BUDISMO ESSENCIAL A ARTE DE VIVER O DIA-A-DIA: A FELICIDADE


“SEM UMA NATURAL FELICIDADE INTERIOR (UMA SENSAÇÃO DE ALEGRIA, DESPREOCUPAÇÃO E BEM-ESTAR QUE NÃO DEPENDE DE CONDIÇÕES EXTERNAS, COMO SUA FAMÍLIA, AMIGOS, POSSES OU O CLIMA), NUNCA SEREMOS VERDADEIRAMENTE FELIZES.

VAMOS DESPERDIÇAR NOSSAS VIDAS CORRENDO ATRÁS DISSO E DAQUILO, CHEIOS DE EXCITAÇÃO POR QUALQUER PESSOA OU SITUAÇÃO NOVA. ENTÃO SENTIREMOS UMA FELICIDADE SUPERFICIAL POR UM CURTO MOMENTO, QUE SE DESFARÁ E NOS DEIXARÁ COM UMA SENSAÇÃO DE VAZIO NOVAMENTE, E AÍ BUSCAREMOS ALGUMA OUTRA COISA.

ENTÃO, PARA ENCONTRARMOS FELICIDADE VERDADEIRA E UMA VIDA SATISFATÓRIA, PRIMEIRO PRECISAMOS DE UMA BASE INCONDICIONAL DE FELICIDADE”

–KYABGÖN PHAKCHOK RINPOCHE

Todos os homens, sem exceção, desejam ter uma vida feliz e se esforçam para conquistá-la. Alcançar a liberdade e a igualdade significa, em última análise, viver uma vida feliz. Muitas guerras foram travadas com esse propósito. Até parece que toda a história humana é a história da luta pela conquista da felicidade. Todos os nossos projetos dirigem-se para esse objetivo, todas as nossas energias são despendidas para alcançá-lo. Parece que a felicidade é o objetivo último da vida. Vamos examinar o que é essa felicidade que todos nós buscamos, e o caminho que procuramos para conquistá-la.

kids meditatingO que é a felicidade? Precisamos conhecer com clareza o objetivo da nossa busca. Se não o conhecemos, nossos esforços talvez sejam em vão. Os antigos gregos pensavam que a felicidade era o bem. Mas, na Idade Média e na Idade Moderna, o significado formal de Aristóteles – o bem é a felicidade – foi alterado para o significado mais materialista de que a felicidade é o prazer ou a ausência de dor. John Stuart Mill, em sua obra O Utilitarismo, afirma: “Por felicidade, entende-se o prazer e a ausência da dor; por infelicidade, a dor e a ausência de prazer”. Stuart Mill estabelece diferenças qualitativas para o prazer. John Dewey faz distinção entre felicidade e prazer, afirmando que a felicidade é permanente e universal, um sentimento do ser como um todo, enquanto que o prazer seria transitório e relativo, um sentimento de alguns aspectos do ser. Aristóteles afirma que o bem do homem – a felicidade – é uma atividade da alma de acordo com a virtude; ou, se houver mais de uma virtude, então a felicidade estará de acordo com a melhor e mais perfeita virtude. Já Spinoza afirma que a felicidade não é o prêmio da virtude, mas sim a própria virtude.

Em sânscrito, a felicidade é chamada de sukha. A sukha inclui tanto o estado relativamente estático a que damos o nome de felicidade quanto a momentos conscientes desse estado, ao qual nossa psicologia se refere como um sentimento prazeroso ou agradável. A sukha aplica-se igualmente à saúde física, ao bem-estar material e à beatitude espiritual.

O budismo divide em três o sentimento: sukha, felicidade; dukha, dor; e adukhamasukha, sentimento neutro.

O sentimento neutro é idêntico à felicidade – ou seja, à felicidade do tipo mais sutil. Aos prazeres e à felicidade que têm origem nos cinco sentidos, chamamos de felicidade dos desejos mundanos. A espécie mais sutil de alegria surge em conexão com a prática do dhyana (meditação). No último estágio do dhyana, todos os sentimentos positivos, alegria ou melancolia, fundem-se no sentimento neutro ou indiferença; a perfeita clareza da mente é alcançada e a ignorância é banida, de modo que a consciência fica em estado de completa equanimidade e clareza mental. Sidgwick afirma que a felicidade budista é um hedonismo universal, porque ela não é egoísta nem altruísta. A missão de Buda não era apenas superar a dificuldade, mas também alcançar o bem e a felicidade de todos os seres: trazer felicidade para si mesmo e para os outros. No budismo, o esforço em direção a um objetivo é felicidade – em contraposição aos ascetas hindus que tudo sacrificam por um objetivo.

07-11-16.BuddhaTalkOk2Vamos agora trazer este tema para o nosso dia-a-dia. Alcançamos a felicidade de muitas maneiras na nossa vida diária. No entanto, podemos dividi-la em três categorias: a felicidade física, a material e a espiritual. Por física, quero dizer que a pessoa é feliz porque é saudável, simpática ou bonita. Em termos materiais, ela é feliz porque é rica, mora numa boa casa, tem um belo carro, muitas roupas, jóias e uma despensa bem abastecida. A felicidade mental ou espiritual está na amizade e no amor. A felicidade é criada quando a pessoa recebe honras, louvores, simpatia, conforto, etc.

