A literatura como cura


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Hoje gostaria de tratar de um assunto que me mobiliza e me comove: o efeito da literatura em nossas emoções. Ou melhor: o efeito que as obras literárias promovem em nossa psique. A leitura tornou-se fundamental na atualidade, pois possibilita desenvolver nosso senso de humanização, e de sobrevivência até. Ler nos permite estabelecer nosso lugar no mundo e em nosso tempo. Permite-nos entender as forças externas e internas que atuam sobre nós.

Durante minha graduação em Letras, realizava a leitura de obras clássicas, obrigatória, proposta pelos professores, que nos requisitavam uma abordagem técnica, evidentemente ligada aos estudos literários. Isso nos exigia um olhar mais distanciado sobre os textos, em que observávamos sua estrutura, a identificação dos temas, dos sentidos, dos dizeres peculiares dessas obras. De certa forma, alguns dos professores reforçavam a ideia de que deveríamos cuidar para não nos contaminarmos pelo texto, para não tratar de maneira subjetiva nossa leitura e interpretação sobre essas obras.

Ao mesmo tempo, isso não nos impedia de sermos influenciados diretamente pelas tramas das obras, tanto pela identificação com alguns temas, como também pela surpresa em encontrar elementos que nos conectam a vivências não nossas, mas que passamos a incorporar como nossas. Recordo-me do fato de ter lido o romance Angústia, de Graciliano Ramos: à medida que avançava na leitura da narrativa, meu humor começou a se alterar sensivelmente, primeiro para um estado de perturbação – irritação, falta de paciência, ansiedade – e foi se aproximando de outras sensações – tristeza, melancolia. Aliás, recordo-me agora de que um resfriado começou a insinuar-se à medida que avançava na leitura. Ainda assim, prossegui até o fim, tomado por essas sensações e, ao mesmo tempo, sentindo que havia ganhado algo, na época inominável, que foi se revelando uma maneira de detectar um aspecto de meus próprios padrões de comportamento. Havia alguma coisa advinda da matéria tratada pela narrativa: imiscuir-me nos pensamentos de Luís da Silva, e notar como isso me dizia profundamente um saber em estado bruto, é uma grande experiência que guardo comigo.

Também havia a necessidade de se ler histórias e poemas sem a obrigatoriedade do trabalho acadêmico, como forma de autoconhecimento e como forma de lidar com nossas próprias emoções. Então tive de tratar essas sensações com um antídoto. As fortes impressões que tive da obra do grande escritor alagoano foram balanceadas com a leitura dos Cem Sonetos de Amor, de Pablo Neruda.  Os temas dos poemas – o jogo amoroso, a partida, o reencontro – foram um lenitivo ideal para me tirar do estado de espírito anterior. Sou um otimista romântico – ou um obsessivo, como queira – não nego. Coincidência ou não, o mal-estar passou rapidamente.

O que me parecia um ponto de vista particular, pontualmente identificável com amigos próximos com quem compartilhava essa perspectiva, tornou-se atualmente um modo de abordagem terapêutico utilizado pela psicopedagogia, pela psicanálise e pela psiquiatria. Antes que você, leitor/leitora, acene com um muxoxo de reprovação por achar inicialmente que a literatura não pode se confundir com a autoajuda (o que ocorre frequentemente), pesquisas e iniciativas interessantes têm demonstrado o papel que a literatura pode exercer em processos terapêuticos variados.

