TRÊS VENENOS


Entre os ensinamentos do Buda sobre o caminho da iluminação, encontramos o Sutra do Diamante, que aborda os vários paramitas, ou seja, formas de prática espiritual que podem conduzir à liberação final. O terceiro paramita trata especificamente da paz, tranqüilidade e paciência e dos obstáculos que se interpõem e nos fazem perder esta condição. O texto começa examinando nossas identidades e localiza nelas a origem dos obstáculos.

Quando nos entrincheiramos em nossas identidades, a paz começa a ser perdida. Seria a identidade realmente o problema? É necessário ter consciência de uma identidade para que o problema surja? A resposta talvez seja não. Mesmo seres que não pensam em si mesmos como identidade, ou que não têm consciência clara de seus propósitos, podem perder a paz. Ao examinar esta questão, veremos que existe um nível mais fundamental, onde atuam três componentes que são como venenos que sustentam nossa manifestação.

O primeiro destes venenos é a ignorância. É um veneno básico que toca todos os seres. Ignorância não é propriamente o desconhecer de algo. É uma experiência muito sutil, na qual desenvolvemos as mais variadas fixações sem perceber. Quando operamos numa fixação, todo o universo toma sentido a partir disto. Aplicamos este referencial para definir o que é vantajoso e o que não é.

O segundo veneno é a aversão, a raiva, a explosão, uma espécie de recurso que usamos quando nossa fixação é ameaçada. Quando sentimos a ameaça, entendemos que precisamos de uma energia extra. Esta energia extra gera uma violência, uma ação agressiva. Mas a agressão não acontece se não houver algo a ser defendido. Então deve haver uma definição prévia do aspecto a ser defendido, mesmo que não seja consciente.

O terceiro veneno é a atividade incessante, ligada à sensação de carência, urgência, desejo, apego. A partir de nossa fixação, consideramos que existem elementos que vão nos favorecer e tornar as condições ao nosso redor mais estáveis, de modo que aquilo a que nos fixamos possa ser sustentado mais facilmente e com mais segurança. Assim, estamos incessantemente preparando condições mais favoráveis e tentando remover o que nos traz perigo. A sensação de perigo ou de vantagem surge das próprias fixações.

Veremos exemplos destas manifestações em todas as direções que olharmos. Estes três aspectos são a microestrutura de nossa identidade, que só surge se houver fixações. Junto com as fixações temos a possibilidade de explosão e a atividade incessante que busca produzir estabilidade sem explosão. Com base nisto cada um de nós pode avaliar melhor o que anda fazendo em sua vida e quais as causas de suas dificuldades e instabilidades.

 

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