Aceitando a Impermanência


Ainda nos tempos da Faculdade, aprendi com um professor de literatura a me encantar com as obras que retratavam a transitoriedade das coisas. Eu achava aquilo muito interessante, apesar do conceito ser um tanto intangível para alguém ainda muito jovem. Mas não tarda muito e passamos a vivenciar cada vez mais o fato de que nada permanece igual, e que a vida corre como um rio que não se pode parar.

O profeta Kahlil Gibran dizia que não começamos nenhum dia como terminamos o dia anterior; nenhum nascer do sol nos encontra onde o pôr do sol nos deixou. A princípio este conceito pode nos encher de angústia, pois o ser humano tem a tendência a se apegar àquilo que ama, seja coisas, pessoas, lugares, circunstâncias. Mas o grande paradoxo é que no momento em que aceitamos que as mudanças, as perdas, o luto, são inevitáveis, a vida passa a ser menos assustadora e nós nos libertamos de alguma forma.

A beleza das estações é que elas chegam trazendo cenários diferentes à natureza, cada uma com sua beleza característica, cada uma com suas mudanças climáticas tão necessárias ao funcionamento do planeta como um todo. É o gelo do inverno que fertiliza a terra para a primavera.

Para o Budismo, a impermanência é um conceito fundamental. Alegria e tristeza vivem lado a lado. A alegria de hoje é a tristeza de ontem, e vice-versa. Todos os dias passamos por estágios do nosso desenvolvimento, da nossa evolução, como partes que somos de uma engrenagem maior que se move da mesma forma.

Um erro que muitas vezes cometemos é querer que as coisas permaneçam em nossas vidas, que sejam estáticas para que possamos nos apossar delas como forma de segurança. Esta ilusão só tornará a angústia maior quando, inevitavelmente, virmos seja o que for que queremos manter, nos escorrer pelas mãos.

Só o desenvolvimento espiritual e intelectual nos permite aceitar que as coisas sejam o que elas são naquele momento, que fluam, que sigam seu curso. O conceito de mindfulness, atenção plena, nos ensina a conectar com o momento presente, observá-lo sem julgamento, sem querer interromper o fluxo dos pensamentos. Se eu colho uma flor para que ela enfeite meu vaso, já não estou ligada ao presente, estou me conectando com o futuro e querendo que a beleza da flor permaneça.

Nas relações humanas, dizemos “olá” e “adeus” o tempo todo. Nos conectamos num momento e nos desconectamos no outro. Nos ligamos às pessoas da maneira que elas são naquele momento. A vitalidade das relações permanece se nossas mudanças continuarem em sintonia enquanto estamos juntos, assim renovando a relação a cada dia, sem que ela nunca permaneça igual ao dia anterior. Devemos olhar as pessoas ao nosso redor todos os dias com novos olhos e mente aberta para enxergarmos a pessoa que ela é hoje, e não uma memória do passado.  Um belo momento entre duas pessoas nunca mais será o mesmo. Tudo passa, para que outros momentos possam vir.

Uma das maiores dores do ser humano é a dor do apego e da perda. Tudo que quisermos agarrar um dia nos escapará, e a dor será inevitável. Isabel Allende disse numa palestra, que o maior ganho da maturidade para ela foi o desapego, e que se ela soubesse como faz bem, teria começado mais cedo. Como diz a canção de Phill Collins, “ripples never come back”, ou seja, as ondas nunca voltam. Lição difícil de ser aprendida, mas absolutamente necessária para a nossa evolução espiritual.

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