Dez sinais de que está numa relação tóxica — e como isso pode destrui-lo


Nem sempre é fácil perceber onde fica a linha do que é ou não aceitável. Três terapeutas de casais respondem.

Predominar o “tratamento de silêncio” ou perder a esperança são sinais alarmantes

SCOTT RODGERSON/UNSPLASH

Afinal o que é uma relação tóxica? Diz-nos o dicionário que tóxico é algo que “causa efeitos nocivos”. É uma definição simples, é verdade, mas no final resume-se tudo a isto. Um relacionamento tóxico é aquele que não nos faz bem. Que é disfuncional. Que não nos faz felizes.

E isso traduz-se em muitas coisas. Da crítica à manipulação, do ciúme exacerbado ao conflito, da falta de respeito e aceitação do outro a um claro desequilíbrio de poder. Infelizmente, para quem está dentro de uma relação nem sempre é fácil entender o que se está a passar — seja porque o bom e o mal se misturam e se tornam conceitos difusos, seja porque já se perdeu a noção do que é ou não aceitável.

A MAGG pediu a três terapeutas de casais que nos dissessem quais são os sinais de que está numa relação tóxica — bem como quais são os efeitos físicos e psicológicos ou se há salvação para um relacionamento destes.

Há uma pessoa mais importante do que outra na relação

Quando há um desequilíbrio claro na relação e só um dos lados é que parece ser relevante, estamos perante um grave problema. “Não há um sentido de ‘equipa’, que pressupõe que os dois elementos do casal se empenham na prossecução de objetivos comuns”, explica Rita Fonseca de Castro, psicóloga clínica e terapeuta conjugal na Oficina de Psicologia. Da mesma forma, se os objetivos individuais não são reconhecidos e partilhados pelos dois, podemos estar perante uma relação tóxica.

Ele não gosta de mim como sou

Este ponto está relacionado com o anterior. Se um dos membros da relação se impõe sobre o outro, o que fica para trás vai sentir que não é suficientemente bom. “É importante refletir se existe espaço no relacionamento para nos expressarmos, para dizer o que pensamos e sentimos, do que necessitamos para sermos mais felizes”, afirma Manuela Silveira, terapeuta familiar e de casal. Portanto, se podemos ser tal como somos, sem medo de críticas.

Se constatar que teve que mudar de tal forma para continuar na relação que já não se reconhece a si próprio, então este pode ser um sinal de que poderá estar num relacionamento tóxico”.

Como perceber se isto já atingiu níveis tóxicos? “Se constatar que teve que mudar de tal forma para continuar na relação que já não se reconhece a si próprio, então este pode ser um sinal de que poderá estar num relacionamento tóxico”.

Vive num clima de tensão constante

Outro sinal muito claro surge quando as discussões são frequentes, violentas. Quando gritam de forma descontrolada, ameaçam o outro, ou até partem para a agressão. Quando “o objetivo parece ser dominar o outro apenas pela violência física ou psicológica”, explica a terapeuta de casal Catarina Mexia. Tudo isto são sinais de que a relação se tornou tóxica.

Quando ganha o “tratamento de silêncio”

Se o casal entrou numa fase em que se evita mutuamente, seja no campo do afeto, diálogo ou partilha, então há problemas sérios no relacionamento a resolver. “É uma forma passivo-agressiva de relação que, depois de se instalar, só tende a piorar com a passagem do tempo”, explica Rita Fonseca de Castro.

O ciúme intenso é constante — e já evita certas conversas ou saídas

Essencialmente, se já está a mudar os seus comportamentos com o intuito de “evitar problemas”. “São aquelas pessoa que antes mesmo de lhe perguntarem onde vão já estão a informar, tipo relatório de como será o seu dia, não com o intuito de partilhar mas de ansiosamente prevenir a sanção e mal-estar do parceiro”, explica Catarina Mexia.

“Se se sente como objeto de posse por parte do seu parceiro, controlado nos seus movimentos e sem direito a nenhum tipo de privacidade, então poderá estar numa relação amorosa tóxica”, acrescenta Manuela Silveira.

Há mais aspetos positivos ou negativos?

“Se ao colocar nos pratos da balança os aspetos e momentos da relação, os negativos forem em maior número, e mais intensos do que os positivos, então, não está a viver uma relação feliz e satisfatória”, explica Manuela Silveira. Seja prático e faça uma lista. Há mais pontos a favor ou contra?

