Os que fracassam no triunfo – Por Zelig Libermann*


Por Zelig Libermann*
Em suas formulações sobre o psiquismo, Freud valorizou a noção de
conflito psíquico, o qual pode ser entre as instâncias da mente (Consciente e
Inconsciente, por exemplo) e/ou entre forças antagônicas do mundo interno
(impulsos amorosos ou agressivos, por exemplo).
E como para Freud a linha que separa a normalidade da patologia é da
ordem da quantidade, saúde ou doença mental são frutos da intensidade de cada
um dos mecanismos envolvidos nos conflitos psíquicos.
Um conflito patogênico ocorre quando um impulso libidinal ganha força e
pressiona no sentido de sair à consciência para a obtenção de metas que o ego há
muito superou e proibiu. Mas, a moção libidinal só atende a essa proibição se for
privada da possibilidade de uma satisfação que esteja em sintonia com o ego.
Assim, a frustração de uma satisfação real é a condição essencial para o estabelecimento de uma neurose.
No entanto, Freud chama a atenção para casos paradoxais, nos quais os
pacientes adoecem justamente quando chegam à realização de um desejo e ficam impedidos de sentir prazer pelo que alcançaram.
A contradição desse fato é explicada por Freud através da distinção entre
frustração externa e frustração interna. Segundo ele, a frustração externa (quando
a libido não pode encontrar satisfação no mundo real) não é necessariamente patogênica enquanto não encontrar uma frustração interna (que deve vir do ego).
No entanto, no caso dos pacientes que fracassam ao triunfar, a frustração interna causaria efeito por si só, justamente quando ocorre o cumprimento de um desejo.

Para Freud, “são os poderes da consciência moral os que proíbem a pessoa de extrair dessa feliz mudança objetiva o proveito longamente esperado” (Amorrortu,vol. 14, p. 325).
Partindo dessa ideia sobre o papel da consciência moral nos casos citados,
Freud lança mão de dois exemplos literários: Macbeth, de Shakespeare e
Rosmersholm, de Ibsen.
No primeiro, em que pese examinar a reação de Lady Macbeth, a qual não consegue usufruir a chegada de seu marido ao trono através de vários
assassinatos, Freud conclui que não pode solucionar o enigma.

No segundo texto, analisando as reações de Rebeca Gamvik, que não usufrui
da relação com o Sr. Rosmer, pois havia levado à morte a esposa dele, Freud
ressalta que a sensação de culpa da personagem se devia também a fatos do
passado: Havia tido relações sexuais com seu padrasto, o qual, ela veio saber mais
tarde, era efetivamente seu pai.
Freud conclui, então, com a ideia pela qual esse trabalho se tornou conhecido: “O trabalho psicanalítico ensina que as forças da consciência moral que levam a contrair a enfermidade pelo triunfo, e não, como é corrente, pela
frustração, se relacionam de maneira íntima com o complexo de Édipo, a relação
com o pai e com a mãe, como talvez o faz nossa consciência de culpa em geral”.
As conclusões desse trabalho, em conjunto com outros textos de sua obra, permitem compreender quais são os determinantes inconscientes de fenômenos encontrados na clínica psicanalítica. Muito amiúde nos defrontamos com pessoas em sofrimento por não conseguirem progredir em seu desenvolvimento justamente depois de criarem as condições para caminhar mais livremente em suas vidas.
* Zelig Libermann é psicanalista da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre.

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