Descortinando o medo: uma crônica real sobre como transformar o medo em oportunidade


13.11.2015

Há alguns dias eu escrevi um texto baseado no conceito da cura e do despertar (Integrando luz e sombra: a combinação entre o curar e o despertar) e nele trouxe a ideia de que para podermos lidar com uma emoção ou situação de cunho pessoal não resolvida, precisávamos passar pelos seguintes passos: reconhecer, aceitar para, então, poder integrar.

O objetivo desse texto é utilizar a abordagem do “reconhecer”, “aceitar” e “integrar” para mostrar como podemos lidar e “superar” nossos medos e farei isso expondo uma crise relativamente recente que tive ao descobrir o meu grande medo e como fiz para “descortiná-lo”.

Nunca tive medo do escuro, de filmes de terror, de “espíritos”, de animais, dos esportes radicais, de viajar sozinha ou passear por ambientes “inseguros”, de ficar sozinha ou até passar a vida sozinha, de perder pessoas queridas, de me perder ou até de morrer.

Alguns amigos falavam que essa minha suposta falta de medo beirava a loucura, eu adorava, pois achava que isso era sinônimo de coragem. Que ser uma pessoa corajosa era não ter medo.

Eu ria e zombava do medo…. mal sabia o quanto ele sempre esteve presente, rindo e muito dentro de mim.

Até que eu decidi que queria fazer uma transição de carreira. Eu já tinha feito algumas, começado minha carreira em consultoria estratégica, migrado pra marketing e depois para consultoria de desenvolvimento humano. Mas desta vez era diferente, pois eu não ia apenas mudar a “especialidade”, mas deixaria de ter um emprego, para virar autônoma e criar o meu negócio, o The Sun Jar.

Como boa estrategista, no momento que tomei a decisão eu criei um plano e fui seguindo passo a passo até chegar o momento de me demitir e lançar o negócio.

Eu fui precavida, passei alguns anos fazendo atendimentos de coaching em paralelo ao meu emprego formal, guardei um dinheiro considerável e deixei todo o negócio pronto e bem formatado antes de me demitir. O que significa que no momento de minha demissão eu já estava com clientes de coaching suficientes para pagar minhas contas, mas assim mesmo, tinha dinheiro para viver alguns anos com o mesmo nível de vida, mesmo sem ganhar um tostão e sabia que, se depois de um tempo eu percebesse que as coisas não tinham dado certo, pelo meu histórico profissional, eu conseguiria me recolocar no mercado.

Ou seja, na teoria, eu “não tinha nada a perder” e nenhum motivo “aparente” para ter medo. Eu fui contudo, no momento programado, me demiti.

E, em menos de duas semanas depois, adivinha?

Eu estava sentindo algo que nunca achava ter sentido antes, se eu fosse colocar dentro das emoções que eu acreditava ter vivido eu diria que era uma mistura de ansiedade, com angústia, uma sensação de paralisia e excessivo questionamentos de “e se?”.

Até que… eu entrei na primeira etapa do processo: Reconhecer.

  • 1) Reconhecer: conscientemente se dar conta que aquilo estava ocorrendo conosco.

Deitada na cama, prestes a iniciar mais uma noite de inquietação e insônia, eu virei para o meu namorado e disse: “Amor, estou com medo. Não é pouquinho medo. Estou com muito medo. Estou paralisada, apavorada, nunca senti isso antes. Mas preciso admitir, estou com medo”.

Por vezes, estamos tão alienados de algo em nós, ou nos auto-boicotamos de forma tão intensa, que nem conseguimos nos dar conta que estamos vivendo algo.

Para mim, ser “corajosa” era não ter medo, eu me achava uma pessoa “corajosa” e por isso, não era alguém que tinha “medo”. Eu passei anos alienada, mas dessa vez, veio com tanta intensidade, que eu acabei por reconhecer aquilo em mim.

  • 2) Aceitar: escolher encarar aquilo de frente, perceber que aquilo não vai sumir ao ser rejeitado, mas que pode ser assimilado.

A partir do momento que eu reconheci eu poderia simplesmente negar aquilo. Me alienar espiritualmente dizendo que o “medo não existe e é uma mera ilusão da minha consciência” ou até querer brigar com o medo, com aquele típico comportamento: “eu quero controlar meu medo”, “quero que meu medo suma” e, então, utilizar de artifícios para não sentir esse medo, em outras palavras, tampar o sol com a peneira.

