cidade? Ele o trouxe de trem lá
do norte!”
Puxa, aquilo era impressionante. Meu trisavô tinha sido o dono do
primeiro carro da cidade, que hoje tinha um monte de carros circulando
para lá e para cá. UAU, eu tinha pedigree!
Quando fui embora, minha bisavó ficou na varanda, para se
despedir. Dei a ré e coloquei o carro na posição para pegar a estrada. Fui para
frente, mas aconteceu um problema: eram muitas coisas a fazer ao mesmo
tempo. Pisar no freio e no acelerador, mudar a marcha, virar o volante…
Tive uma pane e não consegui coordenar a sequência de todas as operações,
enfiando o Buick numa vala. Naquela região, sempre havia uma vala no
acostamento das estradas.
Meu tio, que estava fora do carro e observa orgulhoso as minhas
manobras, deu um pulo para trás para evitar ser esmagado pelo carrão:
“Droga, John, você amassou o carro!”
“Oooooohh, John!” Lamentou minha bisavó.
Mas o carro não parecia muito avariado, e o que na verdade tinha
saído do lugar havia sido apenas o poste com a caixa de cartas: ele havia
caído no chão com o impacto da batida. Meu tio foi até o galpão atrás da
casa, que estava repleto de ferramentas, e saiu de lá com um instrumento
para cavar buracos: parecia uma enorme concha de metal com duas hastes
laterais bem compridas. Aquilo era uma ferramenta que podia fazer muito
mais do que apenas cavar buracos para se colocar postes, pensei.
Depois que meu tio cavou um novo buraco, recolocou a caixa de
cartas no seu devido lugar e encheu-o de terra, levou aquilo para a casa de
meus avós e passei as férias cavando buracos; eram buracos que serviam
para uma porção de coisas: bastava colocar uma metralhadora e seria um
posto avançado de vigilância; cobrindo com papel por cima, virava uma
armadilha para ursos; e se o cachorro não se comportasse, bastava atirá-lo no
buraco e ele ficaria preso.
Quando voltei para casa, fui investigar se meu pai tinha alguma
coisa parecida e, sim, ele também tinha uma ferramenta igual. Fui para a
frente da casa e comecei a cavar buracos. Quando o primeiro buraco estava
na profundidade de meu joelho, bati numa pedra. Saí de lá e comecei a
cavar outro, e a mesma coisa aconteceu. Logo, a frente da casa estava cheia
de buracos rasos, porque o subsolo tinha pedras. Isso não acontecia na
fazenda de meus avós, lá não havia pedras.
Havia uma grande pilha de folhas secas e lascas de madeira em
uma das laterais de nossa casa. Meu pai havia comprado um carregamento
de terra orgânica para espalhar no quintal e melhorar a aparência das
árvores e das plantas. Mas ele nunca fez isso, e a pilha ainda estava lá, em
decomposição, no mesmo lugar em que o caminhão havia despejado. Eu
decidi que seria um bom lugar para escavar um buraco mais profundo. Não
deveria haver nenhuma pedra por ali.
Era fácil escavar em lascas de madeira e folhas secas, muito mais
fácil do que na terra. Acabei encontrando uma pedra novamente, mas desta
vez o buraco tinha pelo menos um metro e meio de profundidade. Já estava
na hora de testá-lo.
“Verme, venha cá. Temos um buraco para testar,” gritei na janela.
Ele estava sentado em seu quarto, olhando para as fotos na revista People.
Meu irmão gostava de me ajudar nos experimentos, porque quase sempre se
divertia sem se machucar.
Verme saiu de casa e fiz sinal para ele vir até onde eu estava, ao
lado de um dos buracos mais rasos. Eu tinha que ter cuidado para não
levantar suspeitas e ele fugir.
“Eu quero ver se é fácil sair dessas armadilhas que preparei. Deitese no chão e eu coloco você dentro, aí você tenta sair o mais rápido que
puder”.
“Tá bem”, disse ele.
Eu o levantei pelos pés e baixei-o num dos buracos. Ele tinha que
começar por um bem fácil. Logo meu irmão escalou pelas bordas e escapou.
“Essa foi fácil!”
Claro que foi fácil. É por isso que escolhi justo esse buraco, mas não
disse nada.
“Agora, vamos tentar este.” Fomos para o buraco na pilha de raspas
de madeira e folhas secas. Este era bem mais fundo e Verme logo
desapareceu lá embaixo. Ele tentou se agarrar nas bordas, chutou as laterais
do buraco, mas tudo que conseguiu foi fazer mais folhas e entulho caírem
em sua cabeça. Desta vez, estava realmente preso.
Fiquei satisfeito, havia conseguido cavar uma armadilha
suficientemente boa para prender crianças grandinhas. Fui comer alguma
coisa e fiquei por lá uns dez ou quinze minutos. Quando voltei, não vi meu
irmão em lugar algum, e fiquei surpreso: achei que, por esta altura, ele já
tivesse conseguido escalar o buraco. Cheguei na borda, chutei alguns
gravetos lá no fundo e ele gritou. Foi quando achei melhor resgatar meu
irmão, antes que algum vizinho ouvisse a gritaria e fosse checar.
Quando ele saiu, estava muito zangado, tendo esquecido que eu o
havia resgatado. “Você me colocou num buraco!” ele gritou. Seu rosto estava
quase roxo, e ele mexia os braços, gritava e saltava.
“Claro que pus você num buraco, Verme. É pra isso que você veio,
pra testar buracos.”
Meu irmão me olhou perplexo por um minuto, pensando na óbvia
verdade daquilo que eu acabara de dizer. “Os vermes vivem em buracos, e
nunca teriam ficado presos como você ficou. Acho que você é um verme
retardado.” Isso foi demais para ele. “Eu não sou um verme retardado!” E
começou a me socar com seus pequenos punhos. Tentei empurrá-lo de volta
no buraco, mas meu irmão escapou e começou a atirar paus e pedras em
mim. Eu corri para casa e tranquei as portas, só deixando Verme entrar
depois que já estava mais calmo.
No dia seguinte, cobri meus buracos com papel marrom e joguei
um pouco de terra por cima, para disfarçar. Verificava os buracos
diariamente, para ver se tinha conseguido capturar alguma criatura, mas
nada. O verão passou, veio o outono e, com ele, a grande festa do
Halloween. Foi quando tive uma ideia: colocar rojões escondidos nos buracos
e detoná-los de meu quarto. Esta seria minha forma de participar das
brincadeiras de travessuras ou gostosuras, fazendo de nossa casa um
verdadeiro campo de batalhas, com explosões e zunidos.
Nós estávamos prontos quando o grande dia chegou.
Verme ficava na porta, atraindo as crianças com o seu sorriso
inocente. Ele gostou de ser a isca. Para chegar até a porta, elas deviam
passar pelos buracos carregados de fogos, com fios seguindo até meu quarto,
de onde podia assistir a todo o movimento. Quando chegavam mais perto,
eu puxava um dos fios, depois outro, e logo a entrada de casa se
transformava num inferno de clarões e explosões, com labaredas subindo em
direção ao céu e terra caindo para todo o lado. As crianças gritavam e se
dispersavam. Esse ano foi o que mais economizamos em doces, porque
poucas crianças ousaram tocar a campainha de casa uma segunda vez. Meu
irmão e eu comemos todos os doces no dia seguinte.
Com catorze anos, o conselheiro educacional da escola me disse,
“John, suas brincadeiras estão se tornando maldosas e doentias, indicando
profundos problemas emocionais.” Havia um fundo de verdade nesse
comentário, porque a tristeza sobre o tratamento que eu tinha recebido por
parte das outras crianças, quando eu era menor, havia se transformado em
raiva. Se eu não tivesse encontrado a música e a eletrônica, poderia muito
bem ter chegado a um fim lamentável. Foi nessa época que bolei uma
brincadeira que superou todas as outras.
Numa noite quente de verão, a calma rural terminou
abruptamente. Todo mundo em casa estava dormindo, quando abri a janela
de meu quarto e desci ao quintal, carregando uma faca e uma lanterna.
Conhecia bem o meu caminho e estava preparado. Caminhei até a estrada,
me agachando atrás dos arbustos quando as luzes de um carro se
aproximavam. Meu destino ficava a mais ou menos dois quilômetros de
minha casa: as linhas de força do bairro.
Abaixo da torre de alta tensão, a cem metros da estrada, cinco
galões de tinta tinham sido arrumados em um pentagrama. Eu tinha varrido
cuidadosamente a área, tendo retirado as folhas e o lixo, e cortado cinco
pedaços de madeira das árvores ao redor para fazer as linhas do
pentagrama. Os galões marcavam os pontos. No meio, havia um balde com
alcatrão, com um círculo de pedras em torno dele. Eu havia preparado tudo
isso naquela tarde e, agora, era o momento de colocar fogo. Com todas as
latas queimando ao mesmo tempo, uma espessa fumaça venenosa subiu em
uma nuvem que bloqueou as estrelas acima.
Eu esperava que as tintas a óleo queimassem em cores diferentes,
mas elas queimavam com as mesmas e maçantes chamas amarelas. Eu havia
roubado as latas de tinta de uma construção no caminho e não tinha tido
tempo para testar como pegavam fogo. Naquele momento, desejei ter um
pouco de gasolina, ou de querosene, para animar as coisas. Mas era tarde
demais para isso. As latas de tinta e o balde de alcatrão deveriam dar conta
de tudo sozinhos.
Era uma noite sem lua e a fumaça preta deixou tudo ainda mais
escuro. Mas, logo, o fogo estaria mais alto e eu saberia que meus convidados
poderiam vê-lo — claro, eles ainda não tinham chegado.
Eu tinha criado toda a cena no escuro. Havia sido um trabalho
árduo, especialmente a parte de escalar a torre. Foi assustador, estar lá no
alto com setenta e cinco mil volts passando a apenas alguns metros acima de
minha cabeça. Qualquer movimento errado poderia ser fatal. Ajustar as
cordas foi a parte mais difícil, puxar aquilo sendo apenas um garoto de 14
anos não era nada fácil, mas tinha conseguido e, o melhor, ninguém me vira.
Às onze, não havia mais tráfego nenhum, não tinha visto um carro
sequer na última hora. Eu estava pronto.