Estas condições de felicidade dependem de causas externas. A felicidade é alcançada pela posse de alguma coisa ou pelo recebimento de alguma coisa. Portanto, quando a causa da felicidade deixa de existir ou é destruída, a felicidade também desaparece. Ela está além do nosso controle. Vejamos alguns exemplos. A sua felicidade física: você é jovem e bonito, é simpático, tem boa saúde e é forte. Com efeito, você é feliz e grato por isso. Mas, vamos supor que você sofre um acidente e fica aleijado, ou doente; a sua felicidade não pode mais depender da sua saúde. E á claro que, com o passar dos anos, sua beleza e vigor irão se desvanecer. Portanto, não se pode depender da saúde, da beleza e do vigor para a felicidade verdadeira e eterna, embora estes sejam fatores importantes da nossa felicidade. Devemos alcançar uma outra felicidade que não a física, a fim de podermos desfrutar a vida e ser felizes e gratos, mesmo que estejamos doentes, velhos ou aleijados.

Kenkô, famoso monge budista e autor de Tsurezuregusa, disse certa vez: “não vale a pena termos um amigo que nunca experimentou a doença”. Uma pessoa saudável, que nunca esteve doente, não compreende o verdadeiro sentido da compaixão e da bondade. Uma pessoa assim tão saudável tende a tornar-se obstinada e a criar atrito e discórdia. Num caso desses, a saúde não é uma fonte de felicidade, mas sim de problemas. Também é evidente que a felicidade material é incerta e duvidosa. Nesta nossa época regida pelo culto à riqueza, o dinheiro é tudo. As pessoas acreditam que o “onipotente cifrão” pode comprar tudo e todos. Na verdade, o dinheiro é muito importante neste nosso mundo tão consciente dos valores monetários. Mas a felicidade que é comprada com dinheiro irá se dissolver quando o dinheiro acabar. O dinheiro trás felicidade, sim, mas ao mesmo tempo traz miséria. Logo, o dinheiro mão é o caminho para a felicidade. Um belo carro, uma boa casa, boa comida, roupas finas e outros pertences estão na mesma categoria. Estas coisas são importantes e trazem felicidade, mas são duvidosas e incertas; e muitas vezes, trazem o sofrimento através da destruição do roubo ou da inveja. Tampouco podemos depender da felicidade trazida pelo amor, pela amizade, pela simpatia e pela bondade dos amigos, pois o amor freqüentemente se transforma em ódio e os amigos em inimigos, já que todas essas coisas são relativas. A felicidade trazida por meios físicos, materiais e mentais é alcançada através de causas externas. E é exatamente por isso que não se pode depender dela. Devemos, portanto, procurar as causas internas da felicidade, não suas causas externas.

O budismo nos ensina a olhar o âmago das coisas, em vez de olhar à volta delas. Devemos olhar para o interior de nós mesmos, a fim de vermos o que cria a felicidade. Por exemplo, ser amado é felicidade, mas amar também é felicidade. É fonte de felicidade receber-se alguma coisa; mas também dar e compartilhar é felicidade. A felicidade do doador é mais rica e permanente que a do receptor. No espírito do verdadeiro dar, compartilhar e amar, não há limites. A felicidade é o próprio amar e compartilhar, não necessariamente seu resultado. A verdadeira satisfação do trabalho é o próprio ato de trabalhar, não o resultado do trabalho. A verdadeira felicidade não é aquela que recebemos de fora, mas sim aquela que é criada dentro de nós. O homem moderno em geral é um “buscador de resultados”. Sua atitude é a de fazer alguma coisa se esta lhe trouxer algum benefício; pois, se não obtiver lucro, de que adianta fazer alguma coisa? Os buscadores de resultados são os buscadores de lucro. Em outras palavras, o homem moderno pensa que o fim é mais importante que os meios. Alguém disse que duas ideologias modernas estão representadas por Stálin e Gandhi: o caminho de Gandhi é que os meios são tão importantes quanto o fim, enquanto, para Stálin, o fim é tão importante que justifica os meios. Os budistas aprendem que todos os passos e todos os meios são muito importantes. Cada meio é, em si, um fim. Para o artista, o músico e o escultor, o trabalho em si é prazer e felicidade; mas, para aquele que só pensa em dinheiro, o trabalho nada mais é que um meio de ganhar dinheiro. Trabalho significa dor e sofrimento; o sofrimento precisa ser compensado gastando dinheiro: esta é a vida moderna. Sinto muita pena das pessoas que vivem esse tipo de vida. A pessoa mais feliz e afortunada é aquela que gosta de seu trabalho, além de ganhar dinheiro com ele.

O VERDADEIRO CAMINHO PARA A FELICIDADE É A PERCEPÇÃO DA NOSSA PRÓPRIA VIDA. É O DESABROCHAR DO SER COMO UM TODO. O VERDADEIRO CAMINHO PARA A FELICIDADE ESTÁ NO DAR, NÃO NA FELICIDADE DO RECEBER. PRECISAMOS ENCONTRAR O CAMINHO DO AMAR, NÃO O DE SERMOS AMADOS. A VIDA DO ETERNO DAR, AMAR, COMPARTILHAR E APRECIAR O TRABALHO É SEMPRE CRIATIVA E INFINITA, ENQUANTO OS OUTROS CAMINHOS PARA A FELICIDADE LEVAM A FRACASSOS E DESAPONTAMENTOS. A VERDADEIRA FELICIDADE NÃO NOS É DADA – NÓS A CRIAMOS. SE VOCÊ É INFELIZ, NÃO CULPE OS OUTROS OU O MEIO AMBIENTE. É A SUA MENTE, A SUA ATITUDE, QUE O FAZEM SENTIR-SE MISERÁVEL. PODE SER ÚTIL MUDAR DE CASA OU DE EMPREGO, MAS ESSA NÃO É A CURA COMPLETA PARA O SEU PROBLEMA E A SUA INFELICIDADE. A ATITUDE CORRETA E UMA MENTE CLARA E CORRETA SÃO O CAMINHO PARA A FELICIDADE.

Budismo Essencial

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