Os que fracassam ao triunfar



Expandir-se, competir, vencer, em quaisquer tipos
de atividades, pode significar para o indivíduo
crescer, tornar-se adulto e… Conseqüentemente,
apavorado com a possibilidade desse triunfo,
via de regra, ele fracassa após um ganho ocasional,
vindo assim inibir sua potência, seu crescimento.
Este é uma paráfrase de um artigo de Freud nomeado “Os arruinados pelo êxito”, onde ele se surpreende ao descobrir que há pessoas que adoecem justamente no momento em que um desejo há muito alimentado está prestes a se realizar. No entanto, é como se essas pessoas não fossem capazes de suportar sua felicidade, ou melhor, dizendo vivenciar momentos felizes e não resta dúvida de que existe uma ligação causal entre seu êxito e o fato de adoecerem.
Freud trabalha o seguinte exemplo: “… defrontei-me com o caso de um respeitável senhor, professor universitário, que nutria havia muitos anos o desejo natural de ser o sucessor do mestre que o iniciara nos estudos.
Quando esse professor mais antigo se aposentou e os colegas informaram ao pretendente que ele fora escolhido para substituí-lo, começou a hesitar, depreciou seus méritos, declarou-se indigno de preencher o cargo para o qual fora designado, e caiu numa melancolia que o deixou incapaz de toda e qualquer atividade durante vários anos”.
Os exemplos são muitos.
Um rapaz tinha paixão de longo tempo por um determinado automóvel importado, luxuoso e caro. Guardava quase todo o dinheiro que ganhava, mas nunca tinha o suficiente para comprar o carro. Um dia recebeu uma herança de seus pais e conseguiu realizar seu grande desejo.
Uma semana após, raspou no pilar quando vai colocar na garagem da sua casa. Um funcionário espera ansioso pela chegada das férias e quando elas chegam, ele se mostra triste, cansado, enfadonho e já a sonhar com o retorno ao trabalho. Um jogador esperava muito uma convocação para jogar em determinado time. Quando acontece a convocação, ele acaba fraturando um braço, numa pelada com os amigos. Um empresário consegue concretizar o seu sonho de construir uma mansão num bairro nobre e, 15 dias após a mudança, sofre um infarto do miocárdio e quase morre. Assim, como muitas pessoas bem sucedidas profissional e economicamente, mostram-se incapazes de desfrutar deste êxito por causa da angústia na qual suas constantes atuações autodestrutivas o submergem, colocando em risco sua vida e traumaticamente fazendo com que tenham contato com a possibilidade da morte. Os exemplos seguem…
Com tanta freqüência ouvimos a expressão é “bom demais para ser verdade”, uma sensação de espanto mesclada a alegria. É um exemplo da incredulidade que surge tantas vezes quando nos surpreendemos com uma boa notícia, quando sabemos que ganhamos um prêmio, quando viajamos para algum lugar gostoso que esperávamos a longo tempo, ou quando saímos vencedor de algo que desejávamos muito.
O que tem em comum nestas duas situações é que o lugar da frustração externa é assumido por uma frustração interna. O sofredor não se permite a felicidade: a frustração interna ordena-lhe que se aferre à frustração externa. Porque será que isso ocorre?
Freud nos responde dizendo que: uma das explicações para esse fato é que tais pessoas encontram mais satisfação na fantasia do que na realização do desejo. Assim, enquanto sonham, planejam, desejam, aspiram alguma realização, elas se mantêm afastadas de um conflito. Porém, quando a realidade aproxima a realização do desejo, surge uma série de fenômenos para defender sua fantasia. É uma forma também de manter o desejo em estado de insatisfação.
Também esses episódios são conseqüência de sentimentos inconscientes de culpa ou de inferioridade traduzidos muitas vezes assim: “não mereço tanta infelicidade; não mereço“. Pois, não podemos esperar que o destino lhe traga algo de bom. Mas conforme sabemos, o destino, que esperamos que nos trate muito mal, é a construção da nossa consciência, da censura que opera dentro de nós, somos nós os agentes da destrutividade da felicidade que não suportamos.
Assim, termina Freud o seu texto “… o trabalho psicanalítico nos ensina que as forças da consciência que induzem à doença, em conseqüência do êxito, se acham intimamente relacionadas com a relação com o pai e a mãe — como talvez, na realidade, se ache o nosso sentimento de culpa em geral”. Como se fosse proibido ultrapassá-los e demonstrar a superioridade do filho. De nossa parte acreditamos ser necessário tirar um tempo e refletir sobre todas as implicações e interesses que subjazem a essa proposta. Afinal, é gostoso ter sucesso e se deliciar sem culpas!
Franciela Uitdewilligen – Psicóloga em formação psicanalítica
Passo Fundo – RS
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