Por que erramos. Somos programados para falhar


Como explicar os erros estúpidos que cometemos, como trocar o nome de uma pessoa conhecida ou bater o carro naquela mureta que sempre esteve lá? O livro Why we make mistakes, do jornalista americano Joseph Hallinan, dá a pista: nossos meios de ver, lembrar e perceber o mundo são distorcidos e isso favorece as falhas

Como explicar os erros estúpidos que cometemos, como trocar o nome de uma pessoa conhecida ou bater o carro naquela mureta que sempre esteve lá? O livro Why we make mistakes, do jornalista americano Joseph Hallinan, dá a pista: nossos meios de ver, lembrar e perceber o mundo são distorcidos e isso favorece as falhas
Como explicar os erros estúpidos que cometemos, como trocar o nome de uma pessoa conhecida ou bater o carro naquela mureta que sempre esteve lá?
O livro Why we make mistakes, do jornalista americano Joseph Hallinan, dá a pista: nossos meios de ver, lembrar e perceber o mundo são distorcidos e isso favorece as falhas (Foto: Gisele Federicce)

 

Por Eduardo Araia

Praticamente todas as pessoas conhecem a expressão “errar é humano”. Essa é uma verdade que independe de latitude, nacionalidade, etnia ou grupo socioeconômico. Erros humanos respondem, por exemplo, pela maioria dos acidentes de trabalho (90%), de automóvel (90%) e de avião (70%). Os índices chegam a essas alturas basicamente porque, segundo o jornalista norte-americano Joseph T. Hallinan, somos pré-programados para fazer lambanças – não é propriamente uma questão de personalidade ou inteligência.

A forma pela qual pensamos, vemos e lembramos nos configura para errar, explica o jornalista. Somos inconscientemente distorcidos, rápidos para julgar por aparências e excessivamente confiantes quanto a nossas habilidades.

 

Hallinan, vencedor do prêmio Pulitzer, lançou em 2009 um livro sobre o tema, Why we make mistakes (Por que cometemos erros) – um autêntico “guia do erro humano”, na sua definição. Alguns dos erros mais comuns listados pelo jornalista são abordados a seguir – e, naturalmente, formas de evitá-los:

1) Trocamos palavras que estão “na ponta da língua”. Quem nunca esqueceu o nome de uma pessoa conhecida – ou, pior ainda, chamou-a pelo nome errado? A maioria de nós vive essa situação pelo menos uma vez por semana, e nem as altas autoridades escapam do constrangimento. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, referiu-se a seu colega norte-americano, Barack Obama, como “Obrama”, e antes disso havia chamado o ex-governador mineiro e atual candidato à presidência da República, Aécio Neves, de Aécio Nunes. Um antecessor de Obama, Ronald Reagan, propôs em Brasília, em 1983, um brinde ao “povo da Bolívia” em homenagem ao país que o recebia. Em 1997, o presidente francês Jacques Chirac atribuiu ao colega Fernando Henrique Cardoso a presidência do México. Dois anos depois, FHC chamou os bolivianos de peruanos.
As pesquisas mostram que a maioria desses erros, chamados em inglês de TOTs (abreviatura de tips-of-the-tongue, ou “na ponta da língua”) envolve nomes próprios. Um substantivo comum pode ser expresso de forma diferente – por exemplo, “geladeira” também é refrigerador ou máquina de resfriar. Mas é complicado trocar um substantivo próprio. Hallinan cita um estudo no qual um participante tentava identificar uma foto da atriz e cantora Liza Minnelli. A pessoa não teve êxito, mas sem dúvida chegou perto: Monetti, Mona, Magetti, Spaghetti, Bogette…
Outra dica para a charada dos TOTs é que a lembrança do nome correto em geral é bloqueada por um nome errado. Mas não é qualquer nome errado: seu significado sempre está próximo do nome certo.

2) Usamos óculos com lentes cor-de-rosa. Para Hallinan, todos nós tendemos a lembrar nossas palavras e atos de maneira mais positiva e autoelogiosa do que uma avaliação externa faria. Ele cita um estudo no qual alunos da Ohio Wesleyan University foram solicitados a lembrar as notas que haviam tirado no ensino médio. Os pesquisadores compararam as informações fornecidas pelos estudantes com as notas verdadeiras. Conclusão: 29% das respostas estavam erradas, em geral por elevação das notas – 79% dos estudantes as inflaram.
A tendência ao autoincensamento é tão forte que, de acordo com pesquisadores das universidades de Chicago e da Virgínia (EUA), consideramos nosso rosto mais atraente do que outras pessoas pensariam.

