Arte, ciência e espiritualidade


Arte, ciência e espiritualidade

Cada método espiritual produz alguma melhoria mas ao mesmo tempo oferece um obstáculo e, se ficarmos presos ao obstáculo, poderemos estacionar por vidas. A meditação está incluída nesta situação, por exemplo, no Lankavatara Sutra o Buda diz que entre as maiores perturbações ao caminho espiritual está diana, a meditação. Então diana libera e diana traz obstáculos.

Assim, é necessário que se tenha a perspectiva de quando diana é útil e quando é um obstáculo. O Mestre Dogen, fundador do Sotozen, diz que é necessário livrar-se da própria meditação. As diferentes tradições dizem isso de forma diferente. A perspectiva do Zen com respeito à meditação é quase uma perspectiva Vajraiana: meditação no Zen é a prática da iluminação. Essa é uma boa definição, ou seja, nós não estamos praticando algo como caminho para chegar, ao final, em algum lugar diferente – sentamos apenas para praticar a liberdade. Se não ocorre ainda a liberdade, seguimos perseverando, mas sempre dentro da noção de que o Zazen é a própria prática da iluminação.

Os outros seres

No Zen o elemento de compaixão se introduz posteriormente de outra forma: quando sentamos para meditar, o fazemos “junto com todos os seres”. A linguagem do Zen é assim. Para nós pode parecer um pouco estranho porque de modo convencional nunca se consegue compreender por inteiro. Faz parte do método e da linguagem do zen a sofisticação de valorizar mais o paradoxal do que a lógica comum da afirmação. Quando a afirmação produz conforto, acalma e tranqüiliza, a pessoa estaciona; se a afirmação produz desconforto, a pessoa nunca consegue harmonizá-la perfeitamente no contexto de seus conceitos e, assim, nunca se sentirá intelectualmente pacificada, ficará instigada e não poderá estacionar. A linguagem em vez de legitimar a visão convencional, se torna algo que vai forçando a pessoa ir adiante e só no momento em que ela atinge a realização interna do ensinamento é que se sentirá confortável. Não atingindo a realização interna, a linguagem não produzirá a ilusão de uma aparente compreensão. No zen este método é muito natural, ainda que muito sofisticado. Então vem a afirmação: quando sentamos em meditação, praticamos a iluminação; quando sentamos, sentamos com todos os seres.

Só o Buda é capaz de sentar com todos os seres. Nós dizemos que sentamos com todos os seres, que somos inseparáveis de todos os seres, mas o que é essa experiência de inseparatividade? Essa experiência já é a iluminação.

Pensar e não-pensar

Como é que se pratica a meditação? Meditando além de pensar, mas também além de não-pensar. “Pensar além de pensar e não-pensar” é outra afirmação desconfortável. Não se diz para pensar nisso ou naquilo, ou para não pensar, mas “pense além de pensar e não-pensar”, esta é uma afirmação maravilhosa.

Com relação à realização, há outras afirmações maravilhosas. Se diz que um grande mestre mandou um discípulo levar uma pergunta até um outro grande mestre. A pergunta era assim: a iluminação é possível? O grande mestre respondeu, “a iluminação é possível, mas é fácil de se enganar…” São afirmações muito importantes, nos trazem alguma coisa que aponta uma direção, mas não nos deixam repousar, não nos deixam confortáveis, são sutis, maravilhas da linguagem.

Cuidados

Quando se começa a examinar a questão da meditação, temos que tomar precauções. Qual seria o objetivo da meditação? A meditação é um método. O próprio Buda, no Lankavatara Sutra, diz: há iogues que sentam, atingem a estabilidade e dizem “estou iluminado”, mas tão pronto eles abrem os olhos e restabelecem o contato com o mundo, os venenos da mente e as tendências cármicas retornam por inteiro. Na verdade, hoje estamos entrando na descrição da meditação pelo controle de qualidade, os obstáculos são apontados antes mesmo de falar da própria prática. Isto é muito importante porque ajuda a purificar o primeiro obstáculo da meditação, sua mitificação, ou seja, o obstáculo de produzir apego com relação à meditação. A falha da motivação correta se manifesta como um impulso de buscar ascensão pessoal através da prática. Hakuin, um dos maiores mestres Zen do Japão, por exemplo, teve uma experiência de loucura no meio de sua prática, curou-se e descreveu-a depois. Toda a sua experiência de loucura originou-se de sua vontade muito grande de avançar – esse era o seu problema. Ele praticou a meditação focando koans, mas com uma motivação egóica – havia um eu praticando meditação e enquanto havia este eu praticando intensificou-se a perspectiva dual, simbolizada na roda da vida pelo porco – avidia. Imaginem um japonês determinado visualizando um porco; isso é devastador, é uma energia de samurai… Ele colocou aquela intensidade toda na própria dualidade originando uma cobra enorme – cobra é toda a atividade emocional de defesa, de dualidade e sai da boca do porco.