O fogo estava intenso e qualquer um que se aproximasse poderia
ver o que eu tinha feito. Cerca de dez metros acima do pentagrama, um
corpo estava pendurado. Estava vestido com roupas velhas, e a corda em
torno de seu pescoço estava amarrada à torre. Os pés estavam ficando
pretos por causa da fumaça e a fuligem logo cobriria o corpo todo.
Eu estava satisfeito com meu trabalho. Havia ajustado a altura do
corpo com precisão: ele estava alto demais para ser retirado facilmente do
chão, e baixo o suficiente para ser visto à luz do fogo.
Era hora de chamar as autoridades.
Desci a estrada. Estava totalmente escuro. Não havia casas nessa
região e nem luz na rua. As únicas almas por perto eram dos mortos no
cemitério ao lado do riacho. Escalei o poste de telefone mais próximo e
grampeei as linhas com o aparelho que havia furtado de um caminhão da
companhia telefônica alguns meses antes, junto com alguns outros
equipamentos.
Grampeei o circuito do Sr. Ellis, um dos vizinhos que menos
gostava. Logo obtive o tom de discar. Estava seguro por dois cintos que tinha
roubado de meu pai. Chamei o número da polícia estadual, que tinha
memorizado.
“Polícia. Esta ligação está sendo gravada”, o policial disse.
“Eu gostaria de relatar um enforcamento”, respondi, em voz baixa,
mas firme.
“O quê?” Isso chamara a atenção dele.
“Parece alguma coisa ritual, nas torres de energia na estrada.
Venham rápido.”
Desconectei o telefone, desci do poste e me escondi na mata. Se eles
rastrearem a chamada, aquele idiota do Ellis receberá uma visitinha nesta noite,
pensei comigo. Ele tinha um filho, um merdinha cheio de ranho. Quem sabe
eles acordem o moleque e perguntem a ele sobre isto. Pode ser até que o levem em
cana, sorri com escárnio.
Dei uma volta pelo riacho, caso a polícia aparecesse com cachorros.
Eu me sentia confortável na floresta à noite, minha visão noturna era muito
boa e minha audição, excelente. Subi num pinheiro, de onde eu poderia ter
uma visão panorâmica da cena e, ao mesmo tempo, estaria invisível para
eles, mesmo que acendessem as lanternas. E estaria alto o suficiente para
não ser visto de baixo, caso alguém procurasse por ali. Esperei no escuro.
Eu costumava ter medo do escuro, mas agora não tinha mais.
Também tinha medo dos cães latindo. Eu costumava dizer a mim mesmo,
“Oi, cãozinho lindo, por favor, não me morda e eu vou embora”, mas
naquela noite eu seria capaz de olhar para eles e pensar, Eu sou seu pior
pesadelo, se você se aproximar vou empalar você com meu pau. Quanto mais
firmemente eu pensava nisso, mais tinha certeza de que os cães
acreditariam.
Agora, eu tinha virado a mesa. Agora, até os cães tinham medo de
mim.
Quinze minutos. Talvez os policiais estivessem longe. Talvez
estivessem dormindo. Finalmente, eu vi faróis se aproximando. Eles haviam
chegado. Aespera foi longa.
O carro da polícia parou na estrada. Aporta abriu e fechou. Havia
apenas um policial no carro. Eu sabia que o fogo iria chamar sua atenção,
assim como uma mariposa é atraída pela luz. Não havia mais nada para ele
ver, meu fogo era a única coisa que brilhava por ali. Aquela luz trêmula
iluminou o policial enquanto se aproximava da torre. Ele trazia uma
lanterna em suas mãos. Ele a levantou um pouco, até o corpo que balançava
lentamente acima das chamas. O policial estacou.
“Puta merda!” ouvi-o gritar.
Olhou ao redor, girando sua lanterna para os lados sucessivamente,
à procura de um atacante. Ele sacou a arma, mas não havia nada em que
atirar. Nos filmes, este seria o momento em que alguma coisa grande e escura
o agarraria e o levaria gritando para o pântano. Pelo olhar dele, eu estava
certo de que ele tinha visto esses filmes, também. Fiquei mais quieto ainda,
não querendo ser atingido por uma bala perdida. Não havia nenhum som
diferente, além dos grilos e pássaros da noite — de tempos em tempos,
ouviam-se ocasionais murmúrios do vento nas árvores. O policial pulava e
girava a cada farfalhar dos arbustos. Não havia nenhuma luz, com exceção
do fogo que ardia nas latas de tinta e os faróis do carro, na estrada. De
repente, ele guardou sua arma, virou-se e correu de volta para o automóvel.
Ouvi a porta abrir e fechar rapidamente.
A seguir, escutei o clique das portas sendo travadas. O policial
permaneceu no seu veículo, mas não fiquei surpreso com essa atitude. Se eu
fosse ele, sozinho lá fora, teria feito a mesma coisa nessa circunstância.
Supõe-se que um policial deva ser corajoso, mas há limites para essa
coragem, devemos concordar.
O rádio do carro começou a estalar, mas não consegui entender o
que eles estavam conversando. Achei que reforços estavam sendo
chamados. Dez minutos depois, outros dois carros chegaram à toda. Os
policiais saíram dos carros e começaram a conversar. Todo mundo sabe que,
quando estamos em maior número, nos sentimos mais seguros. Agora, eles
podiam demonstrar valentia.
“Cadê ele?”, e o primeiro policial guiou os demais até o local do
“crime”.
“Putaqueopariu!”, exclamou outro.
“O que vamos fazer?”
“Suba até lá e corte a corda.”
“Nada disso, não quero ser eletrocutado.”
“O cara não vai sair de lá, está morto.”
“Chame os bombeiros”
“E chame o pessoal da companhia de eletricidade”
Eles começaram a iluminar os arredores da torre com suas lanternas
e com as armas na mão, em busca dos criminosos. Um deles voltou ao carro,
talvez para chamar os bombeiros, e logo voltou com sua calibre 12, com
certeza carregada. O silêncio ainda era total, e eu estava começando a me
aborrecer de ficar em meu esconderijo por tanto tempo.
Eles não mexeram no meu pentagrama. Gostaria de saber o que
pensavam daquilo. Seria um culto ao diabo? Um linchamento? Um
elaborado suicídio? Neste momento, o corpo estava totalmente negro de
fuligem, e começava a gotejar por causa do calor do alcatrão que queimava,
borbulhando, no balde logo abaixo. Fiquei satisfeito em ter usado alcatrão. As
gotas pingando do corpo e a fumaça preta mantinham as pessoas à
distância.
Os bombeiros chegaram em poucos minutos. Primeiro, um
caminhão-tanque, a seguir vários outros veículos se aglomeraram na estrada,
com suas luzes vermelhas piscando. O pessoal da companhia de eletricidade
chegou depois. Eu tinha levado meu amigo para o alto da torre sozinho e,
agora, precisavam de vinte deles para descê-lo.
Várias luzes estavam piscando: azuis, amarelas e vermelhas. A
estrada foi bloqueada. Rádios tagarelavam nos veículos. Se estivéssemos na
cidade, teria uma multidão reunida por ali. Eles finalmente decidiram
apagar o fogo, mas agiram como se tivesse alguma armadilha no local. Os
bombeiros pareciam estar com medo de chegar perto das latas de tinta. É…
Acho que a cena era incomum o suficiente para se tornar inquietante para
esse pessoal do campo.
Pessoas continuavam jogando as luzes de suas lanternas na grama
ao redor da torre, mas não havia nenhuma evidência a ser encontrada. Eu
tinha garantido isso: usara luvas e todos os materiais tinham sido roubados;
não havia comprado nada do que estava por ali, então não podiam ser
rastreados até mim. E era impossível conseguirem digitais nas árvores. Eles
não iriam me pegar.
Como não havia hidrantes naquela estrada, os bombeiros usaram o
caminhão-tanque. Desenrolaram a mangueira de incêndio e um jato de
água atingiu as latas flamejantes, espalhando tinta e alcatrão em chamas por
todo o lugar. Logo, a grama em volta também estava pegando fogo e os
outros bombeiros começaram a trabalhar freneticamente. Em pouco tempo,
o incêndio estava dominado e, sem nenhuma iluminação, era difícil ver o
estado do corpo. Um dos policiais iluminou-o com a lanterna.
“Apague essa luz, você não tem nenhum respeito, não?”
Aforça tinha sido desligada. Eu sabia disso porque o tênue pipocar
da eletricidade passando pelos fios tinha parado. Não havia mais nenhum
som, apenas os grilos. A ambulância chegou e um caminhão da companhia
de eletricidade iluminou o solo na base da torre com os seus faróis. Os
paramédicos se reuniram ali com uma maca. Era hora de resgatar o corpo.
“Prontos aí embaixo?”
“Pode descer.”
Um homem cortou a corda e o corpo caiu. Os paramédicos
moveram-se cuidadosamente para recolher os restos e, de repente, ouviu-se
um grito e o clima reverente mudou.
“Caralho! É uma porra de um manequim!”
“Um manequim de loja!”
“Isso foi uma merda de um trote!”
Sorrindo, desci da árvore e caminhei rapidamente em direção de
casa. No caminho, passei pelo cemitério e escondi o telefone e as roupas
negras. Subi ao meu quarto e logo estava dormindo.
Eu sabia, no dia em que vi aquele manequim abandonado nos
fundos da loja de roupas, que ele ainda seria útil. Foi complicado levá-lo
para casa e escondê-lo mas, no fim das contas, o sacrifício valeu a pena.
No dia seguinte, voltei para buscar o manequim, só que não estava
mais lá. Achei que a polícia o tinha levado. Não havia nenhum sinal da
confusão da noite anterior, exceto por uma área queimada na relva junto à
torre e algumas latas de tinta chamuscadas no terreno. O alcatrão tinha
embebido o chão no meio das pedras, e as varetas estavam espalhadas. Eu
queria poder contar a alguém sobre a minha aventura. Eu tinha poucos
amigos, e não poderia contar ao meu irmão, porque ele tinha apenas seis
anos e provavelmente daria com a língua nos dentes. Eu não disse nada
sobre o incidente a ninguém durante muito tempo.
Alguns dias mais tarde, minha mãe me levou ao aeroporto para
minha visita anual aos meus avós, na Georgia. Seria muito bom estar por lá,
no caso dos tiras passarem em casa perguntando sobre o manequim.