3) Quando fazemos várias coisas ao mesmo tempo, ficamos estúpidos. O cérebro reduz sua velocidade quando tem de conduzir várias atividades simultâneas. Hallinan cita uma experiência na qual adultos entre 18 e 32 anos deveriam identificar duas imagens: cruzes coloridas e formas geométricas, tais como triângulos. O que parecia muito fácil complicou-se quando os participantes viram cruzes coloridas e formas geométricas simultaneamente: eles precisaram de quase um segundo inteiro de tempo de reação para pressionar um botão. E o tempo adicional não impediu os erros. Já se os participantes tinham de identificar as imagens uma de cada vez – cruzes primeiro, depois formas –, o processo ia duas vezes mais rápido.
“Ficar pulando de tarefa para tarefa cria outros problemas”, diz Hallinan. “Podemos esquecer o que estávamos fazendo ou havíamos planejado fazer.” Nossa memória de trabalho – a lista de tarefas contida no cérebro – monitora todas as tarefas de curto prazo que precisamos lembrar, mas sua duração é brevíssima: depois de apenas dois segundos, as coisas começam a desaparecer. Com 15 segundos de avaliação de um novo problema, o anterior já foi esquecido. De acordo com estudos em locais de trabalho, são necessários até 15 minutos para a mente voltar à concentração plena depois de uma interrupção.
Outro exemplo de problemas à frente é o uso de celular enquanto se dirige. Diferentes estudos mostram que motoristas que falam ao celular apresentam um risco quatro vezes maior de sofrer um acidente.

4) Nós olhamos, mas não vemos. Algumas vezes, uma pessoa pode olhar diretamente para algo e ainda assim deixar de vê-lo. Em experiências feitas nos anos 1990, pesquisadores descobriram que um número espantoso de participantes não se lembrava de certos objetos apresentados a eles em testes visuais. A tendência persistiu tanto com objetos pequenos quanto com grandes e óbvios. O frequente entalamento de caminhões sob as pontes das Marginais de São Paulo, por excesso de altura da carroceria, é um exemplo dessa característica.

5) Percebemos o mínimo necessário. “Uma das coisas mais surpreendentes que aprendi foi como nossa visão é ruim e quantas peças nossos olhos pregam em nós”, comenta Hallinan. Ele cita um experimento da Universidade Cornell (EUA) no qual os participantes deviam pedir orientação de ruas para um estranho. Enquanto as instruções eram dadas, dois atores carregando uma porta passavam entre os participantes e a pessoa que transmitia as orientações. Esta última, conforme a porta passava, dava lugar a outro indivíduo – e, dos 15 participantes, apenas 7 disseram ter notado a mudança.
Essa tendência de errarmos, lembra o jornalista, acabou por criar uma profissão no cinema e na TV, que produzem obras cujas cenas são gravadas fora de ordem: a de continuísta. Mesmo com esses profissionais a postos, os equívocos não param – há sites específicos sobre isso, como http://www.moviemistakes.com e http://www.falhanossa.com. A cena da corrida de bigas do épico Ben-Hur, que dura 11 minutos na tela, mas levou três meses para ser filmada, é um clássico nesse sentido. Dos nove carros que largam, seis são destruídos durante a prova – mas quatro cruzam a linha de chegada. Ainda na corrida, a biga do ex-amigo de Ben-Hur, Messala, danifica a do rival, mas, no fim da disputa, a biga de Ben-Hur aparece intacta.

