Perdas: o preço da felicidade


Artigo publicado na Revista JB Ecológico em outubro de 2008

Geralmente associamos perda à morte de pessoas queridas. Mas a perda não está apenas na morte, é muito mais do que isso.

Perdemos pela vida afora, ao abandonar ou ser abandonados, diante de cada mudança, separações, transformações.

Perdemos aqui, ganhamos acolá.

Nesse jogo, a vida nos apresenta uma infinidade de possibilidades. E quando não aprendemos a viver o movimento presente, de livre e espontânea vontade, acabamos aprendendo à força.
Para poder crescer, vamos abandonando coisas pelo caminho. O bebê precisa deixar o aconchego do ventre materno e enfrentar o frio e árido mundo de fora, para sair da condição fetal e ingressar na vida. Etapa por etapa, vamos perdendo a forma anterior do nosso corpo para ganhar outra, mais adequada. No fluxo da vida, o movimento do nosso corpo perde células a favor de novas, perdemos contato com pessoas, com nós mesmos, com a natureza. Em todas as áreas, perdemos quando desistimos dos sonhos, quando abandonamos ideais a favor de segurança material. Perdemos quando não equilibramos essas duas realidades: espiritual e material.
Certa vez, ouvimos uma pessoa dizer que “perder cria um vácuo na gente”. E para preencher esse vácuo, muitos vácuos que surgem a cada momento, é preciso seguir em frente, continuar para não perder a chance de receber as dádivas que a vida tem para nos oferecer.

Ficar agarrado às perdas, ao passado, de nada adianta, pois o vazio continuará cada vez maior e não teremos a possibilidade de preenchê-lo com novos ganhos.

Não existe outra saída: temos que aprender a tolerar as perdas inadiáveis, suportar a dor dos afastamentos, vivenciando-a como parte da vida.

Só assim poderemos refazer a conexão interna que foi perdida no  momento do parto.

O amor, a arte, experiências religiosas e um contato mais próximo com o meio ambiente, com o verde, podem trazer de volta o elo rompido na primeira perda que o ser humano enfrenta – o nascimento. Uma fusão perdida que procuramos muitas vezes, exageradamente, no outro.
A despeito da angústia que isso provoca, lutamos incessantemente para aplacar o desejo de ter tudo. O nosso corpo, os afetos, enfim, tudo na vida nos mostra que esse é um desejo impossível. A impermanência faz parte da vida. E nada mais impermanente do que a nossa forma física. Já observaram como mudamos a cada ano?
Só quando aceitamos nossa finitude, a impotência diante das leis cósmicas e o desconhecimento do momento de partir da condição humana é que nos sentimos impulsionados a amar. Passamos então a saborear cada momento, a viver os afetos reais, a abrir mão de coisas a favor de quem necessita de nós, a admitir o quanto precisamos do outro. Só assim é que seguimos em frente.
Se nos é impossível impedir as perdas ao longo da vida, pelo menos devemos aceitar os ganhos gerados por elas.

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