A
9 Desisti do colégio

A
9
Desisti do colégio
o mesmo tempo em que meu aniversário de dezesseis anos se aproximava,
percebi que passava mais tempo nos bares, acompanhando as bandas, do
que estudando. Ia mal em todas as matérias e a única atividade escolar que
me interessava era trabalhar com John e Fred, consertando os aparelhos
eletrônicos. Isso, e ficar com Ursinho.
Meus pais não davam muita bola para mim, nem para meu irmão.
Estavam mais preocupados em se agredir mutuamente e as brigas haviam se
tornado cada vez mais violentas. Por muitas vezes, ouvia minha mãe dizer
que meu pai tinha pirado, que pretendia matar a nós todos e que devíamos
nos esconder até que os médicos tivessem conseguido controlá-lo. Nós todos
saíamos de casa por um tempo, mas eu continuava sem saber quem estava
dizendo a verdade.
Tendo em vista a minha experiência prévia com os surtos violentos
de meu pai, tendia a acreditar nela. Mas, por outro lado, podia ser apenas
paranoia de minha mãe, alimentada por sua progressiva degeneração
mental. E o Dr. Finch contribuía um pouco para isso, porque seu
comportamento se tornava mais e mais bizarro. Ele havia renomeado seu
consultório como Instituto de Maturação e costumava passear, em dias
ensolarados, levando seu guarda-chuva e rebocando uma dúzia de balões.
“Estou chamando a atenção para minha causa,” justificava-se.
Às vezes, quando minha mãe fazia uma pergunta difícil, ele usava
uma técnica chamada “Mergulhando na Bíblia” para conseguir uma
resposta. Dr. Finch dizia, “Margaret, abra a Bíblia e coloque o dedo em uma
passagem aleatória.” Ela fazia isso, ele lia a passagem e, depois, discutíamos o
que fazer sobre a pergunta e a “resposta”. Não pretendo desvalorizar a
Bíblia, mas, francamente, ela não me vinha à mente como o primeiro lugar a
se procurar respostas a perguntas do tipo: “Devemos sair de casa e ficar em
Gloucester por um tempo?” Eu quero um profissional que me diga o que fazer —
pensava. Posso ler a Bíblia alguma outra hora.
Entretanto, era difícil me opor a estas técnicas duvidosas, porque
ele e sua família sempre foram muito bons para mim, e também porque o Dr.
Finch fez com que eu me sentisse melhor.
Certa ocasião, após alguns dias de “férias”, voltamos para casa.
Enquanto estávamos fora, a polícia havia detido meu pai e o levado para
observação no hospital. Quando o soltaram, mais ou menos uma semana
depois, ele parecia mais calmo e menos violento. Eu o observava com
cuidado, especialmente por causa dos acontecimentos anteriores, mas
sempre achei que a probabilidade de nos matar fosse muito baixa. Quando
bebia, meu pai ficava agressivo, mas eu duvidava que fosse nos atacar
quando estivesse sóbrio. Além disso, graças às conversas com o médico, ele
deixara de me agredir, não importando o quanto tivesse vontade de fazer
isso.
Dr. Finch se tornara, de certa forma, a variável menos previsível
de toda a equação. Às vezes, ele parecia ser o responsável por acalmar meus
pais, porém, em outras vezes, eles se incendiavam por alguma coisa que Dr.
Finch tivesse dito ou feito.
Quando olho para trás, vejo que o meu pai estava profundamente
deprimido. Ao mesmo tempo, minha mãe estava se tornando
verdadeiramente desequilibrada. Ela costumava me falar sobre os demônios
que a estavam vigiando, parando de repente para uivar como um animal
selvagem. Meu irmão conseguiu descrevê-la muito bem: logo que um brilho
surgisse no olhar, ela passaria a falar sem parar, fumando um cigarro atrás do
outro, andando rapidamente pela casa e, com frequência, tomaria atitudes
estranhas, como comer tocos de cigarros no meio da conversa. Será que isso é
hereditário? Eu me perguntava. Será que eu vou ficar assim? O medo de um
colapso mental desse tipo me perseguiu até quando atingi a idade adulta.
Muitos amigos de meus pais, além de Hope, a filha do Dr. Finch,
cuidaram de nós enquanto meus pais estavam sob cuidados médicos nos
hospitais e casas de saúde. Eu não sei o que teria acontecido se eles não
estivessem por perto, naqueles momentos. Talvez meu irmão e eu
tivéssemos sido enviados para pais adotivos, ou coisa ainda pior.
Quando a ambulância chegou para levar mamãe, poucos meses
depois de nossas “férias”, acabei concordando com o médico de que seria o
melhor para ela. Tenho uma lembrança bastante vaga de uma de minhas
visitas ao hospital. Tínhamos de passar por várias portas fechadas, como em
uma prisão, e minha mãe parecia um zumbi, por causa das medicações que
haviam aplicado nela. Fiquei pensando, depois de ver seu estado, se algum
dia minha mãe conseguiria sair de lá.
Foi um momento muito difícil para Verme e eu, porque não
sabíamos em quem acreditar. Cada pessoa nos contava uma história
diferente. “Sua mãe ficou temporariamente maluca”, meu pai nos disse um
dia. “Isso é comum na família dela”. Ele contava isso numa voz
perfeitamente calma e controlada. O mais curioso, depois que ela se foi, é
que meu pai não bebeu mais. Por que ele não podia ficar assim o tempo todo?,
pensei.
Uma das coisas mais difíceis de se viver com meus pais é que eles
mudavam de comportamento num piscar de olhos, fora o aspecto
contraditório. Por exemplo, havia períodos em que meu pai ficava o dia todo
na cama, murmurando coisas como “Os morcegos estão voando em cima de
mim,” e minha mãe dizia, “Ele está fingindo!” Será que ele estava, mesmo?
No dia seguinte, tudo voltava ao normal, como se nada daquilo tivesse
acontecido.
Para o meu avô Jack, as coisas eram muito simples. “Afamília de sua
mãe é complicada. Todos eles são malucos, basta dar uma espiada e você
verá!” Eu espiava, mas eles me pareciam perfeitamente normais. Por outro
lado, Hope afirmava, “Seus pais são boa gente, estão apenas passando por
dificuldades”, tentando nos acalmar. Mas não era ela que tinha os pais
trancados em celas nos hospitais.
Eu tentava cuidar de meu irmão, mas era muito difícil para mim.
Com todo esse caos, tornara-se impossível voltar a ser um bom
aluno novamente, ou mesmo passar de ano. Eu estava com vários problemas
familiares e tinha muitos defeitos. Além da dificuldade de olhar as pessoas
nos olhos, eu apresentava outro problema, também. Subitamente, passava
um tempo balançando e me mexendo, e o estresse só piorava as coisas.
“Por que você está balançando a cabeça assim?” Eu costumava
ouvir essa frase dos professores e de outros adultos, quando criança. Hoje,
ouço uma variação dela:
“Pai, pare de dar uma de autista!”
Meu filho adolescente me repreende quando balanço a cadeira
para frente e para trás, no restaurante.
Esses comentários — que são mais reclamações do que simples
comentários, na verdade — referem-se à minha tendência de me
movimentar de acordo com um certo padrão, sem o perceber. Posso estar
deitado no sofá, mexendo os pés para frente e para trás. Lendo o menu e
balançando calmamente, de um lado para o outro. Ou movendo a cabeça
para cima e para baixo. Seja lá o que for que eu esteja fazendo, são
movimentos perfeitamente normais para mim, mas parece que as pessoas
“normais” não agem assim. Eu não sei qual a causa que me faz seguir esse
padrão, nem ao menos percebo o que está havendo. Apenas acontece,
simples assim.
Aí, alguém diz, “Pare de balançar!” e, então, eu paro.
“Qual é o problema com você? Não faz nem cinco minutos que
pedi pra parar, e você começou de novo? O que é, quer me deixar maluco?”
Esse tipo de reação apenas reforçava minha certeza de que a escola não era
o melhor lugar para mim.
Junto com esses movimentos regulares, eu também era criticado ou
ridicularizado por demonstrar expressões pouco apropriadas. Esses ataques
pareciam vir do nada, e me deixavam com vontade de fugir dali e me
esconder.
“O que está olhando?”
“Tire essa expressão idiota da cara! Agora mesmo!”
“Você é estranho! Parece aquelas criaturas dos frascos do
laboratório!”
Minha professora de inglês, Sra. Crowley, costumava me afrontar
com bastante regularidade. “O que você está olhando?”, perguntava sempre.
Não era uma simples pergunta, na verdade soava mais como uma ordem.
“Pare de me olhar!” Então, um dia, respondi a essa grossura com delicadeza
e suavidade. “Sra. Crowley”, falei com minha voz mais doce, “estava
apenas imaginando a senhora acorrentada numa cadeira num buraco bem
fundo, com uma lâmina de aço balançando sobre sua cabeça. E ratos, muitos
ratos, subindo pelas suas pernas e se emaranhando em seus cabelos.” Aí,
sorri mostrando os dentes, do mesmo modo que os cães fazem quando estão
prontos a lhe dar uma mordida. Depois disso, fui levado ao diretor e ao
psiquiatra da escola, mas valeu a pena. A professora nunca mais falou
comigo daquele jeito.
Não me lembro se alguma vez alguém tentou descobrir porque eu
os ficava encarando. Eu teria sido capaz de lhes dizer, se tivessem
perguntado. Às vezes, eu estava pensando em outras coisas e apenas olhava
naquela direção, distraidamente. Outras vezes, estava mesmo observandoos atentamente, tentando interpretar seu comportamento.
Meus pais fizeram um último esforço para manter-me na escola e
me matricularam num grupo de crianças com problemas. Nos
encontrávamos uma vez por semana numa casa mantida pela
universidade, e falávamos sobre o que nos perturbava. O grupo era
composto por seis crianças e um facilitador, graduado em psicologia.
Durante esse período, não aprendi a me relacionar com outras pessoas, mas
descobri que havia muitos iguais a mim e isso foi encorajador, porque eu não
estava no fundo do poço. Ou, se estivesse, pelo menos não estaria lá
sozinho…
Nos primeiros dezesseis anos da minha vida, meus pais me levaram
a, pelo menos, uma dezena dos chamados profissionais de saúde mental.
Nem um deles nunca chegou perto de descobrir o que estava errado
comigo. Em sua defesa, é preciso dizer que a Síndrome de Asperger ainda
não era diagnosticada, mas o Autismo sim, e ninguém nunca mencionou
que eu poderia estar sofrendo de alguma desordem relacionada ao Autismo.
