Fixações


 

As fixações podem ser mentais, emocionais e físicas. Curiosamente, nem sempre elas estão de acordo. Por exemplo: estamos numa palestra, e a mente está atenta. Mas para o corpo há um incômodo, um desconforto, uma impaciência crescente. O nível emocional não está definido. De repente a emoção pergunta ao corpo: “Você está interessado, ou está desistindo?” O corpo diz: “Isto não lá é muito interessante”, mas a mente retruca: “É interessante sim, vamos aguardar um pouco mais.” Aí o corpo reclama: “Mas sou eu que estou sofrendo, você está só ouvindo.” Temos diferentes fixações neste diálogo, é como se fossem diferentes identidades. Todos os seres passam por este processo incessantemente.

Quando analisamos nosso cotidiano, vemos que de modo geral estamos muito ocupados. E nossa ocupação está sempre ligada a alguma fixação. Podemos ter optado pela fixação ou não. Simplesmente vamos em frente, e a vida segue. Não temos propriamente a decisão de andar numa determinada direção. Também pode acontecer o contrário: fizemos o vestibular e estamos cursando a faculdade; houve uma decisão em certo momento. Quando a decisão torna-se ação, sentimo-nos vivos, tudo faz sentido, temos a experiência de viver.

Ao olharmos para o passado, vemos que já tomamos várias decisões, seguimos objetivos quase que cegamente, mas em certo momento tudo se desfez. Quando isto aconteceu, tivemos uma experiência próxima da perda de identidade, um colapso, parecia que a vida não era mais possível. Então elegemos novos referenciais e recomeçamos a nos movimentar. Aí respiramos – parecia estarmos vivos de novo. E seguimos novamente. Lá pelas tantas, os novos objetivos também se dissolvem, nossa identidade entra em outra crise, passamos por um bardo, ou seja, um estado intermediário, não sabemos bem o que queremos, nem para onde vamos. Na seqüência, tudo se reestrutura, ganha novo sentido, e vamos andando.

Quando em movimento, estamos sob domínio das emoções perturbadoras – orgulho, inveja, desejo/apego, obtusidade mental, carência e raiva/medo. Sem isto, não parece que estejamos vivos. Quando estamos em marcha, aparecem obstáculos. O próprio andar impede a paz. Quando interrompemos o andar por um obstáculo, ocorre a defesa explosiva e, com ela, a sensação de amargor, sofrimento, ansiedade, luta. Aí dizemos que há sofrimento ou que a paz desapareceu. Estas situações ocorrem ciclicamente.

Quando saímos de uma situação, quando os referenciais e os mundos deles surgidos se dissolvem, entramos num estado intermediário e depois renascemos em outra condição. Não temos a experiência de que o renascer seja uma perda de paz, de que a fixação em novos referenciais seja uma perda de estabilidade. Ao contrário, imaginamos que é isto que nos trará nova estabilidade. Usualmente só achamos que a paz se foi quando ocorre a explosão. Mas, quando fixamos novos referenciais e nos colocamos em marcha, a paz já está comprometida. Isto significa que estamos presos ao que chamamos de experiência cíclica, onde as coisas surgem, caminham por um certo tempo, se estabelecem e depois se dissolvem. Como não temos esta noção, pensamos que a fixação nos referenciais e na atividade incessante é algo favorável, perfeito. Não suspeitamos da impermanência.

 

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