E eu tentei ao máximo que pude negar, inventei milhares de formas pra tapear aquele medo que sentia. Racionalizei ao extremo procurando me autoconvencer de que apesar de eu estar sentindo medo e saber disso, aquilo era tão incabível que deveria desaparecer já. Tentei controlar o meu medo… mas a cada tentativa, ele vinha cada vez mais forte, me deixando apavorada com o dia de amanhã e até arrependida da minha decisão sem mal ter iniciado a vivê-la.

Eu sabia que rejeitar uma emoção não era a solução, sabia que precisava senti-la, vivê-la, compreendê-la e abraçá-la. Já tinha feito isso inúmeras vezes com diversas emoções, mas eu estava num nível de desconexão com o medo tão grande, que isso parecia impossível.

Me convenci de que as tentativas de rejeição tinha sido inúteis e resolvi aceitar. E para aceitar aquilo, eu precisava assimilar.

Passei, então, por um lindo e muito doloroso processo de “descortinar” o meu medo (vou tentar descrever de forma resumida um processo que demorou semanas).

Eu comecei por me perguntar do que eu sentia medo.

A primeira resposta foi medo de não ganhar dinheiro e não ter como me sustentar, que se eu fosse bilionária, não estaria com medo.

O que aconteceria se eu não ganhasse dinheiro?

Em termos práticos de subsistência, eu terei de usar o dinheiro que guardei para pagar contas até ele acabar, mas antes disso poderia ver um emprego, o problema é que eu teria fracassado na minha tentativa de tirar um grande sonho do papel.

E por que seria ruim fracassar?

Pois as pessoas gostavam de mim por eu nunca fracassar, por independentemente da loucura que eu inventasse, eu sempre dar um jeito de fazer as coisas acontecerem, eu era a pessoa que fazia de loucuras uma realidade viável, se dessa vez não fosse viável, as pessoas iam me rejeitar e eu não saberia lidar com a rejeição.

Realmente as pessoas me amavam pelos meus não fracassos ou pela pessoa que eu era? Eu nunca tinha por motivos menores desapontado outras pessoas e nem por isso elas haviam deixado de me amar?

Eu já tinha desapontado amigos e nem por isso eles deixaram de gostar de mim, já tinham tantas vezes me revoltado com meus pais e mesmo assim eles pareciam me amar, já tinha deixado ex-namorados tristes, mas isso só fez crescer a nossa amizade. Mas ali era diferente, pois nessas outras situações eu tinha “fracassado” com expectativas alheias e não com objetivos que eu tinha me colocado.

Ah, então estou realmente está me importando com as expectativas alheias, ou com o fato de me perceber como alguém incapaz, alguém “tão ruim” que não consegue cumprir os próprios objetivos?

É talvez não sejam os outros que não me amem pelo que sou, talvez seja eu que não me ame, que não aceite certos aspectos em mim, que julgue o meu próprio valor pelas minhas realizações externas e não por quem eu sou.

Quando eu percebi isso, eu cai no choro. Meu medo era fruto de uma falta de amor próprio. Eu tinha ali desconstruídos diversas crenças e tudo isso graças ao fato de aceitar o meu próprio medo.

  • 3) Integrar: uma vez assimilado, perceber aquilo como parte de nós, sendo capaz de abraça-lo e integrá-lo em nosso ser de forma saudável e natural

A partir daquele momento, eu vi que deveria trabalhar a minha auto aceitação. Entendi como o medo fazia parte da mim e da minha vida, percebi que eu poderia sim sentir medo muitas outras vezes e isso não era um problema.

O medo é um sentimento natural nosso e toda vez que passarmos por algo que nos tira de nossa zona de conforto, a tendência é sentir medo.

Ser corajoso não é não ter medo. Mas mesmo tendo medo, ser capaz de lidar com ele e não permitir que ele te impeça de seguir.

por: Gabi Picciotto 

Fundadora do The Sun Jar e Co-criadora do Curso Integral Way, Gabi é Master Coach Integral, especialista em propósito de vida e na utilização da abordagem integral como alavanca de mudanças sustentáveis em pessoas e organizações. Atualmente, atua como coach, palestrante e consultora integral apoiando pessoas e organizações no alcance de uma vida mais plena e com sentido. 

tags: autoconhecimento, coaching, espiritualidade, Gabi Picciotto,

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