Autismo era visto por muitos como uma condição muito mais extrema —
aquela em que as crianças não falavam e não podiam cuidar de si mesmas.
Ao invés de fazer uma investigação mais profunda, era mais fácil e menos
controverso para esses profissionais dizer que eu era apenas preguiçoso,
hostil ou desconfiado.
E não seria um grupo de discussão que ajudaria a sanar meus
problemas na escola. Assim, quando o último boletim do semestre trouxe
apenas notas vermelhas, percebi que não dava mais para continuar. Não
havia mais nada a me segurar por ali, a não ser a vaga ideia de que seria
melhor ter um diploma do que abandonar tudo, O único problema é que,
pela lei, eu só poderia abandonar a escola com dezesseis anos.
Mas eles tinham tanta vontade de se livrar de mim que vieram
com uma proposta. “Se você fizer um teste e acertar pelo menos 75% das
questões, você poderá sair.” Fiz o teste e acertei 96%. Então, o diploma me
foi oferecido, por uma “taxa simbólica”.
“Apenas vinte dólares”, o escriturário disse com um sorriso. Eu
sorri de volta. “Não, obrigado, não preciso do diploma.” E fui embora, sem
olhar para trás. Meus pais nem perceberam o que acontecera.
Era hora de decidir o que fazer da vida, e fui até o bosque para
pensar. Sempre gostei da vida no campo e, como não estava mais na escola,
eu tinha todo o tempo do mundo. Era primavera, e passei várias horas
sozinho, pensando o que eu deveria fazer em seguida.
Um dia, estava andando por uma clareira, bem longe de casa,
quando uma voz ribombou do nada. “Pare aí!”
Abaixei-me rapidamente sob alguns arbustos. Não deveria ter viva
alma nessa região, mas havia alguém. A alguns metros, um cara cabeludo,
vestindo uniforme camuflado do exército, estava fazendo café.
Mas que porra é essa? Parei.
O cara estava acampado no meio de outra pequena clareira.
Havia uma barraca verde atrás dele. Não vi armas e não parecia ter mais
ninguém por perto.
“Você é apenas um garoto. O que está fazendo aqui?”
Eu não via a mim mesmo como “apenas um garoto”, mas ele era
mais velho e mais forte, então fiquei quieto. Cheguei a pensar em fugir, mas
o sujeito não parecia ser uma ameaça, então decidi ficar.
“Eu moro aqui”, eu disse. “A cerca de três quilômetros. O que você
está fazendo por aqui?”
“Eu vivo aqui, também”, respondeu. “Exatamente aqui”
“Na floresta?” Nunca imaginei que um adulto pudesse morar em
barracas.
“Pois é, já vivi em lugares piores”, disse ele. “Sente-se.” Quando me
acomodei, ele começou a falar.
Paul era um veterano do Vietnã, com deficiência física. Ele havia
sido baleado, e uma perna deixara de funcionar direito. Após sair do serviço
militar, ele viajou de carona por todo o país, vivendo do que a natureza
oferecia. Fiquei fascinado.
“Quer uma bebida?” perguntou. Eu não sabia exatamente o que ele
estava oferecendo, mas aceitei. Ele abriu uma pequena garrafa de vidro,
cheia com o que pareceu água com gás. Tomei um gole e teria cuspido longe,
se não estivesse em um de meus melhores dias.
“O que é isso?” Eu sabia que uísque era desagradável para engolir,
mas que bebê-lo era um sinal de estar crescendo. Talvez devesse agir do
mesmo modo com esta bebida.
“Água tônica de quinino!” Ele disse alegremente, como se todo
mundo soubesse o que era. Neste ponto de minha vida, eu tinha ouvido
falar de todos os tipos de bebidas. Vodka. Uísque. Rum. Tequila. Bourbon.
Nenhuma delas lembrava “água tônica de quinino”.
“Passei a gostar dessa bebida no Vietnã. O quinino previne contra a
malária.”
Não sabia de ninguém que tivesse contraído malária na Nova
Inglaterra. Talvez seja uma dessas doenças raras, como a meningite, pensei.
Portanto, isso aqui é como se fosse água medicinal Tomei outro gole e me lembrei
de ter lido sobre o combate à malária, quando estavam construindo o Canal
do Panamá. Olhei em volta, comparando nossa mata com as florestas
tropicais da América Central.
Paul estava vivendo longe das estradas, com nada mais do que
uma barraca do exército e uma mochila.
“Por que você não faz um abrigo?” eu perguntei.
“Eu não quero me estabelecer”, respondeu. “Eu preciso estar
pronto para ir embora de um momento para o outro.”
Sempre achei que pudesse me virar na floresta, mas Paul me
mostrou o quanto eu ainda precisava aprender. Ele fazia ensopados de
coelho e assava trutas no café da manhã. Se precisasse, iria até a cidade mais
próxima em busca de vegetais frescos ou outros alimentos que achasse no
lixo doméstico ou de restaurantes.
Graças a Paul, aprendi a andar silenciosamente através das
florestas, sem emitir um som ou deixar um rastro. E aprendi também a olhar
por onde andasse.
“Cuidado com o fio!”
Fio? Paul tinha cercado seu acampamento com fios metálicos para
prevenir que alguém chegasse por ali e o surpreendesse. Eles eram
praticamente invisíveis.
“Se isso estivesse ligado a uma mina, você poderia estar morto
agora!”
Nunca me ocorrera percorrer a floresta tomando cuidado com
arames, fios e minas terrestres. Trinta anos depois, no entanto, ainda me
lembro do que ele me ensinou, e eu sempre olho onde piso.
Ele também me falou sobre seu período no exército. Eu esperava
que um veterano de guerra me contasse sobre combates em lugares
longínquos, mas não foi isso o que eu ouvi. Paul explicou como é ser
emboscado por tigres na selva e como carregavam fardos de drogas e
contrabando a bordo dos DC-3. Detalhou as armadilhas que fazia para os
inimigos e como eles eram empalados com longas varas. Suas histórias não
tinham semelhança com minhas noções anteriores de guerra, que foram
formadas assistindo Vic Morrow na série Combat, que passava na TV.
Paul ficou acampado por ali todo o verão. Eu ia visitá-lo quase
sempre, e fiquei por lá vários dias em muitas ocasiões. Era um local
agradável para passar o tempo. Não havia problemas familiares, nem
pressão para arrumar um emprego, e ninguém para me dar trabalho.
Era agradável viver na floresta com o meu amigo Paul, mas nunca
quis ser um eremita. Preferia estar rodeado por pessoas, mesmo que fosse
difícil interagir com elas. Eu sabia que precisava descobrir uma habilidade
única que as fizessem me procurar, dessa forma eu não teria de iniciar
qualquer interação, só responder a ela — o que era mais fácil para mim.
Felizmente, eu estava desenvolvendo meu talento para melhorar e inovar
equipamentos musicais, transformando-os em equipamentos especiais, de
uma forma que poucos podiam fazer. E, cada vez mais, os músicos
começavam a me procurar.
Quando as noites ficaram mais frias, Paul começou a falar em ir
para o Sul, até a Flórida. Numa certa manhã, fui vê-lo e Paul havia ido
embora. Não havia mais nenhum traço dele. O acampamento tinha sido
varrido. Ninguém seria capaz de dizer que uma pessoa havia morado por lá
durante dois meses. Não havia nenhum lixo, nenhuma evidência de
qualquer tipo.
Eu nunca soube para onde ele foi, e nunca contei a ninguém sobre
ele ou sobre o que me ensinou. Anos mais tarde, eu vi uma notícia sobre Paul
depondo em uma audiência contra a guerra e descobri que ele era um herói
de guerra, um Boina Verde altamente condecorado.
Era hora de sair da floresta e participar da sociedade.

10
Recolhendoolixo
or um longo tempo, eu vinha imaginando um jeito de fugir da casa de
meus pais. Quando eu estava com quinze anos, meu pai comprou uma moto
para ir à universidade. Como ele nunca me deixaria guiá-la, decidi comprar
uma para mim. Passei a procurar nos classificados de jornais e a perguntar
por todo lado, em busca de uma moto barata e, finalmente, a encontrei, uma
Honda Dream 1966. Assim que a fizesse funcionar direito, seria capaz de
fugir de casa, pelo menos temporariamente. Foi com essa ideia em mente
que acompanhei meus pais na festa de aniversário de Walter Henderson.
Meus pais se comportavam bem em público, então eles não ficariam no meu
pé. E o local da festa era na cidade, um lugar mais fácil de escapar se as
coisas ficassem esquisitas.
Escrava e Estúpido raramente saíam juntos, mas como gostavam
de Walter, decidiram comparecer à festa. E eu gostava dele, também — ao
menos, gostava daquilo que conhecia sobre ele. Walter dava aulas de inglês e
estava sempre usando um casaco de veludo cotelê marrom. Era um sujeito
agradável de se conversar e parecia moderadamente interessado em mim.
Outra coisa: por alguma razão, meus pais realmente queriam que eu fosse à
festa com eles.
Eu nunca tinha ido a uma das festas do corpo docente antes,
normalmente organizadas pelos amigos de meus pais. Alguns deles eram
legais, mas outros pareciam arrogantes e vaidosos, o que me deixava irritado.
Eu sabia que eu era um desajustado mas, com o tempo, ficava cada vez mais
evidente que alguns daqueles adultos metidos, que sorriam para mim e
diziam o quanto sentiam por eu ser um fodido, eram mais fodidos do que eu.
Escrava disse, “John, Walter e Annette esperam que você
compareça à festa, eles realmente gostam de você.” Pode mesmo ser verdade
que eles gostem de mim, pensei. Ou talvez eles achem que será divertido porque sou
esquisito. Sim, isso era mais provável. Eles achavam que eu era esquisito.
Estúpido disse, “A decisão é sua, mas eles convidaram você. Se
começar a ignorar convites como este, eles vão parar de chegar!”.
Como se algum dia eu tivesse sido convidado para festas!
Acabei indo, mas com minha moto. Havia uma multidão no
quintal de Walter, que tinha montado uma tenda com mesas abarrotadas de
comida e contratado alguma coisa parecida com uma banda. O pessoal
estava mais bem vestido do que eu. Eles devem ser bem educados, têm famílias
respeitáveis e um bom emprego, pensei. Mas estou limpo, tomo banho todos os
dias, ficarei bem.
