Solidão e Felicidade no poder


A maioria dos médicos ingleses recebe até cinco pacientes por dia cujo mal maior é a inexistência de interação social

A entrevistada da rede ITV News é Janet — apenas Janet, sem sobrenome. De cabelos e semblante grisalhos, ela tem os cantos da boca caídos. O riso não faz parte do seu cotidiano. O falar também não. “Às vezes passo vários dias sem conversar com ninguém”, conta em tom monocórdio. “Se você não se obriga a sair de casa para ir comprar algo, meses podem se passar sem você dirigir a palavra a alguém — a uma caixa de supermercado, talvez, com quem trocar algumas frases. Idoso fala com qualquer um — deve ser solidão”.

Janet está entre as nove milhões de pessoas do Reino Unido que, segundo levantamento de 2017, vivem ou se sentem quase sempre sozinhas. Ela também faz parte do grupo de 200 mil cidadãos britânicos que relataram não ter conversado com um só amigo ou conhecido em um mês.

Apesar de predominante entre idosos, esta “epidemia oculta” de graves desdobramentos físicos, mentais e emocionais afeta pessoas de idades variadas. E foi por perceber a dimensão do problema que o governo de Theresa May acaba de criar o chamado Ministério da Solidão.

Em português, a tradução mais acertada para o Ministry of Loneliness talvez devesse ser Ministério do Isolamento Social. Isso porque nosso idioma não diferencia entre o conceito de loneliness, sentimento não desejado de solidão, e a solitude, o isolamento criativo, chamado de “solidão fértil” por Ernest Hemingway.

Quem assumiu a tarefa de lidar com a solidão social inglesa foi a atual ministra dos Esportes e da Sociedade Civil, Tracey Crouch, de 42 anos. Ela é da mesma geração da idealizadora do projeto, a visionária parlamentar Jo Cox, assassinada aos 41 anos por um extremista de direita às vésperas do referendo do Brexit de 2016. “Em homenagem a Jo, devemos fazer tudo para acabar de vez com a aceitação do isolamento”, disse May ao tratar da questão como um problema de saúde pública. A estratégia do governo envolverá o empresariado e entidades não governamentais do país inteiro.

“Eu comparo a solidão a um câncer que consome a pessoa por dentro. Ninguém sabe o que acontece atrás da porta fechada de quem não tem a força de vontade para se vestir e tocar a vida”, definiu a nova ministra.

A escala e o impacto do isolamento social no Reino Unido haviam começado a ser mapeados antes mesmo da criação do ministério. Metade dos ingleses acima de 75 anos (perto de dois milhões de pessoas) vive sozinha. A maioria dos médicos ingleses recebe até cinco pacientes por dia cujo mal maior é a inexistência de interação social. Descobriu-se o vazio da solidão em 90% de mães com bebês recém-nascidos. Pessoas com deficiências são vítimas constantes, pois dependem muito de políticas públicas cada vez mais falhas.

Embora sem levantamentos nacionais comparáveis, o brasileiro espanta a solidão com outras ferramentas: aqui as relações interpessoais são menos estratificadas do que na cultura anglo-saxã. O envelhecimento da população também ainda não atinge patamares europeus. O clima, a cultura, a composição racial, a história — são todos fatores que compõem a sociabilidade menos engessada do brasileiro. O que, acrescente-se, em nada freia a estratosférica violência nacional, mas isso é outra história.

Também convém não associar a iniciativa britânica à criação na Nigéria, semanas atrás, de um Comissariado da Felicidade e da Realização Pessoal. A iniciativa africana leva a assinatura de Rochas Okorocha, governador do Imo, um dos 36 estados do país. Para ocupar a nova pasta, Okorocha nomeara a irmã caçula, sua vice-chefe de gabinete. Ele justifica:

— Tenho 27 assessores especiais, 30 assistentes e secretários permanentes, todos membros da minha família. Não há progresso sem um governo de família.

Mesmo levando-se em conta a já “insalvável” reputação de Okorocha, a criação de mais um cargo familiar soou assombrosa.

— Trata-se de uma abominação — desabafou seu antecessor no cargo Ikedi Ohakim. — Como pode esse senhor insultar a tal ponto a sensibilidade do cidadão de Imo? De qual felicidade estamos falando quando salários e pensões do funcionalismo não está sendo pago? Nenhum país do mundo tem algo semelhantes. Certamente não a Inglaterra, que nos deu a independência. Tampouco os Estados Unidos, cujo sistema democrático copiamos. Nem o Canadá ou África Ocidental.

Talvez ele deva olhar para cá, onde se pratica um estilo de governar e mercadejar o poder bastante próximo.

Dorrit Harazim é jornalista

Leia mais: https://oglobo.globo.com/opiniao/solidao-felicidade-no-poder-22308571#ixzz5neTnbJBq
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