Assim, Hakuin teve calores e frios, raiva, hostilidade, perdeu o balanço, teve terrores diurnos e pesadelos noturnos, somatizou em distúrbios digestivos, dores de cabeça e exaustão – sua perturbação durou dois anos. Sob as circunstâncias deste tipo de perturbação, a pessoa vê tudo o que acontece consigo como originando-se da ação maligna de outros seres humanos e demônios ou das circunstâncias externas – o medo é sua experiência básica. Este processo, de forma mais ou menos intensa, pode se prolongar mesmo por vidas. Com respeito à meditação silenciosa ou “iluminação silenciosa” ou “nada-fazer” como se chamava nos tempos de Hakuin, sua experiência, enquanto jovem monge, foi de contínua apatia e depressão. Acho que não existe nenhuma linhagem no budismo que privilegie tanto a meditação silenciosa quanto o Zen, por isto é importante, no contexto dos cuidados, lembrarmos sempre estas experiências. É um grande mestre da meditação que alerta.

Estamos hoje começando pelo exame das dificuldades porque buscamos gerar antídotos aos obstáculos da meditação. Hakuin se vê livre dos problemas induzidos pela própria prática e motivação equivocados através de uma prática semelhante a de Vajrasattva, como descrita no Dudjom Tersar Nongdro, reorganizando sua motivação e canais de energia.

A prática da meditação

Qual o objetivo da prática da meditação? A prática da meditação tem várias etapas e cada etapa tem um objetivo. Toda a prática dentro do budismo se centra na remoção de obstáculos, nunca está na categoria de treinamento para obter uma habilidade; nós nunca vamos conseguir a iluminação gerando habilidades, é preciso remover obstáculos.

Isso é muito importante. Para mim que venho do Zen, a compreensão disso foi um choque. Eu confundia o budismo inteiro com a meditação silenciosa. Dentro do budismo tibetano vamos encontrar os mecanismos de liberação sem a meditação silenciosa. Todas essas afirmações eu faço para que não se pense que a meditação é algo a ser valorizado mais o do que outros dos muitos métodos de atingir a liberação.No processo da meditação existem várias etapas, pois cada etapa provoca a remoção de certo tipo de obstáculo, até as últimas, que removem os obstáculos mais sutis. Começando no enfoque da primeira volta do Darma, temos a prática de Shamata – meditação de tranqüilização.

Nas etapas mais sofisticadas do Vajraiana encontramos a meditação silenciosa dentro do Dzochen e do Mahamudra. Olhando externamente, a postura de sentar é a mesma, mas internamente é muito diferente. Shamata possibilita a prática de Vipassana e Vipassana vai possibilitando as outras formas de meditação. Cada uma das etapas é muito diferente da anterior, ainda que, externamente, pareçam iguais. As etapas finais, as mais sutis, vão gerar a pós-meditação. A meditação é um método. Depois, mesmo praticando meditação, abrem-se formas mais sofisticadas onde não é mais necessário parar propriamente para meditar. Dentro do processo de parar e meditar existem muitas instruções.

