REFERENCIAIS DE CORPO


Além das fixações mentais e emocionais, existe um terceiro tipo, que se manifesta perto do meio-dia. A pessoa passa a mão pelo estômago e se pergunta: “O que teremos para o almoço hoje?” Aí pensa: “Batatas fritas!” E imediatamente ela saliva. Ela também pode lembrar: “No sábado vai ter churrasco. Vamos comer e beber do meio-dia à meia-noite.” Só de pensar naquilo surge um condicionamento no corpo: brota saliva, todas as glândulas cooperam automaticamente. A pessoa diz para o estômago: “Sim! Sim!” É ele que comanda. E aí surgem várias sensações. Podemos ser comandados pelo estômago ou por qualquer parte do corpo, sejam elas dignas ou não. Todas produzem fixações, referenciais que produzirão resultados.

Tomemos como exemplo o que poderia acontecer se um inseto pousasse em nossa pele enquanto meditamos. Estamos sentados em meditação, pensando: “O Buda tem razão, estou iluminado, que serenidade!” Aí o Buda se transforma num mosquito que voa ao redor, e a serenidade se evapora. O mosquito pousa bem perto do olho, e não podemos permitir tamanha invasão. No entanto, fizemos voto de não nos mexermos. Para o corpo, aquela microagulha que penetra a pele é intolerável. Sentimos o peso do mosquito, e depois o vôo pesado dele. Esta fixação surge no nível do corpo, não é um  processo intelectual. A emoção pode vir, mas essencialmente é o corpo invadido que vai produzir a fixação.

Eventualmente podemos ter competição entre os vários referenciais. O corpo deseja uma coisa; a emoção, outra; e a mente, uma terceira coisa. Estes níveis operam quase que independentemente, às vezes em conjunto, às vezes em oposição. Quando as fixações são definidas, não temos a sensação de que estejamos entrando numa área de perigo. Achamos completamente normal. Pensamos: isto é viver, é assim mesmo.

Elegemos fixações de forma consciente ou não, e elas parecem o exercício de uma liberdade completamente natural. Mas são elas que geram condições que fazem nossa paz desaparecer. A partir daquele momento, a paz só será possível se as fixações não forem perturbadas, se permanecerem satisfeitas – e às vezes elas são contraditórias. A mente pode determinar: “Não coma açúcar”, mas o corpo pede: “Quero chocolate.” Aí a emoção diz: “Você não vai me deprimir, não é mesmo? Olha que eu fico deprimido… Dê-me um pouco de açúcar.”

É muito difícil encontrarmos equilíbrio a partir dos referenciais, mesmo que sejam apenas internos. Por isso o Buda enunciou a primeira nobre verdade: todos os seres têm a experiência de duka. Ou seja, quando estão alegres, é uma preparação para o sofrimento; quando sofrem, é a condição de vida. É como se a harmonia não fosse realmente possível. Como a harmonia não é possível, existe um segundo tipo de sofrimento, que vive do próprio sofrimento. Sofremos por razões objetivas e também porque não queremos sofrer. Sofremos porque gostaríamos que a harmonia fosse possível. Elegemos a harmonia como fixação. E a perseguimos a vida inteira.

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