Asperger: a perturbação que afeta a interação social


No âmbito do dia Internacional da Síndrome de Asperger, que se assinalou no passado dia 18 de Fevereiro, a pedopsiquiatra Áurea de Ataíde, descreve-nos a perturbação que afeta cerca de 40 mil crianças e jovens em Portugal.

A perturbação de Asperger é uma perturbação do espectro do autismo que se diferencia por não existir geralmente atraso global de desenvolvimento e pelo melhor prognóstico e maior capacidade de adaptação dos pacientes.

As perturbações do Espectro do Autismo são um grupo de alterações caracterizadas por três aspectos clínicos fundamentais:

1.      Défices qualitativos das interacções sociais

2.      Défices qualitativos na comunicação verbal e não-verbal

3.      Leque de interesses restrito e repetitivo

Outras características destas alterações incluem o início precoce na vida, atraso no desenvolvimento psicoafectivo, etiologia multifactorial (as causas são diversas e não se conhece um único factor responsável pelo aparecimento da perturbação).

Por outro lado, sabe-se que existem alterações genéticas que interagem entre si e com os factores do meio, que os sintomas têm várias expressões ao longo das diferentes fases da vida e que a evolução da doença é crónica, com presença de défices ao longo do tempo.

Clinicamente as alterações são muito heterogéneas entre as diferentes perturbações autísticas, que diferem umas das outras pela variação do nível de funcionamento cognitivo e pelas capacidades de comunicação e linguagem.

Em 1944, Hans Asperger, psiquiatra e pediatra austríaco, escreveu o primeiro artigo acerca do que viria a ser conhecido como a “sua perturbação”.

Ele descreveu o quadro clínico de quatro crianças com QI (nível de inteligência) normal, que eram socialmente “estranhas” ou bizarras, ingénuas e desadequadas, tinham boa gramática e vocabulário extenso, comunicação não-verbal pobre, interesses restritos e circunscritos, e alterações da coordenação motora. Este artigo ficou mais ou menos desconhecido até ter sido amplamente discutido anos mais tarde, numa publicação inglesa (Wing, 1981).

A síndrome de Asperger foi pela primeira vez considerada uma categoria de diagnóstico na DSM-IV (Associação Americana da Psiquiatria, 2000) e na ICD-10 (Organização Mundial de Saúde, 1996).

Recentemente, foi excluída da classificação de perturbações mentais da Associação Americana (DSM-V) e chamada de perturbação autística, embora diferenciada das demais. O termo continua, no entanto, a ser utilizado para definir o quadro clínico.

Nas duas últimas décadas, o conceito de síndrome de Asperger usado por investigadores e clínicos serviu para salientar a ocorrência de uma perturbação do espectro do autismo em indivíduos com bom potencial intelectual e fluência verbal.

O diagnóstico é muitas vezes mais tardio do que nas restantes perturbações autísticas. Ainda não é clara a diferença de padrões de défice neurocognitivo e evolução entre a Perturbações Asperger e autismo.

As características essenciais da Perturbação da Asperger são: um défice grave e persistente da interacção social (pouca habilidade para comunicar, para se relacionar, dificuldade em perceber as brincadeiras, sentido de humor, ironia e atitudes dos outros) e desenvolvimento de padrões de comportamento, interesses e actividades restritos e repetitivos (quando há um interesse “fixado” num assunto há tendência para conhecer tudo sobre o mesmo, repetindo-se o tema de forma reiterada ou obsessiva). Pode existir ou não atraso do desenvolvimento da linguagem e, geralmente, o desenvolvimento global está preservado, bem como as aptidões cognitivas.

As capacidades intelectuais podem ser superiores à média ou ter aspectos muito diferenciados como a memória, o cálculo, apetência para a música, artes, etc.

Podem existir todas ou algumas das seguintes características:

– défice da comunicação não-verbal: contacto ocular, postura corporal, outros gestos que regulam a interacção social

– alterações do desenvolvimento psicomotor

– alterações da modulação da voz

– incapacidade para se relacionar adequadamente com os pares

– ausência de espontaneidade ou partilha de interesses ou objetivos na relação com os outros

– falta de empatia ou reciprocidade social

rotinas ou rituais persistentes, não funcionais, rigidamente cumpridos

– gestos repetitivos (estereotipias)

– preocupação com partes de objectos

sentimentos de solidão, incompreensão, inadequação, que podem gerar agressividade, ou tristeza e quadros de alterações de comportamento, ou depressivos

ingenuinidade e falhas na compreensão de mensagens com duplo sentido, o que origina uma grande sensibilidade ao que os outros dizem, que pode muitas vezes ser entendido como ofensivo.

A evolução e o prognóstico dependem da forma como o indivíduo se adapta e do grau de gravidade da doença.

Na vida adulta pode haver um défice de empatia e na modulação da interacção social, mas os períodos mais conturbados e de maior sofrimento são geralmente a infância e a adolescência, em que as dificuldades de adaptação e de integração social são quase sempre sentidas com sofrimento e revolta, podendo originar psicopatologia concomitante.

A importância de se estabelecer precocemente um diagnóstico é fulcral, uma vez que a família e o próprio precisam de encontrar uma definição para as alterações que observam e com as quais lidam, no sentido de estabelecer estratégias e encontrar respostas que permitam uma melhor adaptação do jovem na escola, na família ou em qualquer contexto social.

Sentimentos de estranheza, de solidão, de não-pertença, podem causar grande mal-estar e devem ser identificados precocemente e abordados em contexto terapêutico. Muitos indivíduos com esta perturbação têm percursos de grande relevo e êxito profissional, distinguindo-se em várias áreas do conhecimento, com níveis de desempenho superiores à média

 

Dra. Áurea de Ataíde – Pedopsiquiatra Hospital Lusíadas Lisboa
Nota:
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto:
Pixabay
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