Podemos começar com o método de tranqüilização. O Buda ensina as quatro nobres verdades – a quarta nobre verdade é o nobre Caminho Óctuplo e no Nobre Caminho Óctuplo as duas últimas instruções são Sama-sati e Sama-samadhi. “Sama” significa “a mais elevada”. “Sati” é atenção. Existe o Satipatana Sutra que é o ensinamento sobre a plena atenção, ele se refere exatamente à prática de Sama-sati. Depois disso vem Sama-samadhi, que conduz até a etapa final. Dentro de Sama-sati existem muitas subdivisões e o mesmo acontece com sama-samadhi. Sama-sati vai começar quando o Buda propõe às pessoas a prática da tranqüilização, que é a primeira das etapas, e ela é colocada porque temos uma mente intranqüila. O que significa a intranqüilidade da mente? A intranqüilidade da mente significa que quando focamos uma coisa, o fato de criarmos uma discriminação, de reconhecer sensorialmente ou abstratamente um objeto, estimula a manifestação cármica de uma segunda imagem na mente, depois uma terceira imagem estimulada pela segunda, e assim por diante, e nesta seqüência, em certo momento surge o impulso cármico da ação. Ou seja, saímos pensando a partir do primeiro objeto e uma ação pode decorrer naturalmente disso. Se a pessoa olhar na vitrine um quindim, ela pode olhar de uma forma completamente livre ou pensar … “huumm, esse quindim sim”; a pessoa já está ativando a sensação de sabor do quindim e todas as marcas cármicas referentes a quindim se oferecem, só falta a experiência sensorial.

Quando a pessoa vive esta experiência pode até salivar porque as marcas cármicas vêm e os ventos e gotas correspondentes também surgem. Essa seqüência não precisa acontecer – pode acontecer mas não necessariamente. Quando pensamos sobre as coisas significa que estamos experimentando, estamos passeando pelas marcas cármicas correspondentes. Na verdade, estamos ativando os cinco skandas, estamos trabalhando na freqüência das formas sólidas (rupa); reconhecemos a sensação, temos a percepção, surge a formação mental correspondente e surge vijnana, que é o impulso de identificação pessoal correspondente ao quindim: “eu” sou aquele que gosta de quindim. Em vista dessa legitimação toda, a pessoa entra na confeitaria. Se não houver essa legitimação, a pessoa não entra na confeitaria. Esse é um processo que os publicitários aprendem… o método de induzir comportamentos. É necessário ativar os cinco skandas, especialmente o quinto – vijnana. A pessoa diz “eu sou isto ou aquilo” na referência ao objeto, ela se confessa, ela legitima. Há um grande mestre vajraiana, o Venerável Gyatrul Rinpoche, que diz que o objeto e o observador correspondem à mesma experiência mental. Isto é muito profundo.

Se examinamos a experiência sensorial visual, vemos que produz a ativação dos cinco skandas correspondentes ao objeto e a identificação com o objeto e assim também, naturalmente, surgem as marcas mentais e os skandas correspondentes a toda a experiência sensorial com respeito ao quindim. Quando surge essa experiência sensorial complexa, a pessoa sente uma alegria correspondente. Para sustentar a experiência nada melhor que uma experiência sensorial, uma vez que o estado mental se sustenta sem esforço enquanto se tem a experiência sensorial. Esse é processo pelo qual nós somos pegos pelas novelas de televisão, pelos filmes, e é também a forma pela qual erramos sem perceber. O processo de operação mental condicionada é sempre o mesmo.

Méritos da meditação

A meditação vai proporcionar o que? A estabilidade. Aquilo que nós chamamos de pensar, vaguear mentalmente, é essencialmente isso; a gente contempla um objeto, esse objeto manifesta os cinco skandas e na seqüência nós temos um passear por objetos, tendo essas energias por foco. Assim vamos girando na roda da vida. De um modo geral, isso é a nossa ocupação mental. Então, na meditação, o primeiro ponto é a tranqüilização. Se não a desenvolvermos, vamos simplesmente sair pensando; nem é preciso sentar, a mente fica pensando e agindo. Pensar e agir é girar a roda da vida, é o que estamos fazendo por vidas e vidas, desde tempos sem início. Olhando dessa maneira, vamos entender a que o Buda se refere com a expressão “escuridão dos sentidos”. É uma experiência muito importante mas gravíssima porque quando abrimos os olhos estamos imersos na escuridão dos sentidos e não nos damos conta.

