A Felicidade Estrutural


A Felicidade Estrutural

Foto: Diego Bresani

Foto: Diego Bresani

Aristóteles, o filósofo grego, disse que, para ser feliz, o homem tem que ter saúde, liberdade e boa condição socioeconômica. Vista assim, a felicidade é uma questão de justiça social e, portanto, política.

Por isso, faz sentido que a peça que está sendo montada pelo diretor e dramaturgo Alexandre Ribondi com atores da Cidade Estrutural, em parceria com o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), tenha justamente como título a palavra (e o desejo de) Felicidade.

O espetáculo, que está sendo preparado há dois meses, com ensaios na própria Cidade Estrutural, fala sobre a exclusão social. “Os atores têm a experiência de viverem, todos, numa das cidades mais pobres e esquecidas pelo poder público no Distrito Federal e são homossexuais.

Isso significa ser duplamente excluído”, afirma Ribondi que há mais de 10 anos sonha com montar essa peça e que, agora, finalmente, com a parceria do Inesc e com verba do Fundo de Apoio à Cultura, do GDF, tem a possibilidade de lançar o projeto.

Márcia Acioli, assessora política do Inesc, também fala sobre a criação de uma obra teatral voltada à diversidade sexual. “Os temas relacionados à sexualidade e à identidade de gênero são cercados de tabus, de proibições, de silêncios.

Quando se trata de territórios de periferia temos por um lado pessoas generosas que lidam com quaisquer jeitos humanos e, por outro, encontramos uma dureza e um rigor fundamentados pelas igrejas que têm forte influência nas áreas. A sociedade influenciada pelas igrejas acaba condenando o prazer, a alegria, o afeto e a livre expressão de gênero”.

Os ensaios de Felicidade são objetivos e intensos. Os atores relatam suas vivências com relação aos possíveis perigos de morarem na Estrutural, de abuso sexual, de drogas e de mudanças nos papéis definidos de um casal.

Em seguida, Ribondi escreve os textos que serão interpretados. Além disso, a própria experiência dos ensaios serviu como assunto a ser apresentado no espetáculo. É o caso da noite em que o local de encontro do grupo foi apedrejado durante as duas horas e meia de trabalho.

“E não conseguimos ver quem dava as pedradas nem de onde viam”, conta o diretor que, em conjunto com os atores, resolveu que esse incidente seria uma das cenas de Felicidade.

“Uma das maiores dificuldades com relação à violência homofóbica é que ela é subnotificada, ou seja, não temos como oferecer um panorama preciso sobre esta violência porque muitas vezes não se registra a motivação da agressão, ou quando se registra, a apuração é demorada”. Para Marcia Acioli, essa situação é um dos grandes empecilhos para a solução das agressões.

O grupo se encontra duas vezes por semana e, para isso, Ribondi e o assistente de direção Morillo Carvalho percorrem as ruas estreitas e pouco iluminadas da cidade.

Antes do ensaio, porém, se encontram numa padaria para provarem uma das especialidades da casa: misto quente com ovo. É lá que eles preparam a alma e o corpo para mais uma noite de batalha contra o preconceito e o ódio.

No final do trabalho, os oito atores voltam juntos para suas casas. É uma estratégia para que não sejam vítimas de agressões.

Mesmo diante desse quadro, Márcia Acioli vê motivos para otimismo: “Meninos e meninas têm tido maior liberdade para exercer suas sexualidades e buscar a manifestação de suas identidades de gênero num movimento fluido sem a rigidez vivida pelos mais velhos. As novas gerações têm rompido com padrões cristalizados na sociedade; às vezes com alegria, muitas vezes com dor”.

“A felicidade é uma arma”, diz Ribondi, “Uma arma contra a violência, o medo, as fobias e a exclusão. Se não formos felizes, no estômago e no coração, os opressores terão vencido”.

A peça tem a produção de Elisa Mattos, da Desvio Produções. A foto é de Diego Bresani.

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