Uma expressão dessa tendência, surgida entre os anos 1960 e 1970, é chamada ‘biblioterapia’, que consiste em sessões de leitura e comentário sobre obras escolhidas especificamente para proporcionar alguns efeitos, como em uma farmácia literária. Chegam-nos informações de que clínicas já atuam determinando listas de textos literários específicos para acompanhar o tratamento de cada paciente, ao conhecer o prognóstico e seus hábitos de leitura. É o que ocorre com a clínica lisboeta The Therapist, há algum tempo. A Universidade de Liverpool, no Reino Unido, também desenvolveu estudos sobre a implantação de grupos de leitura de obras clássicas aplicadas a pacientes diagnosticados com dores crônicas, em concomitância com psicoterapia. No Brasil, também temos algumas iniciativas semelhantes, como o projeto Literatura que Cura, dirigido pelo Instituto Chamaleon, que utiliza a literatura e a contação de histórias para promover a melhoria do desempenho de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, no Distrito Federal. O projeto tem colhido bons frutos, com uma articulação com outras áreas, como a moda e a música. Em todas essas propostas, os participantes são convidados a expor os sentimentos e as emoções profundas e difíceis que podem emergir a partir da leitura dessas obras. São projetos que já se encontram em andamento, mas que evidenciam a forte ligação entre a literatura e a saúde mental, sobretudo.

Evidentemente, a ligação entre enfermidades mentais e a literatura não é recente: temos os exemplos de escritores que se dedicaram a escrever inclusive sobre suas próprias experiências em sanatórios e manicômios, como são os casos de Lima Barreto – que escreveu o romance inacabado e publicado postumamente em 1956, Cemitério dos Vivos – e Maura Lopes Cançado – com o romance memorialista Hospício é Deus (1965). Temos também o exemplo do austríaco Robert Walser, que produziu uma literatura muito peculiar influenciada pelos problemas mentais que o assolaram. Sua contribuição para a literatura é reconhecida até hoje, e são muitos os escritores que se dizem influenciados por ele, entre eles Franz Kafka e Bernardo Carvalho. Moacyr Scliar, que também escreveu a respeito do tema, em um belo texto publicado na Revista Vida Simples em agosto de 2008, expõe brevemente o advento da leitura – e da escrita – como forma válida de expressão da psicoterapia. Os pacientes também são convidados a se expressar em forma de cartas, diários, poemas e narrativas.

Bem, se palavra é ‘pharmacon’, como afirmou Sócrates, pode tanto ser remédio como veneno. Jacques Derrida se dedica a esse tema em um belo texto, A farmácia de Platão (Ed. Iluminuras, 1997) sobre a função do discurso nas sociedades. Segundo ele, tanto para Platão como para a atualidade, o ato de escrever, para ele uma questão moral, é uma expressão que diz respeito ao humor das pessoas, e que pode provocar efeitos (benéficos ou nocivos), na coletividade e nos indivíduos. Já o filósofo Gilles Deleuze propõe em seu livro Crítica e Clínica (Editora 34, 2011) que a literatura é um “empreendimento de saúde” do mundo, ao inventar de maneira fabular um povo que ele chama de menor, de uma voz própria que nos é estranha e familiar ao mesmo tempo. Segundo essa linha de raciocínio, o escritor não seria um doente, mas seria, na verdade, um médico de si mesmo e do mundo. Seria também uma forma de nos defendermos das doenças do mundo, se podemos assim falar dos problemas comuns à humanidade nos tempos atuais: a intolerância, a violência, a ignorância, a indiferença.

Não deveríamos negligenciar o papel que a literatura – falo da literatura dos grandes clássicos –  exerce em nosso cotidiano. Incluo aqui outras artes narrativas, como o cinema. Seria uma maneira acessível de realizarmos, como um médico de nossas existências, um diagnóstico de nossas próprias questões e impasses existenciais.

Quando chego em casa, sempre tenho o costume de ficar alguns minutos em frente à estante de livros, depois de um dia tomado pelas mais distintas sensações. Olho demoradamente cada tomo, cada prateleira. Meu desejo é encontrar na leitura diletante, como quem está de férias da vida naqueles poucos instantes, uma pista para o mundo, para si. Enfim, escolho o livro. Abro uma página a esmo. Vejo que meu filho, em seus 04 anos, já me acompanha: me interrompe, também escolhe seus próprios livros, senta-se ao meu lado. Esse companheiro de viagem conversa sobre o livro escolhido e me pede para acompanhá-lo nessa aventura. Começamos a ler, ansiosos pelo que nos aguarda.

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