Para nós a escuridão é falta de luz, se quando abrimos os olhos temos luz, por que chamamos de escuridão? É escuridão porque existem os impulsos sensoriais – visuais, gustativos, olfativos, tácteis, ou auditivos – sejam quais forem, que nos conectam aos pensamentos e nos fazem seguir sempre presos em um processo que obstrui a clareza ou liberdade da mente. O Buda diz que quando interromper isso a pessoa abre os olhos e é como alguém que realmente abriu os olhos e se move com uma clareza nunca experimentada. Antes disso tudo o que nós podemos pensar durante uma vida inteira está inteiramente limitado às associações cármicas, às marcas mentais. Assim, vamos de uma marca para outra, em um movimento sempre presos a este processo, sem esperança de liberação.

Serenidade lúcida

O primeiro ponto da meditação é criar a possibilidade de não sair troteando atrás das marcas. Então o Buda ensina: a coluna ereta, os olhos abertos, as mãos no mudra da equanimidade, respiração abdominal e… “enquanto eu inspiro e expiro, acalmo o corpo e a mente”. Essa é uma experiência muito rara e dentro de nossa cultura não tem paralelo porque, na verdade, nós sempre somos convidados a trocar de um tipo de excitação para outro até o ponto em que estamos exaustos. Estamos fazendo uma coisa e começamos a fazer outra e assim nunca se tem o cultivo do estado que é a serenidade lúcida, clara. Esta prática é absolutamente necessária. Na nossa cultura quando interrompemos a excitação, sobrevêm a depressão e o torpor, é como se desconhecêssemos a serenidade com lucidez.No caso das crianças nas escolas, isso é uma infelicidade porque eles nem bem apagaram uma excitação e já são arrastados para outra; são obrigados a interromper a seqüência do que vêm fazendo e começam outra e, se não conseguem, são pressionados e pressionados terminando por desenvolver sentimento de culpa. É uma espécie de tortura.

Essa prática de meditar é extremamente benfazeja: inspirar e expirar acalmando corpo e mente. O curioso disso é que ela é uma experiência mental completamente natural, ela existe desde os tempos sem início mas não nos é apresentada; somos ensinados a ouvir música, a aprender inglês, escrever, trabalhar com computador, mas não somos ensinados a essa atividade mental que é a atividade mental de tranqüilização e que tem o poder de potencializar todas as outras. Quando praticamos a tranqüilização surge leveza, clareza, liberdade e energia que vamos utilizar ao retomar o foco da ação.

Somos e não somos o corpo

Depois, o Buda nos convida a entrar numa segunda experiência: a contemplação das diversas partes de nosso corpo, é uma experiência muito incrível que se aprofunda na medida em que se adquire maior familiaridade com a prática. Olhamos internamente, localizando os elementos sólidos, líquidos, gasosos e calor. Existe um efeito maravilhoso de perceber a presença desses elementos. A pessoa senta e contempla internamente os elementos sólidos, do topo da cabeça aos pés. Quando contempla assim, acontece uma coisa inacreditável. Até então os elementos sólidos eram nossa própria existência, nós mesmos, mas quando são contemplados, sendo identificados separadamente, desaparece o automatismo da identidade e a reação automática aos estímulos. Mesmo o movimento dos ossos já não são mais o mesmo que antes, há uma estabilidade e um não-movimento durante o próprio movimento. Desta estabilidade o corpo é contemplado parte por parte. Uma consciência que nunca desenvolvemos. Depois é a contemplação dos elementos líquidos dentro do corpo, reconhecendo a mobilidade e flexibilidade. Após, contempla-se o elemento gasoso e depois o calor. Assim, olhamos um por um nossos elementos, o que vai produzir uma consciência de liberdade. Praticando repetidamente, reconheceremos três fases: ao iniciar a prática, focando o corpo, dizemos “eu sou isso”, mais adiante dizemos “eu não sou isto”. Prosseguindo, chegamos finalmente a dizer “eu sou isso”, mas com uma consciência completamente diferente.

A contemplação como descrita não se dá através do desenvolvimento de conceitos, mas pela familiaridade que proporciona com relação aos objetos da atenção. Mais adiante focamos cada um dos sentidos e seus órgãos correspondentes, reconhecendo a ação dos cinco skandas – a sensação de materialidade, rupa, a sensação de apego ou aversão que são os vedanas, a sensação do surgimento dos objetos, que é samjana, depois contemplamos as marcas internas nossas que dão surgimento ao objeto, samskara, e finalmente nosso surgimento inseparável do objeto, vijnana. Assim, contemplando o que operamos de forma automática, compreendemos: sou isto, não sou isto, sou isto.

