Nívea Maria: “Tudo termina. Nada é definitivo” – Edição 661 (10/05/2013)


  • LAÍS RISSATO; FOTOS DE STEFANO MARTINI

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Em 2002, após o fim de seu casamento de 27 anos com o diretor Herval RossanoNívea Maria, 66 anos, redescobriu-se. Mesmo na dor, a atriz cresceu e percebeu que era possível, sim, viver bem e sozinha, algo até então impensável para ela, que aprendeu na marra a administrar a própria vida. “Eu ficava no meu castelo de princesa, como costumo dizer: tinha um marido legal, uma estabilidade financeira, uma carreira de sucesso. Era uma princesinha com proteção. Agora, eu vou à luta e aprendi a ter minhas defesas”, diz.

Como parte dessa reinvenção, Nívea, no ar como a Isaurinha da novela Salve Jorge, da TV Globo, também pôs em prática seu lado empreendedor e abriu o restaurante Dois em Cena, no Rio de Janeiro, administrado pelas filhas, Vanessa, 33 anos, da união com Herval, e Viviane, 40, do casamento com o ator Edson França, com quem também teve Edson, 45. Hoje, ela mora com o filho e fala sobre a relação dos dois. Guia turístico, o rapaz tem fobia social, mas o transtorno de comportamento encontra-se amenizado, para felicidade de Nívea. “Ele tem um pouco de dificuldade no comportamento social”, diz. “Mas é muito inteligente e, com a idade, terapia e medicação, esses sintomas melhoraram muito”, comemora a atriz.

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QUEM: Você se acha parecida com a Isaurinha?
NÍVEA MARIA:
 O meu lado avó é. Ela tem muito carinho com a neta, assim como eu adoro os meus netos. Com eles, fico mais disposta, com outra energia, aprendo muito. Outra coisa que eles me fizeram ter foi um iPad. Comecei a entrar na tecnologia moderna (risos). E a Isaurinha representa muitas mulheres da minha faixa etária, com boas condições financeiras e que tiveram um momento de crise no casamento.

QUEM: Tem a força dela?
NM: 
Tenho, porque, assim como qualquer ser humano, passei por crises existenciais, profissionais. Também tive uma crise no meu relacionamento afetivo com o Herval, que eu soube administrar muito bem quando me separei. Foi uma coisa meio surpreendente porque eu não queria me separar, mas tive que aceitar a situação e enfrentar a vida sozinha.

QUEM: Como foi esse momento?
NM: 
Fiquei meio perdida, sem entender muito bem como seria minha vida. A gente vivia bem e uma separação é sempre muito dolorosa. Ao mesmo tempo, na carreira, eu também não estava muito satisfeita, achava que estava me repetindo. Aí, tive uma grande alavanca, que foi o convite do Jayme Monjardim para fazer A Casa das Sete Mulheres (2003). Esse trabalho foi fantástico porque redescobri o prazer de interpretar, a personagem era uma mãe má, que batia nas filhas. Na época, fui morar sozinha com meu filho, Edson, e passei a levar uma vida mais ativa.

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QUEM: Por que vocês se separaram?
NM: 
Dois anos antes de nos separarmos, ele teve uma parada cardíaca e ficou sem respirar antes de ser socorrido. Isso afetou alguma coisa na cabeça dele, foi quase um ano em casa sem poder trabalhar, numa cadeira de rodas. Quando estava em recuperação, seu comportamento mudou, ele ficou revoltado porque não podia ter o mesmo ritmo de antes. Então, o Herval ficou de mal com o mundo – e o mundo me incluía. Foi aí que o casamento começou a ficar difícil. Ele se esquecia das coisas, dizia que eu não dava mais beijos nele como antigamente e não suportava essa impotência diante da vida. Tive que assumir quase toda a administração da casa. Ele não tinha condições, mas era o tipo de homem que não dava o braço a torcer.

QUEM: A atriz Mayara Magri, com quem Herval se casou em 2005, disse que já tinha se envolvido com ele quando ela tinha 22 anos e vocês ainda eram casados.
NM: 
Isso foi uma coisa muito desagradável que ela fez. Mas eu não alimentei aquilo. Se foi verdade ou mentira, não quis saber. Talvez até imaginasse, porque imaginei com várias outras atrizes, mas não tive uma confirmação. Se aconteceu algo antes, não afetou em nada, tanto que ficamos 27 anos juntos.

