MARCELO GLEISER RECEBE O PRÊMIO TEMPLETON 2019


 

WEST CONSHOHOCKEN, Pensilvânia, EUA – Marcelo Gleiser, físico teórico, cosmólogo e um dos principais defensores da visão de que ciência, filosofia e espiritualidade são expressões complementares da necessidade humana de abraçar o mistério e o desconhecido, foi anunciado hoje como o ganhador do Prêmio Templeton de 2019.

Gleiser, 60, professor de física e astronomia que ocupa a cátedra Appleton de Filosofia Natural no Dartmouth College em Hanover, estado de New Hampshire nos Estados Unidos, ganhou reconhecimento internacional por meio de livros, ensaios, blogs, documentários de TV e conferências que apresentam a ciência como uma busca espiritual para entender as origens do universo e da vida na Terra.

Nativo do Brasil, onde seus livros são best-sellers e suas aparições na televisão atraem audiências na casa dos milhões, Gleiser se torna o primeiro latino-americano a receber o Prêmio Templeton.

Por 35 anos, sua pesquisa tem examinado uma ampla gama de tópicos, desde o comportamento de campos quânticos e partículas elementares até a cosmologia do universo inicial, dinâmica das transições de fase, astrobiologia e novas medidas fundamentais de entropia e complexidade baseadas em teoria da informação, com mais de 100 artigos revisados por pares publicados até o momento.

Gleiser é uma voz proeminente entre os cientistas, do passado e do presente, que rejeitam a noção de que apenas a ciência pode levar a verdades fundamentais sobre a natureza da realidade. Em vez disso, em sua carreira paralela como intelectual público, ele revela os vínculos históricos, filosóficos e culturais entre as ciências naturais, as humanas e a espiritualidade, e defende uma abordagem complementar ao conhecimento, especialmente em questões em que a ciência não pode fornecer uma resposta final.

Ele frequentemente descreve a ciência como um “engajamento com o misterioso”, inseparável da relação da humanidade com o mundo natural. Seus escritos propõem que a ciência moderna trouxe a humanidade de volta ao centro metafórico da criação – sua doutrina do “humanocentrismo” – revelando a improvável singularidade do nosso planeta e a excepcional raridade dos seres humanos como seres inteligentes capazes de entender a importância de se estar vivo. Essa inversão do Copernicanismo, diz Gleiser, leva à necessidade de uma nova moralidade cósmica onde a sacralidade da vida é estendida ao planeta e a todos os seres vivos.

O Prêmio Templeton, no valor de 1,1 milhão de libras esterlinas, é um dos maiores prêmios anuais individuais do mundo e homenageia uma pessoa que fez uma contribuição excepcional para afirmar a dimensão espiritual da vida, seja por insights, descoberta ou trabalhos práticos. O anúncio foi feito hoje pela John Templeton Foundation, com sede em West Conshohocken, Pensilvânia, através de seu website em  www.templetonprize.org.

Fundado em 1972 pelo falecido investidor global e filantropo Sir John Templeton, o Prêmio é um pilar dos esforços internacionais da Fundação para servir como um catalisador filantrópico para descobertas relacionadas às questões mais profundas que a humanidade enfrenta. A Fundação apoia a pesquisa em assuntos que vão da complexidade, evolução e emergência à criatividade, perdão e livre arbítrio.

“O professor Gleiser incorpora os valores que inspiraram meu avô a estabelecer o Prêmio Templeton e a criar a Fundação John Templeton”, disse Heather Templeton Dill, atual presidente da John Templeton Foundation, em uma declaração preparada disponível em www.templetonprize.org. “Dois valores que foram especialmente importantes para ele, e que foram o foco de vários projetos financiados pela Fundação, são a busca da alegria em todos os aspectos da vida e a profunda experiência humana de maravilhamento e contemplação.”

“O trabalho do professor Gleiser exibe uma inegável alegria pela exploração. Ele mantém a mesma sensação de maravilhamento contemplativo que experimentou pela primeira vez quando criança na praia de Copacabana, contemplando o horizonte ou o céu noturno estrelado, curioso sobre o que está além”, acrescentou Heather. “Como ele escreve em A Ilha do Conhecimento, “Maravilhamento e contemplação são a ponte entre o nosso passado e presente, e o que nos propele em direção ao futuro enquanto continuamos a procurar.’”

“O caminho para a compreensão e a exploração científica não é apenas sobre a parte material do mundo, mas também é uma parte espiritual do mundo”, disse o professor Gleiser em sua aceitação em vídeo do Prêmio em www.templetonprize.org. “Minha missão é trazer de volta para a ciência, e para as pessoas interessadas na ciência, esse apego ao misterioso, para fazer as pessoas entenderem que a ciência é apenas mais uma maneira de nos envolvermos com o mistério de quem somos.”

Em sua carta endossando a indicação de Marcelo Gleiser para o Prêmio, Evan Thompson, professor de filosofia na Universidade de British Columbia no Canadá, observou: “Seus incansáveis esforços para trazer uma visão coesa, justa e inclusiva da humanidade e seu futuro estão avançando o florescimento humano, reunindo pessoas de diferentes culturas e origens religiosas em uma conversa global sobre a importância de  ir além dos velhos estereótipos para celebrar a condição humana e nosso papel como guardiões planetários. ”

“Esta é uma extraordinária ‘primeira vez’ para Dartmouth, e não poderíamos estar mais orgulhosos de Marcelo, cujo trabalho vai ao âmago do lugar da humanidade no cosmos e explora as maiores questões sobre a nossa existência”, disse o presidente de Dartmouth, Philip J. Hanlon. “Este prêmio reconhece o seu lugar entre os cientistas, teólogos, escritores e outros que transformaram a maneira como vemos o mundo.”