Esta prática pertence por inteiro a uma classe de meditação onde não há ainda a compreensão da vacuidade, ou seja, estamos na primeira volta do Darma.

Existência e não-existência

Tendo desenvolvido a tranqüilidade da mente e a capacidade de foco com sabedoria, temos os instrumentos para meditar sobre o Sutra do Coração e a abordagem anterior vai modificar-se radicalmente. Na meditação sobre o Sutra do Coração vamos perceber o sentido verdadeiro de bhava, a existência externa. Vamos perceber que toda existência tem por base os cinco skandas e, através da meditação no Sutra do Coração, veremos que todos os skandas são vacuidade, possuem uma liberdade intrínseca.

O primeiro skanda é rupa. No sutra está:

rupa é vacuidade,
vacuidade é rupa,
rupa nada mais é do que vacuidade,
vacuidade nada mais é do que rupa.

O segundo é vedana: vedana é vacuidade, vacuidade é vedana, vedana nada mais é do que vacuidade, vacuidade nada mais é do que vedana… e assim nós vamos indo. Os objetos dos sentidos são isso, os órgãos dos sentidos, as sensações correspondentes aos sentidos, nossa identidade, todos elas passam por essa experiência e vamos meditando dessa maneira.

Este é o início da segunda volta do Darma. Agora, como pode alguém contemplar isso de um modo tão sutil assim? Forma é vacuidade: a pessoa pode ver isso porque está tranqüila, já acalmou os processos todos, onde ela pousa os olhos a atenção se mantém e por isso ela pode focar algo que é muito sutil e ficar contemplando até que este aspecto sutil se torne aparente.

Antes da etapa inicial ela nunca conseguiria fazer isso, ela tem uma sensação de urgência, acha que não está fazendo nada quando está sentada meditando. Quando sua concentração se desenvolve e o sutra do Coração se torna uma experiência progressiva, nesse ponto quando medita descobre-se atravessando vidas e livrando-se de muitas reencarnações futuras. Isto tudo rapidamente, em vários episódios quase instantâneos. Esta sensação de livrar-se do carma e condicionamentos durante a meditação surge porque, em um tempo como 15 minutos, percebe que elimina uma vasta quantidade de ignorância, de respostas automáticas que no processo normal precisariam vidas para serem eliminadas.

Quando nós não temos essa realização da tranqüilização e concentração, ao praticar meditação pensamos que estamos perdendo tempo e que há coisas mais úteis, mais urgentes para fazer. Com a realização do Sutra do Coração, chega-se ao ponto que no Zen se chama “Tatata” e no budismo vajraiana de “compreensão da perfeição de todas as coisas”.

No Zen, nessa etapa surge a habilidade poética do haiku. A pessoa talvez vá compor muitos versos. Com a realização do Sutra do Coração, a pessoa começa a olhar tudo na sua perfeição, ela olha as coisas como surgindo de modo condicionado, mas ainda manifestando uma perfeição que é o próprio aparecimento daquele condicionamento; a pessoa não olha mais os condicionamentos como algo que surgem de uma forma obscura, como intromissões vindas não se sabe da onde.

O próprio surgimento dos obstáculos que seriam obstáculos, intromissões, ou sentidos automáticos atribuídos às coisas, o próprio surgimento disso, é visto como uma maravilha, como a manifestação da liberdade da mente. Então, quando olhamos as flores, no início dizemos “que flores lindas”, mais adiante nos damos conta de que a própria beleza surge como uma experiência condicionada e pensamos: “Como que eu posso estar no meio dessa névoa terrível a ponto de achar uma flor bonita? Existe uma atribuição de sentido, eu estou preso à roda da vida, não tenho chance nenhuma; imagina… achar uma flor bonita?”

