Um amigo aspie


O que a animação Mary e Max — Uma Amizade Diferente tem a ensinar

Fernanda Mendonça
Mar 11, 2016 · 3 min read

Personagens pálidos, repletos de defeitos, fora dos padrões. Assim são Mary e Max, protagonistas de uma animação inspirada em fatos reais que muito têm a ensinar aos adultos sobre as deficiências do ser humano.

Mary e Max — Uma Amizade Diferente (Austrália, 2009, Adam Elliot) conta a história de Mary Dinkley, uma solitária menina de oito anos que vive na Austrália, e Max Horovitz, um judeu nova-iorquino de 44 anos que tem Síndrome de Asperger (uma variação do autismo).

A amizade entre duas pessoas aparentemente distintas começa quando Mary escreve uma carta para um endereço aleatório dos Estados Unidos a fim de saber a origem dos bebês. É por meio dessa carta que Max conhece sua primeira e única amiga — e essa amizade é correspondida por quase duas décadas.

São muitos os temas discutidos durante o filme: solidão, amor, amizade, obesidade, traumas infantis, interação social, diferenças sexuais e religiosas, alcoolismo, compulsão, pânico e o que é a Síndrome de Asperger. Apesar de tratarem sobre assuntos complexos e adultos, Mary e Max têm a inocência e simplicidade de criança.

Com um pai ausente e uma mãe alcoólatra, Mary vê em Max uma pessoa capaz de responder a todos os seus “por quês”. Entretanto, Max passa por um misto de sofrimento e alegria a cada carta recebida. Mary o faz lembrar-se de momentos angustiantes de sua vida, como o preconceito que sofria quando jovem. Devido a seu bloqueio em interpretar sentimentos, Max teve que superar seus limites para, de alguma forma, ajudar sua amiga.

“Ame-se primeiro”

Orgulhando-se de ser um “Aspie” (como carinhosamente se intitula), Max também ensina o que é aceitar-se. Apesar de os médicos o chamarem de incapacitado e tentarem o “curar”, o personagem acredita que cada um tem suas dificuldades, e deve aprender a lidar com elas. Afinal, seres humanos não são perfeitos — e isso pode ser provado por Mary, com seus óculos de grau, ou por seu vizinho, que sofre de gagueira.

O que Mary e Max têm a ensinar é que todos são capazes de superar seus limites se puderem compreender uns aos outros. Max teve a sensibilidade para perceber as angústias e tristezas de Mary. Ela, por sua vez, viveu a luta de compreender a mente de uma pessoa com a Síndrome de Asperger.

Mary e Max souberam respeitar suas diferenças e conseguiram achar pontos comuns para viverem uma grande amizade. Ser sensível com as diferenças, sejam elas diagnosticadas ou não: essa é a maior lição que Mary e Max — Uma Amizade Diferente tem a passar.

Revista Moviement

Cinema por quem não se contenta com os créditos finais.

Follow

7

7 claps

Fernanda Mendonça

WRITTEN BY

Jornalista, pós-graduanda em Estudos Cinematográficos e fundadora do Assiste Brasil (assistebrasil.com.br)

2 respostas
André Felipe Cardoso
André Felipe Cardoso, Conheço bem o autismo

Em primeiro lugar, é essencial entender que a Síndrome de Asperger faz parte do Transtorno do Espectro Autista. Ou seja, todo “aspie” (quem tem a tal síndrome) é autista, mas nem todo autista é “aspie”. Os aspies são os autistas com uma forma mais branda de autismo, possuindo um desenvolvimento intelectual normal, com um QI dentro ou até acima da média da população. No entanto, possuem características que inibem o pleno desenvolvimento e adaptação à vida social.

  • Socialização

O principal desafio é a socialização, já que o autista não possui “instinto” social. O que é óbvio para uma pessoa neurotípica, como olhar o interlocutor nos olhos, mudar o tom de voz, demonstrar expressões faciais adequadas e interpretar linguagem não-verbal, é muito difícil para quem sofre de Asperger. Eu compararia o processo de socialização com aprender matemática, o que, no entanto, ainda consideraria mais fácil. No entanto, o processo em si é bem semelhante: observar, induzir, praticar. Sem ter sido exposto a uma determinada situação social anteriormente, é quase impossível para o autista reagir conforme o esperado, o que gera estigmatização. Usualmente, interpretam-no como pedante e até arrogante.

Além disso, o desenvolvimento neurológico dos portadores de Asperger é distinto daquela das demais pessoas. Assim, não costumam ter os mesmos interesses das pessoas de sua idade. Desse modo, conversar sobre assuntos corriqueiros, como futebol e festas, e fazer fofoca são atividades árduas e fatigantes.

  • Sobrecarga

Tudo isso contribui para que o autista sinta-se isolado e tenso ao interagir com os outros. Mesmo quando ele tem alguma competência em socialização e consegue transmitir uma boa impressão, as interações com os outros são exaustivas, já que “vestir uma máscara” é algo desconfortável para o autista, diferente do que ocorre para os sociopatas, por exemplo.

Existem também problemas fisiológicos, como reações adversas a certos estímulos sonoros, óticos, etc. A epilepsia também afeta cerca de um a cada três portadores de Síndrome de Asperger, o que diminui a qualidade de vida desses portadores. Como sentem-se muito pressionados por estímulos externos, autistas costumam não gostar de locais tumultuados e barulhentos, preferindo ir a uma biblioteca a ir a uma boate, por exemplo. Obviamente, isso agrava o isolamento.

  • Isolamento

Como os autistas sentem estímulos com mais intensidade do que os indivíduos neurotípicos, eles sentem maior estresse no cotidiano, o que pode levá-los a agir de maneira excêntrica. Normalmente, eles se isolam e ficam refletindo sobre questões alheias que envolvam seus interesses. A própria etimologia da palavra “autista” vem de “autos” (para si) e “ismos” (filosofia, doutrina, prática).

  • Perfeccionismo

O autista costuma ansiar pela excelência e tem padrões bastante rígidos consigo e com os outros. Quando está muito focado em uma atividade, como em um jogo de computador, em matemática ou até em um esporte, o autista tem grandes expectativas que, se não forem atingidas, geram frustração. Isso agrava o distanciamento em relação às outras pessoas.

  • Depressão

Há uma propensão maior pelos autistas à depressão, seja por fatores sociais, como solidão e bullying, como por fatores fisiológicos, como problemas causados pela epilepsia, obesidade, etc.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s