 

6) Relanceamos os textos quando não deveríamos. A leitura pode reservar surpresas por vezes hilariantes, por vezes comprometedoras, em especial para quem cuida dos meios de informação. A agência noticiosa Canadian Press divulgou há cinco anos que a plataforma de gelo Wilkins – localizada na Antártida – era originariamente parte da (tropical) Jamaica. A informação correta era que a plataforma tinha originariamente o tamanho da Jamaica. Uma nota divulgada na mesma época pela agência France Presse a respeito da erupção de um vulcão nas Ilhas Galápagos dizia que a lava poderia afetar “iguanas, lobos e outros exemplares da fauna”. Como se sabe, não há lobos no arquipélago. Provavelmente, o redator verteu mal o termo em espanhol “lobo marino”, cuja tradução é leão-marinho. Nem mesmo o sisudo Wall Street Journal escapa dos escorregões: há algum tempo, ele publicou que palhaços disputavam uma prova na Grã-Bretanha montados em unicórnios (unicorns), em vez de monociclos (unicycles).
Por que os jornalistas não percebem erros desse tipo? Segundo Hallinan, quando lemos um artigo, não lemos, na realidade, todas as letras de todas as palavras de todas as sentenças. Passamos os olhos por letras, palavras e sentenças até reconhecer padrões, que adotamos em seguida como a informação verdadeira. Por exemplo, quem lê “Pernam…” tende a completar a palavra com “buco”; na frase “Para ler as letras miúdas, precisou colocar os…”, provavelmente vai encaixar “óculos” na sequência.
“A percepção humana é, acima de tudo, econômica; notamos algumas coisas e não outras”, observa Hallinan. “E quanto melhores somos em alguma coisa, mais tendemos a passar os olhos.” Os erros proliferam nesse desprezo pelos detalhes.

7) Pensamos que somos melhores do que na verdade somos. Numa pesquisa da Universidade Princeton (EUA), os participantes deviam responder como eles e a “pessoa média” eram suscetíveis a distorções de julgamento. A maioria respondeu que era menos tendenciosa do que o restante – o que resultava numa impossibilidade estatística. “A maioria de nós detesta pensar em si mesmo como na média ou abaixo da média”, analisa Hallinan. “Então, andamos com esse conceito particular de que estamos acima da média, e é aí que se encontram as sementes de muitos de nossos erros.”
Quase todas as pessoas são excessivamente confiantes – as exceções são os deprimidos, que tendem a ser realistas, observa Stefano Della Vigna, professor de economia da Universidade da Califórnia em Berkeley. Curiosamente, quanto mais difícil é a tarefa, mais superconfiante tende a ficar o encarregado dela. Segundo Hallinan, 99% dos executivos de grandes corporações submetidos a uma conhecida série de testes sobre o que sabiam a respeito de suas próprias indústrias se mostraram superconfiantes.

VACINAS ANTIERROS

1) Pense pequeno. Pequenas coisas significam muito, de fato.
2) Examine as possibilidades negativas. Quando há uma grande decisão a tomar, pergunte-se: “O que poderia dar errado?” Embora possa influenciar o resultado de um evento, o pensamento positivo também torna as armadilhas invisíveis. Portanto, passe um pente fino no cenário em busca de uma falha.
3) Pense diferentemente. Os hábitos nos permitem poupar tempo e esforço mental, mas podem anular nossa capacidade de perceber novas situações. “Depois de algum tempo, vemos apenas o que esperamos ver”, diz Hallinan.
4) Baixe o ritmo. Fazer muitas coisas ao mesmo tempo divide nossa atenção e pode elevar nosso índice de erros. Reduza a velocidade e faça uma coisa de cada vez.
5) Durma mais. As pessoas sonolentas fazem erros, e há um número espantoso delas andando por aí, observa Hallinan.
6) Veja com cautela os testemunhos. Ao decidir, em geral damos a certas informações vívidas (tais como testemunhos breves) mais credibilidade do que elas merecem. É melhor recorrer a médias estatísticas do que apostar todas as fichas num testemunho isolado.
7) Adie decisões até seu humor melhorar. Bons sentimentos aumentam a tendência de combinar material em novas maneiras e ver a conexão entre as coisas. As pessoas felizes tendem a ser mais criativas e a errar menos.
8) Use fatores limitadores. Apoios mentais simples nos mantêm no rumo certo. O vermelho funciona bem no trânsito porque seu forte impacto significa “pare”. A melodia de uma canção pode ser um limitador antiesquecimento – “eis por que os jingles ficam em nossa memória bem mais do que os comerciais de que fazem parte”, diz Hallinan.

O QUE HÁ PARA LER:
Joseph T. Hallinan, Why We Make Mistakes (Broadway Books)

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