Está a ficar cada vez mais isolado

É o chamado controle acentuado com isolamento social progressivo. De repente, dá por si cada vez mais longe da família e dos amigos, tudo por culpa do parceiro.

“É muito característico ouvir estes casais referirem que deixaram de se dar com os amigos, e não pelas razões mais comuns como as profissionais ou o aparecimento dos filhos, mas porque um dos elementos se incompatibilizou ou mostrou claramente desagradado com os amigos do outro”, diz Catarina Mexia. “Esta é uma situação de alerta pois é fundamental que o elo mais fraco destas relações não perca a sua rede de suporte com familiares e amigos.”

Falta de esperança

Não é um bom sinal quando deixa de acreditar na relação porque essencialmente perdeu a esperança. “Por mais que se tentem estabelecer interacções positivas com o parceiro, parece que é sempre em vão e que a energia negativa acaba inevitavelmente por se sobrepor”, explica Rita Fonseca de Castro.

Existe uma dependência emocional do outro e da relação

Uma coisa é sentir que precisa do outro. Outra coisa completamente diferente é achar que não consegue viver sem ele, que mais vale aceitá-lo com os seus defeitos porque o que vier a seguir pode ser pior.

Querer controlar as redes sociais do parceiro

“Com as novas tecnologias, uma das questões que ganhou muita atualidade é a que se prende com a invasão de privacidade como prova de confiança e transparência”, explica Catarina Mexia. Isto traduz-se, por exemplo, na exigência de conhecer todas as passwords, desde o computador até à conta de Facebook. “É só mais uma forma de desrespeito pela individualidade do outro.”

Como é que uma relação tóxica nos afeta psicologicamente

As principais consequências de uma relação tóxica estão relacionadas com a auto-estima. “Quando a humilhação e desvalorização são muito acentuadas, pode desenvolver-se a crença de que, de facto, não se merece ter uma relação e um companheiro melhores, de que não se tem valor suficiente para tal”, explica Rita Fonseca de Castro. “Muitas vezes, é precisamente este tipo de assunção que leva a que se permaneça em relações tão insatisfatórias por muito tempo.”

O desgaste é profundo. Porque é exatamente disso que se trata — estar “num relacionamento tóxico acarreta um grande dispêndio de energia, levando à presença de uma constante sensação de frustração e de cansaço”, diz Manuela Silveira. Isso vai afetar outras áreas da vida do indivíduo, desde a sua vida social até à profissional.

Há mais. A ansiedade, stresse e depressão são consequências de uma relação tóxica, bem como uma visão distorcida daquilo que é o afeto e o auto-cuidado — “por isso levam muito tempo a perceber que não são cuidados nestas relações”, adianta Catarina Mexia.

E fisicamente? Há consequências de uma relação tóxica?

A resposta é sim. De acordo com Rita Fonseca de Castro, o sofrimento emocional e psicológico pode levar a várias queixas somáticas, como o cansaço, fadiga e dores de cabeça. Manuela Silveira acrescenta que os estudos revelam “que, quanto mais disfuncionais são os relacionamentos amorosos, maior é a probabilidade de se desenvolverem algumas doenças, destacando-se os problemas cardíacos.”

É possível transformar uma relação tóxica numa relação saudável?

É. Só que os dois elementos do casal têm de ter consciência do estado da relação e estar dispostos a trabalhá-la. “Muitas vezes, a ‘toxicidade’ demorou anos a instalar-se e é já o único modo de funcionamento conhecido, tendo-se tornado a ‘zona de conforto’ do casal”, explica Rita Fonseca de Castro. “Mais do que pensar em transformar uma relação tóxica numa relação saudável, prefiro pensar na construção de uma nova relação”.

No fundo, é disso que se trata. “É preciso rescrever a história e a narrativa do casal, mudar o seu modo de funcionamento e dinâmica”, diz Manuela Silveira. “A ser viável, é crucial fazer com o casal um processo de redescoberta, de si, do outro e da relação, enfatizando-se as forças e características positivas”.

Só não vale aceitar as coisas como são. “Nunca adoptar o adágio ‘mais vale um mal conhecido…’ é talvez o primeiro passo”, garante Catarina Mexia.

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