NATUREZA DE BUDA


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Nossa dificuldade está no olhar. É como se olhássemos para o mar e só víssemos as ondas. Quando vemos as ondas, pode ser que não vejamos o mar. É como se víssemos as ondas separadas do leito do oceano. Assim surgimos nós: separados. Então vêm os seres de sabedoria, como ondas também – porque somente vemos as ondas –, para nos explicar o que é estável, o que está além da impermanência, para nos ensinar o que são os refúgios. Eles vêm e dizem: “Observem a natureza da liberdade além das fixações.” E, sempre que os seres de sabedoria dizem isto, nós acordamos; eventualmente os vemos. E eles dizem: “Esta é a sua face.”

O Zen questiona: “Que face você tinha antes de seu pai e sua mãe nascerem?” É o tipo de pergunta sem resposta. Antes do pai e da mãe nascerem, ou seja, antes das condições surgirem, que face nós tínhamos? Nossos pais e mães não são pais e mães biológicos. Nós surgimos das condições. Antes das condições surgirem, qual era a nossa face? Esta é uma boa pergunta. Nossa face era a face de Buda.

Essencialmente, nossa face é a face não-construída, a face natural, a face antes do espaço e do tempo. Ou a face que está além de espaço e tempo, nome e forma, vida e morte. Devemos tomar refúgio nesta natureza, elegê-la como referencial, como fonte de segurança. Se buscamos segurança no que nasce e morre, não temos segurança verdadeira, porque estas coisas desaparecem. Mas a natureza que existe antes de nossos pais e mães surgirem não nasce e não morre. Isto é a natureza de Buda.

Se tivermos a felicidade de tomar por referência a natureza que não nasce e não morre, poderemos entrar alegremente no mundo dos referenciais, no mundo das coisas que nascem e morrem, porque saberemos onde estamos e o que somos. Estaremos livres desse movimento. E assim poderemos fazer como os bodisatvas: estar no mundo para ajudar os seres a reconhecerem esta natureza.

Podemos dizer: “Tomo refúgio na natureza incessante de Buda”, a natureza do silêncio, a natureza não-construída. Este Buda sempre presente, que existe antes de qualquer construção e é o final de todas as construções, é como o mar para onde todas as águas vão e de onde todas as águas voltam. Tomamos refúgio neste Buda. É o refúgio inabalável. O refúgio em qualquer outra experiência será transitório.

Depois dizemos: “Tomo refúgio em Buda enquanto aparência de todas as coisas.” Este é um aspecto sutil maravilhoso. Descobrimos que dentro do silêncio existe uma natureza de brilho. Uma natureza que tem o poder de construção, de criar dualidades, mundos, aparências, idéias e projetos. Quando estamos em silêncio, esta natureza brilha de forma estável.

Podemos modular o brilho e criar projetos, significados, ações.

Todas as aparências ao nosso redor são produto desta energia criativa. Não costumamos ver isto. Vemos apenas se as coisas são favoráveis ou desfavoráveis a nós. Mas podemos olhar a aparência de todas as coisas e reconhecer nelas este poder criativo. Podemos exercer este poder criativo alterando o significado das coisas incessantemente. Podemos perceber a alteração de significados que somos capazes de realizar, perceber a criatividade brotando e reconhecer nisto a natureza luminosa de Buda. Reconhecer este brilho e nele tomar refúgio. Este é o segundo refúgio.

Tomamos refúgio na natureza do silêncio antes de qualquer construção, em Buda como silêncio antes de qualquer impulso. E tomamos refúgio em Buda como brilho que produz criatividade, formas e significados. Reconhecemos o silêncio e a criatividade como incessantemente vivos. Eles brilham incessantemente e são inseparáveis. Usualmente, quando olhamos ao redor, vemos apenas se as coisas são boas ou ruins para nós. Não temos o olhar de sabedoria.

Mas houve um Buda que veio e ensinou o olhar de sabedoria. Ele recitou o Prajna Paramita, recitou: “Gate Gate Paragate Parasamgate Bodhi Soha”. E o olho de sabedoria dos seres pode se abrir.

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