Neste ponto as pessoas dizem: “eu acho as flores bonitas e acho os rapazes bonitos, por isso estou rodopiando há muitas vidas sem chance nenhuma, desenvolvi esta ligação e por ter essa ligação não tenho chance”. E surge a rejeição ao mundo. Depois, com o amadurecimento da realização do Sutra do Coração, surge uma terceira etapa quando a pessoa olha o surgimento de uma ligação, reconhece como se dá e vê aquilo como uma manifestação extraordinária, maravilhosa. É quando existe uma sensação de perfeição e de milagre. A pessoa sente-se surgindo conjuntamente ao objeto e reconhece a existência simultânea de muitos universos e terras-de-buda onde inumeráveis bodisatvas prestam benefícios aos seres.

Essa experiência de milagre é também uma contemplação. Paramos e contemplamos o milagre. Contemplamos etapa por etapa o Sutra do coração. Quando focamos a expressão “forma é vacuidade”, vamos reconhecer: “estava preso, sempre pensei que forma fosse sólida, existente em si mesma”. Quando se compreende que vacuidade é forma, há um “estalo” e compreendemos como é que surge o processo no qual as formas surgem como expressão mesma da liberdade.

Depois disso as formas começam a ficar mágicas, todas elas. Isso corresponde a compreensão do espelho. Compreendemos o papel de nossa mente, como ela opera produzindo formas e ao mesmo tempo está livre de sua criação, assim como o espelho é livre da forma que manifesta.

Focando as quatro afirmações – forma é vazio, vazio é forma, forma nada mais é do que vazio, vazio nada mais é do que forma – vemos que a analogia do espelho pode nos ajudar. Forma nada mais é do que liberdade, a liberdade do espelho manifestar formas. Não há nenhuma forma dentro da forma no espelho; a vacuidade nada mais é do que a liberdade da mente em manifestar formas. Cada uma dessas etapas corresponde a uma realização diferente e quando essas quatro etapas estão presentes existe a compreensão do Sutra do coração e a compreensão de que não existe caminho, velhice, decrepitude, realização, não-realização. Isso é o Sutra do Coração. Os Bodisatvas-Mahasatvas são o que são por repousarem sobre essa compreensão, praticam isso e se manifestam por esta própria liberdade.

Nesse ponto, especificamente no zen surgem os haikus. A pessoa olha para o pássaro que canta num galho; não é um pássaro que canta num galho, é o extraordinário aparecimento mágico de um pássaro que canta num galho. Um milagre. As menores coisas passam a ter um sentido extraordinário. É o domínio, a percepção do processo da criação. Os versos do haiku descrevem a criação. Cada haiku é de um mestre verdadeiro. A pessoa que não compreende a vacuidade e o processo de surgimento inseparável, não tem como fazer haiku. O haiku mesmo é uma afirmação de que forma é vacuidade e vacuidade é forma, é outro modo de dizer o Sutra do Coração.

No zen repousamos sobre a perfeição da vacuidade. No vajraiana repousamos sobre a perfeição da forma. Mas forma é vacuidade, não há diferença e vacuidade é também forma. Não é necessário esperar a ausência da forma ou pensar que a ausência de forma é melhor do que a forma. Se temos consciência do que seja a forma, sabemos que a forma já inclui liberdade frente às prisões da forma; existe uma perfeição na visão ou no surgimento da própria forma. Porque a forma não seria perfeição se a forma é vacuidade e vacuidade é forma? A forma é perfeição, não há nenhum problema. Existe a compreensão e liberação e a forma é liberdade e a liberdade é forma mas há uma etapa onde naturalmente se escolhe a não-forma como liberdade. Isso não é necessário; se houver a escolha da não-forma isso é um obstáculo. A perfeição da forma potencializa enormemente a capacidade de ação compassiva. Essa é uma maravilha do vajraiana onde a perfeição da forma permite o surgimento dos Yidans e também dos corpos de luz e de arco-íris.