Walter mandou imprimir cartões para a ocasião. Ele deu-me um
quando chegamos, onde estava escrito:
Walter Henderson, 40
Palestrante, 40 diferentes tópicos
Viajante, 40 diferentes países
Chef, 40 diferentes pratos
Amante, 40 diferentes mulheres
Eu ia gostar dessa festa, já podia sentir.
Não sabia direito o que fazer, então fiquei ali de pé. Quando
Anette me viu, levou-me até um de seus amigos, com a melhor das
intenções, eu acho. Depois de uma rápida apresentação, ela foi cuidar de
outras coisas e me deixou com George, um professor pomposo que tentou
entabular uma conversa comigo.
“Temos um filho com a sua idade, que deve começar em Harvard
daqui a alguns meses”, disse ele. Logo, um casal se aproximou e a mulher
falou: “Nossa Janet decidiu estudar na universidade local, então ficará
conosco por pelo menos mais quatro anos. E você, o que está fazendo?”.
Os três olharam para mim.
Eu não estava fazendo nada e com certeza não iria para Harvard.
Na verdade, eu estava na improvável situação de ter acertado 99% dos
pontos em testes de inteligência e, ainda assim, ter sido jubilado no colégio. E
tinha certeza de que esse pessoal zombaria de minha crescente reputação
junto às bandas que tocavam nas boates locais, por isso achei melhor não
tocar nesse assunto.
“Na verdade, comecei a trabalhar.”
“Sério? E o que você está fazendo?” Essa pergunta veio de
Thurston, outro pomposo professor, chefe de departamento. Ele ficou lá
sorrindo, com um copo na mão. Talvez estivesse pensando em fazer uma
visita a Thugwald, ou sei lá qual o nome do filho, que estudava em Yale.
“Comecei no negócio de gestão de resíduos, lá em Springfield. Eles
me colocaram na posição mais inferior para que eu possa realmente
aprender o negócio. Trabalho em um caminhão.”
“Quer dizer que você é um lixeiro?” alguém perguntou,
educadamente, mas com incredulidade. Os lixeiros geralmente não são
convidados para esse tipo de festa, eles só aparecem no final, para recolher o
lixo. Sorri em resposta.
“Nós não nos denominamos de lixeiros e sim, de Engenheiros
Sanitários.”
Aesta altura, um colega mais velho decidiu participar da conversa.
Eu não o conhecia mas, com seu paletó de tweed e gravata borboleta,
certamente não podia ser um Engenheiro Sanitário.
“Eu sou engenheiro. Fui para a faculdade durante oito anos para
obter esse privilégio. Não me parece que um mero coletor de lixo tenha as
credenciais para se autodenominar um engenheiro.”
Achei melhor mudar de assunto.
“Gente, nós vemos todos os tipos de coisas, sabiam? Na semana
passada mesmo, um dos meus colegas encontrou um bebê morto, no lixo
atrás de um dos dormitórios da faculdade,” Eles ouviram em silêncio.
“Soubemos depois que a mãe era uma estudante de lá. Ninguém entendeu
por que ela se livrou do bebê. Seu pai é o presidente de uma grande
empresa, mas, mesmo assim, ela foi para a cadeia.”
Havia agora seis pessoas ao redor. Eu tinha lhes dado uma coisa
para pensar. Será que os seus filhos faziam algo parecido? Uma das mães
forçou um sorriso e disse: “Deve ser duro trabalhar lá fora, com todos os tipos
de clima, chuva, vento, neve…”.
“Esse não é o problema, na verdade. O que a gente precisa se
preocupar mesmo é com as matilhas de cães hidrófobos e as crianças
selvagens.”
“Crianças selvagens?” Isso os surpreendeu de verdade.
“Nós as encontramos principalmente na periferia da cidade. Duas
delas atingiram um de nossos funcionários na cabeça, com uma garrafa de
cerveja cheia de cascalho. Quase o mataram. Essas crianças ficam piores
quando estão em bando, e às vezes levam facas.”
Meu público olhou chocado.
“Vocês não conseguem uma escolta policial?” Um deles perguntou.
“Não, a polícia não se importa, até porque eles já têm os seus próprios
problemas, sabe como é. Agora, estamos usando cassetetes, porque a polícia
não nos deixa levar armas. Alguns dos colegas usam correntes de
motocicleta penduradas no pescoço, como se fosse um colar. Um punk com
uma faca não é páreo para um cara desses.”
Deixei-os digerir por um momento. A partir de hoje, passariam a
olhar para seus lixeiros com outros olhos. Eles pareciam horrorizados, mas
não podiam evitar, aquela não era mais o tipo de festa com a qual estavam
acostumados.
“O que seus pais acham da sua nova carreira?”
“Bem, eles queriam que eu fizesse medicina, mas quando eu lhes
contei quanto dinheiro o meu patrão tira todo mês, eles ficaram
impressionados. Ele ganha muito melhor do que qualquer médico que eu
conheço. Portanto, acho que eles estão orgulhosos de mim.”
“Como é que o seu patrão consegue ganhar tanto dinheiro assim?”
“Gorjetas. Recebemos gorjetas em todos os lugares.”
“Eu nunca ouvi falar disso. Quem é que daria gorjeta a um coletor
de lixo? Eu nunca fiz isso.”
A mulher que estava falando pareceu bastante segura de si. E isso
me motivou.
“Bem, se você morar na cidade grande, e não quiser que o
caminhão de lixo derrame merda em todo lugar que passar, você tem que
dar uma gorjeta. Um desses basculantes pode fazer um belo estrago num
carro. Agora, se o motorista tiver recebido uma boa gratificação, ele tomará
todo o cuidado para que isso jamais aconteça. E se você tiver um
restaurante, certifique-se de dar uma bela gorjeta também, caso contrário
sua lixeira pode transbordar, aí começam os problemas com ratos, e o fiscal
da saúde pública poderá fechar a casa.”
Inspirado pelo silêncio assustado, continuei. “Você leram sobre
aquela espelunca na Boston Road? Toda a cozinha estava cheia de ratos.
Uma garotinha de nove anos foi atacada pelos ratos no banheiro, eles
retalharam seus dois bracinhos. Esse lugar provavelmente jamais irá reabrir.
Eles não pagaram os seus Engenheiros Sanitários, e olha o que aconteceu.”
“Com licença, posso falar com você um segundo?” disse Annette.
Ela e minha mãe tinham me visto entretendo os seus amigos. As duas me
afastaram do grupo e me conduziram à mesa com as comidas. Eu estava
tendo um belo momento.
“John, o que você pretende fazer? Você não pode fazer isso com as
pessoas! Eles acreditam em você!”
“Bom, vocês me convidaram.” Era verdade, eles tinham feito isso,
mas foi a última vez.
“Ei, Anette, me responda uma coisa: o que é mais fácil de carregar
num caminhão de lixo, uma pilha de bolas de boliche ou uma pilha de bebês
mortos?”
“Não sei,” respondeu ela, de modo taciturno e enfezado.
“Apilha de bebês mortos, porque você pode usar um forcado!”
Minha mãe e Anette pareciam arrependidas de terem me
convidado, mas não fiquei preocupado. Certamente Walter seria capaz de
entender todo o sentido humorístico da coisa. Comi um camarão.
“Fiquem aqui, vou me desculpar com seus amigos.”
Voltei ao grupo de fãs que havia feito.
“Perdão, amigos, mas tenho que ir. Uma emergência no trabalho. É
que um caminhão da empresa concorrente lançou uma bomba em um dos
nossos veículos e nós todos fomos convocados. Até mais!”
Corri para a moto, coloquei o capacete e a jaqueta de couro e saí
zunindo, com meus pais e seus amigos sumindo no espelho retrovisor.
V
11
Abanheiraflamejante
isitar meu amigo Jim Boughton era outra de minhas fugas. Tínhamos
interesses semelhantes, Jim e eu. Foguetes teleguiados. Eletricidade.
Explosivos. Motocicletas. Carros velozes. Jim morava a mais ou menos 8
quilômetros de distância, tinha dois anos a mais que eu e um olhar um
pouco aflito. Seus pais davam aulas de teatro na faculdade, que mantinha a
enorme casa vitoriana onde viviam. Casa que podíamos detonar.
“Não se preocupe”, Jim dizia, olhando os detritos espalhados no
exterior da casa. “O pessoal da faculdade dá um jeito nisso” A equipe de
manutenção aparava o gramado, repintava o interior e consertava o que
quebrávamos. Meu pai dava aulas na universidade, mas nós não tínhamos
uma casa de graça, como Jim e sua família, e ninguém consertava nada. Os
buracos que fiz na porta da cozinha continuavam lá, três anos depois.
“Venha ver o que eu construí”, disse Jim um dia. Ele vinha
trabalhando febrilmente num projeto secreto e tudo indicava que o tinha
terminado. Quando cheguei, ele levou-me para o barracão, que se situava a
cerca de vinte metros atrás da casa de seus pais. No meio do barracão
assentava-se um barril de concreto cuja boca estava meio queimada, e tinha
uma estrutura de aço pendendo logo acima, da qual descia uma corrente.
Uma mangueira ligava o barril a um enorme tanque prateado de gás
propano.
“Esse é o meu novo forno”, disse com orgulho.
Outro cara de dezoito anos de idade teria mostrado seu novo carro,
ou a nova guitarra, ou a sua nova câmera. Jim mostrou seu novo alto-forno.
Ele havia feito os alicates e pinças e demais equipamentos para lidar com
metal derretido. Por incrível que pareça, quase tudo fora construído a partir
de sucata.
“Você agora tem sua própria siderúrgica” eu disse.
“Não, não é para isso que serve. Você precisa injetar oxigênio para
obter as altas temperaturas necessárias para o aço. Esta é uma fundição de
alumínio e bronze.”
“Quer vê-lo funcionar?” perguntou e, sem esperar a minha
resposta, ele virou um comutador e logo ouvi o som de um ventilador
vibrando. “Instalei dois ventiladores de alta capacidade, retirados de
aspiradores de pó, para forçar o ar na fornalha. Não é tão bom como injeção
de oxigênio, mas é grátis.”
“Agora, basta jogar o gás propano e tacar fogo!” Jim abriu uma
válvula ao lado da máquina e o cheiro de gás encheu o ar. Ele sorriu, pôs
fogo numa bola de papel e jogou no barril.
“Fogo!”
