Somos entes humanos vazios


Pergunta: Minha vida é um ajustamento constante com meu marido, com meus parentes. Julgava-me feliz; mas depois de lhe ouvir, a gelidez de minha vida me foi revelada. Que vantagem há em lhe escutar, se o que você diz não traz luz para minha vida ordinária, de todos os dias? 
 
Krishnamurti: Não é importante nos despojarmos de todas as nossas ilusões? Não é importante compreendermos o que somos, compreendermos os sucessos do mundo? Não podemos compreender se adotamos um ponto de vista socialista, comunista, capitalista, ou religioso; precisaremos ver os fatos como são. Podemos então fazer alguma coisa com relação a eles. Se vivemos, porém, num mundo ilusório e olhamos os nossos vários problemas através da ilusão, não há então solução para os mesmos.
A questão parece ser esta: — Deve uma pessoa se despojar de suas ilusões para se ver exatamente como é? Não acham necessário se ter conhecimento, se estar consciente dessa gelidez? Afinal, somos entes humanos que vivemos sem alegria, sem felicidade, tristes, e explorando os outros. Tal é o nosso estado real: utilizando os outros, para nosso preenchimento, nos preenchendo no estado, no partido ou na ideia. Somos entes humanos vazios. Interiormente, estamos muito sós, cheios de medo, na dependência de tantas pessoas, de tantas ideias, e não temos amor; eis o que somos na realidade. Não podemos olhar este fato e não devemos ter conhecimento dele? Podemos evitá-lo? Procuramos evitá-lo, frequentando cinemas, lendo livros, nos entregando a atividades diárias; mas persiste o fato de que, atrás de todas as nossas atividades, somos entes humanos estúpidos, infelizes, vivendo em condições deploráveis. Não importa se fazer frente a esse fato, sabermos exatamente o que somos? Quando sabemos o que somos de fato, que acontece então? procuramos alterar o fato, produzir, conscientemente, uma modificação. Compreendem, senhores, o que estou dizendo?
Vivemos num mundo de fugas, num mundo de ilusão coletiva; fugimos das coisas tal como são; e quando alguém nos as mostram e nos faz ver a sua realidade, dela não gostamos. Procuramos então fazer algo com relação ao que é, à realidade; isso também significa criar resistência, também significa fugir. Tal é, pois, o nosso problema. Se vejo que estou só, que sou anti-social, ávido, que tenho medo, desejo alguém que me diga o que devo fazer. Se tenho conhecimento de minha avidez, se dela estou consciente, minha reação imediata é sobre ela atuar, fazer algo com relação a ela. E ponho, assim, novamente em movimento a cadeia contínua — que é “fazer alguma coisa”, “criar resistência”. Entretanto, se eu puder encarar a avidez, ficar com ela, “conviver com ela”, me enfronhar em todos os seus meandros, terei então a possibilidade de transcendê-la. Mas enquanto eu tiver o desejo de atuar sobre o que sou, nunca serei capaz de modificá-lo. Estou só, tenho medo, sou infeliz; se eu puder olhar esse fato sem a compulsão de espécie alguma, sem nenhuma interpretação, se produzirá, então, uma revolução inconsciente.
Queremos agir constantemente, e nossa ação consciente é muito limitada; porque nossas mentes estão condicionadas. Não importa de quem seja o pensamento, todo pensar é condicionado, todo pensar é reação; e o pensamento não é produtivo, o pensamento não cria a liberdade. A liberdade se produz quando a mente consciente está tranquila, quando todo o nosso ser está tranquilo em presença do fato — do fato da solidão, do fato do temor, do fato de que odeio, do fato e que sou ambicioso. Quando a mente está silenciosa, em presença do fato, há então, uma revolução inconsciente. A revolução está na libertação da energia criadora. Essa revolução é de essencial importância para a formação de uma sociedade criadora. Mas, nunca chegamos a esse ponto; queremos sempre fazer algo com relação ao fato — o fato de que sou infeliz, de que estou deprimido, de que sou ambicioso. No momento em que reconheço o fato, minha mente começa a atuar sobre ele com o fim de modificá-lo, controlá-lo, moldá-lo. Assim é a mente.
A mente consciente nunca encara o fato e jamais “fica com ele“, sem o desejo de alterá-lo, modificá-lo. A verdadeira compreensão está no ver a coisa tal como é. Asseguro-lhes a revolução do inconsciente, se dará, então, a revolução não depende de “motivos”. Tal é a única revolução verdadeira; pois nessa revolução há a liberação da energia criadora, da potência criadora que é amor.
Juddu Krishnamurti em, Autoconhecimento – Base da sabedoria
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