OSCILAÇÕES


Quando perseguimos a harmonia, podemos viver seis experiências distintas. Na primeira, a harmonia parece possível. Na segunda, descobrimos que existem seres que têm mais harmonia que nós, e isto nos perturba. Na terceira, olhamos para os seres mais harmônicos e constatamos: “Certo, você tem mais do que eu, tem uma vida maravilhosa. Para ter isto eu precisaria de…” Aí vem uma lista de requisitos, de coisas que precisamos transformar ou adquirir.

No quarto tipo de experiência, a pessoa desiste de ter harmonia. Ela afirma: “Vou esquecer esta situação, vou esquecer todos os problemas. Vou me defender esquecendo.” Então esquece tudo e gera uma mente obtusa, desconectada.

No quinto tipo, a pessoa fica desesperada porque falta alguma coisa.

No sexto tipo, ela desiste de vez e diz: “Ok, todos são terríveis comigo. Também serei terrível com eles.” Neste estágio a harmonia não é mais o objetivo; ao contrário, a pessoa quer provar que ela não é possível e, quando vê alguma coisa funcionando, vai lá e a sacode.

Oscilamos por estas seis formas de emoção. Inicialmente, gostaríamos que a harmonia fosse possível. Esta é a grande dificuldade. Fazemos esforço a vida inteira, por vidas incontáveis, tentando encontrar a felicidade estável. Mas, como o que chamamos de felicidade depende de fatores específicos, a felicidade é fugidia. Às vezes conseguimos, às vezes sofremos profunda decepção. Isto porque os fatores são impermanentes, flutuantes. E assim nossa felicidade nunca é possível. Logo, a paz não se torna possível. E vida após vida perseguimos isto.

Todas estas circunstâncias decorrem de elegermos referenciais específicos, a partir dos quais consideramos: “Só posso ser feliz se…” Temos referenciais de mente, emoção, corpo e de energias internas.

A noção de refúgio pode brotar quando entendemos esta situação cíclica, de impermanência interna e externa. Dizemos: “Eu gostaria de tomar por referencial alguma coisa que estivesse fora disto.” Mas, como não temos o olhar de sabedoria, nunca conseguimos encontrar o que é estável. Faz parte de nossa situação só vermos o que é impermanente. É como se não tivéssemos olhos para reconhecer o que está além de nossa experiência cíclica, de nossos referenciais.

Os seres libertos, que habitam as regiões sutis, rezam por nós sem cessar, soprando: “Acordem!” Mas não escutamos. Ou pior: escutamos errado. Aparece um ser na nossa frente, ouvimos aquele sopro e concluímos: “Deve ser minha alma gêmea!” Mas o ser estava soprando: “Cuidado!” Não conseguimos entender a linguagem do silêncio.

O silêncio está ao nosso redor, a natureza de liberdade pré-existe a nós, nos sucede e existe simultaneamente conosco. Não entendemos. Sofremos de uma identidade para outra, de um pensamento para outro, e não conseguimos ver algo que nos dê idéia de permanência.

Quando saímos da condição de feto na barriga da mãe para a condição de bebê, e depois nos tornamos crianças, adolescentes e adultos, temos a sensação de que é uma continuidade. Mas somos completamente diferentes em cada fase. Temos amigos, objetivos e fixações diferentes. E não entendemos o que se mantém estável. No corpo tudo muda. Passamos por várias vidas e não entendemos o que se mantém enquanto as vidas se sucedem. Olhamos para o céu, para as estrelas, vemos movimentos incessantes –  nunca descobrimos o que não muda quando tudo muda.

[…]

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