Uma enorme explosão me deixou tonto por um instante. Um brilho
intenso levou o cheiro de gás embora. Se o galpão tivesse janelas com vidros,
teriam se espatifado. O ruído agora parecia o de um motor a jato. Olhei no
barril e as chamas rodavam em um torvelinho.
“Vamos acionar o forno”, disse ele, como se já não estivesse
acionado. Jim virou um grande reostato e jogou mais propano na mistura.
“Temos de manter a mistura direito”, disse, “Uma chama amarela
significa monóxido de carbono. Queremos uma chama azul, quase incolor.”
O barulho foi aumentando até o ponto do insuportável. O calor também era
insano.
“Vamos derreter alguns metais, venha ajudar”. Atiramos algumas
peças de alumínio num balde, que eu rapidamente descobri não ser um
balde quando Jim me corrigiu. “É um cadinho de carboneto de silício. Pode
levar quarenta quilos de alumínio ou cento e vinte quilos de bronze.
Derretidos, claro.” Os pedaços de alumínio, antigas transmissões de
automóvel, estavam prestes a se liquefazer. Vestindo pesadas luvas, Jim
prendeu o cadinho nas correntes e, com um gancho comprido, moveu-o até
dentro do forno. Após alguns segundos, o pedaço da corrente que caiu para
dentro do barril estava vermelho brilhante, assim como o topo do forno. Os
ventiladores continuavam zunindo, empurrando ar na fornalha.
Abri as portas para ventilar um pouco o interior do barracão, mas
Jim pediu-me me para fechá-las. “Os vizinhos reclamam do barulho e
podem chamar a polícia”.
Jim me deu algumas pinças e alicates e eu o ajudei a puxar o
cadinho para fora do forno. Cuidadosamente, despejamos o conteúdo numa
caixa cinza que estava no chão. O metal derretido penetrou naquela caixa,
que era o molde daquilo que Jim queria fazer em alumínio.
“Em cinco minutos podemos quebrar o molde, porque o metal já
terá endurecido.”
Enquanto esfriava, desligamos o forno, os ventiladores silenciaram e
o barulho desapareceu. Agora, podíamos abrir as portas.
Quebramos a estrutura e surgiu um par de braços humanos,
perfeitamente moldados em alumínio acinzentado. Jim havia feito os
moldes a partir dos braços de seu irmão menor, que serviram de amostra. Era
possível ver até os detalhes, como as unhas e as digitais. Um trabalho de
mestre.
Meses mais tarde, Jim estava trabalhando na enorme garagem da
casa, que ele havia transformado em sua oficina particular de conserto de
carros. Uma banheira de pedra-sabão servia como um tanque para limpar as
peças. Ele havia enchido a banheira com gasolina, que é altamente
inflamável, mas muito eficiente para tirar a ferrugem de peças antigas.
Eu estava ajudando Jim a reconstruir o motor do VW de um de
seus amigos. O motor e mais algumas peças estavam dentro da banheira,
enquanto conversávamos e bebíamos cerveja. Jim havia instalado uma
bomba na banheira para mexer a gasolina, que desta forma limparia as peças
com mais eficácia por estar em movimento. Mas a bomba não podia ficar
ligada o tempo todo, senão o vapor exalado pela gasolina poderia intoxicar a
todos que estivessem por perto. Por isso, esse processo de limpeza era muito
lento. Já passava das onze horas da noite e menos da metade das peças
estava limpa. Decidimos acelerar o processo e limpar mais algumas peças.
Jim foi até a parede plugar a bomba e religá-la, quando a tomada
fez um ruído seco e uma faísca pulou através da garagem. Num instante, a
banheira estava em chamas e, pela fumaça que tomou conta do lugar,
parecia que toda a garagem estava pegando fogo.
“Caralho!”
“Fogo!”
“Vamos sair daqui!”
Rapidamente, todos nós saímos correndo pela porta. Todos, menos
Jim. Olhamos para trás e ele ainda estava dentro da garagem, com o braço
em chamas. Vimos quando ele retirou sua luva e bateu nas chamas do braço
até apagarem. Em apenas alguns segundos, as labaredas da banheira
estavam alcançando o teto da garagem. Com um forte solavanco, Jim
empurrou a banheira para fora, em direção à entrada de carros. A banheira
rolou no piso cimentado por alguns instantes e parou, cerca de 5 metros
depois.
No final das contas, Jim não estava tão queimado. Ele sorria
orgulhoso por ter salvado a casa; retirou as luvas, olhou os braços e disse:
“Poucos danos.”
No calor do incêndio, ele tinha tido bastante calma para colocar as
luvas protetoras e empurrar a banheira para um local mais seguro. “Ainda
bem que a banheira tinha rodinhas.”
Carol, a namorada de John, o dono do motor, saiu pela porta da
casa e falou: “Já chamei os bombeiros!” Eu não tinha visto ela entrar, mas
também, com uma porção de outras coisas acontecendo, eu nem prestei
atenção na garota. Jim não ficou muito feliz em ouvir isso, “Não precisava
chamar ninguém.” ele esbravejou. A esta altura, as línguas de fogo se
elevavam da banheira a uma altura de quase dez metros, mas não
ameaçavam mais ninguém. A gasolina queimaria sozinha em uma ou duas
horas e não precisávamos do envolvimento das autoridades, coisa que
nenhum de nós gostava.

Pegamos duas mangueiras do jardim e jogamos água no chão ao
lado da banheira, esfriando a área até que a gasolina acabasse de queimar. O
calor era muito forte e a pintura da parede mais próxima começou a fazer
bolhas.
“Eu devia ter empurrado com mais força” lamentou Jim. Mas
agora não era mais possível nos aproximarmos, estava quente demais.
Neste momento, os pais de Jim apareceram, a mãe fumando um
cigarro e o pai, com uma bebida na mão. Eles estavam lendo do outro lado
da casa e pareciam calmos. Os dois olharam para nós, para o fogo, depois se
olharam entre si e, sem emitir uma palavra sequer, voltaram para dentro.
Logo em seguida, os bombeiros chegaram e quatro deles subiram a
entrada de carros, desenrolando a mangueira de incêndio. Jim tentou detêlos e avisou que era melhor usarem espuma ao invés de água, porque a
banheira continha gasolina e magnésio.
“Nós sabemos o que estamos fazendo, filho. Melhor sair do
caminho.”
“Mas eu já disse: água é perigosa quando se tem magnésio pegando
fogo, usem espuma!”
“Saia do caminho!” Avoz da autoridade falou.
Dois bombeiros apontaram a mangueira e um jorro de água atingiu
a banheira. Uma violenta explosão se fez ouvir — porque o magnésio reage
violentamente quando submerso em água — e uma chuva de magnésio
incandescente e gasolina espalhou-se por todo o lugar. Era uma cena
infernal. Pedaços de magnésio queimando eram vistos comendo buracos na
van estacionada na frente da casa. Outros estavam queimando sobre o
telhado. Vários pareciam estar corroendo flamejantes buracos no próprio
cimento da calçada. Múltiplos focos de incêndio, com o brilho
inconfundível do metal derretendo, podiam ser vistos por todo lado. Os
bombeiros recuaram para o caminhão para pegar a espuma, que eles
transportavam, no fim das contas.
Quando viu isso, Jim, polidamente, fez questão de relembrá-los de
que a culpa por tudo aquilo era deles.
“Vocês deviam ter me ouvido, seus idiotas! Olha a merda que vocês
fizeram!”
Eles misturaram a espuma e — muito mais cautelosamente desta
vez — atacaram os incêndios. Mesmo a espuma demorou a extingui-los. Eles
apagavam um local que, em seguida, explodia novamente um minuto mais
tarde. Abagunça que os bombeiros tinham feito era assustadora.
Jim percebeu que a raiz do problema era a falta de conhecimento
dos bombeiros. “Em uma cidade universitária como esta, vocês deviam ser
treinados para combater incêndios químicos!” Eles não responderam.
Dois bombeiros foram até a banheira com ganchos, o tipo de
instrumento que utilizam para quebrar portas, e a derrubaram depois de
alguns golpes, talvez para permitir que seus amigos jogassem spray de
espuma dentro. “Seus loucos, ainda está cheia de gasolina!”
Agora, o quintal, que tinha escapado da destruição, estava em
chamas também. Mais dois caminhões chegaram, além do chefe dos
bombeiros da cidade. Uma multidão tinha se reunido e os pais de Jim
haviam voltado para fora, conversando suavemente entre si. Seu pai tinha
acabado a bebida e sua mãe estava desfrutando o final de seu cigarro. A
calma deles era notável.
Demorou quase uma hora para apagar o incêndio. Quando tudo
estava sob controle, o chefe dos bombeiros teve uma longa conversa com
Jim. Houve pedidos para sua prisão, por parte de alguns dos bombeiros, mas,
realmente, não havia motivos para isso. O chefe só ameaçou voltar para
fazer inspeções periódicas na casa.
TEMPOS DEPOIS, aquela noite se pareceu com a calmaria que vem antes da
tempestade, porque a minha família e a minha vida se esfacelaram. Ursinho
avisou que nunca mais queria me ver de novo, e que também nunca me
diria o motivo. Senti-me destruído, porque ela não atendia ao telefone e
nem queria falar comigo. Apenas dois anos depois descobri porque ela havia
me deixado.
Além disso, os meus pais finalmente se separaram. Verme
permaneceu com a minha mãe, que se mudou para um apartamento na
cidade. Então, alguns meses mais tarde, meu pai mudou-se para um
apartamento e minha mãe e Verme retornaram para casa. O cachorro e eu
ficamos morando na casa o tempo todo, com exceção dos meus períodos de
incursões na floresta.
Agora que os meus pais não viviam mais juntos, minha mãe
decidiu que ela era bissexual. Ela se envolveu com uma mulher de sua
mesma idade durante algum tempo, mas depois se apaixonou por uma
garota um ano mais nova do que eu. A ideia de que a minha mãe trocara
meu pai por uma mulher já era suficientemente inquietante, mas quando
seu grande amor revelou-se ainda mais jovem do que eu, as coisas ficaram
realmente bizarras.
Nesse meio tempo, meu pai se debatia em seu apartamento na
cidade, até que engoliu pílulas para dormir numa tentativa alcoolizada de
suicídio, que o levou a um período no hospital. Ele tinha sorte em ter bons
amigos e em a universidade ser tolerante. Meu pai tinha deixado de ir ao Dr.
Finch, dizendo: “Ele tem ideias malucas, filho. Não sei o que vai acontecer
com o médico e sua mãe.”
