DESPERTAR DA COMPAIXÃO


Existe ainda o refúgio de terceiro nível. É um nível muito sutil. Percebemos que, se não ouvíssemos instruções, não teríamos como reconhecer o silêncio e a criatividade na experiência comum das coisas. Nem o silêncio cósmico das idéias, o silêncio cognitivo dos significados, nem o brilho que produz as aparências de alguns significados e sua transformação, o brilho da inteligência. Não veríamos isto como Buda. Aí nos damos conta de que o Buda também surge como aquele que produz ensinamentos, fala o Darma e faz com que reconheçamos nossa natureza como a natureza de silêncio e criatividade. O Buda exerce isto. E descobrimos que também somos assim.

Descobrimos que, quando nossa mente chega aos outros seres e reconhece as dificuldades deles, brota naturalmente em nosso coração o desejo de ajudá-los. E descobrimos que foi isto que aconteceu com o Buda quando ele se manifestou aqui e deu ensinamentos. Podemos ter a experiência de estarmos vivos da mesma forma que o Buda a experimentou. O Buda deu ensinamentos por mais de quarenta anos. Ele encontrou na natureza do silêncio e do brilho a força para se manifestar em benefício de todos.

A compaixão que temos pelas outras pessoas já é a manifestação da natureza de Buda. Somos esta manifestação, não precisamos construí-la, a compaixão é uma condição natural. Descobrimos que o silêncio cognitivo e o brilho da criatividade sempre existiram dentro de nós, e a compaixão também. Quando estes referenciais se instalam em nosso coração, dizemos: “Tomei refúgio na natureza de Buda.”

Quando tomamos refúgio na natureza de Buda, todos os referenciais que produzem a experiência cíclica empalidecem. Nossa condição de homem ou mulher, criança, adolescente, adulto ou velho não importa. Não faz a menor diferença se somos crianças ou se estamos perto da morte. Esta natureza tem o mesmo frescor em qualquer circunstância. Não importa em qual parte do planeta vivemos. Não importa se vivemos agora, duzentos anos para frente ou mil anos para trás. Não há diferença nenhuma. Esta natureza estável está além de vida e morte, além de espaço e tempo, além da história.

Encontramos um referencial que, uma vez assumido, produz estabilidade e paz sob qualquer circunstância. Se encontrarmos isto, será maravilhoso. Se não conseguirmos, pegaremos o que estiver mais próximo disto – a compaixão ou amor que for possível, por exemplo. Consideramos este um bom referencial, ainda que as pessoas ao nosso redor digam: “Você é bobo.” Se dizem isto, é porque estão jogando algum tipo de jogo mental e acham que somos bobos porque não jogamos. Quem joga algum jogo mental não vai além disto. Pode no máximo ganhar. E nem vale a pena ganhar a maior parte dos jogos que se ganha.

Se um torcedor vê seu time ganhar um campeonato, por exemplo, é complicado. Porque, tendo ganho, fica muito mais difícil abandonar os campeonatos. Ele diz: “Agora sou campeão.” E estar preso a um campeonato é um problema. É mais fácil sermos aprisionados pelo sucesso do que pela dor. É quando ganhamos os jogos que temos problemas. Quando tudo vai bem, nos fixamos naquelas condições. Parece que encontramos algo.

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