Adultos contam sobre descoberta tardia de Asperger: “É apenas uma forma diferente de funcionar”


Jovem com Asperger sentada em jardim olha para o alto
Para Calinca, diagnóstico veio aos 25 anos (foto: arquivo pessoal).

Calinca Alcântara sofreu bullying na escola desde pequena. Tinha dificuldade em fazer amizades e lidar com pessoas da mesma idade. “Eu era muito diferente das outras crianças. Achava elas muito expansivas, tinham muita facilidade em falar e brincar. Fazer amizades, entender e compreender o que as outras estavam falando.

Eu já era bem mais quieta”, conta. Não sabia que isso tinha nome: síndrome de Asperger.

Além disso, tinhas algumas ‘manias’ um tanto quanto incomuns: os cabelos intocáveis, penteados sempre com tranças ou um coque perfeito. As camisas confortáveis de algodão que escondiam os braços para não tocarem na cadeira gelada da sala de aula. A total falta de vaidade, pois nunca gostou de pintar as unhas com esmaltes e passar batom. “Os outros faziam piadas comigo por causa disso, e eu ficava sem entender o porquê. Comecei a me sentir esquisita perante às outras crianças, e internalizava tudo isso, mas achava que tudo bem. Não via problema nenhum em ser diferente”, relembra.

Criança com Asperger no colo da mãe tapa ouvido
Calinca, com 1 e ano e 8 meses. Tapando os ouvidos na hora do Parabéns pra você no aniversário da prima (foto: arquivo pessoal).

 

 

 

 

A resposta para suas incertezas e inseguranças veio muito tempo depois. Aos 25 anos, decidiu procurar um psicólogo. O motivo: a jovem entrou em depressão e teve surtos de síndrome do pânico após uma mudança. Ninguém compreendia a atitude. Mas ela tinha um raciocínio bem lógico para isso: no antigo endereço, já estava acostumada com os caminhos que fazia. A escola onde estudou até a conclusão do ensino médio ficava na esquina. Para ir à faculdade estudar design gráfico, pegava o ônibus no ponto em frente à sua casa. Na volta, o metrô a deixava na rua de trás. Fora isso, não tinha costume de sair para outros lugares.

Calinca visitou três psicólogos até conseguir o diagnóstico.

“Lembro do terceiro psicólogo. Quando ele me viu entrar no consultório. Me olhou, e disse que eu tinha traços de Asperger”

Mas o que era Asperger? Ninguém tinha ouvido falar no assunto. Coube ao profissional explicar a definição. Além de indicar uma série de exames neurológicos que comprovassem a condição.

Homem com Asperger posa ao lado de amigos em restaurante
Rodrigo, ao fundo, com produtora e a família em evento na ONG Autonomia (foto: arquivo pessoal).

Rodrigo Tramonte descobriu o Asperger aos 30 anos, quando uma amiga fonoaudióloga reconheceu nele traços da síndrome. Mas também relembra que se considerava diferente na infância. “Eu não tinha os mesmos interesses que as outras crianças e adolescentes. Só gostava de desenhos animados, quadrinhos e videogames. Mas não de brincar ou sair com outras pessoas. Não gostava de comer algumas coisas que as pessoas ao meu redor comiam sem problemas. E sempre achei estranho alguns comportamentos delas. Principalmente aceitarem fazer coisas que elas não gostam”, pontua.

A partir daí, iniciou uma busca por diagnóstico que durou três meses. “Procurei especialistas em autismo na minha cidade. Acabei encontrando uma neuropsicóloga com especialização nessa área. Fiz exames com ela e recebi o laudo de Asperger. Foi um alívio. Encontrei a resposta para a maioria das perguntas que fiz para mim mesmo durante a infância. Aprendi que é só uma forma diferente de funcionar”, afirma.

Asperger e Hiperfoco 

Ao falar de autismo, seja clássico ou de alto funcionamento, o hiperfoco é assunto principal. Citado, especialmente, por quem ainda acredita que todo autista é um gênio. Rodrigo conta que tem interesse em diversos assuntos diferentes por causa do Asperger. “Tenho vários hiperfocos: desenhos animados, videogames, filmes, séries, quadrinhos, relacionamentos afetivos, antropologia. Gosto de compreender por quê as pessoas seguem seus valores, em vez do próprio instinto”, explica.

Homem com Asperger desenha sentado em mesa
Um dos hiperfocos de Rodrigo são quadrinhos e caricaturas (foto: arquivo pessoal).

Já Calinca muda de interesse de tempos em tempos, o que a faz conhecer diversas coisas novas. “Não tenho um hiperfoco fixo. Digo que meu hiperfoco é estudar, porque gosto de aprender coisas novas. Depois que aprendo, perco um pouco o interesse e parto para outra coisa. Sou formada em design gráfico, escrita criativa e literatura medieval”, diz. Aprendiz voraz, tornou-se fluente em inglês em pouquíssimo tempo. “Pedi para minha mãe comprar um dicionário para mim num sebo, ela pagou dois reais. Em uma semana, eu li e decorei todas as palavras e significados. Depois assisti séries no idioma e, dos 8 aos 11 anos, já falava inglês”, relembra.

Profissão e relacionamentos

Outro ponto bastante levantado quando se fala de Asperger são relacionamentos amorosos. O primeiro namoro de Rodrigo aconteceu aos 22 anos, e à distância.

“Sempre busquei minhas parceiras pelos interesses em comum. Só que a maioria das mulheres já eram comprometidas. Tive três relacionamentos sérios, mas meus hiperfocos interferiam muito neles”

Hoje, Rodrigo é palestrante, e autor do livro Humor Azul – o lado engraçado do autismo. “Em 2013, eu entrei na ONG Autonomia, de Florianópolis. Participando de um projeto chamado Artistas Autistas. Fiz meu trabalho de caricatura nos eventos organizados pela equipe da ONG. O projeto chamou atenção do público, e minha produtora, Andréa Monteiro, deu a ideia de criar um livro com meus desenhos. O nome ‘Humor Azul’ vem de um trocadilho com ‘humor negro’. O Zé Azul é um personagem abertamente autista”, conta.

Homem e mulher conversam sobre Asperger segurando microfones
Rodrigo trabalha como palestrante sobre autismo (foto: arquivo pessoal).

Aos 29 anos, Calinca trabalha como freelancer na área de design gráfico. Além de manter uma loja virtual e um canal no Youtube. A jovem já trabalhou num escritório, mas a experiência foi extremamente desagradável para alguém com Asperger. “Eu tinha muito nervoso que as pessoas ficassem paradas atrás de mim enquanto eu estava no computador. Elas ficavam encostando no meu ombro enquanto conversavam com outra pessoa e eu não conseguia render. Eu ficava no escritório o dia todo, e acabava levando tudo para fazer em casa de madrugada.

Não consigo ficar num ambiente barulhento, especialmente trabalhando com coisas criativas”, justifica. Namoro? ainda não. “Nunca namorei porque nunca tive interesse em nenhum cara com quem fiquei. Mas tenho vontade de, um dia, alguém ser interessante suficiente para eu querer namorar”, brinca.

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