O Tokuda San esteve nesta sala várias vezes. Ele é um mestre sotozen, japonês de nascimento, e surgiu em Porto Alegre nos anos 60 quando ainda não tinha 30 anos. A história dele me emociona porque ele era um mestre que atingiu a realização no Zen ainda jovem e o mestre dele disse: vai. Ele saiu com sua meditação pelo mundo e nada possuía que não a meditação. Ele chegou no Brasil, no templo de São Paulo, onde encontrou o reverendo Shingu e de lá foi para o Nordeste e viajou por todo o Brasil. Se Porto Alegre hoje é uma espécie de capital budista, isto se deve a sua influência, uma vez que sua presença-Darma criou a sensibilidade nas pessoas, possibilitando seu interesse e decisão. Ele não sabia português, mas sabia meditar e criou grupos em várias cidades; lá pelas tantas apareceu aqui em Porto alegre. O Tokuda foi o primeiro mestre que entrou nesta sala e a inaugurou quando nós éramos praticantes Zen, dando-lhe o nome de Sanguen Dojo e ao grupo. Toda a base inicial do CEBB vem a partir disso. Mesmo antes do contato direto com ele, tivemos sua influência inspiradora através de pessoas que com ele tiveram contato em épocas anteriores.

Fé e moralidade: removendo obstáculos sutis

Há um ponto importante que a gente não se dá conta: é que sem a prática de moralidade, a meditação não avança; quando alguém fala isso nós geralmente não acreditamos e pensamos “agora já vem um mestre querendo fazer regras de moral”. A pessoa pensa: não importa o que eu fiz antes, agora sento aqui e medito. Não é assim, porque num sentido sutil o que acontece é que a nossa meditação se dá fora do espaço e do tempo e as nossas ações também. Não importa se foram lá fora, se foi antes ou depois, não há separação possível – tirado o primeiro verniz, acabou a separação. O que existe são condições mentais. Se a nossa ação que nós dizemos que foi lá em outro momento produziu uma inserção num tipo de condição mental, naquela condição mental a meditação é dificílima. Nós entramos na sala e pensamos: é um outro local, um outro tempo. Isso é porque a gente não tem o olho para ver, nós estamos naquela condição mental. A pessoa senta e pensa: lá fora matei um cachorro, bati não sei em que, isso não tem importância, agora eu sento e vou meditar. Não há como porque a perturbação da ação anterior está ali. E nem é a perturbação da ação, é a condição mental correspondente à motivação que produziu a ação não-virtuosa.

Uma boa coisa a fazer antes de começar a meditação é praticar alguns serviços como limpeza de sala, aguar as plantas, etc. Isso nos cria méritos e então nos sentamos com méritos. O mérito significa que a gente se coloca numa condição mental propícia. Procura-se evitar especialmente as ações não-virtuosas porque essas ações quando praticadas têm um efeito de provocar em nós a sustentação cármica da condição mental que a produziu e que a legitima. No Vajraiana nomeamos de “demônios” a estas energias de ação e direcionamento mental. Sob estas energias e motivações equivocadas rejeitamos a prática espiritual que pensamos ser ilusória, irreal, uma basbaquice. Pode-se também fazer ações virtuosas em outros lugares, não precisa ser aqui no prédio. Entretanto, se nós viemos atropelando todos os cachorros, matando os gatos pelo caminho, aí estacionamos e dissemos: bem, aqui é um lugar de prece, agora estou no meu refúgio…, vamos ter problemas. O lugar de paz parece ser geográfico, mas não é. Não pensem que as práticas de meditação, sejam quais forem, se dêem em um lugar diferente da prática do cotidiano. Todas as práticas e todas as ações se dão no local sutil onde também se localiza o carma. O testemunho é direto e indelével.

Dentro da motivação do reinos dos deuses, o que nós buscamos é controle e geramos fixações ou soluções aparentes que sustentam a felicidade e garantem provisoriamente nossa liberdade frente ao sofrimento. Esta aparente estabilidade pode durar 5, 10 anos ou mais. Durante este período a pessoa simplesmente rejeita as oportunidades de avançar. São obstáculos sutis, que se interpõem e impedem o avanço, podendo ocorrer mesmo com praticantes. A meditação pode localizar estas falhas e purificá-las, acelerando a liberação. A purificação não é muito diferente da prática do cotidiano, apenas que dentro da meditação nós focamos isso. Com a mente centrada e focada, podemos acelerar a purificação e a liberação. Tem até um truquezinho: no início e no final da meditação nós apelamos ao Buda dizendo de coração “por favor, me ajude, não me deixe vagueando, assim poderei ajudar melhor os outros seres”. O resultado, não importa como, aparece. A tranqüilização e a fé sempre devem estar presentes. A motivação, a fé e a moralidade são indispensáveis. Não há outras alternativas.