Apesar das boas coisas que o médico tinha conseguido para mim,
eu também estava incomodado, havia algo errado por ali. Eu tinha visitado
inúmeros médicos em toda a minha vida. As salas de espera viviam um
fluxo constante de pacientes, eram limpas e claras, havia um aspecto,
digamos, “profissional.” Já com o Dr. Finch, as coisas eram diferentes. A sala
de espera era escura, os móveis gastos. Nunca tinha visto caras novas,
exceto os mesmos parasitas de sempre — pacientes, dizia ele. “O Dr. Finch é
único”, diria minha mãe.
“Ele é maluco!”, diria meu avô.
Eu vinha ouvindo todo o tipo de comentários sobre o médico, por
exemplo, de como ele era desequilibrado e mais algumas coisas do gênero. Eu
não queria dar ouvidos, mas vê-lo usando um chapéu de Papai Noel e com
uma longa barba branca, tudo isso em pleno verão, não foi nada
tranquilizador. Depois, fiquei sabendo que ele havia sido demitido do
hospital estadual e me lembrei dos comentários de meu avô sobre ele, anos
atrás. Será que é verdade? O que será que ele fez? Eu ficava me fazendo estas
perguntas.
Tanto meu pai quanto eu deixamos de ver o Dr. Finch por conta
desse comportamento excêntrico, mas minha mãe continuou se
consultando com ele por mais seis anos, até que um dia conseguiu escapar.
Ela carregou meu irmão nessa viagem louca, dopada por medicamentos que
o médico prescrevia. Esse período foi descrito por meu irmão no seu livro e
ocorreu anos mais tarde.
Só em 1983 minha mãe ficou livre dele e, quando isso aconteceu,
todas as vagas preocupações que sempre tive sobre o Dr. Finch tornaram-se
concretas. Aminha mãe foi ao Conselho de Medicina dizer que o médico lhe
tinha dado medicamentos e, em seguida, a atacado sexualmente em um
motel. Ao mesmo tempo, os investigadores do CM descobriram que Dr.
Finch tinha faturado várias consultas inexistentes contra o seguro-saúde de
meu pai. Minha mãe estava muito perturbada para seguir adiante num
processo contra abusos sexuais, ela só queria acabar com aquilo.
Então, o CM abriu um processo por apropriação indébita contra o
médico, por conta do faturamento fictício. Isso permitiu que obtivessem
uma ordem de restrição contra o doutor, protegendo minha mãe como
testemunha do processo. Sabendo de tudo isso, não fiquei surpreso quando o
médico teve sua licença revogada em 1986.
A esta altura, eu estava muito longe. A música levou-me daquela
loucura para um lugar muito melhor. Eu estava construindo uma reputação
entre os músicos locais, e eles me acolhiam de braços abertos. Nas noites de
sexta, eu saía do hospício em que minha casa se transformara para o clube
noturno da cidade. Agora que eu era um deles, não precisava mais me
preocupar em sair de casa às escondidas, até havia deixado crescer a barba,
para parecer mais velho. O segurança me cumprimentava, quando me
levava para dentro da boate.
Quando eu entrava no salão e a banda começava a tocar, as luzes
diminuíam e eu sentia como se meus tímpanos estivessem derretendo.
Uma onda de energia palpável descia sobre a multidão, colados ombro a
ombro. E, à medida que a banda tocava “King of the Highway”, eu era
transportado para meu próprio mundo e me sentia o cara mais sortudo na
face da Terra.
Gostaria de poder trazer meu irmão comigo, mas, na verdade, eu
era apenas um rapazinho usando roupas de adulto. Meu irmão teria que se
virar sozinho.
F
12 Em cana com a banda

F
12
Em cana com a banda
oi Fat, a banda de rock, quem me salvou. Desde que eu tinha saído da
escola, eu vinha fazendo a manutenção de seus equipamentos e me tornado
amigo do técnico de som, Dickie Marsh, e de Steve Ross, seu assistente.
Dickie estava impressionado com minha habilidade de ouvir um som e ser
capaz de dizer qual botão apertar no equalizador, achando que isso fosse
uma habilidade natural. Mal sabia ele que eu havia estudado muito tempo
para chegar até esse ponto.
Certa noite, depois de um show, Peter Newland, o cantor principal
e flautista da banda, veio conversar comigo.
“Você podia vir morar conosco e viver de música”, disse ele.
“Podemos até pagar um salário. Oitenta dólares por semana” Nem pensei
duas vezes, me juntei à banda e passei a ter um novo lar. Todos viviam
juntos numa velha casa, na fazenda.
Billy Perry, o baterista, tinha um quarto perto do meu. Seus treinos
na bateria garantiam que eu nunca dormisse até tarde. Nos quartos do
segundo andar, ficavam alojados os guitarristas Mike Benson e Chris
Newland. Peter, irmão de Chris, morava no quarto principal. Dickie e Steve
ficavam espremidos no último andar. Coloquei minhas coisas em um quarto
vazio, nos fundos do andar térreo, e estacionei minha moto no quintal, junto
à minha janela.
Sem contar os períodos em que morei na floresta com o veterano de
guerra, esta foi a primeira vez em que eu realmente vivi longe da minha
família. Com minha própria moto, um lugar para viver e um papel de certa
relevância numa banda de rock, eu sentia que tinha chegado lá. Para
comemorar, comprei um osciloscópio Tektronix 504, que se tornou motivo de
orgulho e alegria.
Passava meus dias tentando tirar o último watt de potência dos
amplificadores e obter o melhor som possível de todos os instrumentos. A
banda Fat tornou-se conhecida por seu som, bem como pela qualidade de
sua música.
Fat fazia parte de um pequeno número de bandas que tocavam
suas próprias músicas em clubes da Nova Inglaterra. Nosso empresário
ainda conseguiu que abríssemos os shows de grandes estrelas, como James
Montgomery, James Cotton, Roxy Music e Black Sabbath. Durante esse
período, pude conhecer outros músicos, e recebi novos pedidos para
projetar coisas — de amplificadores mais potentes até uma flauta elétrica.
Eu tinha um novo círculo de amizades e estava conseguindo me adaptar
bem a novos lugares.
E, o melhor, estava começando a ver o mundo. Toda vez que
conseguia uma folga, viajava com minha moto para os lugares que podia
conhecer num dia de viagem, como Vermont ou New Hampshire.
Naquele abril, enquanto o solo de nossa cidade ainda estava
coberto com dois metros de neve, a banda decidiu fazer uma viagem ao
Caribe, e eu estava incluído. Eles tinham feito uma poupança para esse
passeio, reservando algumas centenas de dólares a cada show. De meu lado,
meu patrimônio se resumia aos 80 dólares que eu tinha na carteira quando
saí de casa. Mas Peter disse que aquela seria uma viagem com tudo incluído
e todas as despesas pagas. Assim, voamos de Massachusetts para
Montserrat, um típico paraíso tropical. Foi nesse lugar que percebi que eu
era meio diferente do típico músico de rock.
Aconfusão começou às 6 da manhã do domingo de Páscoa de 1976.
Eu estava dormindo numa villa no alto da colina, que pertencia a algum
milionário inglês que gostava de músicos. O sol estava nascendo, o dia era
claro e a temperatura, muito agradável. A ilha estava quieta. Montserrat é
um lugar muito bonito e não tem indústrias, nem estradas, e nenhum ruído
mais alto.
Qualquer pessoa estaria muito feliz em estar lá. Menos eu. Todas as
coisas que eu gostava na vida não existiam naquele lugar: não havia
hambúrgueres, nem chá gelado, apenas ovos e moluscos. Havia galinhas,
também, mas se matássemos as galinhas para comer, não teríamos mais ovos.
Mas havia muitos moluscos e outros frutos do mar, coisas que eu nunca
havia comido antes e não pretendia fazer agora.
Na verdade, o problema é que eu não sabia sair de férias. Aquela
era minha primeira viagem sem a família, não tinha grana e não havia nada
para fazer. Uma coisa eu aprendi: Vai viajar; então traga dinheiro!
Naquela manhã, Willie, nosso guia nativo, entrou na casa feito um
maluco, gritando a todo pulmão: “Acordem, caras! Acordem, todos vocês! É
uma batida!”
Ele correu pela casa, subiu as escadas, gritando enquanto abria
todas as portas:
“Acordem, é a polícia!”
Abri os olhos e sentei na cama. Bem> não tenho drogas, então não
posso ir preso. Fui até a varanda e olhei para baixo, na direção da estrada que
descia a colina e levava até a cidade. Quatro vans com policiais nativos malencarados subiam à toda. No capô do veículo da frente vinham dois
guardas sentados, segurando porretes, e sabem-se lá quantos mais estavam
dentro das vans. Aquilo não era uma batida, aquilo era um ataque.
Corri para dentro:
“É uma porra de um ataque! Esses nativos fodidos estão com
porretes!”
Alguns dos rapazes começaram a jogar na privada as bolinhas,
pílulas, cocaína e o que mais estivesse por ali, soltando a descarga. Torci para
que a casa tivesse uma fossa, porque sabia que alguns desses banheiros
esvaziavam na encosta, a uns cem metros abaixo. Que surpresa seria alguém
encontrar essa merda toda…
Foram as duas piranhas que nos meteram nessa confusão; logo que
as vi, sabia que elas trariam encrenca.
Quando chegamos, elas já estavam na casa:
“Oi, sou Jen e esta é Bárbara. Joe nos disse que podíamos ficar aqui
esta semana”. Ninguém de nós sabia quem era esse tal Joe, mas a banda
decidiu que tudo bem, e depois disso, elas ficaram mais tagarelas.
“Fugimos de casa faz três semanas.”
“Meu pai é policial, mas nunca vai nos encontrar aqui.”
“Quer um pouquinho de erva?”
Isso vai dar merda, pensei na hora.
Não gostei de encontrar gente estranha na nossa casa de férias.
Encontrá-la povoada por duas garotas me fez sentir um intruso. De quem
realmente era a casa? Nossa? Delas? Achei isso inquietante. Já estava
achando toda a viagem inquietante, muito porque não gostava de
mudanças no meu ambiente. Eu preferia dormir sempre no mesmo lugar e
com as mesmas pessoas em volta.