QUEM: Foi feliz no casamento com ele?
NM:
 Fui muito feliz. Ele foi o meu grande amor e está presente até hoje na minha vida, com meus filhos, meu trabalho, com a figura masculina que representou para mim. Ele era muito intenso em tudo. No sexo, no amor, na curiosidade diante das coisas.

QUEM: Conseguiu perdoá-lo?
NM: 
Nunca tive raiva e com certeza o perdoei. Fui ao enterro de Herval (ele morreu em 2007) e fiquei muito triste de ver tão poucos colegas. Mas, por vontade própria, ele se afastou muito das pessoas, principalmente da Globo, onde sempre foi querido. Ele faleceu sem merecer as honras e a importância que teve para a televisão brasileira.

QUEM: Depois dele, não se relacionou com mais ninguém?
NM: 
Não. Claro que algumas pessoas se aproximaram e fiquei envaidecida, mas até hoje não bateram aquelas borboletinhas no estômago.

QUEM: Já fez terapia?
NM: 
Fiz antes de me casar com o Herval, durante 11 anos, para entender, por exemplo, o meu filho. Ele apresentava um comportamento quando era adolescente que eu não entendia, teve o problema das drogas pelo qual ele passou, aos 14 anos.

QUEM: Que drogas?
NM: 
Ele usou maconha. Não teve consequências drásticas e não durou muito tempo. Ele parou sozinho, fez terapia e até hoje é muito fechado.

QUEM: Por quê?
NM:
 Edson não tem uma vida social muito ativa, sente-se melhor no núcleo familiar e tem um pouco de dificuldade no comportamento social, tipo uma fobia social. Mas é muito inteligente e, com a idade, terapia e medicação, esses sintomas melhoraram muito. Ele mora comigo e trabalha como guia turístico.

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QUEM: No que mais a terapia a ajudou?
NM: 
Eu não sabia lidar muito bem com o sucesso, ficava envergonhada, não entendia por que tinha aquela euforia em torno de mim. Também me ajudou com meus filhos. Eu trabalhava muito, Viviane ficava muito ressentida com minha ausência, eu não sabia administrar tudo isso.

QUEM: Você acredita que a dor ajuda no crescimento pessoal?
NM:
 Qual ser humano que não passa por várias crises? Estou aqui, saudável, inteira, feliz, então, a dor deve dar uma ensinada, sim, faz a gente crescer e compreender as coisas de outra maneira, alertar que tudo termina. Nada é definitivo.

QUEM: Os bons papéis na TV tornam-se mais raros com a idade?
NM: 
A teledramaturgia está voltada para os conflitos dos jovens, das relações amorosas e comportamentais deles. Há muito pouca discussão sobre a maturidade, digamos assim. A não ser quando aparece uma mulher mais velha com um homem mais jovem, uma mulher madura que seja alcoólatra, que tenha relação com drogas. E não é sempre que as histórias contêm esses personagens. Antigamente, eu era um pouco mais fechada, esperaria as pessoas se aproximarem de mim. Hoje, me ofereço para fazer as coisas. Na época em que era casada com o Herval, isso não acontecia. Eu ficava no meu castelo de princesa, como costumo dizer: tinha um marido legal, uma estabilidade financeira, uma carreira de sucesso. Era uma princesinha com proteção. Agora, eu vou à luta e aprendi a ter minhas defesas.

QUEM: A imagem de protagonista romântica da novela A Moreninha (1975) limitou seus personagens?
NM:
 Às vezes, sim. Minhas personagens não tinham sensualidade. Mas o (diretor) Luiz Fernando Carvalho me deu uma personagem numa novela (Vida Nova, em 1988) em que fiz uma italiana voluptuosa. Descobri essa sensualidade, vi que era possível. Mas a gente não pode deixar que nossa imagem fique engessada, por isso busquei personagens diferentes no teatro, como uma homossexual em uma peça (As Lobas, em 1996), fiquei nua em outra (Na Sauna, em 1989).

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