Resenha: “O Feijão e o Sonho”, de Orígenes Lessa


Aquele que disser que nunca vivenciou o conflito entre profissão e sonho decerto mente. É sobre esse questionamento interno que nos fazemos desde a mais tenra idade que Orígenes Lessa (1903–1986) construiu o romance O Feijão e o Sonho, lançado em 1938.

A trama volta-se sobre o casal Juca — apelido de José Campos Lara — e Maria Rosa, que experienciam, em seu convívio familiar, uma inalterável dicotomia entre as forças que dão título à obra: o feijão, representando a dedicação ao trabalho para fins de prover o sustento material da família; e o sonho, simbolizando a devoção de si às coisas que edificam o espírito, mas não a carne.

Maria Rosa representa o lado racional humano, sempre preocupada com a capacidade de o marido obter, por meio de seu trabalho, as condições financeiras para garantir o sustento do casal e de seus filhos. O poeta Juca representa o aspecto fantástico humano, aquele quase utópico que todos nós temos; aquele que surge para nos fazer refletir acerca das convicções que possuímos sobre trabalho e o nosso lugar no mundo.

Alguns aspectos técnicos deveras enriquecedores me chamaram a atenção durante a leitura. Apesar de narrado na terceira pessoa, é possível observar mudanças de forma de acordo com o protagonista do capítulo. Nas seções lideradas por Maria Rosa, tem-se estruturas enxutas, parágrafos curtos, descrições práticas das coisas e diálogos em demasia. Observa-se uma valorização do aspecto racional em todos os sentidos. Todavia, com o protagonismo de Campos Lara, descortinam-se descrições filosóficas, com alegorias e metáforas, fluxos de consciência e uma apreciação dos valores emotivos dos fatos e dos objetos.

Não entendi muito bem o fato de o livro ter sido publicado, a partir de 1983, na Coleção Vaga-Lume da editora Ática, que para quem não se lembra, é uma série de livros voltada ao publico infanto-juvenil. No site da editora, consta a informação de que o livro é recomendado aos anos escolares oitavo e nono, ou seja, para alunos com idade entre 13 e 14 anos de idade. Em determinado trecho, o barbeiro de uma cidade do interior onde Campos Lara teve de ser radicar conta uma história ao poeta sobre uma prostituta que morava no município. No diálogo, o barbeiro, apelidado de “Oficial” pela gente do povoado, detalha com alguns adjetivos as atribuições físicas da mencionada moça, alguns episódios de violência e, por fim, conta como ele vive com sequelas físicas por conta de uma doença sexualmente transmissível que adquiriu em um encontro com aquela profissional! Chamem-me de antiquado, contudo, talvez não seja esta uma temática completamente apropriada a pré-adolescentes.

Obviamente que as pequenas falhas encontradas no texto são compensadas pela grandiosidade do livro de Lessa, que criou uma obra que transcende o próprio tempo. As reflexões não respondidas permanecem até hoje, tanto na nossa identidade coletiva quanto no âmago de nossas almas.

Resenha publicada originalmente no blog Conversa Unilateral.

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