Quais são os desafios diários de quem sofre da síndrome de Asperger?


2 respostas
André Felipe Cardoso
André Felipe Cardoso, Conheço bem o autismo

Em primeiro lugar, é essencial entender que a Síndrome de Asperger faz parte do Transtorno do Espectro Autista. Ou seja, todo “aspie” (quem tem a tal síndrome) é autista, mas nem todo autista é “aspie”. Os aspies são os autistas com uma forma mais branda de autismo, possuindo um desenvolvimento intelectual normal, com um QI dentro ou até acima da média da população. No entanto, possuem características que inibem o pleno desenvolvimento e adaptação à vida social.

  • Socialização

O principal desafio é a socialização, já que o autista não possui “instinto” social. O que é óbvio para uma pessoa neurotípica, como olhar o interlocutor nos olhos, mudar o tom de voz, demonstrar expressões faciais adequadas e interpretar linguagem não-verbal, é muito difícil para quem sofre de Asperger. Eu compararia o processo de socialização com aprender matemática, o que, no entanto, ainda consideraria mais fácil. No entanto, o processo em si é bem semelhante: observar, induzir, praticar. Sem ter sido exposto a uma determinada situação social anteriormente, é quase impossível para o autista reagir conforme o esperado, o que gera estigmatização. Usualmente, interpretam-no como pedante e até arrogante.

Além disso, o desenvolvimento neurológico dos portadores de Asperger é distinto daquela das demais pessoas. Assim, não costumam ter os mesmos interesses das pessoas de sua idade. Desse modo, conversar sobre assuntos corriqueiros, como futebol e festas, e fazer fofoca são atividades árduas e fatigantes.

  • Sobrecarga

Tudo isso contribui para que o autista sinta-se isolado e tenso ao interagir com os outros. Mesmo quando ele tem alguma competência em socialização e consegue transmitir uma boa impressão, as interações com os outros são exaustivas, já que “vestir uma máscara” é algo desconfortável para o autista, diferente do que ocorre para os sociopatas, por exemplo.

Existem também problemas fisiológicos, como reações adversas a certos estímulos sonoros, óticos, etc. A epilepsia também afeta cerca de um a cada três portadores de Síndrome de Asperger, o que diminui a qualidade de vida desses portadores. Como sentem-se muito pressionados por estímulos externos, autistas costumam não gostar de locais tumultuados e barulhentos, preferindo ir a uma biblioteca a ir a uma boate, por exemplo. Obviamente, isso agrava o isolamento.

  • Isolamento

Como os autistas sentem estímulos com mais intensidade do que os indivíduos neurotípicos, eles sentem maior estresse no cotidiano, o que pode levá-los a agir de maneira excêntrica. Normalmente, eles se isolam e ficam refletindo sobre questões alheias que envolvam seus interesses. A própria etimologia da palavra “autista” vem de “autos” (para si) e “ismos” (filosofia, doutrina, prática).

  • Perfeccionismo

O autista costuma ansiar pela excelência e tem padrões bastante rígidos consigo e com os outros. Quando está muito focado em uma atividade, como em um jogo de computador, em matemática ou até em um esporte, o autista tem grandes expectativas que, se não forem atingidas, geram frustração. Isso agrava o distanciamento em relação às outras pessoas.

  • Depressão

Há uma propensão maior pelos autistas à depressão, seja por fatores sociais, como solidão e bullying, como por fatores fisiológicos, como problemas causados pela epilepsia, obesidade, etc.

Guilherme Nunes
Guilherme Nunes, antigo Desenvolvedor Ruby on Rails (2015-2019)

Acho que a maior dificuldade é na socialização mesmo, e isso faz uma grande diferença na vida da pessoa.

Outras questões quanto à sensibilidade sensorial, que causa irritação ou incômodo, são totalmente tolerável porque é muito mais fácil você encontrar um lugar aconchegante, do que ficar tentando desvendar cada palavra que a pessoa está dizendo sem parar, e você não consegue entender quase nada.

Eu acostumei a conversar com as pessoas, mesmo não entendendo direito o que elas dizem, e sempre que ela faz um pequeno silêncio eu digo “aham”, como quem está concordando, e então a pessoa continua falando.

O problema disso é que quando as pessoas percebem que eu não estou entendendo direito o que elas dizem, ou se você não lembra de certa situação e a pessoa reclama “mas eu falei pra você aquele dia”, ou quando as vezes eu digo “aham”, mas na verdade a pessoa fez uma pergunta. Lol

Algumas vantagens,

  1. Você sabe muita coisa a respeito de alguma área em especial, e tem um interesse quase obsessivo pelas coisas das quais você gosta.
  2. Você visualiza uma tarefa em diversos níveis de abstração, e tenta fazer até que o resultado fique mais parecido da maneira que você idealizou no começo. (Isso também causa alguns problemas).
  3. Você tem uma facilidade de desconectar a fala da pessoa, dela própria. Porque quando você não entende o que a pessoa está falando, é muito mais fácil observar outras características que denunciam o que a pessoa realmente quer, é como se você pudesse ver através da máscara, entende?
  4. Você está muito bem quando está sozinho, e estar sozinho é uma das suas atividades favoritas. Devido ao estresse que a socialização pode trazer, evitar pessoas na verdade se torna um paraíso.
  5. Você tem uma empatia maior pela pessoa. Muito embora não consiga expressar ou compreender emoções de uma maneira natural.

Agora algumas desvantagens, e da importância de se buscar tratamentos:

  1. Nós vivemos em sociedade, e se a socialização é um problema pra alguém, isso invariavelmente afetará sua vida familiar, profissional e acadêmica. Você pode se tornar apático e se isolar.
  2. Você tem uma sensação muito estranha quando você está explicando algo para alguém, e você acha que esse alguém já sabe o que você quer dizer antes mesmo de terminar de explicar. O que você faz é falar, mas apenas uma parte da informação, e a outra parte é propositalmente omitida, mesmo que seja importante.
  3. Isso é parte de um dos sintomas que é basicamente quando existe apenas um lado da conversa. Isso dificulta conversas continuas, e normalmente acaba sendo um monólogo.
  4. Mesmo quando você é expert no assunto, você não consegue compartilhar o conhecimento, e nesse sentido as pessoas tem a impressão de que você não tem o perfil uma pessoa que “sabe das coisas”. Isso pode parecer corriqueiro, mas pense em como isso influencia na sua vida acadêmica e profissional, e provavelmente irá perder muitas oportunidades.
  5. Você pode desenvolver depressão e ansiedade. Se você sente-se forçado a participar da socialização, ou o ambiente de trabalho exige muito do seu empenho em se relacionar com as pessoas (por exemplo), isso pode criar um desgaste a longo prazo, se não for tratado.

Existem vários estudos sobre autismo, e essa ideia de que existe uma parte do cérebro que é responsável pelo convívio social, e que de certa forma acaba prejudicando o indivíduo, porque muitas das vezes esse espectro demora muito tempo para ser detectado, e nem sempre é tratado desde a infância. Mas a ciência está chegando perto de ajudar pessoas com essa, e muitas outras dificuldades físicas.

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