Ações de segunda linha dão mais ganhos que as principais, mas provocam mais riscos


Anne Dias

Uma ação de segunda linha (ou “small cap”) leva este nome porque oscila muito, e a liquidez (facilidade de negociação) nem sempre é alta. Ela não é como as ações que fazem parte do Índice Bovespa (Ibovespa), também chamadas de “blue chips”, que são os papeis mais negociados do pregão. Esses, sim, estão na mira dos investidores que pensam no longo prazo.

Mesmo assim, uma “small cap” pode lucrar mais do que uma empresa do Ibovespa. Segundo levantamento da própria Bovespa, a small cap que mais subiu neste ano (até a semana passada) foi a LLX Log, com uma valorização de 405%. A blue chip que teve melhor rendimento no mesmo período foi a MMX Miner, com 358% de alta. A diferença entre uma e outra foi de 13%, a favor das ações menos reconhecidas (veja tabela abaixo).

A VALORIZAÇÃO DAS AÇÕES
(No ano, até 16/10)

SMALL CAPS RENDIMENTO % BLUE CHIPS RENDIMENTO %
LLX Log 405,30 MMX Miner 358,12
Tenda 399,14 Rossi 277,77
BicBanco 363,15 Cyrela 204,03
  • Fonte: BMF&Bovespa

Mas cuidado. Isso não significa uma vida tranquila para os minoritários. Algumas ações assustam os investidores. Foi o caso dos papéis da rede de hotéis Othon.

No dia 2 de outubro, quando o Rio de Janeiro foi escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016, as ações do Othon dispararam e passaram a valer 77% a mais do que no dia anterior. Só naquele dia, os papéis da rede oscilaram 177%.

“Esta subida não faz muito sentido. A rede não é muito grande e não tem destaque na Bolsa”, diz Otávio Vieira, diretor de investimentos da gestora de patrimônio Safdié.

Ao sabor das fofocas

E não foram só as Olimpíadas que empurraram alguns papéis para cima. Qualquer evento, por menos importante que pareça, pode puxar a cotação de algum papel.

Muitas vezes, não precisa acontecer nada. “Basta algum boato tomar conta do mercado e pronto, essas ações disparam”, diz Mauricio Gallego, da corretora Link.

Ações da Petrobras e da Vale, por exemplo, que estão no Ibovespa, também são influenciadas por boatos. A diferença é que logo os analistas identificam que a informação é infundada e os papéis voltam aos eixos.

Segundo Gallego, a Varig e a empresa de engenharia Tecnosolo, que tem capital aberto desde a década de 1970, já passaram por picos depois que notícias que não procediam chegaram ao mercado.

Além dos eventos e da fofoca, algumas vezes as ações sobem por conta de grandes negociações.

“Existem gestores de fundos que compram ações sem liquidez e logo em seguida vendem tudo. É o chamado efeito bicicleta que funciona para favorecer o próprio fundo”, afirma Vieira. E isso é legal? “Sim, e não há nada que as autoridades do mercado possam fazer”, completa.

Se inchar papéis para vendê-los depois é permitido, o que os minoritários devem fazer? Tomar cuidado. “É preciso ficar atento às empresas que têm pouca liquidez”, afirma Kelly Trentin, analista de investimentos da SLW.

Outra dica de Kelly é saber quantos negócios são fechados por dia. Empresas que fazem dez ou 20 operações devem acender o sinal amarelo dos investidores.

É importante observar também se a empresa é transparente e quais são as perspectivas de crescimento dela e de outras companhias do setor onde atua. “Sempre desconfie de um papel inexpressivo que sobe demais”, diz Kelly.
Índice “Small Caps”

Índice small caps

A BM&FBovespa tem um índice que acompanha o desempenho das ações de segunda linha. É o Índice “Small Caps”, que lista 50 ações de empresas com menor capitalização, ou seja: são ações de empresas que têm menor valor de mercado quando a Bolsa fez a medição.

No caso das empresas com ações blue chips, que fazem parte do Ibovespa, elas movimentam 80% dos negócios da Bolsa, são extremamente líquidas (é possível vendê-las facilmente) e são negociadas há pelo menos 12 meses.

A tentação de investir em empresas menores é grande. Até porque a valorização delas neste ano bateu as empresas do Ibovespa (veja gráficos). “Principalmente depois da crise as ações de segunda linha cresceram muito”, diz Jonatas Castro trader da BI-Invest.

Kelly Trentin, no entanto, diz que é preciso tomar cuidado com as “smal caps”. “Nem todas têm boas perspectivas ou liquidez. Investir nestas ações é correr um grande risco”, afirma a analista.