Mas os outros caras pensavam diferente. Mike virou-se para Peter
e comentou, “Uau, duas meninas de graça! Isso é uma benção!” E então,
foram com elas para dentro da casa. Eu nunca entendi como certos caras
conseguiam fazer coisas desse tipo. Uma namorada por semana… Eu era tão
envergonhado que nem conseguia conversar com uma garota!
Billy Perry, Chris e eu fomos à cidade na manhã seguinte e
descobrimos uma coisa, rapidamente: todo mundo sabia onde estávamos.
“É, mon, vocês estão com as garotas na casa do Maxwell.”
Em todo lugar que íamos, as garotas já tinham estado lá. Não
descobrimos exatamente o que elas fizeram, mas seja lá como fosse, agora nós
fazíamos parte dessa encrenca.
Havia muita erva na casa, além de cocaína, muitas pílulas e
bastante bebida. Tomei algumas cervejas, mas como o resto das coisas não me
interessava, deixei para lá.
Até aquela manhã.
Minha nossa!, pensei. Eu vou em cana por causa da droga de outra
pessoa! Essa merda toda não é minha!
Peter abriu a porta para a polícia e eu fiquei mais atrás, apenas
olhando. Eles não estavam portando armas, pelo menos aparentemente,
mas os dois guardas que estavam no capô da van agitavam os porretes.
Todos eles se mostravam respeitosos e um dos policiais nos mostrou seu
distintivo. Ele parecia mais um sem-teto, mas percebi que os representantes
da lei eram desse jeito, no terceiro mundo.
Oito deles entraram e se dividiram em equipes, para revistar os
quartos. De tempos em tempos, ouvia alguém gritar, como se tivesse feito
um ponto no videogame. Será que eles estavam plantando drogas em minhas
meias?
Finalmente, eles emergiram dos fundos da casa, sorrindo e
carregando várias mochilas. Não eram minhas, ainda bem. Mas os sorrisos
denunciavam que eles tinham encontrado alguma coisa. Não consegui
entender tudo o que eles disseram, porque seu sotaque era muito carregado,
mas a parte que pude compreender ordenava que fôssemos com eles para
algum lugar. Fui para fora e vi mais dois carros de polícia.
Mike virou-se para mim e disse, com total desinteresse, “Bem, esta
é a parte onde eles nos atiram na cadeia e jogam as chaves fora.” Olhei em
volta, não havia chance de escapar. Mike não sabe nada, ele está doidão.
Fui colocado numa das vans e levado até a cidade, onde o carro
estacionou em frente a uma construção de pedra. A prisão. Uma prisão
tropical, realmente. Tinha muralhas de um metro de espessura. Os nativos
que nos invadiram eram toda a força policial da cidade, e havia alguns
bêbados presos nas celas, certamente para curarem a ressaca. Todos estavam
animados, porque tinham feito uma grande prisão! Nós.
“De pé, mon! Diga xis para a câmara. É sua foto para a ficha
policial, mon!” Após terem tirado a fotografia, todos foram ver ela se revelar.
Eles estavam usando uma velha Polaroid. Meu avô tinha uma igual, na
década de 60.
O chefe disse, “Eu sou o Inspetor Vincent, me dê seu passaporte,
mon!”
“Eu não tenho passaporte.”
“Ok, mon, me dê sua identidade!”
Entreguei a ele meu cartão Top do Campus, que me dava direito a
entrar no bar da Universidade. O inspetor copiou todos os dados do cartão
num fichário, mas como meu nome e minha data de nascimento estavam
errados no cartão da universidade, minha ficha também ficou com dados
errados. Ainda bem.
Não fui revistado, acho que eles se esqueceram disso. Então, desejei
ter uma faca ou uma arma de fogo. Mas os nativos eram tão amistosos que
eu sentiria muito esfaquear ou matar a tiros qualquer um deles. Quando me
aproximei da porta de saída com a maior discrição possível, o inspetor, muito
educadamente, mas com firmeza, me fez sentar.
“Isto aqui é a cadeia, você tem que ficar aqui dentro!” Ele
gargalhou. Idiota.
Depois, fomos todos trancados numa cela. Pelo menos, não era
muito fria.
“Jesus Cristo. Espero que não haja ratos aqui!” disse Mike, o
guitarrista. “Será que tem cobras?” Este não era o momento adequado para
sua vivida imaginação…
Nosso confinamento não foi muito opressivo. O Inspetor Vincent
tinha alguns músicos em sua equipe e, quando as coisas se acalmaram, eles
trouxeram as suas guitarras para tocarmos um pouco. Demos-lhes dinheiro
para comprar alimentos na cidade, e eles apareceram com Coca-Cola em
garrafas de vidro. Eu não tinha visto dessas garrafas desde que eu era uma
criança. Quando ficavam vazias, um dos policiais as enchia pela metade
com água e as tocava como um instrumento musical. Teria sido muito legal,
se eu não estivesse trancado naquela porra de prisão.
Peter tinha um amigo que conhecia alguém na ilha, nossa fiança foi
paga e saímos da cadeia a tempo para o jantar. No dia seguinte, esse amigo
nos apresentou a um advogado, que não foi muito com nossa cara. Talvez ele
more na ilha e tenha filhas. Ele já sabia sobre as garotas fugitivas.
“Ahem… Algum dos jovens sabia que determinados tipos de posse
de drogas recebem pena de enforcamento, nas colônias da Coroa
Britânica?” Ninguém respondeu.
“As penas aqui são… ahem… draconianas.”
“Os tiras adoram pegar os músicos. Tomara que não seja prisão
perpétua.” Mike estava engraçadinho, nesse dia…
O grande problema eram as sementes. Eles haviam encontrado
sementes de maconha no fundo de uma das mochilas. Se a pessoa fosse
pega fumando maconha, tudo bem, iria para a prisão por um tempo. Mas
sementes representavam plantadores, e a pena para plantadores de
maconha era a forca. A cocaína, o ácido, os cogumelos, ainda havia um
bocado dessas coisas nas mochilas, mas nem deram muita atenção. O
negócio deles eram as sementes.
O julgamento foi marcado para aquela quarta-feira e o tribunal
estava vazio, exceto por nós, os advogados, o juiz e alguns poucos
espectadores. Fomos apresentados rapidamente ao juiz, que vestia uma
peruca digna de um travesti de Nova Iorque. Mas eu tinha certeza de que o
juiz não se via como uma drag queen.
Não consegui ouvir quase nada do que eles disseram, porque tanto
o promotor quanto o nosso advogado ficaram lá na frente, conversando com
o juiz. O fato é que toda a história se resolveu em uma hora e meia de
julgamento. Dois dos membros da banda foram multados em dois mil e
quinhentos dólares. As acusações contra as garotas foram esquecidas. Bem,
parece que eu passei despercebido também.
Um dos policiais me deu carona até a villa, onde fui buscar o carro
alugado, um jipe Moke Mini Morris, e voltei para o tribunal. Mas, como nos
tornamos uma espécie de celebridades e a bebida era por conta da casa no
bar da cidade, então fui para lá me encontrar com os amigos.
Na hora de ir embora, estávamos todos muito bêbados, então decidi
dar uma volta de carro na praia, que era perto. Quando cheguei lá, acelerei
o Moke, desviando das pessoas que estavam deitadas, e me dirigi para as
dunas, que ficavam no extremo mais distante da faixa de areia. Subi em
velocidade e, do outro lado, eu vi o oceano.
O Moke naufragou, e como a maré estava subindo, em instantes o
jipinho estava fora de vista. Meus amigos tinham desaparecido e eu tinha
perdido meu transporte. O único sinal do meu Moke era a bandeira
vermelha no para-choque traseiro. Cada vez que uma onda passava, a
bandeira apontava para fora do mar. Merda, eu disse para mim mesmo.
Melhor tirar o carro da água.
Voltei ao bar para ver se alguém me ajudava nesse trabalho e havia
dois rapazes tocando steel drums. A forma como eles tocavam aquelas
músicas em tambores vazios de óleo, era algo mágico. Um dos rapazes da
prisão estava lá, também. Ele tinha se transformado de um policial para um
músico. Olhando para ele, você jamais adivinharia. Eu estava tentado a
permanecer no bar a noite toda, mas sabia que tinha de tirar o Moke do mar.
Não podia me dar ao luxo de comprar outro carro para o pessoal da
locadora.
Consegui juntar cinco homens e, quando chegamos à praia, a maré
ainda estava alta, e tivemos de nadar até o Moke.
“Todos juntos, agora, vamos mergulhar, agarrá-lo e arrastá-lo de
volta. Um… dois… três… mergulhar!” Merda, que trabalho duro! Mas
conseguimos. Depois que o Moke estava de volta na areia, nós o viramos de
cabeça para baixo para drenar.
Na manhã seguinte, fui até a locadora. Logo que eu cheguei, ouvi,
“Ei, me disseram que você afundou nosso carro no mar, mon!” As novidades
corriam soltas, em Montserrat.
“Não se preocupe”, eu disse. “Ele estará funcionando em poucas
horas.” Comprei gasolina, óleo e uma bateria nova, e então voltei à praia
com dois rapazes da locadora como ajudantes. Nós viramos o carro de volta
e o abasteci, troquei a bateria, limpei o carburador e a ignição. O carrinho
voltou a funcionar e levei-o de volta à locadora, dei-lhe um bom banho e
decretei que estava novo em folha.
No dia seguinte, as nossas férias chegaram ao fim. Eu disse adeus
para Willie e voltamos para casa num DC-3 da II Guerra Mundial, sem
porta e com frangos em gaiolas empilhadas no corredor. Deslizando a cerca
de 500 metros acima do oceano, sabíamos que logo veríamos a neve, o degelo
da primavera, e a lama. E antevia o nosso próximo show, sexta-feira à noite,
na boate da cidade.
Alguns anos mais tarde, a maior parte da ilha de Montserrat
desapareceu, quando o vulcão explodiu. Avilla, a prisão, as estradas… tudo
foi pelos ares.
Acabei não ficando com Fat muito mais tempo. Foi difícil viver com
toda aquela gente na casa. Eu nunca sabia o que dizer ou fazer, e muitas
vezes me senti perdido. Mas eu tinha feito uma série de contatos e estava
muito mais confiante, pelo menos no que dizia respeito às questões de
engenharia. Interagir sobre coisas técnicas havia se tornado confortável, e
quanto mais eu fazia isso, mais eu aprendia e mais fácil tudo ficava. Eu não
hesitaria em falar com o técnico de som em um show. Mas ainda ficava
apavorado de conversar com uma garota.

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