Estabilidade condicionada


 

Quando praticamos meditação silenciosa, podemos entrar em estados de grande serenidade, tranqüilidade e paz. Diz-se que, quando os praticantes chegam a um certo nível, a experiência cíclica, a experiência do mundo, perde o apelo. Porque, quando as pessoas meditam, sentem tamanha paz, serenidade e estabilidade que têm vontade de não retornar a suas atividades. Esta experiência de grande felicidade não é definitiva porque, quando o praticante interrompe a meditação e retorna ao mundo das relações, a sensação acaba.

Pode surgir na mente a idéia de que o mundo está todo errado e de que o melhor seria ficar em meditação incessantemente, separado do mundo, das relações. Esta atitude é um obstáculo, uma interpretação equivocada. Na verdade, o objetivo da meditação é chegar a um equilíbrio que não cesse quando retornamos às atividades. O problema é que não meditamos de forma perfeita. A meditação imperfeita gera estabilidade a partir de estados mentais artificialmente produzidos, mas não há a verdadeira estabilidade, natural e livre de qualquer construção. Deste modo, vê-se que os estados meditativos, por serem construídos, não são a solução para se ter paz.

Conseguir manter a meditação estável é muito raro e precioso. E, apesar de frágeis e transitórias, a felicidade e estabilidade condicionadas surgidas da meditação têm efeitos positivos, curativos. Apesar de artificiais, oferecem certa autonomia: até então a pessoa imaginava que a felicidade surgia na dependência de situações externas ligadas ao ganhar e perder, mas agora a vê surgir de uma condição interna, administrável por ela mesma.

Ainda que tenha apenas a experiência condicionada, limitada e impermanente da paz surgida de fatores internos durante a meditação, a pessoa reconhece que, no mundo das experiências cíclicas, no mundo das relações, no mundo em que se ganha e perde, ela nunca teve uma experiência de paz e felicidade com tal brilho e intensidade. Esta experiência, ainda que impura e imperfeita, produz um impulso importante para que o praticante aprofunde a compreensão de seu mundo interno. Seguindo este rumo, mais adiante ele reconhecerá que seu mundo interno é tão grande quanto o universo ilimitado. Não terá mais a experiência de que meditar é delimitar seu interesse ao mundo interno, mas reconhecerá que o mundo interno e o mundo externo são efetivamente inseparáveis e que a compreensão de um leva à direta compreensão do outro. Isto permitirá a ele reconhecer melhor sua condição natural de paz e o ajudará a remover os obstáculos aparentemente externos que justificam a perda da experiência natural de paz.

 

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