O Buda é tão bondoso que dá critérios explícitos externos, por exemplo, não matar, não roubar, não praticar sexualidade inadequada, não praticar as ações não-virtuosas de fala e de mente. Se fazemos isso estamos criando não-virtudes. Se a pessoa tiver o olho que vê o carma, ela vê carma crescer do lado, ela percebe na hora que fez uma ação não-virtuosa.

Quando a pessoa percebe o carma, usualmente ela tem também o poder de neutralizá-lo, mas nem sempre. A pessoa pode também perceber o carma e não ter o poder de neutralizá-lo. Vamos supor um exemplo menos concreto do que comer um doce, a pessoa olhou com um olho meio perturbado a alguém – perturbado pode ser tanto de aversão quando de atração ainda que, de um modo geral, os olhos relacionados à atração não parecem perturbados…, já as rejeições são mais fáceis de localizar…

Vamos supor que a pessoa desenvolveu um pensamento de aversão, o que é muito comum em campanha eleitoral… O que acontece nesses casos? É impossível conversar bem com as outras pessoas às quais geramos aversão, mesmo que se diga “são seres humanos”. A pessoa tem dificuldade de não operar com aversão. Quando a aversão surge, de uma forma velada que seja, ela produz certos fluxos de pensamentos, aquilo perturba tudo. Pode acontecer de que a pessoa gerou este carma não por bater ou falar mal, mas apenas olhou com um certo olho de desagrado, pensou de forma não-virtuosa.

Em decorrência ao carma assim criado surgem complicações, mas de tal forma que a pessoa acha que o outro é que é o problema. Pode levar um bom tempo para a pessoa se livrar disso. Uma forma de enfrentar o problema é quando se sente o surgimento da aversão, dizer de coração, pedir, “por favor, que Tara, manifeste-se agora”. Isto traz resultados maravilhosos porque mesmo que a pessoa sinta aversão, ela não dá guarida, ela irradia do coração dela em benefício ao outro ser e reconhece a fragilidade dele, reconhece a situação toda. Mesmo que pareça teórico, de repente o outro sorri, ela sorri e tudo se desfaz.

Às vezes, parece que a virtude não é natural, é que a não-virtude surge por carma, de uma forma aparentemente natural. Quando nós estamos no contexto da não-virtude a virtude se torna estranha, incongruente. Aí o sentido da fé. Fé não exige congruência, apenas é.

O que se percebe é que a não-virtude brota dentro de uma paisagem. Talvez alguns anos depois a pessoa vá perceber que aquela paisagem que provocou naturalmente aquela não-virtude era frágil, era construída, artificialmente baseada em sentimentos e enganos. Assim, mais adiante pode perceber que existe um substrato sutil além de todos esses processo e lá é que está a estabilidade, a liberação da impermanência. Só então é que nós vamos compreender que a virtude é que conduz à estabilidade e a não-virtude é uma tentativa desesperada, a qualquer custo, de sustentar o que é insustentável, sustentar as circunstancias em meio à impermanência inevitável.

Quando a impermanência se manifesta de forma inevitável, é como se diz no Zen: “quatro montanhas caem por cima” – aí o carma nos pode fazer sacar as não-virtudes, as dez ações não-virtuosas. Entretanto, puxamos as dez ações não-virtuosas e não funciona; mas se manifestarmos a sabedoria, as quatro montanhas desaparecem. Por uma falta de treinamento da compreensão, brotam as ações não-virtuosas mas quem usa as dez ações não-virtuosas para lutar contra as quatro montanhas está perdido, não vai livrar-se da ameaça, apenas acelera o giro da roda da vida. Entretanto, se fizer brotar a sabedoria, tudo se resolve. A sabedoria cura até mesmo a morte. A meditação é a fonte da sabedoria e a remoção dos obstáculos sutis à sabedoria e, por isto, a base para a ação iluminada. Assim, meditação, moralidade, fé, méritos e sabedoria transcendente são inseparáveis.

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