Marcelo Gleiser nasceu no Rio de Janeiro em uma família influente na comunidade judaica e recebeu uma educação conservadora em escola hebraica. Ele começou a faculdade de engenharia química, mas logo mudou para a física, formando-se bacharel pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro em 1981.

No ano seguinte, fez mestrado em física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e, em 1986, obteve seu doutorado em física teórica pelo King’s College de Londres.

Como pós-doutorando, escreveu uma série de artigos sobre as consequências cosmológicas de teorias com dimensões espaciais extras, conforme propostas por modelos de unificação, e um dos primeiros artigos examinando a teoria das supercordas em sua relação com o Big Bang. Logo, sua pesquisa se ramificou em aspectos de quebra de simetria, transições de fase e estabilidade de sistemas físicos, conceitos que influenciariam sua crítica posterior das chamadas “teorias de tudo”.

Aos 32 anos, Gleiser foi nomeado professor assistente de física e astronomia em Dartmouth e tornou-se professor titular em 1998, aos 39 anos. Durante esses anos ele se distanciou das teorias de unificação e expandiu suas visões científicas em um contexto cultural maior, resultando em seu primeiro livro “A Dança do Universo”. Concebido como um livro didático para cursos não-científicos em Dartmouth, essa exploração das raízes filosóficas e religiosas do pensamento científico e sua influência dos tempos antigos aos modernos marcou o aparecimento de Gleiser como um intelectual público.

Mais quatro livros em inglês nove em português foram publicados, detalhando seu crescente ceticismo quanto à busca por encontrar a perfeição matemática na natureza e, ao invés disso, conclamando-nos à celebração da imperfeição, da assimetria e do desequilíbrio como poderes criativos conjuntos na natureza. Ele se tornou um crítico da tendência de se fazerem pronunciamentos exagerados sobre assuntos incognoscíveis, por exemplo, a inevitabilidade da unificação das forças e a certeza sobre a física já ter resolvido a questão do início do universo. Além disso, ele cada vez mais rejeitou as alegações de outros cientistas que defendem a irrelevância da filosofia e da religião.

A pesquisa de Gleiser foi se direcionando para a investigação de como as propriedades da matéria mudaram à medida que o universo evoluiu, e para as forças que contrabalançam a tendência de dissipação ou decaimento de um sistema. Em 1994 ele co-descobriu os “oscillons” – pequenos e persistentes “aglomerados” de energia feitos de muitas partículas – e ele continua examinando suas notáveis propriedades. Atualmente, ele usa a teoria da informação para explorar como a estabilidade de sistemas físicos – desde escalas subatômicas até astrofísicas – está codificada na complexidade de suas formas. Ele também voltou sua atenção para a origem da vida na Terra, em particular para o papel das assimetrias bioquímicas na formação inicial de polímeros, precursores de biomoléculas complexas, e se tornou uma voz influente na crescente comunidade da astrobiologia.

Ao mesmo tempo em que descreve-se como agnóstico, ele também é um declarado não-ateu. “Eu vejo o ateísmo como sendo inconsistente com o método científico, pois é, essencialmente, a crença na descrença”, observou ele em uma entrevista em 2018 na Revista Scientific American. “Você pode não acreditar em Deus, mas afirmar com certeza sua inexistência não é cientificamente consistente.”

Gleiser, com um talento especial para uma comunicação clara e sucinta, é comentarista frequente em inúmeros documentários na TV aberta e a cabo, incluindo “Fantástico”, o programa de variedades mais popular da televisão brasileira. Em 2009, foi cofundador do blog “13.7: Cosmos and Culture”, da Rádio Pública Nacional (a americana NPR), onde contribuiu com mais de 400 artigos. O blog foi recriado em 2018 como “13.8” em orbitermag.com. Ele também é colunista do jornal Folha de São Paulo (o maior do Brasil), onde já assinou mais de 900 colunas semanais.

Em 2016, ele fundou o ICE (Institute for Cross-Disciplinary Engagement) em Dartmouth para transformar e avançar o diálogo construtivo entre as ciências naturais e as humanidades na academia e na esfera pública, especialmente em questões fundamentais, onde reunir conhecimentos multidisciplinares é essencial. O Instituto, apoiado em parte por uma doação da John Templeton Foundation, patrocina diálogos e workshops em cidades dos Estados Unidos com cientistas, humanistas e líderes espirituais.

Marcelo Gleiser e sua esposa Kari Amber Gleiser, psicóloga especializada em trauma, são atletas de nível internacional em “corridas Espartanas” (Spartan races) – corridas de longas distâncias com obstáculos – e ultramaratonas, que ele descreve como integrações meditativas da mente e do corpo no vasto mundo da natureza. Eles moram com seus filhos em Hanover, New Hampshire, nos Estados Unidos.

Ele se junta a um grupo de 48 recebedores do Prêmio, incluindo Madre Teresa, que recebeu o prêmio inaugural em 1973, o Dalai Lama (2012) e o Arcebispo Desmond Tutu (2013). O Prêmio Templeton do ano passado foi concedido à Sua Majestade o Rei Abdullah II da Jordânia, por seus esforços a fim de promover um Islã de paz e por buscar a harmonia religiosa dentro do Islã e entre o Islã e outras religiões. O laureado de 2017 foi o filósofo americano Alvin Plantinga, cujos estudos tornaram o teísmo uma opção séria e válida dentro da academia. Os cientistas que receberam o prêmio em anos anteriores incluem Martin Rees (2011), John Barrow (2006), George Ellis (2004), Freeman Dyson (2000) e Paul Davies (1995).

Marcelo Gleiser receberá formalmente o Prêmio Templeton em uma cerimônia na cidade de Nova York na quarta-feira, 29 de maio.

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