Empreendedorismo depois dos 60


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  • Esse desejo de empreender acontece em um momento da vida em que as pessoas enfrentam perda de renda, pois vivem com aposentadorias cada vez menores
  • Outra constatação que mostra a dificuldade dos mais velhos é que a taxa de inadimplência sobe mais entre os maiores de 60 anos do que entre outras faixas etárias
Nunca é tarde demais para realizar o sonho de abrir o próprio negócio. Esse lema é seguido ao pé da letra pelo advogado Luiz Fernando da Rocha, morador de Copacabana, no Rio de Janeiro, que está fundando sua segunda startup aos 90 anos. “A primeira não deu certo por motivo de discordância entre os sócios”, diz o empreendedor.Com experiência no ramo de logística, Luiz conta que gosta do modelo de trabalho das startups. “Gosto dessa coisa de planejar tudo muito bem antes de lançar o produto, de investir”, afirma.

Ele conta que continua trabalhando como advogado apesar de ter se aposentado muitos anos atrás. “Trabalho porque gosto e porque preciso. Para viver, você precisa estar atualizado e ter um propósito. E eu tenho”.

Pesquisa realizada com 2.242 pessoas com mais de 55 anos descobriu que 25% dos entrevistados desejam empreender. Essa vontade é mais forte entre o público masculino com idade entre 55 e 64 anos, segundo dados do levantamento Tsunami Prateado, realizada pela Hype60+ e a Pipe.Social.

Um desses empreendedores maduros é físico e químico Sérgio Mascarenhas de Oliveira, que decidiu desenvolver um método para medir a pressão intracraniana sem precisar fazer um furo na cabeça para inserir um sensor no cérebro. Ele conseguiu. Criou um aparelho que faz a medição e para comercializá-lo abriu uma startup, a Brain4care.

“Ser velho, hoje, definitivamente não é a mesma coisa do que há alguns anos”, diz a terapeuta ocupacional Larissa Carvalho. “Embora a sociedade ainda cultue a juventude, as pessoas hoje vivem muito mais. Por isso temos que parar de achar que velho precisa ser encostado”, afirma ela.

Raio-x: aposentadoria é irrisória x pessoas vivendo cada vez mais

Os brasileiros estão vivendo cada vez mais. A expectativa de vida ao nascer é de 79,6 anos para mulheres e de 72,5 anos para os homens. Esse aumente de longevidade, entretanto, não vem acompanhado de estabilidade financeira. Pesquisa da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito), mostra que 21% dos idosos continuam trabalhando após a aposentadoria e não é por prazer: 47% disseram que é por motivos financeiros.

Arthur Barreto, empreendeu após os 60 anos

“Não dá para ficar parado: primeiro porque é chato, segundo porque a aposentadoria é irrisória”, diz o engenheiro carioca Arthur Barreto, 64 anos.

Depois de 40 anos na Petrobras, ele esperava ter uma boa aposentadoria. Mas o rombo no fundo de pensão da petroleira esmagou os rendimentos de seus beneficiários, entre eles Barreto, que abriu uma startup para lançar um software que controla o consumo de combustível no transporte marítimo e coibir o desvio de diesel, um problema recorrente no setor. “Abrir uma startup, agora, nessa altura da vida, para mim, está sendo como ter um filho”, diz ele.

Muita gente com mais de 60, 70 anos vem empreendendo no Brasil. “Essa geração que está envelhecendo agora fez muitas mudanças no mundo”, diz Layla Vallias, cofundadora da Hype60+, consultoria especializada nessa faixa de consumidores. Muitos sobreviveram à Segunda Guerra Mundial, viram a emancipação das mulheres, o movimento hippie, o surgimento da cultura de massa. “Eles provocaram muitas mudanças. Não seria agora, na velhice, que eles deixariam de inovar”, acrescenta.

As vantagens do empreendedorismo após os 60

Sergio Duque Estrada. embaixador da Aging

“Os empreendedores com mais de 60 anos têm uma grande vantagem competitiva”, diz Sergio Estrada, embaixador da Aging 2.0 no Brasil e diretor-geral da aceleradora de negócios Ativen Envelhecimento Ativo. “Eles têm experiência, não se afobam diante dos problemas pois já resolveram vários deles ao longo de suas vidas”.

Como embaixador da Aging 2.0 (uma rede organizada em 25 países, incluindo o Brasil, para identificar tecnologias e novos produtos focados no público 60+, patrocinada por empresas como Uber, Google, P&G, Amazon), Estrada esta constantemente em contato com startups que focam num envelhecimento ativo. “Na minha visão, as startups que têm entre os participantes pessoas 60+ levam vantagem pois, além de entender melhor a dor desse público alvo, a pessoa mais velha, pelo que percebo, é mais comprometida com o negócio. O jovem sabe que pode tentar de novo outras empreitadas várias vezes ainda. Mas para o mais velho, aquilo tem que dar certo.”

A pesquisadora Marta Pessoa

A pesquisadora Marta Pessoa, 65 anos, é um bom exemplo disso. Paraibana, ela mora no Rio de Janeiro, onde é mestre em informática e dá aulas. No entanto, ela nunca perdeu o contato com sua babá, que ainda mora em João Pessoa. “Ela é da família. Já está com 90 anos e há dez anos perdeu muito da autonomia depois de uma queda”, conta Marta. Querendo acompanhar à distância o dia a dia, consultas médicas e o cuidado com a sua babá, Marta se juntou ao departamento de informática da Universidade Federal da Paraíba para criar um robô assistente, que ela batizou de “RobOld”. “É um trocadilho infame. Mas o robô, equipado com um tablet e ligado à internet, funciona muito bem. Posso acompanhar todo o cuidado a ela daqui do Rio.”

Agora, Marta busca investidores que queiram produzir e comercializar a ideia. “No Estados Unidos, esse tipo de robô já existe. Mas importar seria caro demais. E, ao meu ver, precisamos trazer mais tecnologia para a velhice e ao mesmo tempo baratear o custo de envelhecer.”

Preconceito contra os mais velhos

Existe, porém, algum preconceito contra os empreendedores com mais de 60 anos. A paulistana Veronique Forat, 62 anos, trabalhava em agências de publicidade quando decidiu abrir sua própria startup, um site chamado Morar.com.vc. No início, era uma rede voltada para pessoas com mais de 60 que desejavam encontrar gente para morar junto e formar uma espécie de república. O site conecta tanto os moradores quanto os donos de imóveis. Mas Veronique logo viu que havia gente mais jovem interessada em buscar companhia para dividir moradia e abriu o projeto para todas idades.

Hoje, com dois anos de funcionamento, o site tem 1.500 cadastrados. Mesmo assim, Veronique encontra dificuldade em conseguir investimento para expandir o negócio.  “Percebi que o ‘idadismo’ é o último bastião do preconceito. Por um lado, ser a ‘tiazinha’ da startup me dá mais visibilidade, o que é bom. Mas por destoar do perfil dos ‘startupeiros’, na maioria homens na casa dos 30 anos, muita gente desconfia, não me leva a sério, acha que não entendo de tecnologia.”

 

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